27
Histórias de guerra
Acordei quando o avião aterrissou na água de um pequeno lago, que aparentemente era adjacente à propriedade de Ren e Kishan. Nilima desligou os motores e Kishan saltou para o píer e prendeu as cordas a fim de segurar a aeronave. O Jeep estava estacionado ali perto.
Àquela altura, minhas roupas estavam quase secas, sujas e muito desconfortáveis. O Sr. Kadam me ofereceu a oportunidade de trocá-las, dizendo que poderia criar roupas novas com o Lenço Divino, mas recusei quando ele mencionou que estávamos a apenas 10 minutos de casa.
O Sr. Kadam dirigiu, enquanto os garotos se acomodaram na traseira e Nilima se apertou comigo no banco da frente. Ren permanecia como tigre e parecia contente apenas quando Kishan estava por perto. Em casa, o Sr. Kadam sugeriu que eu tomasse uma ducha quente e dormisse,
mas o dia já estava amanhecendo e, embora eu estivesse exausta, queria conversar com Ren.
A única coisa que me convenceu a deixá-lo foi a pressão que tanto o Sr. Kadam quanto Kishan fizeram sobre mim. Ren ainda precisava de tempo para se curar e seria melhor que ele se mantivesse como tigre por enquanto, argumentavam eles. Concordei em tomar banho logo, mas disse-lhes que desceria logo em seguida para ver como ele estava. Kishan me carregou até o quarto, me ajudou a tirar os sapatos e removeu a atadura elástica. Então me deixou no banheiro, fechando a porta silenciosamente ao sair.
Minhas mãos estavam trêmulas. Manquei até o chuveiro e liguei a água quente. Ele está aqui! Em segurança! Conseguimos. Vencemos Lokesh e não perdemos ninguém. Eu me sentia nervosa. Quando entrei embaixo da água, perguntei-me o que deveria dizer primeiro para Ren. Tinha tantas coisas para lhe contar. Meu corpo doía. Eu sentia uma fisgada no ombro que fora atingido por uma caixa pesada e agora estava ficando roxo.
Tentei tomar um banho rápido, mas cada movimento era uma agonia. Eu não havia sido talhada para isso. Rolar no chão e na sujeira não era para mim. Ocorreu-me o pensamento de que eu deveria ter sentido dor em Kishkindha e Shangri-lá. Eu deveria estar muito machucada depois da batalha com os pássaros. Eu me curara lá. Rapidamente. A não ser pela mordida do kappa, eu me curara nesses lugares mágicos.
Ren parecia estar se recuperando, mas eu imaginava que suas feridas não fossem apenas físicas. Ele passara por tanta coisa... Eu não sabia como ele tinha conseguido sobreviver, porém me sentia extremamente grata por isso. Teria que agradecer a Durga por ajudá-lo. Ela certamente cumpriu sua promessa. Manteve meu tigre em segurança.
Fechei a torneira, saí do chuveiro e lentamente vesti meu velho pijama de flanela. Eu queria me apressar, mas até escovar o cabelo doía. Trancei-o, impaciente, e manquei a uma velocidade de lesma até a porta do quarto. Encontrei Kishan do outro lado, me esperando, com as costas apoiadas na parede e os olhos fechados.
Ele também tomara um banho e trocara de roupa. Sem nenhuma palavra, me pegou nos braços e me carregou para o andar térreo, para a sala do pavão. Acomodou-me na poltrona de couro perto do Sr. Kadam antes de se sentar de frente para mim, ao lado de Nilima. Ren ainda estava na forma de tigre, deitado aos pés de Nilima, enquanto eles conversavam baixinho.
O Sr. Kadam, dando tapinhas no meu braço, disse:
- Ele ainda não mudou, Srta. Kelsey. Talvez tenha ficado como homem tempo demais.
- Tudo bem. O importante é ele estar aqui agora.
Fiquei olhando meu tigre branco. Ele havia erguido a cabeça brevemente quando entrei na sala e então deitou-a de novo sobre as patas e fechou os olhos. Eu não podia deixar de me sentir decepcionada por ele não estar deitado perto de mim. O simples fato de tocar-lhe o pelo já teria sido reconfortante, mas então eu me repreendi: Eu deveria estar mais preocupada com ele do que comigo. Eu não fui torturada meses a fio. O mínimo que posso fazer é não pressioná-lo.
Nilima queria saber de tudo que acontecera e o Sr. Kadam achou que seria uma boa idéia se todos partilhássemos nossas histórias de modo que pudéssemos ouvir as diferentes partes de nossa aventura. Nilima concordou em preparar a comida e pediu minha ajuda. Kishan queria ficar com Ren, que parecia estar dormindo. Disse que era melhor deixar os tigres adormecidos quietos, por enquanto.
Ele me carregou até a cozinha e me colocou numa banqueta antes de voltar para a biblioteca. Nilima separou ingredientes para fazer omeletes e rabanadas e me atribuiu a tarefa de ralar o queijo e picar cebolas e pimentões. Trabalhamos em silêncio por um tempo, mas percebi que ela me olhava.
- Estou bem, Nilima, de verdade. Não precisa se preocupar comigo. Não sou tão frágil quanto Kishan me faz parecer.
- Ah, não é isso. Não acho que você seja nada frágil. Na verdade, acho que você é uma pessoa muito corajosa.
- Então por que está me olhando tanto?
- Você é... especial, Srta. Kelsey.
Ri o máximo que meu maxilar dolorido me permitiu.
- Como assim?
- Você é mesmo o centro. E o que mantém esta família unida. Meu avô estava tão... desesperado antes de você aparecer. Você o salvou.
- Acho que o Sr. Kadam está muito mais habituado a me salvar.
- Não. Nós nos tornamos uma família quando você se tornou parte de nossas vidas. Embora exista perigo, ele nunca se sentiu tão realizado e feliz como quando você está aqui. Ele a ama. Todos eles a amam.
Constrangida, eu disse:
- E você, Nilima? Quer mesmo essa vida maluca? Em algum momento você desejou uma vida livre de espionagem e perigos?
Ela sorriu enquanto colocava óleo na frigideira e punha quatro fatias de rabanada para fritar.
- Meu avô precisa de mim. Como posso abandoná-lo? Eu não poderia deixá-lo sozinho e sem amparo. Também tenho minha família, é claro. Meus pais me perguntam por que ainda não me casei e por que sou tão dedicada à minha carreira. Eu lhes digo que fico feliz em servir. Na verdade, eles não compreendem, mas aceitam. Vivem confortavelmente graças à ajuda do meu avô.
- Eles sabem do parentesco que têm com ele?
- Não. Isso eu não contei a eles. Levou muito tempo para que meu avô me confiasse seu segredo. Eu não o partilharia sem o seu conhecimento.
Ela bateu os ovos, acrescentou um pouco de creme de leite e começou a fazer a primeira omelete. Havia alguma coisa confortadora e acolhedora em estar na cozinha, preparando a comida com outra mulher.
- Agora que você está aqui - disse Nilima -, vejo que ele talvez finalmente encontre descanso. Talvez ele possa enfim deixar de lado suas preocupações, sua grande responsabilidade com os príncipes. Tenho muito orgulho de contar com um antepassado assim tão abnegado e me sinto honrada por conhecê-lo.
- Ele é uma pessoa muito nobre. Eu não conheci nenhum dos meus avôs. Teria tido muito orgulho de tê-lo como avô também.
Ficamos em silêncio enquanto terminávamos de preparar a refeição. Pedi néctar de flor adoçado com mel como bebida e fatiei o melão. Nilima terminou de preparar os pratos, colocou-os numa grande bandeja e a carregou para a sala do pavão. Kishan voltou para me pegar e o Sr. Kadam juntou-se a nós um instante depois. O tigre branco ergueu a cabeça e farejou.
Coloquei um prato gigante de ovos no chão diante dele. Ele começou a lamber o prato imediatamente, empurrando os ovos de um lado para outro até conseguir de alguma forma abocanhá-los. Aproveitei a oportunidade e lhe fiz um carinho na cabeça, coçando atrás de suas orelhas. Ele não rosnou dessa vez e inclinou a cabeça para a minha mão. Então devo ter tocado em algum ponto sensível, pois seu peito roncou baixinho.
Tentei tranquilizá-lo.
- Está tudo bem, Ren. Eu só queria dizer oi e dar seu café da manhã. Sinto muito se o machuquei.
Kishan se inclinou para a frente e disse:
- Kells, por favor. Afaste-se.
- Eu vou ficar bem. Ele não vai me machucar.
Meu tigre branco se levantou e se aproximou de Kishan. Isso me doeu. Não pude deixar de me sentir traída, como se o bichinho de estimação da família tivesse se voltado contra mim e tentado morder minha mão. Eu sabia que estava sendo irracional, mas suas atitudes me feriam. Ele pôs uma pata de cada lado do prato e me fitou até eu baixar os olhos. Então ele retomou seu café da manhã.
O Sr. Kadam acariciou minha mão e disse:
- Vamos saborear nossa refeição e partilhar com Nilima o que aconteceu. Tenho certeza de que Ren também gostará de ouvir.
Assenti e empurrei a comida de um lado para outro no prato. De repente, estava sem fome.
- Descemos de paraquedas numa clareira a alguns quilômetros do acampamento dos baigas e andamos até lá - começou Kishan. - Um ex-piloto que costumava trabalhar para o Sr. Kadam nas Linhas Aéreas
Tigre Voador concordou em nos deixar lá. Ele nos levou num daqueles antigos aviões militares da Segunda Guerra Mundial, que mantém em boas condições.
Nilima assentiu, bebericando o néctar.
Kishan esfregou o maxilar.
- O sujeito devia ter pelo menos 90 anos. A princípio duvidei que o homem idoso ainda fosse capaz de pilotar, mas ele certamente provou sua habilidade. A queda foi suave e sem esforço, apesar do fato de Kelsey quase não ter saltado.
- Não foi igual ao treinamento - objetei, em minha defesa.
- Você saltou três vezes durante o treinamento e também comigo em Shangri-lá e em todas as vezes se saiu bem.
- Aquilo era diferente. Era de dia e eu não tinha que... que guiar.
Ele explicou:
- Durante o treinamento, saltamos em dupla. - Frustrado, ele levantou a voz. - Você sabia que era só pedir. Eu teria saltado com você, mas você teimou que tinha que fazer aquilo sozinha.
- Bem, se você não tivesse sido tão... abusado no salto em dupla...
- E se você não fosse tão paranóica com medo de que fosse tocá-la...
- Não teria nenhum problema! - dissemos os dois ao mesmo tempo.
Minha voz soou aguda, em pânico, enquanto eu fuzilava Kishan com o
olhar.
- Podemos prosseguir, por favor?
Kishan estreitou os olhos, lançando-me um olhar que dizia que continuaríamos essa discussão mais tarde.
- Como eu disse, Kelsey quase não saltou a tempo. Kadam foi o primeiro e então tive que forçar Kelsey antes que perdêssemos o timing do salto.
- Forçar é mesmo a palavra correta - murmurei. - O que fez foi me arrastar com você.
Ele me fitou significativamente.
- Você não me deu outra opção.
Ele me oferecera, sim, uma opção. A opção de deixar tudo para lá, esquecer Ren e fugir com ele. Era isso ou saltar do avião sozinha.
Eu não tinha muita certeza se ele estava falando sério ou apenas tentando me fazer saltar. Eu acabara de abrir a boca para lhe dar um sermão sobre a distância apropriada, quando ele grunhiu, zangado, agarrou minha mão e saltou.
- Depois que chegamos à clareira - ele continuou assumimos nossos disfarces e seguimos caminhos separados. Eu assumi a aparência de Kelsey, usando uma réplica de seu amuleto.
- Eu assumi a aparência do criado baiga - acrescentei. - Por falar nisso, foi muito desconfortável vê-lo sendo eu, Kishan.
- Foi igualmente desconfortável ser você. Minha missão era procurar Lokesh e mantê-lo ocupado, então me escondi atrás de um edifício até ouvir o sinal: um rugido de tigre.
O Sr. Kadam o interrompeu.
- Esse era eu, disfarçado de tigre. Corri pela floresta para disparar algumas armadilhas e atrair os soldados.
- Certo - disse Kishan. - Kelsey começou a explodir coisas, o que afugentou qualquer soldado retardatário, e assim não encontrei quase nenhuma resistência para entrar no acampamento. Encontrar Lokesh foi outra história. Tive que tirar de combate seu cerco de guardas altamente treinados. Eliminei vários com o chakram e desativei as luzes antes que eles sequer me vissem. Depois disso usei minha aparência em meu beneficio.
Desconfiada, perguntei:
- Como exatamente você usou a minha aparência em seu benefício?
Kishan abriu um largo sorriso.
- Agi como uma mulher. Eu entrei na sala tropeçando, fingi surpresa e medo e pedi a todos aqueles homens grandes e fortes que me protegessem, dizendo que havia um louco tentando me matar com um disco dourado. Você sabe, pisquei os olhos e flertei com eles. Coisas de mulher.
Cruzei os braços e fuzilei Kishan com o olhar.
- Sei. Por favor, continue.
Kishan suspirou e correu a mão pelos cabelos.
- Antes que você fique toda ofendida, que é sua reação padrão a mim, pode parar, porque sei o que está pensando.
Cruzei os braços sobre o peito.
- É mesmo? E o que é que eu estou pensando?
- Que eu estou tentando estereotipar as mulheres, você em particular. - Ele ergueu as mãos, exasperado. - Você não é assim, Kells. Eu só estava jogando com as cartas que me foram dadas e tentando usar todos os meus recursos!
- Tudo bem quando você usa os seus próprios recursos, mas não quando está usando os meus!
- Ótimo! Da próxima vez irei como Nilima!
- Ei! - disse Nilima. - Não quero ninguém usando os meus recursos.
- Talvez seja melhor continuarmos a história - interveio o Sr. Kadam.
Kishan fez cara feia e começou a resmungar sobre mulheres em operações militares e que da próxima vez iria sozinho.
- Eu ouvi isso. Você teria sido mutilado por Lokesh sem mim.
Eu sorri, irônica.
- De fato. Cada pessoa foi vital para o nosso sucesso - disse o Sr. Kadam. - Vou passar para a minha parte e você conclui mais tarde, Kishan.
Ele se recostou na cadeira e cruzou os braços sobre o peito.
- Por mim, tudo bem.
O Sr. Kadam começou contando a Nilima como era libertador ser tigre.
- O poder do tigre está além de qualquer coisa que eu imaginara. Como não sabíamos se o Lenço Divino funcionava apenas com disfarces humanos, tínhamos testado antes a transformação em um animal. Parece que podemos mudar para a forma de Kishan ou de Ren, mas nenhum outro animal. Quando chegamos, assumi a forma do tigre negro de Kishan. E então a Srta. Kelsey enrolou o Lenço em meu pescoço antes de nos separarmos.
Ele recuperou o fôlego antes de continuar.
- Corri pela selva e encontrei várias armadilhas com isca. Ativei duas delas, o que acionou alarmes, e logo ouvi o passo dos soldados em minha perseguição. Eles disparam armas, mas fui mais rápido. A certa
altura, um grupo achou que havia me encurralado. Estavam prestes a disparar quando me transformei em homem, o que os deixou chocados e me deu um momento para acionar a armadilha. Puxei uma corda presa a um naco de carne e os soldados foram erguidos no ar numa grande rede. Deixei-os pendurados na árvore e corri de volta ao acampamento para a segunda fase do plano. Quando cheguei ao acampamento, a Srta.Kelsey já havia destruído uma das duas torres de vigilância. Os aldeões corriam para todos os lados, temendo por suas famílias. Fiquei atrás de uma árvore e mudei de aparência mais uma vez.
Nilima se inclinou para a frente.
- Em que se transformou dessa vez?
- Assumi a forma de um deus baiga chamado Dulha Dao, que, segundo eles, ajuda a evitar doenças e acidentes. Reuni as pessoas à minha volta e lhes disse que estava ali para ajudá-las a vencer aquele estranho. Elas ficaram mais do que felizes em cooperar para derrubar a casa do maligno. A Sra. Kelsey deixara a gada num local discreto para que eu a pegasse. Normalmente, ela é pesada para mim, mas, quando a manejei como Dulha Dao, a arma se tornou leve. Com a ajuda dos aldeões, derrubamos a parede e incapacitamos os homens de Lokesh.
- Como era sua aparência? - perguntou Nilima.
Ele corou, então eu intervim.
- Ah, o Sr. Kadam estava muitíssimo bem como Dulha Dao. Ele parecia um dos homens da tribo, só que mais alto, mais corpulento e muito bonito. O cabelo era comprido e cheio e parte dele estava envolta num coque no alto da cabeça, com a outra parte descendo pelas costas.
Nilima sorriu com a minha descrição.
- Era musculoso e seu belo tórax, assim como o rosto, era coberto por tatuagens. Estava de peito nu, usando pesados colares de contas e descalço, vestindo uma saia envelope. Parecia amedrontador, mas de um jeito bom. Principalmente, imagino, quando estava brandindo a gada.
Quando terminei minha descrição, todos me olhavam e Nilima ria abertamente.
- O que foi? - perguntei, constrangida. - Está bem. Parece que eu acho atraentes os homens indianos corpulentos. O que há de errado nisso?
Kishan tinha a testa franzida. O Sr. Kadam parecia... satisfeito e Nilima dava risadinhas.
- Absolutamente nada, Srta. Kelsey. Sei que eu teria pensado a mesma coisa - disse ela.
O Sr. Kadam pigarreou.
- Sim... bem... agradeço a descrição lisonjeira, de qualquer forma. Faz muito tempo que uma mulher não me acha... corpulento.
Então eu comecei a rir e Nilima me acompanhou.
- Todos prontos para continuar? - perguntou o Sr. Kadam.
- Sim - respondemos em uníssono.
- Como eu ia dizendo, as pessoas se juntaram a mim e amarramos todos os guardas. Então seguimos para o centro de comando. As portas eram fortificadas e estavam trancadas. Revistamos os homens à procura da chave, mas não encontramos nenhuma. Foi mais fácil eu abrir um buraco na parede do que derrubar aquelas portas. Finalmente entrei no complexo e encontrei Kelsey e Kishan prostrados no chão e Lokesh em nenhum lugar à vista. A sala estava cheia de uma espécie de doce.
- Balas duras - acrescentei.
- Como isso aconteceu? - perguntou Nilima.
- Eu tinha que fazer alguma coisa e o Fruto Dourado era a única arma a que eu podia ter acesso, então pedi uma tempestade de balas duras.
- Muito inteligente. Essa nunca praticamos. Parece que funcionou bem - comentou o Sr. Kadam.
- Não teria funcionado por muito tempo. Lokesh se recupera rapidamente. A única coisa que o levou a fugir foi o senhor. O senhor e os baigas salvaram o dia.
- Então Lokesh tinha o poder de congelar vocês?
- Tinha.
- Você percebeu algum outro poder dele?
- Sim.
- Ótimo. Vamos falar sobre isso mais tarde.
- Está bem. Vou escrever sobre tudo o que aconteceu enquanto está fresco em minha memória.
- Muito bom. Continuando, depois que Kishan e Kelsey encontraram Ren, os baigas quiseram deixar o acampamento quanto antes. Pegaram tudo o que podiam carregar e seguiram em fila selva adentro. Nós os acompanhamos em parte porque eu me sentia responsável por levá-los para o mais longe possível de Lokesh e em parte porque eles seguiram na direção que precisávamos ir. Pouco antes de partirmos, Ren apanhou uma faca e perfurou a pele de seu braço.
Inclinei-me para a frente.
- Para quê?
- Para remover um dispositivo de rastreamento que Lokesh havia colocado ali.
Olhei para o meu tigre branco com simpatia. Seus olhos estavam fechados, mas as orelhas se moviam para a frente e para trás. Ele estava ouvindo.
- Seguimos com os baigas, fizemos um banquete com eles e partimos logo depois que lhe enviei o sinal, Nilima.
- O senhor representa uma divindade muito bem - brinquei.
- Bem, parece que eles acreditaram que nós quatro éramos divindades. Se eu tivesse visto as coisas que eles viram, também teria acreditado nisso.
- Eles realmente usaram magia para manter Ren preso?
- Quando falei com eles sobre isso, o gunia afirmou que tem, sim, poder sobre os tigres e que usou sua magia para manter Ren lá. Ele pode criar uma espécie de barreira em torno do acampamento a fim de proteger a aldeia contra ataques de tigres. No entanto, ele disse que há alguns dias o feitiço foi alterado para atrair tigres para a aldeia. Parece que os soldados haviam sido importunados por ataques de tigres durante toda a semana.
- Ah, então foi por isso que Kishan conseguiu entrar?
- Parece que sim.
- Isso significa que Ren poderia ter saído?
- Possivelmente, mas Lokesh também parece ter poderes próprios. Presumo que usar os baigas para conter Ren fosse apenas um plano B para o caso de ele estar distraído demais para incapacitar Ren.
- Ele é horrível - eu disse baixinho. - Ren era seu prêmio máximo, seu troféu. Que ele esperou e caçou durante séculos. Não o teria deixado escapar.
- Acho que ele perdeu o interesse em Ren - interveio Kishan. - Ele está atrás de outra pessoa agora.
O Sr. Kadam sacudiu a cabeça discretamente.
- De quem? - perguntei.
Ele não respondeu.
- De mim, não é? - perguntei, sem emoção.
Por fim, Kishan falou, dirigindo-se ao Sr. Kadam.
- E melhor que ela saiba para que esteja preparada. - Virando-se para mim, disse: - Sim. Ele está determinado a ir atrás de você, Kells.
- Por quê? Isto é, por que ele está atrás de mim?
- Porque ele sabe como você é importante para nós. E porque... você o derrotou.
- Aquela não era eu. Era você.
- Mas ele não sabe disso.
Kishan me lançou um olhar significativo.
Gemi baixinho e ouvi apenas parcialmente quando Kishan começou a descrever nossa briga com Lokesh. Eu só comentava quando Kishan esquecia alguma coisa.
Ren agora nos observava e ouvia atentamente o que dizíamos. Coloquei meu prato com a comida intacta no chão, esperando que ele estivesse interessado. Ele me observou com curiosidade e então se levantou e se aproximou alguns passos.
Por fim, comeu os ovos, mas empurrou as rabanadas de um lado para outro, sem conseguir colocá-las na boca. Com cautela, usei meu garfo para apanhar uma fatia grossa. Ele a puxou delicadamente do garfo e a
engoliu de uma só vez. Fiz o mesmo com a outra. Depois de lamber o prato, deixando-o limpo, Ren se deitou perto de Kishan e começou a lamber o açúcar das patas.
Kishan ficara quieto e, quando ergui os olhos, vi que me observava. Seus olhos se enrugaram nos cantos com um leve toque de tristeza. Desviei o olhar. Ele franziu a testa e recomeçou a falar. Quando chegou à parte em que Lokesh ameaçou me matar, fazendo parar meu coração, eu o interrompi e esclareci:
- Lokesh não estava falando de mim.
- Estava sim, Kells. Ele devia saber quem você era. Ele disse: "Vou matá- -lo, parar o coração dele."
- Sim, mas por que você, disfarçado como Kelsey, estaria preocupado comigo, em meu disfarce de criado baiga? Ele disse matá-lo, não matá-la. Ele pensou apenas que eu fosse um traidor.
- Mas a ameaça de Lokesh matar você foi a razão de eu ter parado.
- Pode ter sido essa a razão de você soltá-lo, mas ele não estava me ameaçando.
- Então quem ele estava ameçando?
Olhei para baixo, para o tigre branco, e senti meu rosto se inflamar.
- Ah - disse ele, vagamente. - Ele estava ameaçando Ren. Gostaria de ter entendido isso.
- Sim, ele estava ameaçando Ren. Ele sabia que eu não faria nada para prejudicá-lo.
- Claro que você não faria.
- O que está insinuando? E o que você quis dizer ao afirmar que gostaria de ter entendido isso? Que não teria parado?
- Não. Sim. Talvez. Eu não sei o que teria feito. Não posso prever como teria reagido.
O tema de nossa discussão aguçou os ouvidos do tigre. Ele olhou para mim.
- Bem, então fico feliz que você tenha entendido mal. Caso contrário, Ren talvez não estivesse aqui neste momento.
Kishan suspirou.
- Kelsey.
- Não! É bom saber que você estaria disposto a sacrificá-lo!
O Sr. Kadam se remexeu na cadeira.
- Não teria sido uma decisão fácil para ele, Srta. Kelsey. Ensinei aos dois garotos que, embora cada indivíduo seja de grande importância, às vezes é necessário fazer sacrifícios pelo bem de todos. Se ele tivesse a oportunidade de livrar o mundo de Lokesh, sua primeira reação teria sido pôr fim à vida do tirano. O fato de ele ter se contido fala da profundidade da emoção que sentia no momento. Não faça mau juízo dele.
Kishan se inclinou para a frente, juntando os dedos, e fitou o chão.
- Eu sei quanto ele significa para você. Estou certo de que teria tomado a mesma decisão se soubesse que Lokesh estava falando de Ren e não de você.
- Tem certeza disso?
Ele ergueu os olhos para os meus e trocamos pensamentos silenciosos. Ele sabia o que eu estava perguntando. Havia mais em minha pergunta do que o Sr. Kadam e Nilima percebiam. Eu estava perguntando a Kishan se ele conscientemente deixaria o irmão morrer para se assegurar de que teria a vida que queria ter. Seria fácil para ele ocupar o lugar de Ren, caso o irmão não estivesse mais aqui. Eu estava lhe perguntando se ele era esse tipo de homem.
Kishan me estudou, pensativo, por alguns segundos e então, com absoluta sinceridade, disse:
- Eu prometo a você, Kelsey, que irei protegê-lo com a minha vida até o fim dos meus dias.
Seus olhos dourados brilharam e perfuraram os meus. Ele falava sério e eu de repente percebi que ele havia mudado. Não era o mesmo homem que eu encontrara na selva um ano antes. Perdera a atitude cínica, rabugenta e triste. Era um homem lutando por sua família, por um propósito. Ele nunca mais cometeria o mesmo erro que cometera com Yesubai. Olhando em seus olhos, eu soube que, independentemente do
que acontecesse em nosso futuro, eu poderia contar com ele para qualquer coisa.
Pela primeira vez desde que o conhecera, vi o manto de um príncipe cair sobre seus ombros. Ali estava um homem que se sacrificaria pelos outros. Ali estava um homem que cumpriria seu dever. Ali estava um homem que reconhecia suas fraquezas e se esforçava para superá-las. Ali estava um homem me dizendo que eu poderia escolher outro e que ele cuidaria de nós e nos protegeria, mesmo que isso lhe partisse o coração.
- Eu... peço desculpas por duvidar de você - gaguejei. - Por favor, me perdoe.
Ele me dirigiu um sorriso triste.
- Não há nada para perdoar, bilauta.
- Posso continuar a história a partir daqui? - perguntei baixinho.
- Por que não? - respondeu ele.
A primeira coisa que contei a Nilima foi como usei o Fruto Dourado para deter os veículos, enchendo os tanques de gasolina com pão de ló, e as armas, obstruindo-as com cera de abelha. O problema era que isso só funcionara nas armas e nos carros que eu podia ver. Fora por isso que Lokesh conseguira escapar em seu carro e os homens que eu não podia ver ainda tinham armas que funcionavam.
Descrevi a chuva de balas duras, como Lokesh escapara e como Fanindra nos levara até Ren. Então falei sobre o encontro comigo. Contei a ela que havia me disfarçado como o criado baiga que estava ajudando Lokesh, provável motivo por que Ren me deu um soco na cara. Expliquei que o criado havia sido forçado a trabalhar com Lokesh e que tinha tosquiado o cabelo como sinal de arrependimento, oferecendo-o a Ren ao implorar por seu perdão.
Descrevi em grande detalhe o banquete baiga e contei a Nilima sobre as duas mulheres que foram oferecidas como esposas para os meus filhos. Ela revirou os olhos e se solidarizou comigo enquanto bebia seu néctar. Acrescentei que parecia que Kishan queria uma das irmãs como esposa, mas Ren havia discutido com ele.
Kishan fez cara feia.
- Eu lhe disse que não foi isso que aconteceu.
- Então o que foi que aconteceu?
Pelo canto do olho, peguei o Sr. Kadam mais uma vez sacudindo a cabeça discretamente e voltei-me rápida para ele.
- O que foi agora? O que vocês dois não querem me dizer?
O Sr. Kadam mais que depressa tentou me tranqüilizar.
- Nada, Srta. Kelsey. É só que - ele fez uma pausa, pouco à vontade - foi considerado muito rude de nossa parte rejeitar as mulheres e os garotos estavam tentando demonstrar sua relutância a fim de apaziguar os líderes da tribo.
-Ah.
O Sr. Kadam e Kishan se fitaram. Kishan desviou o olhar com uma expressão de desagrado, irritação e impaciência. Olhei para Nilima, que parecia confusa. Ela observava o Sr. Kadam com atenção.
- Está acontecendo alguma coisa estranha aqui - eu disse - e me sinto muito cansada para tentar descobrir o que é, mas tudo bem. Na verdade, não ligo mesmo para as duas mulheres. O assunto já foi encerrado. Temos Ren de volta e isso é tudo que importa.
Nilima pigarreou e se levantou. Reuniu a louça e estava levando a bandeja para a cozinha, para lavá-la, quando Ren decidiu assumir a forma humana. Todos na sala se imobilizaram. Ele nos olhou, um de cada vez, e então sorriu para Nilima.
- Posso ajudá-la com isso? - perguntou educadamente.
Ela fez uma pausa e sorriu, assentindo com a cabeça. Todos nós o fitamos, em expectativa, esperando que falasse conosco, mas, em vez disso, ele ajudou Nilima a levar tudo para a cozinha em silêncio. Nós o ouvimos perguntar a ela se gostaria de ajuda com a louça. Ela disse que cuidaria disso sozinha e indicou que os outros, referindo-se a nós, provavelmente gostariam de conversar com ele um pouco. Ele entrou na sala, hesitante, e avaliou a expressão de nós três.
Então se sentou perto de Kishan e disse em voz baixa:
- Por que tenho a sensação de estar diante da Inquisição Espanhola?
- Só queremos nos assegurar de que você está realmente bem - disse o Sr. Kadam.
- Estou relativamente bem.
Suas palavras pairaram no ar e imaginei que o restante de sua frase fosse para um homem que foi torturado durante meses.
Eu me arrisquei:
- Ren, eu sinto... tanto. Não devíamos tê-lo deixado lá. Se eu soubesse naquele momento que tinha o poder do raio, poderia tê-lo salvado. Foi minha culpa.
Ren estreitou os olhos e me estudou.
- Você não teve culpa de nada, Kells - Kishan me contradisse. - Ele a empurrou para mim. Foi tudo decisão dele. Queria que você ficasse em segurança. - Ele fez um gesto de cabeça para Ren. - Diga a ela.
Ren olhou para o irmão como se este estivesse falando alguma coisa sem sentido.
- Eu não me lembro do episódio da mesma forma que você - observou ele -, mas se é o que diz...
Ren deixou que suas palavras morressem e me olhou com curiosidade, mas não de uma forma positiva. Era como se eu fosse uma criatura estranha e nova que ele encontrara na selva e ainda não se decidira se devia me devorar ou brincar me jogando de uma pata para outra. Ao me estudar abertamente, ele franziu o nariz, como se farejasse alguma coisa desagradável, e então falou com o Sr. Kadam:
- Obrigado por me salvar. Eu deveria saber que traçaria um plano para me libertar.
- Na verdade, foi a Srta. Kelsey quem teve a idéia de que eu personificasse uma divindade. Sem o Lenço Divino que ela e Kishan foram buscar, não teríamos conseguido resgatar você. Eu não tinha a menor idéia de onde encontrá-lo. Somente por meio da visão, na qual estava o criado baiga, conseguimos descobrir onde Lokesh estava mantendo você. E apenas com as armas que nos foram dadas por Durga fomos capazes de dominar os guardas.
Ren assentiu e sorriu para mim.
- Parece que tenho com você uma dívida de gratidão. Obrigado por seus esforços.
Alguma coisa estava errada. Ele não parecia o Ren que eu conhecia. Sua atitude em relação a mim era fria, distante. Kishan nem olhava para Ren.
Ficamos todos ali, sentados em silêncio. A tensão, densa, propagava-se entre nós. De repente me vi invejando Nilima, que estava na cozinha. Havia certamente um problema no ar e em nada ajudava ver os três homens ali me olhando com perguntas e preocupação nos olhos. Primeiro eu precisava falar com Ren. Depois que tivéssemos nos entendido, eu passaria para Kishan.
Ergui as sobrancelhas significativamente para o Sr. Kadam e ele enfim compreendeu minha mensagem não dita. Ele pigarreou e anunciou:
- Kishan, você se importa de me ajudar a mudar um móvel de posição no meu quarto? E pesado demais para que eu o levante sozinho.
Ren se levantou e disse:
- Eu não me importo de ajudar. Kishan pode ficar.
O Sr. Kadam sorriu.
- Por favor, sente-se e descanse um pouco mais. Kishan e eu damos conta e acredito que a Srta. Kelsey gostaria de falar com você sozinho.
- Eu acho que ainda não é seguro... - começou Kishan.
Meus olhos estavam fixos em Ren.
- Está tudo bem, Kishan. Ele não vai me machucar.
Kishan se levantou e encarou Ren, que assentiu e disse:
- Não vou machucá-la.
Kishan suspirou, me pegou com cuidado e me acomodou no sofá, perto de Ren. Antes de sair, ele avisou:
- Estarei por perto. Se precisar de mim, é só gritar. - Então voltou-se para Ren e ameaçou: - Não a machuque. Estarei de ouvidos atentos.
- Você não vai ficar ouvindo nossa conversa - eu disse.
- Vou, sim.
Fechei a cara. Kishan me olhou enquanto saíam, mas eu o ignorei. Finalmente eu estava sozinha com Ren. Tinha tantas coisas para dizer a
ele... só que não sabia como agir. Seus olhos azul-cobalto me avaliavam como se eu fosse um pássaro estranho que de repente pousasse em seu braço. Esquadrinhei seu rosto bonito e então falei:
- Se não estiver muito cansado, gostaria de conversar com você um minuto.
Ele deu de ombros.
- Como quiser.
Acomodei minha perna com cuidado na almofada de modo a ficar de frente para ele.
- Eu... eu senti tanto a sua falta. - Ele ergueu uma sobrancelha. - Tenho tanta coisa para lhe dizer que não imagino nem por onde começar. Sei que está cansado e provavelmente ainda sente dor, portanto serei breve. Queria dizer que sei que você precisa de tempo para se recuperar e que entendo se preferir ficar sozinho agora. Mas estou aqui se precisar de mim.
Respirei fundo e continuei:
- Posso ser uma boa enfermeira, mesmo que você seja rabugento. Vou lhe trazer canja e biscoitos de chocolate com manteiga de amendoim. Vou ler Shakes- peare ou poemas ou o que você quiser. Podemos começar com O conde de Monte Cristo. - Tomei sua mão entre as minhas. - Por favor, é só você me dizer do que precisa e terei prazer em providenciar.
Ele retirou a mão delicadamente e disse:
- É muita gentileza sua.
- Isso não tem nada a ver com gentileza. - Aproximei-me dele e segurei seu rosto entre as mãos. Ele respirou fundo quando eu disse: - Você é meu porto seguro. Eu te amo.
Eu não queria pressioná-lo, mas precisava dele. Tínhamos ficado separados por muito tempo e finalmente ele estava aqui e eu podia tocá-lo. Inclinei-me para a frente e o beijei. Ele ficou rígido, surpreso. Meus lábios se uniram aos seus e senti a umidade das lágrimas em meu rosto. Envolvi seu pescoço com os braços e deslizei para mais perto até estar quase sentada em seu colo.
Um de seus braços estava esticado, apoiado no sofá, atrás de nós, e sua outra mão descansava em sua coxa. Ele parecia distante. Não me abraçou nem correspondeu ao meu beijo. Beijei-lhe o rosto e enterrei o rosto em seu pescoço, inalando seu cheiro morno de sândalo.
Depois de um momento, eu me afastei e deixei os braços caírem, desajeitados, no meu colo. Sua expressão de surpresa permaneceu. Ele tocou os próprios lábios e sorriu.
- Esse, sim, é o tipo de boas-vindas que um homem gosta de receber.
Eu ri, delirante de felicidade por ele estar de volta. Livrei-me das dúvidas e preocupações, percebendo que ele provavelmente só precisava de algum tempo para voltar a se sentir uma pessoa normal antes de poder fazer parte de um relacionamento outra vez. Ele gemeu de dor e eu me afastei para lhe dar mais espaço. Ele pareceu bem mais à vontade depois disso.
- Posso lhe fazer uma pergunta? - disse ele.
Tomei sua mão nas minhas e beijei sua palma. Ele observou minha atitude, intrigado, e retirou a mão.
- Claro que pode - respondi.
Ele estendeu a mão, puxando de leve minha trança, e girou a fita entre os dedos.
- Quem é você?
28
O pior aniversário de todos os tempos
Com um patético risinho nervoso, eu o repreendi:
- Isso não tem graça, Ren. Como assim quem sou eu?
- Por mais que eu aprecie suas proclamações de devoção eterna, acho que você deve ter batido a cabeça ao lutar com Lokesh. Ou me confundido com outra pessoa.
- Confundido você com outra pessoa? Não mesmo. Você é Ren, não é?
- Sim. Meu nome é Ren.
- Certo. Ren. O cara por quem estou loucamente apaixonada.
- Como pode declarar seu amor por mim se eu nunca havia posto os olhos em você?
- Você está com febre? - perguntei, tocando sua testa. - Tem alguma coisa errada? Será que você bateu a cabeça?
Examinei seu crânio com os dedos, à procura de alguma protuberância. Ele retirou delicadamente minhas mãos de sua cabeça.
- Eu estou bem, hã... Kelsey, não é? Não tem nada errado com a minha cabeça e eu não estou com febre.
- Então por que não se lembra de mim?
- Provavelmente porque nunca a vi antes.
Não. Não. Não. Não. Não. Não! Isso não pode estar acontecendo!
- Nós nos conhecemos há quase um ano. Você é meu... meu namorado. Lokesh deve ter feito alguma coisa! Sr. Kadam! Kishan! - gritei.
Kishan entrou correndo na sala, como se sua cauda estivesse pegando fogo. Ele empurrou Ren, enfiando-se entre nós. Rapidamente me pegou no colo e me colocou na cadeira mais distante de Ren.
- O que foi, Kells? Ele machucou você?
- Não, não. Não foi nada disso. Ele não me conhece! Ele não se lembra de mim!
Kishan desviou os olhos, com sentimento de culpa.
- Você sabia! Você sabia disso e escondeu de mim?
O Sr. Kadam entrou na sala.
- Nós dois sabíamos.
- O quê? E por que não me contaram?
- Não queríamos assustá-la. Pensamos que pudesse ser apenas um problema temporário que se resolveria sozinho quando ele ficasse bom- explicou o Sr. Kadam.
Apertei o braço de Kishan.
- Então, com as mulheres baigas...
- Ele queria aceitá-las como esposas - explicou Kishan.
- E claro. Agora tudo faz sentido.
O Sr. Kadam sentou-se perto de Ren.
- Você ainda não consegue se lembrar dela?
Ren deu de ombros.
- Eu nunca tinha visto esta jovem até ela, ou Kishan, eu acho, surgir diante da minha jaula e me resgatar.
- Isso! Uma jaula. Foi numa jaula que nos vimos pela primeira vez. Lembra? Você estava no circo. Era um tigre de circo e eu desenhei você e li para você. Eu ajudei a libertá-lo.
- Lembro do circo, mas você nunca esteve lá. Lembro que eu mesmo me soltei.
- Não. Você não podia. Se tivesse a capacidade de se libertar, por que não teria feito isso séculos antes?
Ele franziu a testa.
- Não sei. Tudo de que me lembro é de sair da jaula, ligar para Kadam e ele ir até lá para me trazer para a índia.
O Sr. Kadam o interrompeu.
- Você se lembra de ir ver Phet na selva? De discutir comigo sobre levar a Srta. Kelsey com você?
- Eu me lembro de discutir com você, mas não sobre ela. Eu discutia sobre ir ver Phet. Você não queria que eu perdesse meu tempo, mas eu achava que não havia outro jeito.
Perturbada e emotiva, eu disse:
- E quanto a Kishkindha? Eu estava lá com você também.
- Eu me lembro de estar sozinho.
Confusa, perguntei:
- Como pode ser? Você se lembra do Sr. Kadam? E também de Kishan? E de Nilima?
- Sim.
- Então só não reconhece a mim?
- Parece que sim.
- E quanto ao baile do dia dos namorados, a luta com Li, os biscoitos de chocolate com manteiga de amendoim, os filmes a que assistimos, a pipoca, o Oregon, as aulas na faculdade, a ida à Tillamook? Tudo isso simplesmente... desapareceu?
- Não exatamente. Eu me lembro de lutar com Li, de comer biscoitos, da Tillamook, de filmes e do Oregon, mas não me lembro de você.
- Quer dizer que você foi para o Oregon sem nenhum motivo?
- Não. Fui para cursar a faculdade.
- E o que você fazia no tempo livre? Quem estava com você?
Ele franziu a testa, como se estivesse se concentrando.
- Ninguém a princípio e depois Kishan.
- Você se lembra de lutar com Kishan?
- Sim.
- Por que estavam lutando?
- Não consigo me lembrar. Ah, espere! Biscoitos. Brigamos por causa de biscoitos.
As lágrimas afloraram aos meus olhos.
- Isso é uma piada cruel. Como uma coisa dessas pode ter acontecido?
O Sr. Kadam se levantou e deu tapinhas em minhas costas.
- Não sei. Talvez seja apenas uma perda de memória temporária.
- Acho que não - funguei, irritada. - E muito específico. É só de mim que ele não se lembra. Foi Lokesh quem fez isso.
- Suspeito que a senhorita esteja certa, mas não vamos perder as esperanças. Vamos lhe dar tempo suficiente para se recuperar de seus ferimentos antes de nos preocuparmos demais. Ele precisa descansar e podemos tentar apresentá-lo a coisas que irão lhe reativar a memória. Enquanto isso vou entrar em contato com Phet para ver se ele tem algum medicamento herbáceo que nos ajude neste caso.
Ren ergueu uma das mãos.
- Antes que vocês todos me submetam a testes, ervas e viagens pelos caminhos da memória, eu queria ter algum tempo para mim.
Com isso, ele deixou a sala. Mais lágrimas encheram meus olhos.
- Acho que eu também quero ficar um pouco sozinha - gaguejei e saí mancando.
Quando cheguei à escada, após um avanço dolorosamente lento, fiz uma pausa. Agarrei o corrimão com força, minha visão embaçada pelas lágrimas. Senti uma mão em meu ombro e me virei para enterrar o
rosto molhado no peito de Kishan, soluçando. Eu sabia que não era justo procurar consolo em Kishan e chorar por seu irmão, mas não pude evitar.
Ele passou os braços sob meus joelhos e me pegou no colo. Segurando-me junto ao peito, ele me carregou escada acima. Depois de me deitar na cama, foi até o banheiro, voltou com uma caixa de lenços de papel e a colocou na mesinha de cabeceira. Kishan murmurou algumas palavras em híndi, tirou o cabelo do meu rosto, depositou um beijo em minha testa e me deixou sozinha.
No fim da tarde, Nilima veio me ver.
Eu estava sentada numa poltrona no meu quarto, agarrada ao meu tigre de pelúcia. Passara o dia chorando e dormindo. Ela me abraçou e se sentou no sofá.
- Ele não me reconhece - murmurei.
- Dê um tempo a ele. Aqui, eu trouxe um lanche para você.
- Não estou com fome.
- Você também não comeu nada no café da manhã.
Fitei-a com os olhos lacrimejantes.
- Não consigo comer.
- Tudo bem.
Ela foi até o banheiro e voltou com minha escova de cabelo.
- Vai ficar tudo bem, Srta. Kelsey. Ele está de volta e vai se lembrar de você.
Ela desfez a minha trança e começou a escovar meu cabelo em movimentos longos e suaves. Aquilo me confortou e me fez lembrar da minha mãe.
- Acha mesmo que ele vai?
- Acho. E mesmo que não recupere a memória, com certeza vai se apaixonar por você outra vez. Minha mãe tem um ditado que diz assim: "Um poço fundo nunca seca." Os sentimentos dele por você são profundos demais para desaparecerem completamente, mesmo numa época de estiagem como esta.
Ri em meio às lágrimas.
- Eu gostaria de conhecer sua mãe.
- Quem sabe um dia?
Ela me deixou sozinha então e, sentindo-me melhor, desci lentamente ao primeiro andar.
Kishan andava de um lado para outro na cozinha. Ele parou quando entrei e me ajudou a caminhar. Cobri com filme plástico os pratos com a comida intocada que Nilima levara para mim, colocando-os na geladeira.
- Seu tornozelo parece melhor - disse ele após uma breve inspeção.
- O Sr. Kadam me fez colocar gelo e ficar com o pé para cima o dia todo.
- Você está bem? - perguntou.
- É. Vou ficar bem. Não foi o reencontro que eu esperava, mas é melhor do que achá-lo morto.
- Vou ajudar você. Podemos trabalhar com ele juntos.
Dizer isso deve tê-lo magoado. Mas eu sabia que ele faria isso. Ele queria que eu fosse feliz e, se me ajudar a me reconcilar com Ren me fizesse feliz, ele não pouparia esforços.
- Obrigada. Agradeço muito.
Dei um passo em sua direção e quase caí. Ele me segurou e me puxou, hesitante, para os seus braços. Ele esperava que eu o empurrasse como se tornara hábito para mim ultimamente, porém, em vez disso, eu o abracei.
Ele acariciou minhas costas, suspirou e beijou-me a testa. Nesse momento Ren entrou na cozinha. Fiquei rígida enquanto ele nos olhava, esperando que reagisse ao fato de Kishan me tocar, mas ele nos ignorou completamente, pegou uma garrafa de água e saiu sem dizer palavra.
Kishan ergueu meu queixo com o dedo.
- Ele vai recuperar a memória, Kells.
- Certo.
- Quer assistir a um filme?
- Parece uma boa idéia.
- Ótimo. Mas um filme de ação. Nada daqueles seus musicais.
Eu ri.
- Ação, é? Algo me diz que você iria gostar de Indiana Jones.
Ele passou o braço pela minha cintura e me ajudou a andar até a sala de cinema da casa.
Só voltei a ver Ren tarde da noite. Ele estava sentado na varanda olhando a lua. Eu me detive, perguntando-me se ele não queria ficar sozinho. Então concluí que, se quisesse, era só me pedir que o deixasse.
Quando abri a porta de correr e saí do quarto, ele inclinou a cabeça, mas não se moveu.
- Incomodo? - perguntei.
- Não. Gostaria de se sentar?
- Sim.
Ele se levantou e educadamente me ajudou a me sentar diante dele. Examinei o rosto de Ren. Suas contusões haviam quase desaparecido e o cabelo fora lavado e cortado. Vestia roupas de grife casuais, mas os pés estavam descalços. Arquejei quando os vi. Ainda estavam roxos e inchados, o que significava que haviam sido terrivelmente machucados.
- O que ele fez com seus pés?
Seus olhos seguiram o meu olhar e ele deu de ombros.
- Ele os quebrou repetidamente até parecerem sacos de feijão inchados.
- Ah - eu disse, perturbada. - Posso ver suas mãos?
Ele as estendeu e eu as peguei delicadamente nas minhas, examinando-as com cuidado. A pele dourada estava intacta e os dedos, longos e retos. As unhas, que mais cedo estavam arrancadas e cheias de sangue, agora se mostravam inteiras e saudáveis. Virei-lhe as mãos e olhei a palma. Exceto por um talho na parte interna do braço que terminava no pulso, pareciam sem danos. Uma pessoa normal que tivesse tido as mãos quebradas em tantos lugares provavelmente ficaria aleijada. No mínimo, os nós dos dedos reparados estariam inchados e enrijecidos.
Traçando o talho levemente com o dedo, perguntei:
- E isto aqui?
- Isto foi de um experimento em que ele tentou drenar todo o sangue do meu corpo para ver se eu sobreviveria. A boa notícia é que sobrevivi. Mas ele ficou bastante aborrecido por ter sujado a roupa toda de sangue.
Ele tirou as mãos das minhas bruscamente e estendeu os dois braços ao longo do encosto do banco.
- Ren, eu...
Ele ergueu uma das mãos.
- Não precisa se desculpar, Kelsey. Não foi culpa sua. Kadam me explicou tudo.
- O que ele disse?
- Disse que Lokesh estava na verdade atrás de você, que queria o amuleto de Kishan que você usa agora e que, se eu não tivesse ficado para trás para lutar, ele teria apanhado nós três.
-Ah.
Ele se inclinou para a frente.
- Fico feliz que ele tenha me levado e não a você. Você teria morrido de uma forma horrível. Ninguém merece morrer assim.
- Você foi muito nobre.
Ele deu de ombros e olhou para as luminárias da piscina.
- Ren, o que ele... fez com você?
Ele se voltou para mim e baixou o olhar até meu tornozelo inchado.
- Posso? Assenti.
Ele ergueu minha perna delicadamente e a colocou em seu colo. Tocou a contusão arroxeada de leve e enfiou uma almofada debaixo do pé.
- Sinto muito que você tenha se machucado. E uma pena que não se cure tão rápido quanto nós.
- Você está se esquivando da minha pergunta.
- Algumas coisas neste mundo não devem ser ditas. Já é ruim o bastante que uma pessoa tenha conhecimento delas.
- Mas falar ajuda.
- Quando eu me sentir pronto para falar, contarei a Kishan ou a Kadam. Eles estão calejados por batalhas. Já viram muitas coisas terríveis.
- Eu também estou calejada por batalhas. Ele riu.
- Você? Não, você é frágil demais para ouvir as coisas por que passei. Cruzei os braços.
- Não sou assim tão frágil.
- Me desculpe. Eu a ofendi. Frágil não é a palavra certa. Você é... pura demais, inocente demais, para ouvir essas coisas. Não vou contaminar sua mente com pensamentos sobre o que Lokesh fez.
- Mas isso pode ajudá-lo.
- Você já sacrificou o bastante por mim.
- Tudo o que você passou foi para me proteger.
- Eu não me lembro disso, mas, se pudesse lembrar, tenho certeza de que ainda me recusaria a lhe contar tudo.
- Provavelmente. Você pode ser muito teimoso.
- É. Certas coisas nunca mudam.
- Você está se sentindo bem para rever algumas lembranças?
- Podemos tentar. Por onde você quer começar?
- Por que não começamos do início?
Ele assentiu e eu lhe falei sobre a primeira vez que o vi no circo e sobre o trabalho que eu fazia com ele. Disse como ele escapou da jaula e dormiu no feno e eu me culpei por não ter trancado a porta. Contei-lhe sobre o poema do gato e sobre o desenho dele que fiz em meu diário. O estranho era que ele se lembrava do poema. Até o declamou para mim.
Quando terminei, uma hora havia se passado. Ele ouvira com atenção e, no fim, assentiu com a cabeça. Parecia muito interessado em meu diário.
- Posso lê-lo? - perguntou.
Mudei de posição, desconfortável.
- Acho que talvez ajude. Tem uns poemas seus nele e é um bom registro de quase tudo que fizemos. Talvez reavive alguma coisa na sua memória. Mas é melhor se preparar para muito sentimentalismo feminino.
Ele ergueu uma sobrancelha e eu me apressei a explicar:
- Nós não tivemos um início romântico e tranqüilo. No começo eu o rejeitei, então mudei de idéia, depois o rejeitei novamente. Não foi a
melhor das decisões, mas pensei que soubesse o que estava fazendo na ocasião.
Ele sorriu.
- "Em tempo algum teve um tranqüilo curso o verdadeiro amor."
- Quando você leu Sonho de uma noite de verão?
- Não li. Estudei um livro de frases famosas de Shakespeare na escola.
- Nunca me contou isso.
- Ah, finalmente alguma coisa que eu sei e você não. - Ele suspirou. - Essa situação é muito confusa para mim. Peço desculpas se a magoo. Não é a minha intenção. O Sr. Kadam me contou que você perdeu seus pais. É verdade?
Assenti com a cabeça.
- Imagine se não conseguisse se lembrar de seus pais. Se tivesse ouvido histórias de um homem e uma mulher que se dissessem seus pais, mas que fossem estranhos para você. Eles teriam lembranças de você fazendo coisas de que você não se lembrava e teriam expectativas em relação a você. Acalentariam sonhos para o seu futuro, sonhos diferentes do que você talvez imagine para si mesma.
- Seria muito difícil. Eu provavelmente duvidaria do que estavam me dizendo.
- Exato. Principalmente se tivesse sido torturada física e mentalmente por meses a fio.
- Entendi.
Eu me levantei, meu coração se partia mais uma vez. Ren tocou minha mão quando passei.
- Não é minha intenção ferir seus sentimentos. Posso imaginar muitas coisas piores do que me dizerem que tenho uma namorada doce e gentil da qual não consigo me lembrar. Só preciso de tempo para me acostumar à idéia.
- Ren? Você acha... quer dizer, existe alguma possibilidade... será que você pode aprender... a me amar novamente?
Ele me olhou pensativo por um instante e disse:
- Eu vou tentar.
Assenti, em silêncio. Ele soltou minha mão e eu me fechei em meu quarto.
Ele vai tentar.
Uma semana se passou com pouca ou nenhuma melhora. Ele não conseguia se lembrar de nada a meu respeito, apesar dos esforços de Kishan, do Sr. Kadam e de Nilima. Começou a perder a paciência com todos, exceto com Nilima, com quem ele gostava de ficar. Imaginei que ela o importunasse menos com aquela história. Ela não me conhecia tão bem quanto os outros e falava de coisas de que ambos se lembravam.
Fiz todos os pratos de que ele gostava no Oregon, inclusive meus biscoitos de chocolate com manteiga de amendoim. Na primeira vez que os comeu ele pareceu gostar, mas depois expliquei o significado daqueles biscoitos e, na segunda vez, ele demonstrou menos entusiasmo. Não queria que eu ficasse decepcionada pelo fato de ele comer e isso não estimular sua memória. Kishan aproveitou sua relutância e acabava sozinho com cada fornada que eu assava. Parei de cozinhar logo depois disso.
Uma noite desci para jantar e deparei com todos me olhando, ansiosos, na sala de jantar, que estava enfeitada com bandeirolas cor de pêssego e marfim. Um grande bolo de várias camadas descansava no centro de uma mesa lindamente decorada.
- Feliz aniversário, Srta. Kelsey! - exclamou o Sr. Kadam.
- É meu aniversário? Esqueci completamente!
- Quantos anos está fazendo, Kells? - perguntou Kishan.
- Hã... 19.
- Ah, ela ainda é um bebê, hein, Ren?
Ren assentiu e sorriu educadamente.
Kishan me deu um abraço.
- Fique sentada aqui enquanto vou pegar os presentes.
Kishan me ajudou a me sentar e então saiu para buscar os presentes. O Sr. Kadam havia usado o Fruto Dourado para me oferecer meu prato favorito: cheeseburger, batatas fritas e um milkshake de chocolate. Cada um pôde escolher seus pratos favoritos também e todos rimos e
comentamos a escolha dos outros. Era a primeira vez que eu ria em muito tempo.
Depois que terminamos o jantar, Kishan anunciou que era hora da entrega dos presentes. Abri o pacote de Nilima primeiro. Era um frasco de perfume francês muito caro, que fiz passar de mão em mão.
Kishan cheirou e resmungou:
- O perfume natural dela é muito melhor.
Quando o frasco chegou a Ren, ele sorriu para Nilima e disse:
- Eu gosto.
O sorriso fácil desapareceu do meu rosto.
Em seguida, foi a vez do presente do Sr. Kadam. Ele deslizou um envelope sobre a mesa e piscou para mim quando enfiei o dedo sob a aba para abri-lo. Dentro havia a foto de um carro.
Eu a ergui.
- O que é isto?
- É um carro novo.
- Não preciso de um carro novo. Tenho o Porsche em casa.
Ele sacudiu a cabeça com tristeza.
- Não tem mais. Eu o vendi, assim como a casa, através de outra organização. Lokesh sabia dela e poderia rastreá-la até nós, então achei melhor não deixar vestígios.
Agitei a foto no ar e sorri.
- E que tipo de carro o senhor decidiu que eu preciso desta vez?
- Nada de mais, de verdade. Só um veículo para levá-la daqui para ali.
- Qual é o carro?
- Um McLaren SLR 722 Roadster.
- E muito grande?
- É um conversível.
- Cabe um tigre nele?
- Não. Só tem lugar para dois, mas os garotos agora são humanos pela metade do dia.
- Custa mais de 30 mil dólares?
Ele se remexeu e tentou se esquivar:
- Sim, mas...
- Quanto mais?
- Muito mais.
- Muito quanto?
- Uns 400 mil a mais.
Meu queixo caiu.
- Sr. Kadam!
- Srta. Kelsey, eu sei que é uma extravagância, mas quando o dirigir verá que vale cada centavo.
Cruzei as mãos diante do peito.
- Não vou dirigi-lo. Ele pareceu ofendido.
- Aquele carro foi feito para ser dirigido.
- Então que o senhor o dirija. Eu fico com o Jeep. Ele pareceu tentado.
- Se isso a deixa feliz, podemos partilhá-lo. Kishan bateu palmas.
- Mal posso esperar.
O Sr. Kadam sacudiu o dedo em sua direção.
- Ah, não! Você não. Vamos comprar para você um belo sedã. Usado.
- Eu sou um bom motorista! - protestou Kishan.
- Precisa praticar mais. Eu os interrompi, rindo.
- Está bem. Quando o carro chegar, falaremos mais sobre ele.
- O carro já está aqui, Srta. Kelsey. Está lá na garagem. Talvez possamos dar uma volta mais tarde.
Seus olhos brilhavam de entusiasmo.
- Está bem, somente o senhor e eu. Obrigada pelo meu presente extraordinário e maravilhosamente extravagante.
Ele assentiu, feliz.
- Muito bem. - Eu sorria. - Estou pronta para o próximo presente.
- Abra o meu - disse Kishan.
Ele me entregou uma grande caixa branca amarrada com uma fita azul de veludo. Eu a abri, tirei o delicado papel e toquei um tecido azul sedoso. Eu me levantei e tirei o macio presente da caixa.
- Ah, Kishan! É lindo!
- Mandei fazer igual ao vestido que você usou no Bosque dos Sonhos. Obviamente o Lenço não pôde copiar as flores de verdade entremeadas no tecido e em vez disso incluiu flores bordadas.
Delicadas flores azuis com caules e folhas de um verde suave corriam ao longo da bainha e pela lateral até a cintura, e então continuavam do outro lado até o ombro. Fadas aladas púrpura e laranja empoleiravam-se nas folhas.
- Obrigada! Eu adorei!
Eu o abracei e lhe dei um beijo no rosto. Seus olhos dourados cintilaram de prazer.
- Obrigada a todos!
- Hã... ainda tem o meu presente. Mas certamente não é tão interessante quanto esses outros.
Ren empurrou um presente embrulhado às pressas em minha direção e não viu meu sorriso tímido, pois olhou para as próprias mãos.
O pacote continha algo mole e macio.
- O que será? Deixe-me adivinhar. Um gorro e luvas? Não, eu não precisaria disso aqui na Índia. Ah, já sei, um lenço de seda!
- Abra para que possamos ver - disse Nilima.
Rasguei o papel de presente e pisquei algumas vezes.
O Sr. Kadam se inclinou para a frente.
- O que foi, Srta. Kelsey?
Uma lágrima rolou pelo meu rosto e rapidamente a enxuguei com o dorso da mão e sorri.
- É um par de meias muito lindo.
Voltei-me pare Ren.
- Obrigada. Você devia saber que eu estava precisando.
Ren assentiu e empurrou o resto de comida de um lado para outro no prato. Nilima pressentiu que havia alguma coisa errada, apertou meu braço e disse:
- Quem quer bolo?
Abri um sorriso luminoso, tentando aliviar a atmosfera.
Nilima cortou o bolo enquanto o Sr. Kadam adicionava bolas gigantes de sorvete a cada prato. Agradeci aos dois e comi um pedaço de bolo.
- É de pêssego! Nunca tinha comido bolo de pêssego. Quem o fez? O Fruto Dourado?
O Sr. Kadam estava ocupado servindo mais uma bola perfeita de sorvete.
- Na verdade, Nilima e eu que fizemos - disse ele.
- O sorvete - eu sorri - é de pêssego e creme também?
O Sr. Kadam riu.
- É. Na verdade, é da fábrica que você adora. Tillamook, se não estou enganado.
Comi outro pedaço do bolo.
- Bem que reconheci o sabor. E minha marca de sorvete favorita. Obrigada por pensar em mim.
O Sr. Kadam sentou-se para saborear seu pedaço e disse:
- Ah, bem, não foi idéia minha. Isso está planejado há muito... - Suas palavras morreram quando ele percebeu seu erro. Então tossiu, constrangido, e gaguejou: - Bem, basta dizer que não foi idéia minha.
- Ah.
Ele prosseguiu, pouco à vontade, tentando me distrair de chegar à conclusão de que meu antigo Ren havia planejado uma festa de aniversário de pêssegos e creme para mim com meses de antecedência. O Sr. Kadam começou a me falar sobre o pêssego como símbolo de vida longa na China e representação de boa sorte.
Eu me desliguei do que ele dizia. O bolo de repente ficou preso na minha garganta. Bebi um pouco de água para fazê-lo descer.
Ren empurrava o sorvete de pêssego pelo prato.
- Ainda temos aquele sorvete de chocolate com manteiga de amendoim? Não sou muito fã de pêssego com creme.
Levantei a cabeça e o olhei com choque e decepção. Ouvi o Sr. Kadam lhe dizer que estava no freezer. Ren empurrou a sobremesa de pêssego para o lado e saiu da sala. Eu fiquei ali sentada, imóvel, o garfo a meio caminho da boca.
Esperei. Logo senti a onda avassaladora de dor me arrastar. No meio do que deveria ser o céu, cercada pelas pessoas que eu amava, celebrando o dia do meu nascimento, eu vivia meu próprio inferno. Meus olhos se encheram de lágrimas. Pedi licença, me levantei e saí rapidamente. Kishan também ficou de pé, confuso.
Tentando inutilmente infundir entusiasmo na voz, perguntei ao Sr. Kadam se podíamos dar a volta de carro no dia seguinte.
- É claro - disse ele baixinho.
Subindo a escada, ouvi Kishan ameaçar Ren. Desconfiado, ele perguntou:
- O que foi que você fez?
- Eu não sei - foi a resposta sussurrada de Ren.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Assinar:
Postar comentários (Atom)


0 comentários:
Postar um comentário