quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Capitulo 8

Postado por Estante de Livros às quarta-feira, dezembro 04, 2013 0 comentários
(OITO)
O problema é que, quando você passa a vida inteira na cidade de Chicago e arredores,
não consegue apreender completamente certas facetas da vida rural. Tomemos, por
exemplo, o caso perturbador do galo. Na cabeça de Colin, o galo cantando de manhãzinha
não passava de um clichê literário e cinematográfico. Sempre que um autor queria que um
personagem fosse despertado ao alvorecer, Colin achava que ele simplesmente recorria à
tradição literária do galo cantando para fazer aquilo acontecer. Era algo, ele pensava, que os
escritores sempre faziam: escrever as coisas de um jeito diferente do que são na verdade. Os
escritores nunca contavam a história toda; simplesmente iam direto ao ponto. Para Colin, a
verdade deveria importar tanto quanto o ponto, e ele imaginou que devia ser por isso que
não conseguia contar histórias direito.
Naquela manhã ele aprendeu que, no fim das contas, os galos não começam a cantar à
primeira luz do dia. Começam bem antes, lá pelas cinco horas. Colin rolou na cama com a
qual não estava acostumado e por uns poucos e lentos segundos, enquanto tentava enxergar
na escuridão, ele se sentiu bem. Cansado e irritado com o galo. Mas bem. Mas aí se lembrou
de que ela havia terminado com ele, e pensou nela, adormecida em sua cama enorme e
macia, não sonhando com ele. Colin rolou de novo e deu uma olhada no celular. Nenhuma
ligação não atendida.
O galo cantou de novo.
— Co-co-ri-có-não, motherfugger — Colin murmurou.
Mas o galo continuou com o co-co-ri-có-sim e, depois que o sol nasceu, o canto criou um
tipo de sinfonia dissonante, esquisito quando misturado aos sons abafados da reza matinal
de um muçulmano. Aquelas horas de ruídos que não o deixavam dormir lhe deram bastante
tempo para se questionar sobre tudo, de quando a Katherine pensou nele pela última vez
até a quantidade de anagramas gramaticalmente corretos para galo cantando.38
Por volta das sete da manhã, quando o galo (ou, quem sabe, houvesse mais de um, talvez
eles cantassem em turnos) entrou em sua terceira hora de gritos estridentes, Colin foi
cambaleando até o banheiro, que também tinha ligação com o quarto de Hassan. O amigo
já estava no banho. Mesmo sendo tudo muito luxuoso, não havia banheira.
— Bom dia, Hass.
— Oi! — Hassan gritou por causa do barulho da água. — Cara, a Hollis está dormindo na
sala de estar com a televisão ligada no canal de compras. Ela tem uma casa de 1 bilhão de
dólares e dorme no sofá.
— Efas fefoas são estranhas — Colin disse, tirando a escova de dentes da boca no meio da
frase.
— Não importa. A Hollis me adora. Ela acha que eu sou o máximo. E que você é um
gênio. E a 500 dólares por semana eu nunca mais vou precisar trabalhar na vida.
Quinhentos dólares dão para cinco meses na minha casa, cara. Eu posso viver com o
dinheiro desse verão até, tipo, os 30 anos.
— Sua falta de ambição é verdadeiramente admirável.
Hassan estendeu o braço para fora do box e pegou uma toalha bordada com o
monograma HLW. Ele surgiu alguns instantes depois e andou até o quarto de Colin, a
toalha enrolada na cintura de diâmetro considerável.
— Olha aqui, kafir. Falando sério. Larga do meu pé com essa história de eu ir para a
faculdade. Você me deixa ser feliz; eu deixo você ser feliz. Ficar enchendo a merda do saco
um do outro faz parte, mas tem limite.
— Foi mal. Eu não sabia que tinha chegado ao limite.
Colin se sentou na cama. Estava vestido com a camisa de malha do KranialKidz.
— Pois é. Você tocou nesse assunto, tipo, uns 284 dias consecutivos.
— Talvez a gente devesse escolher uma palavra — Colin disse. — Para quando já tiver ido
longe demais. Tipo, uma palavra aleatória, e aí vamos saber que é para parar de encher o
saco.
Parado ali, em pé, enrolado na toalha, Hassan olhou para o teto e, por fim, disse:
— Badalhoca.
— Badalhoca — Colin concordou, tentando formar anagramas para ela na cabeça, e só
gostou de dez.39
— Você está fazendo anagramas, não está, motherfugger? — perguntou Hassan.
— Estou — Colin disse.
— Deve ter sido por isso que ela terminou com você. Sempre criando anagramas, nunca
escutando.
— Badalhoca — disse Colin.
— Só quis dar a chance de você usar nosso código. Tá, vamos comer. Estou mais faminto
que uma criança no terceiro dia do acampamento para gordos.
Enquanto eles percorriam um corredor que terminava numa escada em espiral a caminho
da sala de estar, Colin perguntou, o mais próximo que conseguiu chegar de um sussurro:
— Por que você acha que a Hollis quer nos dar um emprego, de verdade?
Hassan parou no meio da escada e Colin também.
— Ela quer me fazer feliz. Nós, gordinhos, temos um laço afetivo, cara. Somos tipo uma
Sociedade Secreta. Temos vários lances que nem passam pela cabeça de vocês. Apertos de
mão, danças especiais para gordos, umas cavernas fugging secretas no centro da Terra para
onde descemos no meio da noite, quando todos os magros estão dormindo, para comer
bolo, frango assado e altas paradas. Por que acha que a Hollis ainda está dormindo, kafir?
Porque ficamos acordados a noite toda na caverna secreta injetando cobertura de bolo na
veia. Ela está nos dando emprego porque um gordinho sempre confia em outro gordinho.
— Você não é gordo. É rechonchudo.
— Cara, você acabou de ver meus peitinhos quando saí do banho.
— Eles não são tão grandes assim — disse Colin.
— Ah, então é assim? Foi você quem pediu!
Hassan levantou a camisa até o pescoço e Colin deu uma olhada no tórax cabeludo, que
tinha — tá, não há como negar — pequenos peitos. Tamanho PP de sutiã, mas mesmo assim.
Com um largo sorriso de satisfação, Hassan baixou a camisa e seguiu escada abaixo.
• • •
Demorou uma hora para Hollis se arrumar, período no qual Hassan e Lindsey jogaram
conversa fora e assistiram ao Today Show, enquanto Colin ficou sentado no canto mais
distante do sofá lendo um dos livros que enfiara na mochila — uma antologia de Lord
Byron que continha os poemas Lara e Don Juan, dos quais Colin gostava muito. Quando
Lindsey o interrompeu, ele havia acabado de chegar a um verso que adorava em Lara: “A
eternidade ordena a ti que esqueça.”
— Que é que cê tá lendo aí, sabichão? — perguntou Lindsey.
Colin levantou o livro para mostrar a capa.
— Don Juan — ela disse, pronunciando Juan rapidinho, tipo Jwan, como se fosse um
monossílabo. — Tentando aprender como não levar o fora das namoradas?
— Ju-an — Colin corrigiu. — São duas sílabas: Don Ju-an — ele disse.40
— Isso não é interessante — Hassan observou.
Mas Lindsey pareceu achar aquilo mais irritante que desinteressante. Ela revirou os olhos
e começou a tirar a mesa do café da manhã. Hollis Wells desceu a escada envolta no que
parecia, juro por Deus, uma toga florida.
— O que a gente tá fazendo — falou rapidamente —, a gente tá registrando a história oral
de Gutshot, pras gerações do futuro. Eu vinha chamando o pessoal da linha de produção
pra entrevista nas últimas duas semanas, mas não tenho mais que fazer isso agora que cês
estão aqui. Bem, o problema de toda essa operação até aqui tem sido a fofoca… todo
mundo falando sobre o que os outros dizem ou não dizem. Mas cês não têm nenhum
motivo nesse mundo pra opinar se Ellie Mae gostava ou não do marido quando casou com
ele em 1937. Então, vão cês dois. E Linds, porque todo mundo confia…
— Eu sou muito sincera — Lindsey explicou, interrompendo a mãe.
— Até demais, querida. Mas, é. Então, cê bota esse pessoal pra falar e eles num param
mais. Verdade verdadeira. Eu quero seis horas de gravação nova na minha mão todo santo
dia. Mas façam de um tudo pra eles falarem da verdadeira história, se cês conseguirem. Tô
fazendo isso pros meus netos, não pra um festival de fofoca.
Lindsey tossiu, murmurou “babaquice”, e então tossiu de novo.
Hollis arregalou os olhos.
— Lindsey Lee Wells, bote agorinha mesmo uma moeda de 25 centavos no pote do
palavrão!
— Merda — Lindsey disse. — Caralho. Porra. — Ela foi lentamente até a moldura da lareira
e colocou uma nota de 1 dólar num pote de vidro com tampa. — Tô sem moeda, Hollis —
ela disse.
Colin não conseguiu conter o riso; Hollis lançou um olhar ferino para ele.
— Bom — ela disse —, cês devem ir agora. Seis horas de fita, e voltem pro jantar.
— Peraí, quem vai abrir a loja? — perguntou Lindsey.
— Vou pôr o Colin lá um tempo.
— Eu vou sair para entrevistar pessoas desconhecidas — Colin argumentou.
— O outro Colin — Hollis disse. — O — e aí ela suspirou — namorado da Lindsey. Ele tem
matado o trabalho metade do tempo, de qualquer jeito. Agora, fora daqui.
• • •
No Rabecão, com Hassan ao volante descendo a excessivamente comprida entrada de
veículos da Mansão Cor-de-rosa, Lindsey disse:
— O, suspiro, namorado da Lindsey. É sempre o, suspiro, namorado da Lindsey. Jesus
Cristo. Tá, escute aqui, é só me deixar lá na loja.
Hassan olhou para cima e falou com Lindsey pelo espelho retrovisor.
— De jeito fugging nenhum. É assim que começam os filmes de terror. Nós deixamos você
lá, entramos na casa de algum desconhecido e cinco minutos depois tem um psicopata
fatiando os meus ovos com um facão enquanto a esposa esquizofrênica dele obriga o Colin
a fazer flexões de braço numa cama de carvão em brasa. Você vai com a gente.
— Não quero ofender cês dois não, mas não vejo o Colin desde ontem.
— Não quero ofender aquele fugger, não — Hassan retrucou —, mas o Colin está sentado
aqui no banco da frente lendo Don JU-AN. Você namora O Outro Colin, vulgo OOC.
Colin já não estava mais lendo — prestava atenção em Hassan agindo em sua defesa. Ou,
pelo menos, achava que ele o estava defendendo. Não dava nunca para saber ao certo,
quando se tratava de Hassan.
— Quer dizer, meu garoto aqui é claramente o Colin Original. Não há outro igual a ele.
Colin, diga “único” na maior quantidade de línguas que conseguir.
Colin foi rápido. Era uma palavra que ele conhecia.
— Humm, único,41 unico,42 einzigartig,43 unique,44 уникальный,45 μοναδικός,46 singularis,47
farid.48
Hassan era bom naquilo, sem a menor dúvida — Colin sentiu uma onda de afeição por
ele, e a recitação das palavras fez com que algo preenchesse o buraco onipresente.
Funcionou, ainda que só por um instante, como remédio.
Lindsey sorriu para Colin pelo espelho retrovisor.
— Senhor, meu cálice de Colins transborda. Um pra me ensinar línguas, outro pra me
beijar de língua. — Ela riu da própria piada, e falou: — Tá, tudo bem. Eu vou. Não quero ver
o Colin tendo seus ovos fatiados, no fim das contas. Nenhum dos Colins, na verdade. Mas
cês têm de me levar até a loja depois.
Hassan concordou e então Lindsey os guiou até uma ruela cheia de casas pequenas de
apenas um andar, depois de passarem em frente ao que ela chamou de “Taco Hell”. Eles
estacionaram na entrada de veículos.
— A maioria do pessoal tá no trabalho — ela explicou. — Mas Starnes deve tá em casa.
O homem os recebeu à porta. A mandíbula inferior de Starnes parecia não existir; ele
parecia ter um tipo de bico de pato coberto de pele, em vez de queixo ou mandíbula ou
dentes. E, mesmo assim, ainda tentou sorrir para Lindsey.
— Docinho — ele disse —, como cê tá?
— Fico sempre bem quando vejo ocê, Starnes — ela devolveu, dando um abraço no
homem.
Os olhos dele brilharam e, em seguida, Lindsey o apresentou a Colin e a Hassan. Quando
o velho reparou que Colin olhava fixamente para ele, explicou:
— Câncer. Agora, cês todos entrem e sentem.
A casa cheirava a sofás mofados e velhos, e a madeira rústica. Cheirava, Colin pensou, a
teias de aranha ou a lembranças nebulosas. Tinha o mesmo cheiro do porão da K-19. E
aquele odor fez com que ele voltasse no tempo tão visceralmente, para uma época em que
ela o amava — ou pelo menos ele achava isso —, que sua barriga começou a doer de novo.
Ele fechou bem os olhos por um segundo e esperou a sensação passar, mas não passou.
Para Colin, nada nunca passava.
O Começo (do Fim)
Katherine XIX ainda não era exatamente a XIX quando eles saíram juntos, sozinhos, pela
terceira vez. Embora os sinais parecessem favoráveis, ele não poderia simplesmente
perguntar a ela se queria namorá-lo, e certamente não poderia simplesmente aproximar seu
rosto do dela e beijá-la. Com frequência Colin vacilava quando se tratava da hora do beijo.
Ele tinha uma teoria a esse respeito, na verdade, intitulada Teoria da Minimização da
Rejeição (TMR):
O ato de aproximar o rosto para beijar alguém, ou de perguntar se pode beijar alguém,
carrega o risco da possibilidade de rejeição; assim, a pessoa menos propensa a ser rejeitada
deveria fazer a aproximação do rosto ou a pergunta. E essa pessoa, pelo menos em
relacionamentos heterossexuais no ensino médio, definitivamente é a garota. Pense bem:
garotos, basicamente, querem beijar garotas. Os meninos querem beijar, abraçar, apalpar.
Sempre. Tirando Hassan, raramente acontece de um garoto pensar algo como: “Humm,
acho que prefiro não beijar hoje.” Talvez, se um cara estiver pegando fogo, literalmente, não
vá pensar em dar uns pegas. Mas só nesse caso. Ao passo que as garotas são bastante
inconstantes quando se trata desse negócio de beijo. Às vezes elas querem dar uns pegas; às
vezes, não. Elas são uma fortaleza impenetrável de incognoscibilidade, na verdade.
Logo: as garotas deveriam sempre tomar a iniciativa, porque (a) elas são, em geral, menos
propensas a serem rejeitadas que os garotos e (b) dessa forma elas nunca serão beijadas, a
menos que queiram.
Infelizmente para Colin, não há nada lógico no negócio do beijo e, por causa disso, sua
teoria nunca funcionou. Mas, por ele sempre ter esperado um tempo tão
inacreditavelmente grande para beijar uma garota, raramente teve de lidar com a rejeição.
Ele ligou para a futura Katherine XIX naquela sexta-feira depois da aula e convidou-a para
sair e tomar um café no dia seguinte, e ela aceitou. Foi a mesma cafeteria dos dois
primeiros encontros — ocasiões perfeitamente agradáveis e cheias de tanta tensão sexual
que ele não pôde evitar ficar um pouco excitado só com o toque fortuito da mão dela na
sua. Ele colocou as mãos em cima da mesa, na verdade, porque queria que estivessem ao
alcance dela.
A cafeteria ficava a alguns quilômetros da casa da Katherine e a quatro prédios da de
Colin. Chamava-se Café Sel Marie e servia um dos melhores cafés de Chicago, o que não
fazia muita diferença para Colin, porque Colin não gostava de café. Ele gostava muito da
ideia do café — uma bebida quente que fornecia energia e tinha sido associada, durante
vários séculos, a pessoas sofisticadas e a intelectuais. Mas, para ele, o gosto do café em si
parecia bílis cafeinada. Então Colin amenizou aquele sabor desagradável afogando seu café
em leite, o que fez Katherine delicadamente mexer com ele naquela tarde. Seria
desnecessário dizer que Katherine bebeu café puro. As Katherines, geralmente, tomam café
assim. Elas gostam do café da mesma forma que gostam de seus ex-namorados: amargos.
Algumas horas e quatro xícaras depois, ela quis que Colin visse um filme.
— O título é Os Excêntricos Tenenbaums — falou. — É sobre uma família de prodígios.
Colin e Katherine pegaram a linha castanha do metrô sentido sudeste, na direção de
Wrigleyville, e depois andaram cinco quarteirões até a casa dela, uma construção estreita de
dois andares. Katherine levou-o até o porão. Com piso de linóleo num padrão em ondas, o
cômodo abafado e úmido continha um sofá antigo, não possuía janelas e o teto era bem
baixo (o pé-direito tinha 1,90m, e Colin, 1,85m). Não era um lugar muito propício para se
viver, mas como cinema era fantástico. Tão escuro que você podia afundar no sofá e entrar
pela tela da TV.
Colin bem que gostou do filme; pelo menos riu à beça e encontrou consolo num mundo
em que todos os personagens que tinham sido crianças superdotadas cresceram e se
tornaram adultos verdadeiramente fascinantes e únicos (mesmo sendo todos meio doidos).
Quando o filme terminou, Katherine e Colin ficaram sentados no escuro. O porão era o
único lugar genuinamente escuro que Colin já vira em Chicago — de dia e de noite, uma luz
laranja-acinzentada se infiltrava por qualquer lugar com janelas.
— Eu adoro a trilha sonora — disse Katherine. — É tão maneira!
— É — Colin disse. — E eu gostei dos personagens. Até daquele pai terrível eu gostei um
pouquinho.
— É, eu também.
Ele conseguia ver o cabelo loiro dela e o contorno de seu rosto, mas quase nada mais. A
mão dele, que tinha ficado segurando a dela desde que haviam se passado uns trinta
minutos de filme, estava com cãibra e suada, mas ele não quis ser o primeiro a soltar a mão.
Ela continuou:
— Quer dizer, ele é egoísta, mas todo mundo é egoísta.
— É — Colin disse.
— Então é assim? É assim que é ser um, humm, prodígio ou sei lá o quê?
— Humm, não exatamente. Por exemplo, todos os prodígios no filme eram lindos — ele
brincou.
Ela riu e disse:
— Assim como todos os que eu conheço.
Ele expirou audivelmente, olhou para ela e quase… mas não. Não tinha certeza, e não
conseguia nem pensar na possibilidade de ser rejeitado.
— Mesmo assim, nesse filme parece que todos já nasceram talentosos. Eu não sou assim,
sabe? Quer dizer, eu trabalho pelo menos dez horas por dia, todos os dias, desde que tinha
3 anos — disse, sem falsa modéstia.
Ele pensava mesmo naquilo como um trabalho. As leituras e a prática de idiomas e da
pronúncia, a recitação dos fatos, a análise cuidadosa de todos os textos postos à sua frente.
— Então, no fim das contas, em que você é bom exatamente? Quer dizer, eu sei que você é
bom em tudo, mas no que você é muito bom além de em outras línguas?
— Sou bom em códigos e coisas assim. E sou bom em, tipo, truques linguísticos, como
anagramas. Para falar a verdade, isso é o que eu mais gosto de fazer. Posso criar anagramas
para qualquer coisa.
Ele ainda não havia falado para nenhuma das Katherines sobre seus anagramas. Sempre
imaginou que isso fosse entediá-las.
— Qualquer coisa?
— Que caqui solar — ele respondeu de bate-pronto.
Ela riu e disse:
— Katherine Carter.
Ele queria tanto colocar a mão na nuca da Katherine, puxá-la para perto e provar o gosto
da sua boca, macia e carnuda, na escuridão... Mas ainda não. Não tinha certeza. Seu coração
saltava no peito.
— Humm, tá. A ti reencher, kart… humm, ah. Gosto desse aqui: Ir te rechear, Kant.
Ela riu, largou a mão de Colin e colocou a dela espalmada no joelho dele. Seus dedos
eram macios. De repente, Colin sentiu o perfume dela sobressaindo ao odor do porão
úmido. Cheirava a lilases, e foi aí que ele soube que estava quase na hora. Mas não ousou
encará-la. Ainda não. Só ficou olhando para a tela escura da TV. Queria prolongar o
momento antes da hora H — porque, por melhor que seja a sensação do beijo, nada é
melhor que a expectativa do beijo.
— Como é que você faz isso? — ela perguntou.
— É questão de prática, basicamente. Venho praticando há muito tempo. Eu pego as
letras e primeiro formo uma palavra legal, como kart ou Kant, e depois tento usar as letras
que sobram para fazer… ai, cara, isso é chato — ele disse, torcendo para que não fosse.
— Não é, não.
— Eu só tento achar uma combinação que seja gramaticalmente correta com as letras que
sobram. Mas, de qualquer forma, é só um macete.
— Tá, então há os anagramas. Esse é um deles. Você possui algum outro talento
fascinante? — ela perguntou, e naquele momento ele ficou confiante.
Finalmente, Colin virou-se, reunindo o pouco de coragem disponível em seu âmago, e
disse:
— Bom, eu beijo relativamente bem.
38 Ele achou vinte, dos quais só gostou mesmo de dois: “o tal candonga” e “canal do tango”.
39 Bolachada; chá da bola; cada bolha; alba do chá; acha baldo; o chá balda; da bolacha; bala do chá; dá cá bolha; chá da loba.
40 É verdade. A maior parte da métrica nos versos originais do Don Juan de Byron só funciona se você enfatizar bem a
pronúncia das duas sílabas de Juan.
41 Português e espanhol.
42 Italiano.
43 Alemão.
44 Inglês e francês.
45 Russo.
46 Grego.
47 Latim.
48 Árabe.
pg 82

Capitulo 7

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(SETE)
De repente, do nada, logo depois de uma pequena encosta, o capinzal desembocou num
cemitério. Continha mais ou menos quarenta túmulos e era rodeado por uma mureta de
pedra que batia no joelho, coberta de musgo e escorregadia.
— E aqui tá o último e derradeiro local de descanso do arquiduque Francisco Ferdinando
— disse Lindsey Lee Wells, a voz repentinamente afetada por uma nova cadência: a da guia
turística entediada que há tempos decorou sua fala.
Colin e Hassan a seguiram até um obelisco de quase dois metros — parecia o
Monumento a Washington, só que em miniatura —, diante do qual havia uma abundância
de rosas de seda já meio antigas, todas cor-de-rosa. Embora obviamente não fossem de
verdade, as flores, ainda assim, pareciam murchas.
Lindsey se sentou na mureta com musgo.
— Ah, pros diabos com o texto decorado. Cê já deve saber tudo isso mesmo — ela disse,
balançando a cabeça na direção de Colin. — Mas vou contar a história: o arquiduque nasceu
em dezembro de 1863, na Áustria. O imperador Francisco José era tio dele, mas ser
sobrinho de um imperador austro-húngaro não queria dizer muita coisa. A menos que,
digamos, o filho único do imperador, Rodolfo, acabasse dando um tiro na própria cabeça, o
que, na verdade, aconteceu, em 1889. De uma hora pra outra, Francisco Ferdinando passou
a ser o próximo na linha de sucessão ao trono.
— As pessoas diziam que Francisco Ferdinando era o homem mais solitário de Viena —
Colin falou para Hassan.
— É, ninguém gostava dele porque era um tremendo nerd — disse Lindsey —, só que ele
era um daqueles nerds que não são nem muito inteligentes. Era do tipo fraquinho de
nascença e pesava só 45 quilos. A família achava que ele era um covarde liberal; a sociedade
vienense achava que era um abobado, mesmo, daqueles que ficam com a língua pendurada
na boca. E aí, então, pra piorar as coisas, ele se casou por amor, com uma garota chamada
Sofia, em 1900, que todo mundo considerava uma desclassificada. Mas, cê sabe, em defesa
do cara, ele realmente amava a moça. Eu nunca digo isso no tour, mas, de tudo o que li
sobre o Chico, a Sofia e ele tiveram o casamento mais feliz de toda a história da realeza. A
história deles é fofa, tirando que, no 14o aniversário de casamento, em 28 de junho de 1914,
os dois foram assassinados a tiros em Sarajevo. O imperador mandou que fossem
sepultados fora de Viena. E nem se deu o trabalho de ir ao enterro. Mas se importou o
bastante pra seguir em frente e começar a Primeira Guerra Mundial, o que fez quando
declarou guerra à Sérvia um mês depois. — Ela se levantou. — E assim termina o tour. — E
abriu um sorriso. — Gorjetas são bem-vindas.
Colin e Hassan bateram palmas educadamente e Colin andou até o obelisco, em que se
lia apenas: ARQUIDUQUE FRANCISCO FERDINANDO. 1863-1914. COBRE-O
SUAVEMENTE, Ó, TERRA, EMBORA / ESTE TENHA LANÇADO UM PESADO FARDO
SOBRE TI. Fardos pesados, sem dúvida — milhões deles. Colin estendeu a mão e apoiou-a
no granito, frio apesar do sol quente. E o que foi que o arquiduque Francisco Ferdinando
fez que poderia ter sido feito diferente? Se ele não tivesse ficado tão obcecado por causa de
um amor, se não tivesse sido tão sem tato, tão chorão, tão nerd — talvez se não tivesse sido,
pensou Colin, tão como eu…
No fim das contas, o arquiduque enfrentou dois problemas: ninguém dava a menor bola
para ele (pelo menos, não até seu cadáver deflagrar uma guerra) e um dia um pedaço dele
foi arrancado.
Mas Colin agora preencheria o próprio buraco e faria as pessoas se levantarem e
prestarem atenção nele. Continuaria sendo especial e usaria seu talento para fazer algo mais
interessante e importante do que criar anagramas e traduzir do latim. E, sim, novamente o
momento eureca o invadiu, o é-isso-é-isso-é-isso dele. Colin usaria seu passado — além do
passado do arquiduque e todo o passado infinito — para informar o futuro. Colin
impressionaria Katherine XIX — ela sempre adorara a ideia de ele ser um gênio — e tornaria
o mundo mais seguro para Terminados em toda parte. Ele seria importante.
E foi despertado desse devaneio por Hassan perguntando:
— E então como é que um fug arquiduque austríaco de verdade acabou em Merdasburgo,
Tennessee?
— A gente comprou o cadáver dele — disse Lindsey Lee Wells. — Foi por volta de 1921. O
dono do castelo onde ele tava enterrado precisava de dinheiro e colocou o corpo à venda. A
gente comprou.
— Quanto custava um arquiduque morto naquela época? — indagou Hassan.
— Uns 3.500 dólares, pelo que dizem.
— É um bom dinheiro — disse Colin, a mão ainda apoiada no obelisco de granito. —
Agora o dólar vale dez vezes mais que em 1920, o que dá um total de 35 mil nos dias de
hoje. Um monte de visitas guiadas a 11 dólares cada.
Lindsey Lee Wells revirou os olhos.
— Tá, tá. Já tô bastante impressionada. Agora chega. Sabe, a gente tem uma coisa por aqui,
não sei se cês têm isso lá de onde cês vêm, mas se chama calculadora, e ela faz todo esse
trabalho pra gente.
— Eu não estava tentando impressionar ninguém — Colin insistiu, na defensiva.
Nessa hora os olhos de Lindsey se arregalaram, ela colocou as mãos em concha em volta
da boca e gritou.
— Ei!
Três caras e uma garota vinham subindo a encosta lentamente, só dava para ver as
cabeças.
— O povo da escola — explicou Lindsey. — E meu namorado.
Lindsey Lee Wells saiu correndo na direção deles. Hassan e Colin permaneceram imóveis
e começaram um diálogo acelerado.
Hassan:
— Eu sou um aluno de intercâmbio kuwaitiano; meu pai é um barão do petróleo.
Colin fez que não com a cabeça.
— Óbvio demais. Eu sou espanhol. Refugiado. Meus pais foram assassinados por
separatistas bascos.
— Eu não sei se basco é uma coisa ou uma pessoa, e eles também não vão saber, então:
não. Tá, eu acabei de chegar aos Estados Unidos vindo de Honduras. Meu nome é Miguel.
Meus pais ficaram ricos com plantações de bananas e você é meu guarda-costas porque o
sindicato dos trabalhadores dos bananais me quer morto.
Colin retrucou de bate-pronto.
— Essa é uma boa ideia, mas você não fala espanhol. Tá, eu fui sequestrado por esquimós
no território Yukon… não, essa não cola. Nós somos primos franceses em visita aos Estados
Unidos pela primeira vez na vida. Essa é nossa viagem de formatura do ensino médio.
— Isso é meio sem graça, mas estamos sem tempo. Só eu falo inglês? — Hassan
perguntou.
— Tá. Pode ser.
Àquela altura Colin já conseguia ouvir o grupo conversando e ver os olhos de Lindsey Lee
Wells grudados num garoto alto e musculoso com uma camisa do time de futebol
americano Tennessee Titans. O cara era uma massa compacta de músculos, com cabelo
espetado e um sorriso que mostrava os dentes superiores e a gengiva. O sucesso da
brincadeira dependia de Lindsey não ter falado nada sobre Colin e Hassan, mas Colin
presumiu que isso não seria problema, já que ela parecia hipnotizada pelo garoto.
— Tá, eles estão vindo — disse Hassan. — Qual é o seu nome?
— Pierre.
— Tá. O meu é Salinger e a pronúncia é SalANGÊ.
— Cês tão aqui pra visita guiada, num tão? — o namorado da Lindsey disse.
— Estamos. Meu nome é Salangê — Hassan disse, a pronúncia passável, quiçá magnífica.
— Este é meu primo Pierre. Estamos visitando seu país pela primeira vez e queremos ver o
arquiduque que deflagrou nossa… como vocês dizem… Primeira Guerra da Terra.
Colin deu uma olhada em Lindsey Lee Wells, que tentou não rir enquanto estourava uma
bola do chiclete de laranja.
— Meu nome é Colin — disse o namorado, a mão estendida.
Hassan se inclinou na direção de Pierre/Colin e cochichou:
— O nome dele é “O Outro Colin”. — Continuando: — Meu primo não fala sua língua
muito bem. Eu sou o tradutor dele.
O Outro Colin riu, assim como os outros dois garotos, que rapidamente se apresentaram:
Chase e Fulton.
— Vamos chamar Chase de Jeans Apertados Demais e Fulton de Baixinho Mascando
Tabaco — Hassan cochichou novamente.
— Je m’appelle Pierre — Colin falou assim que os garotos terminaram de dizer seus nomes.
— Quand je vais dans le métro, je fais aussi de la musique de prouts.23
— A gente recebe muito turista estrangeiro por aqui — disse a única menina além de
Lindsey, uma garota alta de camiseta justa, totalmente Abercrombiezada. A menina
também tinha… como dizer isso de um jeito educado… dois air bags gigantescos. Era
incrivelmente gata, com aquele jeito de garota-popular-de-dentes-clareados-e-com-anorexia,
que era o jeito de ser gata menos preferido de Colin. — Ah, meu nome é Katrina.
Ufa, essa passou perto, pensou Colin.
— Amour aime aimer amour!24 — Colin anunciou bem alto.
— Pierre — disse Hassan. — Ele tem uma doença da fala. A, humm, com as palavras feias.
Na França nós chamamos de Toorettes. Não sei como vocês chamam aqui.
— Ele tem aquela síndrome de Tourette? — perguntou Katrina.
— MERDE!25 — gritou Colin.
— Isso — disse Hassan animado. — A mesma palavra nas duas línguas, como hemorroida.
Isso nós aprendemos ontem porque Pierre estava com o traseiro ardendo. Ele tem Toorettes.
E hemorroida. Mas é um bom menino.
— Ne dis pas que j’ai des hémorroïdes! Je n’ai pas d’hémorroïde26 — Colin gritou, querendo, ao
mesmo tempo, continuar com a brincadeira e fazer Hassan mudar de assunto.
Hassan olhou-o e balançou a cabeça mostrando que havia entendido, mas então falou
para Katrina:
— Ele acabou de dizer que seu rosto é lindo como a hemorroida.
Com isso Lindsey Lee Wells caiu na gargalhada e falou:
— Tá. Tá. Já chega.
Colin virou-se para Hassan e reclamou:
— Por que tinha de ser hemorroida? De onde raios você tirou essa ideia?
Aí O Outro Colin (OOC), o Jeans Apertados Demais (JAD), o Baixinho Mascando Tabaco
(BMT) e a Katrina ficaram todos animados, conversando, rindo e fazendo perguntas a
Lindsey.
— Meu pai foi à França ano passado, cara — explicou Hassan —, e contou a história de
quando teve crise de hemorroida e precisou apontar para a bunda e dizer “fogo” em francês
várias vezes até descobrirem que a palavra “hemorroida” era igual nas duas línguas. E eu
não conhecia mais nenhuma fugging de palavra em francês. Além disso, é muito hilário você
ter síndrome de Tourette e hemorroida.
— Ah, tanto faz — disse Colin, o rosto vermelho.
E escutou quando OOC disse:
— Isso é engraçado demais da conta. Hollis ia adorar os dois, né?
Lindsey riu, ficou na ponta dos pés para beijá-lo e disse:
— Peguei ocê direitinho, neném.
E ele retrucou:
— Nada disso, foram eles que me pegaram.
Lindsey fez biquinho, de brincadeira, OOC se inclinou para beijar sua testa e o rosto dela
se iluminou. Essa mesma cena havia ocorrido com frequência na vida de Colin — embora,
em geral, fosse ele quem fazia o biquinho.
Na volta eles atravessaram o campo em grupo, a camisa de malha de Colin empapada de
suor, grudenta e colada nas costas, o olho ainda latejando. O Teorema Fundamental da
Previsibilidade das Katherines, pensou. Até o nome soava perfeito. Ele havia esperado tanto por
sua descoberta, tantas vezes se desesperado, que só queria ficar sozinho por alguns
instantes com um lápis, algumas folhas de papel, uma calculadora e o silêncio. Dentro do
carro seria uma boa. Colin deu uma puxadinha na camisa de Hassan e lançou um olhar
expressivo para o amigo.
— Só preciso tomar um Gatorade — Hassan comentou. — Depois nós vamos.
— Vou ter que abrir a loja procês, então — Lindsey disse. Ela virou-se para OOC. — Vem
comigo, neném.
A suavidade melosa da voz dela fez Colin se lembrar de K-19.
— Eu até que queria ir — disse OOC —, só que a Hollis tá sentada ali fora na escada. Eu e
Chase devia tá no trabalho, mas a gente faltou.
OOC ergueu Lindsey do chão e lhe deu um abraço apertado, os bíceps dele se
enrijecendo. Ela se contorceu um pouquinho mas o beijou de um jeito ardente, de boca
aberta. Em seguida OOC a soltou, piscou para ela e bateu em retirada com seu séquito em
direção a uma picape vermelha.
Quando Lindsey, Hassan e Colin chegaram de volta à Mercearia Gutshot, uma mulher
grandona com um vestido cor-de-rosa de estampa florida estava sentada nos degraus
falando com um homem de barba cheia e castanha. Quando se aproximaram, Colin pôde
ouvir a mulher contando uma história.
— Então o Starnes tá lá fora aparando a grama — ela ia dizendo. — Ele desliga o cortador,
olha pra frente, avalia a situação um instante e aí grita pra mim: “Hollis! O que é que tem
de errado com esse cachorro?”, e eu digo que o cachorro tá com as glândulas anais
inflamadas, que eu acabei de drenar. O Starnes rumina isso um instante e diz: “Eu acho que
cê podia ir em frente e atirar nesse cachorro e arrumar outro com essas glândulas aí
funcionando direitinho e ninguém ia notar a diferença.” E aí eu digo pra ele: “Starnes, essa
cidade não tem um homem que preste pra amar, então é melhor eu amar meu cachorro.”
O barbudo envergou de tanto rir, e foi então que a contadora de histórias olhou para
Lindsey.
— Cê tava numa visita guiada? — perguntou. Quando Lindsey fez que sim com a cabeça,
Hollis prosseguiu. — Dá pra perceber que cê nem viu a hora passar.
— Foi mal — murmurou Lindsey. Balançando a cabeça na direção dos dois, ela disse: —
Hollis, esse é o Hassan, e o Colin. Meninos, essa é a Hollis.
— Também conhecida como mãe da Lindsey — Hollis explicou.
— Credo, Hollis. Não precisa ficar se gabando — Lindsey disse.
Ela passou pela mãe, destrancou a porta da loja e todos deram um passo para dentro do
doce ambiente com ar condicionado. Quando Colin ia passando, Hollis colocou a mão no
ombro dele, virou-o e ficou olhando fixamente para seu rosto.
— Eu conheço ocê — ela disse.
— Eu não conheço você — Colin retrucou, e então acrescentou, a fim de se justificar: —
Não esqueço muitos rostos.
Hollis Wells continuou a encará-lo, mas ele tinha certeza de nunca tê-la visto.
— Ele quis dizer “literalmente” — Hassan acrescentou, espiando de trás de uma prateleira
de revistas em quadrinhos. — Vocês recebem jornais impressos por aqui?
De trás do balcão, Lindsey Lee Wells tirou um exemplar do USA Today. Hassan folheou o
primeiro caderno e, por fim, dobrou o jornal com cuidado, deixando à mostra apenas uma
foto em preto e branco, pequena, de um homem branco de óculos e cabelos espessos.
— Conhece esse cara? — Hassan perguntou.
Colin virou-se para o jornal, estreitou os olhos e ficou pensando por um instante.
— Não pessoalmente, mas o nome dele é Gil Stabel e ele é o CEO de uma empresa
chamada Fortiscom.
— Bom trabalho. Só que ele não é isso.
— É, sim — Colin disse, bastante confiante.
— Não, não é. Ele não é CEO de nada. Ele está morto.
Hassan desdobrou o jornal e Colin se inclinou para ler a legenda: CEO DA FORTISCOM
MORRE EM ACIDENTE DE AVIÃO.
— KranialKidz! — Hollis gritou, triunfante.
Colin virou-se para ela, os olhos arregalados. E suspirou. Ninguém assistia àquele
programa. O índice de audiência era 0,0. O programa só ficou no ar por uma temporada e
nem uma alma sequer entre os três milhões de moradores de Chicago jamais reconheceu
Colin. E ainda assim, ali em Gutshot, Tennessee…
— Ai, meu Deus! — Hollis gritou. — O que cê tá fazendo aqui?
Colin corou por um momento por causa da sensação de ser famoso e pensou um pouco
antes de responder.
— Eu surtei; aí nós saímos numa viagem de carro; aí nós vimos a placa do arquiduque; aí
eu cortei a testa; aí eu tive um momento eureca; aí nós conhecemos os amigos dela, e agora
nós estávamos voltando para o carro, mas não fomos embora ainda.
Hollis deu um passo à frente e examinou o curativo. Ela sorriu e levou uma das mãos até
o cabelo estilo judeu-afro dele, como se fosse sua tia e ele, uma criança de 7 anos que
acabara de fazer algo extremamente fofo.
— E cês não vão embora ainda não — ela disse —, porque eu vou preparar um jantar.
Hassan bateu palmas.
— Eu estou mesmo com fome.
— Feche a loja, Linds.
Lindsey revirou os olhos e saiu devagar de trás da caixa registradora.
— Cê vai no carro com o Colin pro caso dele se perder — Hollis disse para Lindsey. — E eu
vou levar o… como é mesmo seu nome?
— Eu não sou terrorista — Hassan disse, como resposta.
— Ai, que alívio. — Hollis sorriu.
• • •
Hollis dirigia uma picape novinha, impressionantemente rosa, e Colin a seguia no Rabecão
com Lindsey no banco da frente.
— Carro bonito — ela comentou, sarcasticamente.
Colin não disse nada. Gostava de Lindsey Lee Wells, mas em alguns momentos parecia
que ela estava tentando deixá-lo uma arara.27 Ele tinha o mesmo problema com Hassan.
— Obrigado por não dizer nada quando eu era Pierre e Hassan, Salinger.
— É, bem. Aquilo foi engraçado. Além disso, o Colin tava dando uma de metido e
precisava descer do pedestal.
— Entendi — disse Colin, que foi o que ele aprendeu a falar quando não tinha nada a
dizer.
— Então — ela disse. — Cê é um gênio.
— Sou um menino prodígio em fim de carreira — Colin disse.
— Em que mais cê é bom, além de já saber tudo?
— Humm, línguas. Jogos de palavras. Conhecimentos gerais. Nada muito útil.
Colin continuava sentindo o olhar dela.
— Línguas são úteis. Quais línguas cê fala?
— Sou bem fluente em onze. Alemão, francês, latim, grego, holandês, árabe, espanhol,
russo…
— Já deu pra ter uma ideia — ela o interrompeu. — Acho que meine Mutter denkt, daß sie gut
für mich sind28 — completou. — É por isso que a gente tá junto neste carro.
— Warum denkt sie das?29
— Tá, a gente já mostrou que sabe falar alemão. Ela fica pegando no meu pé que nem
uma doida pra eu fazer faculdade e virar, sei lá, médica ou coisa assim. Só que eu não vou.
Vou ficar aqui. Já decidi. Então acho que talvez ela queira que cê me sirva de inspiração ou
algo parecido.
— Médicos ganham mais que paramédicos em treinamento — Colin ponderou.
— Tá, mas eu não preciso de dinheiro.
Ela fez uma pausa e pôde-se ouvir um ruído vindo de baixo do carro. Por fim, ele virou o
rosto para olhá-la.
— Eu preciso da minha vida — ela explicou —, que é boa e que é aqui. Mas, de qualquer
forma, pode ser que eu vá pra faculdade comunitária em Bradford só pra calar a boca da
Hollis, mas só isso.
A estrada fez uma curva acentuada para a direita e, logo após passarem por um grupo de
árvores, uma cidade surgiu. Casas pequenas, mas bem-cuidadas, margeavam a rua. Todas
tinham varanda, pelo menos era o que parecia, e várias pessoas ficavam sentadas nelas,
mesmo naquele verão mais quente que o inferno. Na rua principal, Colin avistou um centro
comercial relativamente novo, com um posto de gasolina, um Taco Bell, um salão de beleza
e a agência dos correios de Gutshot, TN, que, vista dali da rua, parecia ser do tamanho de
um bom closet. Lindsey apontou pela janela de Colin.
— É ali que é a fábrica — ela disse, e, à meia distância, Colin avistou um complexo de
prédios baixos.
Aquilo não se parecia muito com uma fábrica. Não havia silos de aço enormes, nem
chaminés expelindo monóxido de carbono, só alguns prédios que lembravam vagamente
hangares para aviões.
— O que ela produz? — Colin perguntou.
— Empregos. Ela gera os melhores empregos dessa cidade. Foi fundada por meu bisavô
em 1917.
Colin reduziu a velocidade e foi para o acostamento, deixando um SUV que vinha em alta
velocidade ultrapassá-los enquanto ele e Lindsey olhavam a fábrica pela janela do carro.
— Tá, mas o que é produzido lá? — ele perguntou.
— Cê vai rir.
— Não vou rir.
— Promete que não vai rir — ela disse.
— Prometo.
— É uma indústria têxtil. Hoje a gente faz mais, humm, cordinhas para absorventes
internos.
Colin não riu. Em vez disso, pensou: Absorventes internos têm cordinhas? Por quê? De todos os
grandes mistérios da humanidade — Deus, a natureza, o universo etc. —, esse era o que ele
menos conhecia. Para Colin, esses absorventes eram um pouco como os ursos-pardos:
estava ciente da existência deles, mas nunca tinha visto um solto por aí, e também não fazia
muita questão.
Em vez da risada de Colin o que se seguiu foi um período de silêncio inquebrável. Ele
acompanhou a picape rosa de Hollis por uma rua secundária, de asfalto novo, que de
repente virou uma ladeira íngreme, forçando o motor fatigado do Rabecão a aumentar o
giro para conseguir subir. Conforme avançavam, ficou claro que a rua era, na verdade, uma
comprida entrada de veículos, que terminava em frente à maior residência de uma só
família na qual Colin já pusera os olhos. Além disso, era ofuscantemente, chicletemente e
Pepto-Bismolicamente cor-de-rosa. Ele foi adiante. Colin olhava fixamente para a casa, um
tanto boquiaberto, quando Lindsey cutucou de leve seu braço. Ela encolheu os ombros,
como se estivesse constrangida.
— Não é muito — falou. — Mas é o nosso lar.
Uma sequência de degraus largos abria caminho até uma varanda com muitas colunas.
Hollis destrancou a porta e Colin e Hassan entraram numa sala de estar ampla e mobiliada
com um sofá grande o suficiente para ambos deitarem nele sem nem se encostarem.
— Cês fiquem à vontade. Eu e a Lindsey, a gente vai preparar o jantar.
— Acho que cê consegue cuidar disso sozinha — Lindsey disse, recostando na porta da
casa.
— Também acho, mas num quero.
Hassan se sentou no sofá.
— Essa Hollis é uma figura, cara. Na vinda pra cá, ela me contou que é dona de uma
fábrica que produz cordinhas para absorventes.
Colin ainda não conseguia ver graça naquilo.
— Sabe — Colin disse —, a atriz de cinema Jayne Mansfield morava numa mansão cor-derosa.
Ele andou pela sala de estar, lendo a lombada dos livros da Hollis e vendo as fotos nos
porta-retratos. Uma foto apoiada na lareira atraiu o olhar de Colin e ele se aproximou. Uma
Hollis ligeiramente mais jovem e ligeiramente mais magra estava de pé em frente às
Cataratas do Niágara. Ao lado dela havia uma menina que se parecia um pouco com
Lindsey Lee Wells, só que a garota usava um sobretudo preto por cima de uma camisa de
malha velha e surrada do Blink-182. O delineador fazia uma linha grossa em volta dos
olhos e se alongava até as têmporas, a calça jeans preta era colada ao corpo e bem justa nas
pernas, as botas Doc Martens bem engraxadas.
— Ela tem uma irmã? — perguntou Colin.
— O quê?
— Lindsey — Colin complementou. — Venha ver isso aqui.
Hassan andou até ele e analisou a foto brevemente antes de dizer:
— Essa é a tentativa mais patética de parecer gótico que eu já vi. Góticos não gostam do
Blink-182. Cara, até eu sei disso.
— Humm, cês gostam de vagem? — Lindsey perguntou, e Colin de repente se deu conta de
que ela estava atrás deles.
— Essa aqui é sua irmã? — perguntou Colin.
— Ah, não — ela respondeu. — Sou filha única. Não deu pra perceber pelo meu jeito
adoravelmente egocêntrico?
— Ele estava ocupado demais sendo adoravelmente egocêntrico para notar isso — Hassan
comentou.
— Então quem é essa? — Colin perguntou para Lindsey.
— Sou eu no oitavo ano.
— Ah — fizeram Colin e Hassan ao mesmo tempo, ambos constrangidos.
— Sim, eu gosto de vagem — Hassan disse, tentando mudar de assunto o mais rápido
possível.
Lindsey foi para a cozinha e fechou a porta, e Hassan deu de ombros para Colin com um
sorrisinho afetado, voltando, então, para o sofá.
— Eu preciso trabalhar — Colin disse.
Ele seguiu sozinho por um corredor todo forrado de papel de parede cor-de-rosa e entrou
num cômodo no qual havia uma enorme escrivaninha de madeira. Parecia o tipo de lugar
em que um presidente poderia sancionar uma lei. Colin se sentou, tirou do bolso o lápis no
2 quebrado e o caderninho onipresente e começou a escrever.
O teorema se baseia na validade do meu antigo argumento de que o mundo contém, precisamente,
dois tipos de pessoas: Terminantes e Terminados. Todo mundo está predisposto a ser um ou outro,
mas, obviamente, nem todas as pessoas são Terminantes ou Terminados COMPLETOS. Daí a curva
de sino:
A maioria das pessoas fica em algum ponto perto da linha divisória vertical, com o eventual desgarrado estatístico (p.ex., eu) representando
uma pequena porcentagem do total de indivíduos. Na expressão numérica do gráfico devemos ter algo próximo do 5 representando um
Terminante extremo e 0 representando a minha pessoa. Logo, se Katherine, a Grande, era um 4 e eu sou um 0, o tamanho total da
diferencial Terminante/Terminado = –4. (Considerando números negativos se o cara estiver mais para Terminado; positivos se for a
menina.)
E então ele buscou criar uma equação que pudesse ser representada graficamente e que
fosse a expressão de seu relacionamento com Katherine, a Grande (o mais simples de todos
os seus romances), como ele foi de fato: desagradável, brutal e curto.
Por algum motivo, enquanto descartava equações a torto e a direito, o cômodo parecia
ficar cada vez mais quente. O suor minava do curativo acima de seus olhos, por isso Colin o
arrancou. Tirou a camisa, limpando o sangue escorrido e ressecado no rosto. Nu da cintura
para cima, as vértebras saltavam das costas magras conforme ele se curvava na escrivaninha,
trabalhando. Colin experimentou algo que nunca havia sentido — estava perto de um
conceito original. Muitas pessoas, ele inclusive, já haviam percebido a existência da
dicotomia Terminante/Terminado. Mas ninguém jamais havia usado isso para demonstrar
o arco dos relacionamentos românticos. Ele duvidava que alguém sequer tivesse imaginado
que uma simples fórmula pudesse prever a ascensão e a queda dos romances em caráter
universal. Ele sabia que não seria fácil. Para começar, transformar conceitos em números
era um tipo de anagramatização à qual não estava acostumado. Mas ele se sentia confiante.
Nunca fora tão bom assim em matemática,30 mas era um maldito de um especialista
mundialmente famoso em levar o fora das namoradas.
Ele perseverou na fórmula, assombrado pela sensação de que sua mente estava prestes a
alcançar algo grande e significativo. E quando Colin provasse que era importante, ela
sentiria sua falta, ele sabia. Ela o veria como no início: como um gênio.
Em uma hora ele já tinha uma equação:
f(x) = T3x2 — T
o que fez com que a Katherine I tivesse esta aparência:
Aquilo estava bem próximo da perfeição — uma representação gráfica descomplicada de
um relacionamento descomplicado, que capturava até mesmo a brevidade do
relacionamento. Gráficos não precisam representar o tempo com precisão, mas apenas dar
uma ideia dele por comparação, ou seja: ela vai me namorar mais tempo que a K-14, mas não
tanto tempo quanto a K-19.31
Com a Katherine II, porém, o resultado foi completamente errado — o gráfico só tocava o
eixo x uma vez. Obviamente, aquilo ainda não estava refinado o suficiente para ele enviar
aos Anais da matemática nem nada, mas Colin se sentiu bem o bastante para vestir de novo a
camisa. Mais feliz do que já estivera em, bem, pelo menos dois dias, Colin percorreu
apressado o corredor e adentrou como um raio no frescor da sala de estar, de onde viu por
uma porta aberta que Lindsey, Hassan e Hollis estavam sentados na sala de jantar. Ele
seguiu até lá e se sentou diante de um prato com arroz, vagem e o que pareciam ser frangos
muito pequenos.
Hassan estava rindo de alguma coisa, assim como as duas Wells. Elas já pareciam
apaixonadas por ele. As pessoas simplesmente gostam de Hassan, do mesmo jeito que
gostam de fast food e de celebridades. Aquele era um dom que Colin achava louvável.
Na hora que Colin se sentou, Hollis perguntou a Hassan:
— Cê gostaria de fazer uma oração?
— Claro. — Hassan pigarreou. — Bismillah. — E pegou o garfo.
— Só isso? — Hollis perguntou, curiosa.
— Só. Somos um povo conciso. Conciso e faminto.
O árabe pareceu fazer com que todo mundo ficasse constrangido ou algo assim, porque
ninguém mais falou nada durante alguns minutos, só Hassan, que ficava dizendo que a
codorna (eram codornas, e não frangos muito pequenos) estava excelente. E estava boa
mesmo, Colin presumiu, para quem gosta de ficar procurando, em meio a um labirinto
infindável de ossos e cartilagens, um pedaço eventual de carne. Ele caçou as partes
comestíveis com a ajuda do garfo e da faca e, por fim, localizou uma garfada inteira de
carne. Mastigou devagar, a fim de saboreá-la, mastigando, mastigando e ai. Credo. O que
diabos foi isso? Mastiga. Mastiga. Mastiga. E de novo. Fug. Isso é um osso?
— Ai — falou baixinho.
— Chumbo de caça — Lindsey disse para ele.
— Chumbo de caça?
— Chumbo de caça — Hollis confirmou.
— Essa codorna foi abatida a tiros? — Colin perguntou, cuspindo uma minúscula bolinha
de metal.
— Foi.
— E eu estou comendo as balas?
Lindsey sorriu:
— Não. Cê tá cuspindo elas.
E foi assim que Colin jantou, naquela noite, basicamente arroz e vagem.
Logo que todos terminaram, Hollis perguntou:
— Então, como foi vencer o KranialKidz? Eu lembro que no programa cê não pareceu
assim, humm, muito animado.
— Eu me senti muito mal pela garota que perdeu. Ela era bem legal, a menina com quem
disputei a final. E reagiu muito mal à derrota.
— Eu fiquei feliz o suficiente por nós dois — disse Hassan. — Fui o único integrante da
plateia que fez a dancinha da vitória. Singleton castigou aquela pequena fugger como se ela
roubasse alguma coisa.32
O KranialKidz fazia Colin se lembrar da Katherine XIX, então ele olhou fixamente para a
frente e se esforçou muito para pensar o mínimo possível. Quando Hollis falou, a voz dela
pareceu quebrar um longo período de silêncio, como os despertadores fazem.
— Acho que cês deviam trabalhar pra mim esse verão em Gutshot. Tô começando um
projeto e cês seriam perfeitos pra ele.
• • •
No decorrer dos anos, em determinadas ocasiões, algumas pessoas tentaram empregar
Colin de uma forma condizente com seus talentos. Mas, (a) os verões, ele dedicava aos
acampamentos de superdotados, a fim de poder aprofundar seus conhecimentos; (b) um
trabalho de verdade o distrairia de seu trabalho verdadeiro, que era o de se tornar um
repositório ainda maior de conhecimento, e (c) Colin não tinha, de fato, nenhuma
habilidade que servisse a qualquer fim comercial. É raro alguém deparar, por exemplo, com
o seguinte anúncio de emprego:
Prodígio
Empresa de grande porte, megalítica, procura prodígio talentoso e ambicioso para se juntar a nosso
dinâmico Departamento de Prodígios. São pré-requisitos pelo menos quatorze anos de experiência
comprovada como criança prodígio, capacidade de anagramatizar habilmente (e aliterar agilmente),
fluência em onze idiomas. As responsabilidades do cargo incluem ler; decorar enciclopédias, livros de
ficção e poesia, e memorizar os primeiros 99 dígitos de pi.33
E, assim, todo verão Colin ia para o acampamento de superdotados e, a cada ano que
passava, ia ficando cada vez mais claro que ele não tinha qualificação para fazer nada. E foi
o que disse para Hollis Wells.
— Só o que preciso é que cês sejam razoavelmente inteligentes e que não sejam de
Gutshot, e os dois preenchem os requisitos. Quinhentos dólares por semana, mais casa e
comida de graça. Tão contratados! Bem-vindos à família da Indústria Têxtil Gutshot!
Colin lançou um olhar expressivo para o amigo, que segurava delicadamente uma
codorna com ambas as mãos, os dentes atacando o osso na vã tentativa de achar um pedaço
um tanto decente de carne. Hassan devolveu a codorna ao prato devagar e retribuiu o olhar
de Colin.
Hassan fez um sutil movimento afirmativo com a cabeça; Colin franziu os lábios; Hassan
passou a mão na barba malfeita; Colin mordiscou a almofada do polegar; Hassan sorriu;
Colin fez que sim.
— Tá — disse Colin finalmente.
Eles haviam decidido ficar. Goste você ou não, Colin pensou, viagens de carro têm destino certo.
Ou pelo menos o tipo dele de viagem de carro sempre teria. E aquele parecia um destino
justo — acomodações confortáveis, apesar de infinitamente cor-de-rosa; pessoas
razoavelmente legais, uma das quais o fez sentir-se ligeiramente famoso, e o local do seu
primeiro momento eureca. Colin não precisava do dinheiro, mas sabia o quanto Hassan
odiava ter de implorar para gastar o dinheiro dos pais. Além disso, um emprego seria bemvindo.
Nenhum dos dois, Colin se deu conta, jamais havia, tecnicamente, trabalhado em
troca de salário. A única preocupação de Colin era com o Teorema.
Hassan disse:
— La ureed an uz’ij rihlatik — wa lakin min ajl khamsu ma’at doolar amreeki fil usbu’, sawfa afa’al.34
— La ureed an akhsar kulla wakti min ajl watheefa. Yajib an ashtaghil ala mas’alat al-riyadiat.35
— Daria só para garantir que o Singleton terá tempo para trabalhar nos rabiscos dele? —
perguntou Hassan.
— Isso foi algum tipo de língua inventada? — Lindsey interrompeu, incrédula.
Colin a ignorou, respondendo a Hassan:
— Não são rabiscos, e você saberia disso se…
— Fosse para a faculdade, tá. Cara, você é tão previsível... — Hassan falou. E virou-se para
Lindsey: — Não estamos falando uma língua inventada. Estamos falando a língua sagrada
do Alcorão, a língua do grande califa e de Saladino, o mais bonito e intricado de todos os
idiomas dos homens.
— Pra mim parece o barulho de um texugo com pigarro — Lindsey observou.
Colin ponderou sobre aquilo por um instante. Depois disse:
— Preciso de tempo para trabalhar nas minhas coisas.
Hollis só assentiu com a cabeça.
— Esplêndido — Lindsey disse, e parecia sincera. — Esplêndido. Mas cês não podem ficar
com meu quarto.
Com a boca cheia de arroz, Hassan disse:
— Acho que vamos conseguir achar um lugarzinho para dormir em algum canto dessa
casa.
Depois de um tempo, Hollis anunciou:
— Vamos jogar Scrabble.
Lindsey soltou um gemido.
— Eu nunca joguei isso — Colin disse.
— Um gênio que nunca jogou Scrabble? — Lindsey perguntou.
— Eu não sou gênio.
— Tá. Um sabichão?
Colin riu. Aquilo lhe caía como uma luva. Não era mais um prodígio, não tinha virado
gênio — mas ainda era um sabichão.
— Eu não jogo nada — Colin disse. — Na verdade, eu não brinco muito.
— Mas deveria. Jogar é divertido. Embora o Scrabble não seja a melhor diversão do
mundo — Lindsey disse.
Placar Final:
Hollis: 158
Colin: 521
Lindsey: 293
Hassan: 0 36
• • •
Depois de ligar para os pais e lhes contar que estava numa cidade chamada Gutshot, mas
sem mencionar que se hospedara na casa de desconhecidos, Colin ficou acordado até tarde
trabalhando no Teorema em seu novo quarto no segundo andar, no qual havia uma bela
escrivaninha de carvalho com gavetas vazias. Colin, por algum motivo que desconhecia,
sempre amara escrivaninhas com gavetas vazias. Mas o Teorema não ia bem; Colin estava
começando a temer que talvez não tivesse o conhecimento matemático necessário para a
tarefa quando levantou os olhos e viu a porta do quarto se abrir. Lindsey Lee Wells, vestida
com um pijama de lã estampado.
— Como tá a cabeça? — ela perguntou, sentando-se na cama dele.
Colin fechou o olho direito, depois o abriu e então apalpou o corte com um dos dedos.
— Dói — respondeu. — Mas muito obrigado pelo curativo.
Ela se sentou com as pernas cruzadas, sorriu e disse, cantarolando:
— É pra isso que servem os amigos. — Mas logo em seguida ficou séria, parecendo meio
envergonhada até. — Olha, eu só queria dizer uma coisa pra você. — E mordiscou a
almofada do polegar.
— EiEuFaçoIsso! — Colin disse, apontando.
— Ah, que esquisito. É tipo uma versão meio fajuta de chupar o dedo, né? Mas, de
qualquer maneira, só faço isso quando tô sozinha — Lindsey disse, e passou pela cabeça de
Colin que estar a seu lado não era estar “sozinha”, mas ele não chamou a atenção dela para
isso. — Tá, então. Sei que vai parecer um pouco retardado da minha parte, mas será que eu
posso falar uma coisa sobre aquela foto, pra cê não pensar que sou uma completa idiota?
Porque fiquei deitada na cama pensando que cê provavelmente acha que eu sou uma idiota
e que cês dois devem tá comentando o fato de eu ser uma idiota e tal...
— Ahn, tá — disse, embora, francamente, Hassan e ele tivessem muitas outras coisas de
que falar.
— Então, eu era feia. Nunca fui gorda, na verdade, e nunca usei boné, nem tive espinhas
nem nada. Mas eu era feia. Nem sei como se escolhe quem é feia e quem é bonita, talvez
tenha, tipo, uma sociedade secreta de garotos que se encontram no vestiário e decidem
quem é feia e quem é gostosa, porque, que eu me lembre, nenhuma menina no quarto ano
pode ser considerada gostosa.
— Você com certeza não conheceu a Katherine I — interrompeu Colin.
— Regra número 1 da contação de histórias: nada de interrupções. Mas, rá, rá. Tarado.
Mesmo assim, eu era feia. Implicavam comigo o tempo todo. Não vou chatear ocê com
histórias de como isso era infernal, mas só digo que era bem ruim. Eu era infeliz. Então no
oitavo ano eu adotei um estilo alternativo. A Hollis e eu, a gente foi de carro até Memphis e
renovou meu guarda-roupa, e eu acabei escolhendo um corte tipo Zelda, pintei o cabelo de
preto, parei de pegar sol e era tipo metade emo, metade gótica, metade punk e metade nerd
chic. Basicamente, eu não tinha a menor ideia do que tava fazendo, mas não importava
porque naquela escola de segundo segmento do ensino fundamental em Milan, Tennessee,
ninguém nunca tinha visto nada parecido com emo, gótico, punk ou nerd chic. Eu era
diferente, só isso. Odiava todo mundo, e todos me odiaram durante um ano inteirinho. E aí
começou o ensino médio e eu resolvi fazer com que gostassem de mim. Simplesmente
decidi que ia fazer isso. E foi fácil, garoto. Foi tão, tão fácil! Eu apenas fiquei assim. Se uma
coisa anda como um adolescente maneiro, fala como um adolescente maneiro, se veste
como um adolescente maneiro e tem a dose certa da combinação de safadoemalvadoelegal,
como qualquer adolescente maneiro, essa coisa se torna um adolescente maneiro. Mas eu
não sou babaca com os outros. Não existe nem esse negócio de popularidade na minha
escola...
— Essa — Colin disse enfaticamente — é uma frase que, até hoje, só foi dita por pessoas
populares.
— Tá, tá bem. Mas eu não sou só uma garota qualquer que era feia e vendeu a alma pra
namorar caras gatos e ir às melhores chopadas que a cidade de Gutshot tem a oferecer. —
Ela repetiu, quase na defensiva: — Eu não vendi minha alma.
— Humm, tá. Eu não me importaria se você tivesse vendido — Colin admitiu. — Os nerds
sempre dizem que não dão a mínima para a popularidade, mas… não ter amigos é uma
droga. Pessoalmente, jamais gostei de, abre aspas, adolescentes maneiros, fecha aspas.
Achava que eram todos uns merdinhas ignorantes. Mas é possível que eu seja igual a eles
em alguns aspectos. Tipo, outro dia, eu disse para o Hassan que queria ser importante, ser
lembrado. E ele disse: “O famoso é o novo popular.” Talvez ele esteja certo, e talvez eu só
queira ser famoso. Estava pensando nisso agora à noite, na verdade, que talvez eu queira
que as pessoas que não me conhecem me achem maneiro, já que quem conhece, não acha.
Eu fui ao zoológico uma vez, quando tinha 10 anos, num passeio da escola, e estava
realmente com vontade de mijar, sabe? Para falar a verdade, fiquei apertado várias vezes
naquele dia, provavelmente porque me hidratei demais. Por acaso, você sabia que aquela
história toda de oito copos de água por dia é uma bobagem sem tamanho e que não tem
nenhuma base científica? Tantas coisas são assim! Todo mundo acredita porque as pessoas
são basicamente preguiçosas e incuriosas, o que, por acaso, é uma daquelas palavras que
soam como se não existissem, mas existem.37
— É muito estranho ver sua mente funcionando — Lindsey disse, e Colin suspirou.
Ele sabia que não conseguia contar histórias, que sempre incluía detalhes extrínsecos e
tangentes que só eram interessantes para ele.
— Bem, o fim da história é que eu cheguei relativamente perto de ter meu pênis arrancado
por uma mordida de leão. E o que eu queria dizer era que merdas como essa nunca
acontecem com pessoas populares. Jamais.
Lindsey riu.
— Essa seria uma história danada de boa se você soubesse contar direito. — Ela mordiscou
o polegar novamente. Seu hábito secreto. Com a mão na frente da boca, disse: — Pois é. Eu
acho você maneiro e quero que você me ache maneira, e é a isso que se resume ser popular.
O Fim (do Começo)
Depois do primeiro beijo, Colin e Katherine I ficaram sentados em silêncio por mais ou
menos uns dois minutos. Katherine o observava atentamente e ele tentou continuar
traduzindo Ovídio. Mas se viu com um problema sem precedentes. Não conseguia se
concentrar. Ele ficava levantando os olhos para vê-la. Os grandes olhos azuis da menina, na
verdade grandes demais para o rosto tão jovem, o encaravam sem parar. Ele presumiu que
estivesse apaixonado. Por fim, ela falou.
— Colin.
— Oi, Katherine?
— Estou terminando com você.
Naquela hora, é claro, Colin não compreendeu totalmente o significado daquele
momento. Mergulhou em Ovídio, vivenciando o luto da perda em silêncio, e Katherine
continuou a observá-lo durante os trinta minutos seguintes, até que os pais dela chegaram
na sala de estar para levá-la embora. Só foram necessárias mais algumas poucas Katherines
para que ele olhasse nostalgicamente para Katherine, a Grande, como a porta-voz perfeita
do Fenômeno Katherine. O relacionamento de três minutos deles foi o acontecimento em
si, em sua forma mais legítima. Foi o tango imutável entre a Terminante e o Terminado: a
chegada, a contemplação, a conquista e a volta para casa.
23 “Meu nome é Pierre. Quando vou ao metrô, também faço a música de peidos.”
24 “O amor ama amar o amor.” Uma citação, vertida para o francês, de Ulysses, de James Joyce.
25 “Merda!”
26 “Não diga que tenho hemorroida! Eu não tenho hemorroida!”
27 Que era o que a mãe de Colin dizia quando alguém estava de provocação ou de implicância, ainda que a expressão nunca
tenha feito muito sentido para Colin.
28 “Minha mãe acha que vocês fazem bem para mim.”
29 “Por que ela acha isso?”
30 Embora, é claro, ele certamente fosse melhor que a maioria das pessoas.
31 Uma explicação mais completa da matemática por trás disso aqui seria algo muito entediante e também muito demorado.
Em livros há uma parte especificamente designada para explicações muito demoradas e muito entediantes, chamada
“Apêndice”, que é exatamente lá que você poderá encontrar uma explicação quase exaustiva da matemática a que recorremos
aqui. No tocante a esta história em si: não haverá mais matemática. Nenhuma. Prometo.
32 Tivesse roubado alguma coisa, Colin teve vontade de dizer. Mas gramática não é interessante.
33 O que Colin fez quando tinha 10 anos, ao criar uma frase de 99 palavras na qual a primeira letra de cada uma
correspondia ao dígito de pi equivalente (a=1, b=2 etc.; j=0). A frase, caso você esteja curioso: “Costumam adorar doses
alcoólicas esses inconsequentes bagres, fanfarrões embriagados, cometendo excessos hepáticos, instigando grandes
indulgências com benefícios calamitosos. Heroicamente, dedicadas focas babás fazem das crias carentes habilidosas crianças
bagres, garantindo incondicionalmente educação justa, básica, honesta, harmoniosa, dando auxílio integralmente gratuito à
família. Inspiram confiança imensa, inclusive cultivando generosidade e alegria. Já esses horríveis baiacus joviais insultam
garoupas domésticas inadequadamente, demonstrando demérito e incomodando bastante cada jovem garoupa. Humilham
as feiosas damas, justamente fazendo brincadeiras horrendas, falando baboseiras jocosas. Hostilidades irritantemente
inescrupulosas, habitualmente ferinas, bestiais, horripilantes. Jovens crianças declaram hostilizar baiacus enquanto
causadores de baderna. Aprendei a glorificar jubilosamente fantásticas garoupas!”
34 “Eu não quero arruinar sua viagem — mas por 500 dólares norte-americanos por semana vou fazer isso.”
35 “Eu não quero ocupar todo o meu tempo com trabalho. Preciso dele para fazer o Teorema.”
36 “Eu não vou jogar Scrabble contra o Singleton. Cara, se eu quiser ser lembrado do tamanho da minha burrice é só olhar a
minha nota de português no SAT.”
37 Isso é absolutamente verdadeiro, o lance dos oito copos por dia. Não há necessidade alguma de se beber oito copos de água
por dia a menos que você, por algum motivo, tenha uma preferência especial pelo gosto da água. A maioria dos especialistas
concorda que, a menos que haja algo terrivelmente errado com seu organismo, você só deve beber água quando estiver —
preste bem atenção — com sede.

Capitulo 6

Postado por Estante de Livros às quarta-feira, dezembro 04, 2013 0 comentários
(SEIS)
Era sempre assim: ele procurava a chave do Rabecão de Satã em todos os lugares e,
depois de um tempo, desistia, dizendo: “Tá. Vou pegar o fugging do ônibus”, e aí, quando já
ia em direção à porta, ela aparecia. A chave aparece quando você faz as pazes com o ônibus;
as Katherines aparecem quando você começa a acreditar que não há mais nenhuma
Katherine no mundo; e como não poderia deixar de ser, o momento eureca se deu
exatamente quando Colin começou a aceitar o fato de que jamais aconteceria.
Ele sentiu a empolgação do momento se propagar como uma onda por seu corpo, os
olhos piscavam rapidamente enquanto ele se esforçava para se lembrar da ideia em toda a
sua completude. Deitado ali, de costas, naquele ambiente quente e empoeirado, a sensação
provocada pelo momento eureca equivalia à de mil orgasmos ao mesmo tempo, só que sem
tanta lambança.
— Eureca? — perguntou Hassan, a empolgação evidente em sua voz.
Hassan também vinha esperando por aquilo.
— Preciso colocar isso no papel — Colin disse, se sentando.
A cabeça dele doía muito, mas ele colocou a mão no bolso e tirou o caderninho que
carregava para todo lado, além do lápis no 2, que estava quebrado ao meio por causa do
tombo, mas ainda dava para escrever. Ele rascunhou:
Onde x = tempo e y = felicidade, y = 0: o início e o término do relacionamento; y negativo: quando o h termina;
y positivo: quando a m termina — meu relacionamento com K-19.
• • •
Ele ainda estava rascunhando quando escutou Lindsey Lee Wells chegando. Arregalou os
olhos e a viu com outra camisa de malha (em que se lia GUTSHOT!), carregando uma caixa
de primeiros socorros com uma, juro por Deus, cruz vermelha pintada.
Lindsey ajoelhou-se ao lado de Colin, tirou a camisa da cabeça dele com cuidado e falou:
— Vai doer.
Ela encostou um cotonete comprido no corte, embebido no que parecia ser molho de
pimenta.
— FUG! — Colin gritou, se encolhendo, e olhou para cima, vendo os grandes olhos
castanhos dela piscarem por causa do suor que pingava enquanto a garota agia.
— Eu sei. Foi mal. Tá, acabou. Cê não precisa levar ponto, mas aposto que vai ficar com
uma cicatrizinha. Tudo bem?
— O que é mais uma cicatriz? — Colin disse, distraído, enquanto ela pressionava a testa
dele com uma atadura de gaze enorme. — Sinto como se alguém tivesse me dado um soco
no cérebro.
— Possível concussão cerebral — Lindsey observou. — Que dia é hoje? Onde cê tá?
— Hoje é terça-feira e eu estou no Tennessee.
— Quem era senador de New Hampshire em 1873? — Hassan perguntou.
— Bainbridge Wadleigh — respondeu Colin. — Não acho que eu tenha uma concussão
cerebral.
— Isso é sério? — perguntou Lindsey. — Quer dizer, cê sabe isso de verdade?
Colin fez que sim com a cabeça, devagar.
— É — respondeu. — Eu sei o nome de todos os senadores. Além do mais, esse é fácil de
lembrar, porque sempre penso em como seus pais devem fugging odiar você para colocar o
nome de Bainbridge Wadleigh.
— Sério — disse Hassan. — Tipo, a pessoa já nasceu com o sobrenome Wadleigh. Só o fato
de ser um Wadleigh já é ruim o suficiente. Mas aí você pega esse Wadleigh e o promove a
Bainbridge. Não é de admirar que o pobre coitado nunca tenha conseguido se eleger
presidente.
Lindsey acrescentou:
— Mas, por outro lado, um cara chamado Millard Fillmore foi presidente. Nenhuma mãe
que se preze botaria Millard num Fillmore também.
Ela entrou na conversa tão rapidamente e de um jeito tão natural que Colin já estava
revendo sua teoria sobre a Celebrity Living. Ele sempre achou que as pessoas de Lugar
Nenhum, Tennessee, seriam mais burras que Lindsey Lee Wells.
Hassan sentou-se ao lado de Colin e pegou o caderninho do amigo. Ele o segurou no alto,
contra o sol, que havia saído de trás de uma nuvem para continuar castigando o solo
rachado e alaranjado.
Deu uma olhada rápida no papel e disse:
— Você me fez ficar aqui todo empolgado e na expectativa e a grande descoberta é que
você gosta de levar o fora das suas namoradas? Merda, Colin. Eu mesmo poderia ter dito
isso. Para falar a verdade, eu disse.
— O amor pode ser representado graficamente! — Colin disse, na defensiva.
— Peraí. — Hassan deu mais uma olhada no papel e depois olhou para Colin. —
Universalmente? Você está querendo dizer que isso vai funcionar para qualquer um?
— Isso. Porque relacionamentos são muito previsíveis, não são? Bem, estou
desenvolvendo uma forma de fazer isso. Pegue quaisquer duas pessoas e, mesmo que elas
ainda não se conheçam, a fórmula vai mostrar quem vai terminar com quem se vierem a
namorar e aproximadamente quanto tempo o relacionamento vai durar.
— Impossível — disse Hassan.
— Não, não é, porque é possível supor um futuro quando se tem um entendimento básico
de como é provável que as pessoas ajam.
O suspiro longo e lento de Hassan terminou num sussurro.
— É. Tá. Isso é interessante.
Ele não poderia ter feito elogio maior a Colin.
Lindsey Lee Wells se abaixou e pegou o caderninho da mão de Hassan. Leu devagar. Por
fim, perguntou:
— O que diabos é K-19?
Colin apoiou a mão na terra seca e empurrou o corpo para cima, para se levantar.
— O “o que” é “quem” — ele respondeu. — Katherine XIX. Eu namorei dezenove garotas
chamadas Katherine.
Lindsey Lee Wells e Colin ficaram se encarando por um bom tempo até que, por fim, o
sorriso dela deu lugar a uma risadinha.
— O que foi? — Colin perguntou.
Ela balançou a cabeça, mas não conseguiu parar de rir.
— Nada. Vamos ver o arquiduque.
— Não, diga — ele insistiu.
Colin não gostava que guardassem segredos dele. Estar por fora de alguma coisa o irritava
mais do que deveria, na verdade.
— Não é nada. É só que… eu só namorei um garoto.
— E por que isso é engraçado? — perguntou Colin.
— É engraçado — ela explicou — porque o nome dele é Colin.
O Meio (do Começo)
Lá pelo terceiro ano a incapacidade de Colin de alcançar um bem-estar sociológico havia se
tornado tão óbvia para todos que ele só assistia às aulas da Kalman três horas por dia. O
restante, passava com seu tutor vitalício, Keith Carter, que tinha um Volvo cujas letras da
placa eram LOOOUCO. Keith era um daqueles caras que não passou da fase do rabo de
cavalo. Também tinha (ou, no caso, tentava ter) um bigode espesso e volumoso, que tocava
o lábio inferior quando a boca estava fechada — o que era muito raro. Keith adorava falar, e
sua plateia preferida era Colin Singleton.
O tutor era amigo do pai de Colin e professor de psicologia. Seu interesse no garoto não
era exatamente altruísta — no decorrer dos anos, Keith publicou vários artigos sobre a
prodigiosidade de Colin. E Colin gostava de ser assim, tão especial que até os estudiosos
ficavam interessados. Além disso, Keith Louco era o mais próximo que Colin tinha de um
melhor amigo. Todo dia Keith ia dirigindo até a cidade e encontrava Colin numa sala
pequena como um armário de vassouras, no terceiro andar da Escola Kalman. Colin
basicamente podia ler o que quisesse em silêncio durante quatro horas, e Keith o
interrompia de vez em quando para debater algum tema, e então, às sextas-feiras, eles
passavam o dia falando sobre o que Colin havia aprendido. Colin gostava mais disso que
das aulas normais. Principalmente porque Keith nunca aplicou nele um Abdominável
Homem das Neves.
Keith Louco tinha uma filha, Katherine, que estava no mesmo ano de Colin na escola mas
era oito meses mais velha. Ela frequentava um colégio na zona norte da cidade, mas, de vez
em quando, os pais de Colin convidavam Keith Louco, a mulher dele e Katherine para
jantar e falar sobre o “progresso” de Colin e coisas do gênero.
Depois do jantar, os pais se sentavam na sala de estar, rindo cada vez mais alto conforme
o tempo ia passando, e Keith falava alto que não tinha a menor condição de voltar dirigindo
até em casa, que precisaria de uma xícara de café depois de tanto vinho — “Sua casa é o
paraíso dos enófilos”, ele dizia.
• • •
Certa noite em novembro, quando Colin estava no terceiro ano e o tempo já havia esfriado
apesar de a mãe dele ainda não ter decorado a sala para o Natal, Katherine foi até sua casa.
Depois de um jantar de frango ao molho de limão e arroz integral, Colin e Katherine foram
para a sala de estar, onde Colin se deitou atravessado no sofá e ficou estudando latim. Ele
havia acabado de descobrir que o presidente Garfield, que não era particularmente
conhecido por sua inteligência, tinha a habilidade de escrever simultaneamente em latim e
em grego — latim com a mão esquerda e grego com a direita. Colin tinha a intenção de
igualar o feito.20 Katherine, uma loirinha pequenininha que compartilhava com o pai tanto
o rabo de cavalo quanto o fascínio por prodígios, ficou sentada observando Colin em
silêncio. Ele estava consciente da presença dela, mas aquilo não o distraiu, porque as
pessoas com frequência ficavam observando enquanto ele estudava, como se houvesse
algum segredo em seu modo de tratar a vida acadêmica. O segredo, na verdade, era apenas o
fato de ele passar mais tempo que todo mundo estudando e prestando atenção.
— Como é que você já sabe latim?
— Eu estudo muito — ele respondeu.
— Por quê? — ela perguntou, chegando perto e se sentando no sofá ao lado dos pés dele.
— Porque eu gosto.
— Por quê?
Ele fez uma pausa por um instante. Não familiarizado com o “jogo do por quê”, estava
levando a sério cada uma das perguntas.
— Eu gosto porque isso faz eu me sentir diferente e melhor. E porque sou muito bom
nisso.
— Por quê? — ela perguntou, a voz melodiosa, quase sorrindo.
— Seu pai diz que é porque sou melhor que os outros em me lembrar das coisas, isso
porque presto muita atenção e dou muita importância a tudo.
— Por quê?
— Porque é importante saber as coisas. Por exemplo, há pouco tempo eu aprendi que,
certa vez, o imperador romano Vitélio comeu mil ostras em um só dia, o que foi um ato
impressionante de abliguritio21 — ele disse, usando uma palavra que tinha certeza de que
Katherine não conhecia. — Saber também é importante porque faz você se sentir especial, e
você pode ler livros que as pessoas normais não conseguem, como a obra Metamorfoses, de
Ovídio, que foi escrita em latim.
— Por quê?
— Porque ele morava em Roma quando lá se falava e se escrevia em latim.
— Por quê?
E essa o pegou de jeito. Por que Ovídio viveu na Roma Antiga em 20 AEC,22 e não em
Chicago em 2006 EC? Será que Ovídio ainda teria sido Ovídio se vivesse nos Estados
Unidos da América? Não, claro que não, porque ele seria um nativo americano ou talvez
um ameríndio ou um dos primeiros habitantes ou um indígena, que não tinham o latim
nem qualquer outro tipo de linguagem escrita naquela época. Então, será que Ovídio se
tornou importante porque era Ovídio ou porque viveu na Roma Antiga?
— Essa é uma ótima pergunta e eu vou tentar descobrir a resposta para você — ele
concluiu, que era o que Keith Louco falava quando não tinha resposta.
— Quer ser meu namorado? — Katherine perguntou.
Colin se sentou rapidamente e a encarou, os olhos azuis da menina voltados para o colo.
Tempos depois, ele viria a chamá-la de Katherine, a Grande. Katherine I. Katherine, a
Magnífica. Ela era visivelmente mais baixa que ele, mesmo sentado, e parecia estar falando
sério, um pouco nervosa até, os lábios comprimidos enquanto olhava para baixo. Alguma
coisa foi se propagando pelo corpo de Colin. Suas terminações nervosas explodiram em
arrepios na pele. Seu diafragma vibrou. E, obviamente, não devia ser paixão, nem amor, e
não parecia ser amizade, então devia ser o que os garotos na escola chamavam de estar a fim.
E ele respondeu:
— Sim, sim, quero.
Ela virou-se para ele, o rosto arredondado, as bochechas fofas e sardentas, e se inclinou
para a frente, os lábios num biquinho, e beijou-o na bochecha. Esse foi o primeiro beijo de
Colin, e os lábios dela lembravam o inverno — frios, secos e rachados —, então ocorreu a
Colin que a sensação despertada pelo beijo não fora nem de perto tão boa quanto o som da
voz dela perguntando se ele queria ser seu namorado.
20 Mas nunca conseguiu, porque, por mais que tentasse, ele simplesmente não era ambidestro.
21 Termo em latim que significa “gastar uma enorme quantia em dinheiro com comida”.
22 Ninguém mais diz a.C. nem A.D. Isso saiu de moda. Agora ou se diz EC (Era Comum) ou AEC (Antes da Era Comum).

Capitulo 5

Postado por Estante de Livros às quarta-feira, dezembro 04, 2013 0 comentários
(CINCO)
Duas horas depois de terem desistido de ver o Maior Crucifixo de Madeira do Mundo,
Hassan tocou de novo no assunto.
— Você já sabia que o Maior Crucifixo de Madeira do Mundo ficava no Kentucky? —
gritou, a janela aberta, a mão esquerda balançando em ondas com a força do vento.
— Só descobri isso hoje — Colin respondeu. — Mas sei que a maior igreja de madeira do
mundo fica na Finlândia.
— Isso não é interessante — disse Hassan.
Cada “isso não é interessante” de Hassan havia ajudado Colin a perceber o que as outras
pessoas gostavam e o que não gostavam de ouvir. Colin nunca tivera essa percepção antes
de Hassan, porque todo mundo ou fingia que estava interessado ou o ignorava. Ou então,
no caso das Katherines, fingia e depois ignorava. Graças à lista compilada por Colin de
coisas que não eram interessantes,13 ele conseguia manter diálogos razoavelmente normais.
Depois de trezentos quilômetros e uma parada para abastecer, tendo saído a salvo do
Kentucky, eles estavam a meio caminho entre Nashville e Memphis. O vento que entrava
pelas janelas abertas havia secado o suor dos dois sem chegar exatamente a refrescá-los, e
Colin se perguntava como poderiam encontrar um lugar com ar-condicionado quando
reparou num letreiro pintado à mão acima de uma plantação de algodão, milho, soja ou
algo do gênero.14 SAÍDA 212 — VISITE O TÚMULO DO ARQUIDUQUE FRANCISCO
FERDINANDO — O CADÁVER QUE DEFLAGROU A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL.
— Isso simplesmente não parece plausível — Colin comentou, baixinho.
— Só estou dizendo que deveríamos ir a algum lugar — Hassan falou, sem dar ouvidos a
ele. — Quer dizer, eu gosto dessa interestadual tanto quanto qualquer outra pessoa, mas se
continuarmos seguindo para o sul, vai ficar cada vez mais quente, e eu já estou suando
como uma prostituta dentro de uma igreja.
Colin esfregou a mão no pescoço dolorido, pensando que de jeito nenhum passaria outra
noite no carro se tinha dinheiro suficiente para pagar um quarto de hotel.
— Você viu aquela placa? — ele perguntou.
— Que placa?
— Aquela falando do túmulo do arquiduque Francisco Ferdinando.
Desviando completamente os olhos da estrada, Hassan virou-se para Colin, abriu um
amplo sorriso e deu um soquinho no ombro do amigo.
— Excelente. Excelente. E, de qualquer forma, é hora do almoço.
• • •
Assim que Colin saltou do carro no estacionamento da lanchonete Hardee’s, na Saída 212,
no condado de Carver, Tennessee, ligou para a mãe.
— Oi, estamos no Tennessee.
— E como você está se sentindo agora, querido?
— Melhor, acho. Não sei. Está quente aqui. Alguém, humm, alguém ligou?
A mãe fez uma pausa, e Colin pôde sentir a desagradável piedade que havia nela.
— Sinto muito, meu amor. Vou dizer para, humm, alguém, ligar para o seu celular.
— Obrigado, mãe. Preciso ir agora. Vou almoçar no Hardee’s.
— Parece uma boa ideia. Não se esqueça do cinto de segurança! Amo você!
— Eu também.
• • •
Após um implacavelmente gorduroso Monster Thickburger na lanchonete vazia, Colin
perguntou para a mulher da caixa registradora, cujo corpo parecia ter sofrido os efeitos da
ingestão de uma quantidade talvez grande demais de refeições no local de trabalho, como
chegar ao túmulo do Francisco Ferdinando.
— Quem? — ela perguntou.
— O arquiduque Francisco Ferdinando.
A mulher ficou olhando para ele sem esboçar qualquer rea ção por um instante, mas então
seus olhos se arregalaram.
— Ah, cês tão procurando Gutshot. Garoto, cê tá indo pra roça, hem?
— Gutshot?
— É. Bem, o que cê precisa fazer agora é sair do estacionamento e virar à direita, quer
dizer, saindo da autoestrada. E aí, uns três quilômetros daqui, a rua vai fazer um T. Tem um
posto de gasolina Citgo abandonado por lá. Cê pega a direita naquela rua e aí cê vai dirigir
um tempão sem ver nada de um lado nem de outro por uns quinze ou vinte quilômetros.
Cê vai subir um pedacinho de uma colina e aí cê chega em Gutshot.
— Gutshot?
— Gutshot, Tennessee. Foi pra lá que levaram o arquiduque.
— Então eu pego a direita e depois viro à direita de novo.
— Isso aí. Espero que cês se divirtam por lá, viu?
— Gutshot — Colin repetiu baixinho. — Tá, obrigado.
• • •
Parecia que a tal estrada de quinze a vinte quilômetros tinha ficado bem no epicentro de
um terremoto, e depois nunca mais foi asfaltada. Colin dirigia com cuidado, mas, ainda
assim, os amortecedores gastos do Rabecão rangiam e gemiam nos intermináveis buracos e
ondulações do asfalto.
— Talvez a gente não precise ver o arquiduque — disse Hassan.
— Essa é uma viagem de carro. É uma aventura — Colin respondeu, imitando-o.
— Você acha que os moradores de Gutshot, Tennessee, já viram um árabe de carne e osso
na frente deles?
— Ah, não seja tão paranoico.
— Ou então, por falar nisso, acha que já viram alguém assim como você, com esse cabelo
cacheado tipo judeu-afro?
Colin ponderou sobre aquilo por um momento e então disse:
— Bem, a mulher do Hardee’s foi legal com a gente.
— Tá, mas a moça no Hardee’s chamou Gutshot de “roça” — Hassan argumentou,
imitando o sotaque da mulher. — Quer dizer, se o Hardee’s é urbano, não sei se quero ver o
que é rural.
Hassan continuou com sua diatribe e Colin sorriu e deu risadinhas nas horas certas, mas
simplesmente continuou dirigindo, calculando a probabilidade de o arquiduque, que havia
morrido em Sarajevo mais de noventa anos antes, e que havia surgido do nada na cabeça de
Colin na noite anterior, acabar entre ele e qualquer que fosse o lugar para onde estava indo.
Aquilo era irracional, e Colin odiava pensar irracionalmente, mas não pôde evitar cogitar se
o fato de estar na presença do arquiduque talvez pudesse lhe revelar algo a respeito de seu
pedaço perdido. Mas Colin sabia que o universo não conspirava para colocar uma pessoa
em um local em vez de em outro. E pensou em Demócrito: “Em todo lugar o homem culpa
a natureza e o destino, embora seu destino seja nada mais que o eco de seu caráter e suas
paixões, seus erros e suas fraquezas.”15
Então não foi uma obra do destino, mas sim o caráter e as paixões de Colin Singleton,
seus erros e suas fraquezas que o levaram a Gutshot, Tennessee — POPULAÇÃO 864, como
se podia ler na placa à beira da estrada. Num primeiro momento, Gutshot se pareceu com
tudo o que veio antes dela, a única diferença era a estrada, mais bem-asfaltada. Dos dois
lados do Rabecão, campos de abóbora, plantas luminosamente verdes que se estendiam
num cinza infinito, interrompidas apenas por um eventual pasto de cavalos, um celeiro ou
grupos isolados de árvores. Depois de algum tempo, Colin viu à sua frente, na beira da
estrada, uma construção de dois andares feita de tijolos de cimento pintados de um cor-derosa
pavoroso.
— Acho que Gutshot é aqui — ele disse, balançando a cabeça na direção do prédio.
Ao lado, uma placa pintada a mão dizia:
REINO DE GUTSHOT — LOCAL DO DESCANSO ETERNO DO ARQUIDUQUE
FRANCISCO FERDINANDO / CERVEJA GELADA / REFRIGERANTES / ISCAS.
Colin manobrou o carro para entrar no estacionamento de cascalho da loja. Enquanto
soltava o cinto de segurança, falou para Hassan:
— Só queria saber se eles guardam o arquiduque com o refrigerante ou com a isca.
A gargalhada sonora de Hassan ecoou pelo carro.
— Merda, Colin fez uma piadinha. Esse lugar é mágico para você. Só é uma pena o jeito
como vamos morrer aqui. Tipo, falando sério. Um árabe e um meio-judeu entram numa
loja no Tennessee. É o começo de uma piada, e no final vai ter a palavra “sodomia”.
Mesmo assim, Colin ouvira Hassan atrás dele, arrastando os pés pelo cascalho do
estacionamento.
Os dois passaram por uma porta de tela e entraram na Mercearia Gutshot. De trás do
balcão, uma garota de nariz longilíneo e empinado e olhos castanhos que deviam ser do
tamanho de alguns planetas menores levantou o olhar de um exemplar da revista Celebrity
Living e disse:
— Como cês tão?
— Bem. E você? — Hassan perguntou enquanto Colin ponderava se em toda a história da
humanidade alguma alma que valesse a pena teria lido um exemplar sequer da Celebrity
Living.16
— Tô bem — disse a garota.
Eles ficaram explorando a loja por um tempo, andando pelo piso empoeirado de madeira
envernizada, fingindo estar escolhendo entre os vários pacotes de biscoitos salgados, as
bebidas e os peixinhos nadando em tanques de iscas. Meio agachado atrás de uma
prateleira de sacos de batatas fritas que ia até a altura do peito, Colin puxou a camisa de
malha de Hassan, colocou a mão em forma de concha no ouvido do amigo e sussurrou:
— Fale com ela.
Só que, na verdade, Colin não sussurrou, porque nunca dominara a arte de sussurrar — ele
meio que falou com um tom de voz ligeiramente mais baixo bem no tímpano de Hassan.
Hassan se encolheu e balançou a cabeça negativamente.
— Qual é a superfície total, em quilômetros quadrados, do estado do Kansas? — ele
sussurrou.
— Humm, uns 211.800. Por quê?
— Nada. É que eu acho interessante o fato de você saber isso mas não conseguir encontrar
um jeito de falar sem usar as cordas vocais.
Colin começou a explicar que até mesmo um sussurro envolve a utilização das cordas
vocais, mas Hassan só revirou os olhos. Então levou a mão até o rosto e mordiscou a
almofada do polegar enquanto olhava para Hassan, esperançoso, mas o amigo já havia
desviado sua atenção para os sacos de batata frita e, por isso, acabou sobrando para Colin.
Ele andou até o balcão e disse:
— Oi, nós estamos querendo saber a respeito do arquiduque.
A leitora da Celebrity Living abriu um sorriso. As bochechas salientes e o nariz longilíneo
desapareceram. Ela possuía o tipo de sorriso largo e matreiro que não lhe deixa opção
senão acreditar — só dava vontade de fazê-la feliz para poder continuar vendo aquele
sorriso. Mas ele sumiu de repente.
— As visitas começam de hora em hora, custam 11 dólares e, pra ser sincera, não valem o
ingresso — ela respondeu num tom de voz monótono.
— Vamos pagar — Hassan disse, aparecendo atrás de Colin de repente. — O garoto precisa
ver o arquiduque. — E então Hassan inclinou o corpo para a frente e fingiu sussurrar: — Ele
está à beira de um ataque de nervos. — Hassan colocou 22 dólares no balcão, os quais a
garota prontamente deslizou para dentro do bolso do short, ignorando solenemente a caixa
registradora à sua frente.
A menina soprou um cacho do cabelo castanho-avermelhado da frente do rosto e
suspirou.
— Tá quente lá fora — ela comentou.
— Vai ser, tipo, uma visita guiada? — Colin perguntou.
— É. E pra minha infelicidade eterna sou eu a guia turística.
Ela saiu de trás do balcão. Baixa. Magra. O rosto mais interessante que bonito.
— Meu nome é Colin Singleton — ele disse para a guia turística/caixa de mercearia.
— Lindsey Lee Wells — ela falou, estendendo a mão pequena, as unhas com um esmalte
cor-de-rosa cintilante descascado.
Ele apertou a mão dela, que então se virou para Hassan.
— Hassan Harbish. Muçulmano sunita. Não terrorista.
— Lindsey Lee Wells. Metodista. Também não.
A garota sorriu de novo. Colin não estava pensando em nada além dele mesmo, da K-19 e
do pedaço de sua barriga que fora tirado do lugar, mas não havia como negar o sorriso dela.
Aquele sorriso seria capaz de pôr fim a guerras e curar o câncer.
• • •
Por um bom tempo eles seguiram atravessando o terreno atrás da loja, com o mato na
altura dos joelhos — o que causou irritação na pele sensível das panturrilhas expostas de
Colin. Ele pensou em mencionar isso e perguntar se, quem sabe, não haveria algum trecho
recém-aparado pelo qual pudessem andar, mas sabia que Hassan acharia que aquilo era
sitzpinklerice, então permaneceu calado enquanto o capim lhe dava comichões. Ele pensou
em Chicago, onde uma pessoa pode passar dias sem pisar uma vez sequer num trecho de
terra de verdade. Aquele mundo perfeitamente asfaltado o atraía, e Colin sentia falta dele
quando seus pés pousavam nos desníveis da terra batida, que podiam fazê-lo torcer o
tornozelo.
Enquanto Lindsey Lee Wells andava à frente dos dois (numa atitude típica de uma leitora
da Celebrity Living; evitando falar com eles), Hassan simplesmente seguiu ao lado de Colin. E
ainda que Hassan, tecnicamente falando, não o tenha chamado de sitzpinkler por ser
alérgico ao mato, Colin sabia que o amigo teria feito isso, o que o incomodou. E então
Colin, mais uma vez, puxou o assunto que menos agradava a Hassan:
— Eu já falei hoje que você deveria ir para a faculdade?
Hassan revirou os olhos.
— Tá, eu sei. Quer dizer, veja só aonde a excelência acadêmica levou você.
Colin não conseguiu pensar numa resposta à altura.
— Bem, mas você deveria ir esse ano. Não dá para você não ir para sempre. Você só precisa
se inscrever nas matérias a partir de 15 de julho.
(Colin checara isso.)
— Na verdade eu posso não ir para sempre, sim. Já disse antes e vou dizer de novo: gosto de
ficar coçando o saco, vendo TV e engordando. Esse é o grande trabalho da minha vida,
Singleton. E é por isso que adoro viagens de carro, cara. É como estar fazendo alguma coisa
sem, na verdade, fazer nada. De qualquer forma, meu pai não fez faculdade e é rico que nem
um porco.
Colin ficou se perguntando como porcos podem ser ricos, mas apenas disse:
— Tá, mas também seu pai não fica coçando o saco. Ele trabalha, tipo, umas cem horas
por semana.
— Verdade. Verdade. E é graças a ele que eu não tenho que trabalhar nem fazer faculdade.
Colin não tinha reposta para aquilo. Mas simplesmente não conseguia entender a apatia
de Hassan. Qual o sentido de estar vivo se você nem ao menos tenta fazer algo
extraordinário? Que estranho acreditar que um Deus lhe deu a vida e, ao mesmo tempo,
achar que a vida não espera de você nada mais que ficar vendo TV.
Mas, pensando bem, alguém que acabou de cair na estrada para fugir das lembranças de
sua décima nona Katherine, e que está se arrastando pelo centro-sul do Tennessee a
caminho do túmulo de um falecido arquiduque austro-húngaro, talvez não tenha o direito
de sair por aí achando nada estranho.
E Colin estava ocupado criando anagramas para nada estranho — santa ordenha, tá nada
senhor, DNA nesta hora — quando deixou o próprio DNA orgulhoso: tropeçou num
montículo de terra e caiu. Ele ficou tão desorientado com a visão do solo se aproximando
depressa que nem chegou a esticar os braços para a frente e tentar aparar a queda com as
mãos. Apenas caiu para a frente como se tivesse levado um tiro nas costas. A primeira coisa
que tocou o chão foram seus óculos, seguidos imediatamente pela testa, que bateu em uma
pequena pedra pontuda.
Colin rolou para o lado e parou de barriga para cima.
— Eu caí — anunciou em alto e bom som.
— Merda! — Hassan gritou, e quando Colin abriu os olhos, viu a imagem embaçada do
amigo e de Lindsey Lee Wells se ajoelhando e olhando para ele.
O perfume dela era forte e frutado, e Colin presumiu que se chamava Curve. Ele havia
comprado um vidro desse para a Katherine XVII, mas ela não gostou da fragrância.17
— Estou sangrando, não estou? — Colin perguntou.
— Como um porco no abate — Lindsey disse. — Fica quieto. — Ela virou-se para Hassan e
disse: — Dá aqui sua camisa. — Ao que o garoto imediatamente respondeu “não”, o que
Colin deduziu ter algo a ver com os peitinhos protuberantes de Hassan. — A gente precisa
fazer pressão no machucado — Lindsey explicou para Hassan, que calmamente negou-se, de
novo, e ela retrucou: — Jesus Cristo… tá bem. — Ela tirou a própria camisa.
Colin apertou os olhos, forçando a vista na embaçada ausência dos óculos, mas não
conseguiu ver muito.
— Acho que deveríamos deixar isso para o segundo encontro — Colin disse.
— Tá, seu tarado — ela retrucou, mas ele pôde ouvi-la sorrindo.
Enquanto Lindsey passava a camisa devagar pela testa e pela bochecha de Colin e depois
pressionava com bastante força uma região macia acima da sobrancelha direita dele,
continuou falando.
— Que grande amigo esse que cê tem, hein? Para de mexer o pescoço. Nossas duas
preocupações aqui são algum tipo de lesão vertebral ou um hematoma subdural. Quer
dizer, as chances são bem pequenas, mas é preciso tomar todas as precauções, porque o
hospital mais próximo fica a uma hora daqui.
Ele fechou os olhos e tentou não se encolher enquanto ela fazia uma pressão enorme no
corte. Lindsey falou para Hassan:
— Faz pressão aqui com a camisa. Volto em oito minutos.
— Deveríamos ligar para um médico ou coisa assim — Hassan disse.
— Sou paramédica — Lindsey respondeu ao se virar.
— Que diabo de idade você tem? — ele perguntou.
— Dezessete. Tá. Tudo bem. Paramédica em fase de treinamento. Oito minutos. Juro.
Ela saiu correndo. O que Colin mais gostou não foi do cheiro do Curve — não
exatamente. Foi do cheiro do ar logo que Lindsey começou a se afastar correndo. O aroma
do perfume que ficou para trás. Não há palavra em inglês que descreva isso, mas Colin
conhecia o termo em francês: sillage. O que lhe agradava no Curve não era o aroma que
ficava na pele, mas o sillage, o cheiro doce e frutado que ele deixava ao se afastar.
• • •
Hassan sentou-se no mato alto, ao lado de Colin, pressionando bastante o corte.
— Foi mal não ter tirado a camisa.
— Os peitinhos? — perguntou Colin.
— É, pois é. Só acho que é preciso conhecer melhor a garota antes de mostrar meus
peitinhos. Cadê seus óculos?
— Foi isso que fiquei me perguntando quando ela tirou a camisa — Colin disse.
— Então você não conseguiu enxergar direito?
— Não consegui. Só vi que o sutiã era roxo.
— Era mesmo? — Hassan retrucou, com ironia.
E Colin se lembrou da K-19 sentada em cima dele na cama, o sutiã roxo, enquanto
terminava o namoro. E se lembrou da Katherine XIV, o sutiã preto e todo o resto preto
também. E se lembrou da Katherine XII, a primeira que usou sutiã, e de todas as Katherines
cujos sutiãs ele vira (quatro, a menos que se contem as alças, o que, no caso, elevaria o total
para sete). As pessoas achavam que ele gostava de sofrer, que gostava de levar o fora das
namoradas. Mas não era bem assim. Ele só não conseguia antever que isso estava por vir, e
ali, deitado no chão duro e irregular, com Hassan pressionando demais sua testa, a
distância que separava Colin e seus óculos permitiu que ele percebesse qual era o
problema: miopia. Ele tinha a vista curta. O futuro jazia à sua frente, inevitável mas
invisível.
— Achei — Hassan disse, e tentou colocar os óculos no rosto do amigo, meio
desajeitadamente.
Mas é difícil encaixar os óculos em outra pessoa e, por fim, Colin levantou a mão e
ajeitou a armação no nariz, conseguindo enxergar.
— Eureca — falou, baixinho.
Katherine XIX: O Fim (do Fim)
Ela terminou com ele no oitavo dia do décimo segundo mês, vinte e dois dias antes de
completarem um ano de namoro. Ambos tinham se formado naquela manhã, mas em
escolas diferentes, então os pais de Colin e os de Katherine, que eram velhos amigos,
marcaram um almoço de comemoração. E a noite ficou reservada só para os dois. Colin se
preparou fazendo a barba e colocando o desodorante Wild Rain, do qual ela gostava tanto
que chegava a se aninhar em seu peito para sentir o aroma.
Ele a buscara no Rabecão de Satã e os dois seguiram na direção sul pela avenida
Lakeshore, as janelas abertas, por onde podiam ouvir, mais alto que o ronco do motor, o
barulho das ondas do lago Michigan açoitando o litoral rochoso. À frente, uma visão aérea
da cidade. Colin sempre amara aquela vista panorâmica de Chicago. Embora não fosse
religioso, a visão do panorama urbano provocava nele o que em latim se chama de
mysterium tremendum et fascinans — uma mistura de medo aterrorizante com fascínio
arrebatador, do tipo que dá frio na barriga.
Eles continuaram até o centro da cidade, um trajeto cheio de curvas à direita e à esquerda,
passando em frente aos arranha-céus do centro comercial de Chicago, e já estavam
atrasados, porque Katherine sempre se atrasava para tudo. Então, depois de dez minutos
procurando uma vaga com parquímetro, Colin pagou dezoito dólares para parar num
estacionamento rotativo, o que deixou Katherine irritada.
— Só estou dizendo que poderíamos ter achado uma vaga na rua — ela disse ao apertar o
botão para chamar o elevador na garagem do estacionamento.
— Mas eu tenho dinheiro para isso. E nós estamos atrasados.
— Você não deveria gastar sem necessidade.
— Estou prestes a gastar cinquenta pratas em sushi — ele respondeu. — Por você.
A porta se abriu. Exasperado, ele encostou no revestimento de madeira do elevador e
suspirou. Eles mal se falaram até estarem dentro do restaurante, sentados a uma mesa
minúscula perto do banheiro.
— À formatura e a um jantar maravilhoso — ela disse, levantando o copo de Coca.
— Ao fim da vida como a conhecemos — Colin completou, e os dois brindaram
encostando os copos.
— Jesus, Colin, não é o fim do mundo.
— É o fim de um mundo — ele argumentou.
— Está preocupado com a possibilidade de não ser o cara mais inteligente da
Northwestern? — Ela sorriu e então suspirou.
Colin sentiu uma pontada repentina na barriga. Pensando em retrospecto, essa foi a
primeira dica de que alguma parte dele logo estaria faltando.
— Por que você suspirou? — ele perguntou.
A garçonete chegou nessa hora, interrompendo a conversa com um prato retangular de
sushis Califórnia e de salmão. Katherine separou os pauzinhos e Colin pegou o garfo. Ele
sabia falar um pouco de japonês, para um diálogo simples, mas os pauzinhos eram motivo
de frustração para ele.
— Por que você suspirou? — perguntou de novo.
— Jesus, por nada.
— Não, diga por quê — ele insistiu.
— É que você… você fica o tempo todo se preocupando com o fato de deixar de ser
prodígio ou de levar o fora de alguma namorada ou com sei lá mais o quê, e nunca, nem
por um segundo, fica agradecido. Você foi o orador da turma. Você vai para uma faculdade
excelente ano que vem, de graça. E daí que talvez você não seja uma criança prodígio? Isso é
bom. Pelo menos não é mais criança. Ou pelo menos não era mais para ser.
Colin mastigava. Ele gostava da alga que se usa para enrolar o sushi: de como era difícil
mastigá-la, da sutileza da água do mar.
— Você não entende — ele disse.
Katherine apoiou os pauzinhos na pequena vasilha com molho de soja e encarou-o de um
jeito que ia além da frustração.
— Por que você sempre tem que dizer isso?
— É verdade — ele falou simplesmente, e Katherine não entendia.
Ela continuava linda, engraçada, sabendo comer com os pauzinhos. Ser prodígio era tudo
o que Colin tinha, da mesma forma que um idioma tem suas palavras.
No meio de todo esse vaivém de perguntas e respostas, Colin tentava controlar o ímpeto
de perguntar se ela ainda o amava, porque a única coisa que Katherine odiava mais do que
Colin dizendo que ela não entendia era Colin perguntando se ela ainda o amava. Ele tentou
e tentou se controlar. Por sete segundos.
— Você ainda me ama?
— Ai, meu Deus, Colin! Por favor. Nós nos formamos. Estamos felizes. Comemore!
— Por quê? Está com medo de dizer?
— Eu te amo.
Ela nunca mais — nem uma vez sequer — diria essas palavras nessa ordem novamente.
— Dá para criar um anagrama para sushi? — perguntou.
— Ih, sus — ele respondeu imediatamente.
— Sus tem três letras; sushi tem cinco — ela disse.
— Não. “Ih, Sus.” O Ih e o Sus. Dá para fazer outros, mas eles não fazem sentido,
gramaticalmente falando.
Ela sorriu.
— Às vezes você se cansa de tanto eu perguntar se dá para criar anagramas?
— Não. Não. Eu nunca me canso de nada que você faz — disse, e aí ficou com vontade de
pedir desculpas, e de explicar que às vezes se sentia incompreendido, às vezes ficava
preocupado quando os dois discutiam e ela ficava um tempo sem dizer que o amava, mas
se conteve. — Além do mais, eu gosto que sushi vire “Ih, Sus”. Crie uma história.
“Crie uma história” era um jogo que ela inventara no qual Colin formava os anagramas e
Katherine inventava uma cena anagramática.
— Tá — ela disse. — Tá. Aí um cara vai pescar no píer e pega uma carpa. E é claro que ela
está toda cheia de pesticidas, esgoto e todas as porcarias nojentas do lago Michigan, mas
ele leva a carpa para casa mesmo assim porque imagina que se fritá-la por tempo suficiente
não vai ter problema. Ele limpa o peixe, corta em filés e aí o telefone toca, então tudo fica
na bancada da cozinha. Ele fala ao telefone por um tempo e, quando volta, vê que a irmã
menor, Susana, está segurando um grande pedaço cru da carpa do lago Michigan. E está
mastigando. Ela levanta os olhos para o irmão, e diz: “Sushi!” E ele exclama: “Ih, Sus…”
Eles riram. Ele nunca a amou tanto quanto naquele momento.
• • •
Mais tarde, depois que os dois entraram no apartamento na ponta dos pés e Colin subiu a
escada para dizer à mãe que chegara em casa — deixando de fora a informação,
provavelmente relevante, de que não estava sozinho —, e depois que haviam pulado na
cama, no andar de baixo, e depois que ela tirara a camisa dele, e ele, a dela, e depois que se
beijaram até os lábios dele ficarem dormentes e formigando, ela perguntou:
— Você está mesmo triste por se formar?
— Não sei. Se eu tivesse feito diferente… Se tivesse entrado na faculdade com 10 anos, ou
coisa assim… Não dá para saber se minha vida seria melhor. Nós provavelmente não
estaríamos juntos. Eu não teria conhecido Hassan. E muitos prodígios que se esforçam, se
esforçam e se esforçam acabam ainda mais fugged up que eu. Mas outros acabam sendo um
John Locke18 ou um Mozart ou sei lá quem mais. E as minhas chances de “Mozartidade”
acabaram.
— Col, você tem 17 anos. — Ela suspirou de novo.
Ela suspirava muito, mas não devia haver nada de errado, porque a sensação de tê-la
aninhada ao corpo dele era tão boa, a cabeça dela em seu ombro, sua mão afastando os
cabelos loiros e macios da frente do rosto dela. Ele olhou para baixo e pôde ver a alça do
sutiã roxo.
— Mas é como a tartaruga e a lebre, K.19 Eu aprendo mais rápido que as outras pessoas,
mas elas continuam aprendendo. Meu ritmo diminuiu e agora elas estão me alcançando.
Sei que tenho 17 anos. Mas já passei do meu ápice.
Ela riu.
— Sério. Existem estudos sobre essa merda. Os prodígios tendem a atingir seu ápice aos,
tipo, 12 ou 13 anos. E o que foi que eu fiz? Eu venci um fugging de um programa de
televisão um ano atrás? É essa a minha marca indelével na história da humanidade?
Katherine se sentou olhando para ele. Colin pensou nos outros suspiros dela, melhores e
diferentes, pensou no corpo dele roçando no dela. Ela o encarou por um bom tempo, aí
mordeu o lábio inferior e disse:
— Colin, talvez o problema seja nós dois.
— Ai. Merda — ele disse.
E foi aí que tudo começou.
O fim consistiu basicamente em sussurros dela e silêncio dele — porque Colin não sabia
sussurrar e os dois não queriam acordar os pais dele. Conseguiram não fazer barulho, em
parte porque parecia que todo o ar havia sido tirado dele. Paradoxalmente, Colin sentia
como se o término do namoro fosse a única coisa acontecendo em todo o planeta escuro e
silencioso, e, ao mesmo tempo, parecia que aquilo não estava acontecendo de fato. Ele
sentiu sua atenção se desviar da conversa unilateral e sussurrada e começou a se perguntar
se talvez todas as coisas grandes, dolorosas e incompreensíveis seriam paradoxais.
Ele era um homem à beira da morte olhando para os cirurgiões que tentavam salvá-lo. A
uma distância quase confortável da coisa em si, do que estava realmente acontecendo,
Colin pensou no mantra dos fracotes apatetados: paus e pedras podem quebrar meus ossos,
mas palavras nunca vão me machucar. Que mentira deslavada! Aquilo, ali e naquele
instante, era o verdadeiro Abdominável Homem das Neves: parecia que havia algo
congelando em seu estômago.
— Eu te amo tanto… e só quero que você me ame do mesmo jeito que eu te amo — ele
disse, o mais baixo que conseguiu.
— Você não precisa de uma namorada, Colin. Você precisa de um robô que não diga nada
além de “eu te amo”.
E parecia que pedras e paus o estavam atingindo de dentro para fora, era uma dor
palpitante e depois aguda logo abaixo da caixa torácica, e foi aí que ele sentiu, pela
primeira vez, que parte de suas vísceras lhe havia sido arrancada.
Katherine tentou ir embora da forma mais rápida e indolor possível, mas assim que
declarou que precisava sair de qualquer jeito, pois tinha hora para chegar em casa, Colin
começou a chorar. Ela segurou a cabeça dele encostada em sua clavícula. E mesmo se
sentindo patético e ridículo, Colin não queria que aquilo acabasse, porque sabia que a
ausência dela doeria mais que qualquer fim de namoro.
Mas Katherine foi embora mesmo assim e ele ficou sozinho no quarto, tentando
encontrar anagramas para meupedaçoperdido na vã tentativa de pegar no sono.

13 Entre muitos e muitos outros, os itens a seguir, definitivamente, não são interessantes: o esfíncter da pupila, a mitose, a
arquitetura barroca, piadas que terminavam com equações físicas, a monarquia britânica, a gramática russa e o papel
significativo que o sal desempenhou na história da humanidade.
14 Identificar plantações não está entre os talentos de Colin.
15 Em grego, para os curiosos: Οπου το άτομο κατηγορεί τη φύση και τη μοίρα, όμως η μοίρα του είναι συνήθως αλλά η ηχώ
του χαρακτήρα και των παθών του, των λαθών και των αδυναμιών του.
16 Traduzindo isso Venn-diagramaticamente, Colin teria argumentado que o mundo é dividido assim:
17 “Parece que eu esfreguei no pescoço chiclete de framboesa mastigado”, ela disse, mas não era isso — não exatamente. O
cheiro era de perfume de chiclete sabor framboesa, que, na verdade, era um aroma muito gostoso.
18 Filósofo e cientista político britânico que já sabia ler e escrever em latim e em grego numa idade em que o resto de nós não
consegue nem amarrar os sapatos sozinho.
19 Embora você vá perceber que Colin ainda não entendeu direito do que exatamente se trata a história da tartaruga e da
lebre, ele já havia deduzido que não era apenas sobre uma tartaruga e um coelho correndo. Com certeza.
 

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