terça-feira, 22 de outubro de 2013

Postado por Estante de Livros às terça-feira, outubro 22, 2013
26
Baigas
Percebi movimento e acordei, abrindo os olhos para um dossel verde- escuro. Kishan me carregava pela selva. Ele tinha novamente sua verdadeira aparência, o que, devo admitir, era um alívio. Eu não me sentira confortável vendo-o em seu disfarce.
- Kishan? Aonde estamos indo?
- Shh. Relaxe. Estamos seguindo os baigas selva adentro. Temos que ir para o mais longe possível do acampamento.
- Quanto tempo fiquei desacordada?
- Umas três horas. Como está se sentindo?
Toquei levemente o maxilar.
- Como se um urso tivesse me dado um soco. Ele está... bem?
- Está desorientado. Os baigas o carregam numa maca improvisada.
- Mas ele está bem?
- Relativamente bem.
Ele falou baixinho em outra língua com o Sr. Kadam, que se aproximou para examinar meu rosto e levar um cantil aos meus lábios. Bebi devagar, engolindo dolorosamente, enquanto movia o maxilar o mínimo possível.
- Você pode me pôr no chão, Kishan? Acho que posso andar.
- Está bem. Apoie-se em mim se precisar.
Ele baixou com cuidado minhas pernas até o chão e me firmou quando oscilei, tentando recuperar o equilíbrio. Manquei um pouco com meu tornozelo torcido, mas Kishan resmungou e logo me pegou no colo outra vez. Recostei-me em seu peito e senti meu corpo inteiro doer.
Escoriações me cobriam quase por completo e eu mal conseguia mover o maxilar.
Éramos parte de uma longa procissão. Os baigas avançavam silenciosa e sinuosamente entre as árvores. Eu nem conseguia ouvir seus passos. Dezenas de pessoas passavam e assentiam numa demonstração de respeito ao nos contornarem. Nem as mulheres nem as crianças faziam barulho. Eles não emitiam um só sussurro, enquanto se moviam como fantasmas através da selva escura.
Quatro homens grandes carregavam uma maca com uma forma prostrada. Quando passaram por nós, estiquei o pescoço para poder vê-lo. Kishan ajustou o passo atrás deles para que eu pudesse ver a forma inerte de Ren. Ele me endireitou facilmente e me abraçou um pouco mais forte, me apertando contra seu peito com uma expressão indecifrável.
Andamos por mais uma hora. Ren dormiu o tempo todo. Quando chegamos a uma clareira, um baiga idoso se aproximou do Sr. Kadam e humildemente prostrou-se diante dele. O Sr. Kadam voltou-se para nós e disse que os baigas acampariam para passar a noite. Fomos convidados para seus festejos comemorativos.
Imaginei se não seria melhor nós continuarmos em direção ao nosso ponto de encontro, mas decidi seguir a liderança do Sr. Kadam. Ele era o estrategista militar e, se pensava que era seguro, provavelmente era. Na verdade, era reconfortante deixar alguém assumir o comando. Também não faria mal deixar Ren dormir um pouco mais antes de prosseguirmos.
Ficamos observando os baigas montarem acampamento. Eles eram extremamente eficientes, mas estavam sem a maior parte de seus suprimentos. O Sr. Kadam teve pena deles e usou o Lenço Divino para criar acomodações para cada família. Minha atenção se desviou para Ren. Os homens o carregaram para uma tenda no momento em que o Sr. Kadam me chamou.
Kishan, vendo-me aflita, disse que iria ver como Ren estava. Colocou-me com cuidado perto do Sr. Kadam e então seguiu na direção da tenda.
Ele insistiu que seria melhor que eu ficasse com o Sr. Kadam, mas não explicou por quê.
Quando ele se afastou, o Sr. Kadam perguntou se eu usaria o Fruto Dourado para criar um banquete para os baigas. Eles precisavam ser alimentados. Vários estavam passando fome também. Lokesh os obrigara a permanecer no acampamento e usar sua magia para manter Ren contido. Eles não caçavam havia muito tempo. O Sr. Kadam me deu instruções e então usou o Lenço Divino para criar um tapete espesso em que toda a tribo pudesse se sentar.
Tirei o Fruto Dourado da mochila e comecei a criar os pratos que ele pedira. Arroz com cogumelos, manga picada misturada a outras frutas locais, cujos nomes eu esperava ter pronunciado corretamente, peixe assado, salada verde, legumes grelhados e, como extra, acrescentei uma torta gigante de morango com recheio de creme bavaroise e chantili, como a que havíamos comido em Shangri-lá. O Sr. Kadam ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada.
Ele convidou os baigas a se sentarem e a compartilhar do banquete. Kishan logo voltou e sentou-se ao meu lado. Ele sussurrou que os baigas estavam cuidando bem de Ren. Enquanto todos se acomodavam, tentei pedir licença para ficar com Ren. Quando me levantei, Kishan segurou meu braço com firmeza, sussurrou que eu deveria ficar perto do Sr. Kadam e enfatizou novamente que Ren ficaria bem. Ele parecia estar dizendo a verdade, portanto fiquei. O Sr. Kadam começou a falar na língua deles. Esperei pacientemente que terminasse seu discurso e continuei olhando na direção das tendas, esperando ter um vislumbre de Ren.
Quando o Sr. Kadam terminou, duas jovens baigas percorreram o perímetro do círculo, lavando as mãos de cada pessoa com água de flor de laranjeira. Quando já haviam lavado as mãos de todos, imensas tigelas de comida passaram de mão em mão. Não havia pratos ou utensílios. O Fruto Dourado poderia tê-los criado, mas o Sr. Kadam queria o banquete à moda dos baigas. Pegamos alguns punhados, comemos e então passamos a vasilha para a próxima pessoa. Eu não
estava com muita fome, mas Kishan não iria pegar a tigela até que eu tivesse comido pelo menos um punhado de cada tipo de comida.
Quando a comida completou o círculo e todos já haviam se servido de uma porção, as tigelas correram o círculo novamente. Esse processo continuou até toda a comida acabar. Usei meu cantil para limpar as mãos e tentei ter paciência quando os baigas passaram ao ritual seguinte. Quando sussurrei para Kishan que o fator tempo era crucial, ele disse que tínhamos o bastante e que Ren precisaria de algumas horas para se recuperar.
Os baigas começaram a celebrar de fato. Surgiram instrumentos musicais. Eles cantaram e dançaram. Duas mulheres se aproximaram de mim com tigelas de um líquido preto e falaram. O Sr. Kadam traduziu:
- Elas estão perguntando se você gostaria de fazer uma tatuagem em co-memoração à vitória de seu marido sobre o maligno.
- Com quem eles acham que sou casada?
O Sr. Kadam corou.
- Eles acreditam que você seja minha mulher.
- Eles não acham que sou um pouco jovem para o senhor?
- E uma prática normal na tribo mulheres muito jovens se casarem com homens mais velhos e mais sábios. Eles a viram usar o Fruto Dourado e acreditam que você seja uma deusa, minha companheira.
- Entendi. Bem, agradeça-lhes por mim, mas vou me lembrar muito bem dessa vitória sem ajuda. Só por curiosidade, o que, ou quem, eles acham que Kishan é?
- Acreditam que ele seja nosso filho e que viemos aqui para resgatar nosso outro filho.
- Então eles acham que tenho dois filhos adultos?
- As deusas podem permanecer jovens e bonitas para sempre.
- Quem dera.
- Mostre-lhes sua mão, Srta. Kelsey.
- Minha mão?
- A que tem o desenho de hena. Faça-a brilhar para que eles possam ver as marcas.
Ergui a mão e evoquei meu poder de raio. Minha mão brilhou, iluminada por dentro. A pele se tornou translúcida e o desenho de hena apareceu - vermelho num fundo branco.
O Sr. Kadam falou algo breve com as duas mulheres e felizmente elas fizeram uma reverência e me deixaram em paz.
- O que o senhor disse a elas?
- Eu lhes disse que já havia lhe dado uma tatuagem de fogo para que se lembrasse do episódio. Elas acreditam que a tatuagem deixa a mulher mais bonita. Não teriam compreendido se eu tivesse dito que não queria que sua pele fosse tatuada. Todos os homens baigas desejam uma esposa com tatuagens intrincadas.
Os baigas dançavam e celebravam. Um dos homens era um engolidor de fogo. Assisti ao espetáculo, impressionada com sua habilidade, mas estava com dor e exausta. Encostei-me em Kishan, que me abraçou, me dando apoio. Devo ter dormido um pouco, pois quando acordei o engolidor de fogo havia encerrado sua exibição. Todos observavam um movimento nas tendas. Fiquei imediatamente alerta. Ren surgiu, acompanhado por um baiga de cada lado. Eles haviam banhado seus ferimentos e ele vestia uma saia de linho enrolada no corpo, deixando o peito nu.
Ren mancava, mas parecia muito melhor. Embora ainda graves, seus ferimentos estavam se recuperando. Alguém havia lavado seus cabelos e os penteado para trás. Seus olhos abarcaram o cenário à sua volta e pousaram em nós três. Rapidamente seu olhar passou pelo Sr. Kadam e por mim, indo se fixar em Kishan. Um sorriso torto iluminou o rosto de Ren quando ele se aproximou de Kishan, que se levantou para cumprimentá-lo e oferecer apoio.
Meu coração começou a bater loucamente. Ren abraçou o irmão, batendo de leve em suas costas.
- Obrigado por me salvar e me mandar a comida. Ainda não pude comer muito, mas me sinto... bem. Ou, pelo menos, melhor.
Ren sentou-se perto de Kishan e começou a falar em sua língua nativa. Tentei fazer contato visual, mas ele não parecia interessado em falar comigo.
Por fim, limpei a garganta e perguntei:
- Quer comer mais alguma coisa?
Seus olhos se dirigiram brevemente a mim.
- Agora não, obrigado - ele disse com educação e se voltou para Kishan.
O Sr. Kadam deu tapinhas em minha mão enquanto o gunia dos baigas
se aproximava. Ele se ajoelhou diante do Sr. Kadam e falou rapidamente. Então se pôs de pé e bateu palmas. Um baiga se ajoelhou diante de Ren e curvou-se até o chão. Era o mesmo homem que eu vira em minha visão do Lenço, o homem que havia machucado Ren. Ren estreitou os olhos para o homem, que logo baixou o olhar, disse várias palavras e puxou uma faca da camisa.
O Sr. Kadam traduziu:
- Por favor, me perdoe, nobre cavalheiro. Lutei contra o demônio o máximo que pude, mas ele machucou minha família. Minha mulher e meus filhos estão mortos. Nada me restou. A menos que o senhor restaure minha honra, vou deixar a tribo e morrer sozinho na selva.
Estendendo uma das mãos, o homem cuidadosamente desfez seu coque. O cabelo negro e comprido caiu do alto de sua cabeça, amontoando-se em seu colo. Com mais duas palavras, ele moveu a faca para cima, através dos cordões que prendiam o cabelo, tosquiando seu longo e bonito rabo de cavalo. Então apanhou com reverência o cabelo cortado, curvou a cabeça até o chão e, com as mãos abertas, ofereceu-o a Ren.
Ren olhou para o homem por muito tempo, assentiu e estendeu as mãos, as palmas para cima, a fim de aceitar o cabelo cortado. Em seguida disse algumas palavras, as quais o Sr. Kadam traduziu para mim mais uma vez:
- Eu aceito sua oferta. Nós todos sofremos nas mãos do demônio. Nós iremos puni-lo pelos crimes cometidos, inclusive pelo ato imperdoável de destituí-lo de sua família. Suas ações contra mim estão perdoadas. Eu devolvo sua honra. Siga com sua tribo e encontre a paz.
O homem depositou o cabelo nas mãos de Ren e se afastou. Em seguida o gunia mandou trazer duas bonitas moças baigas diante de nós. Elas se ajoelharam diante de Ren e Kishan. Suas mãos delicadas permaneceram em seu colo enquanto elas olhavam com recato para o chão.
As mulheres tinham lindos cabelos pretos compridos e lustrosos, e traços delicados. A cintura fina era acentuada por cintos estreitos feitos de pedra polida. Eram curvilíneas de uma forma que eu jamais seria. Ambas tinham delicadas tatuagens ao longo dos braços e das pernas, que desapareciam sob a bainha das saias finas que usavam, fazendo com que eu me perguntasse quanto de seus corpos era tatuado. Eu podia ver por que as tatuagens eram consideradas atraentes. Não eram do tipo que se veem nos Estados Unidos. Não havia águias gigantes nem "Amo a Minha Mãe" num coração.
Essas tatuagens eram minúsculas. Redemoinhos, argolinhas, arabescos, espirais, flores, folhas e borboletas enfeitavam seus membros como a borda elegante da moldura de um quadro ou os adornos de um livro medieval. As tatuagens acentuavam os traços das lindas jovens e realçavam sua beleza, transformando-as em criaturas extraordinárias, mágicas. O gunia falou, apontando primeiro para uma garota, depois para a outra.
Ren se levantou, desajeitado, e abriu um largo sorriso. Eu o olhei, ávida. Sabia que o meu disfarce o impedira de me reconhecer e o levara a me agredir. Agora tudo que eu queria fazer era abraçá-lo e tirá-lo dali. Infelizmente, todos tínhamos papéis a desempenhar. Ele caminhou, mancando, mas com dignidade, ao redor das duas garotas. Então pegou a mão de uma delas, beijou-a e sorriu para ela. Franzi as sobrancelhas, confusa. Ela sorriu timidamente para Ren. Kishan parecia chocado, ao passo que o Sr. Kadam exibia uma expressão sombria.
- O que foi? - sussurrei. - O que está acontecendo?
- Espere só um momento, Srta. Kelsey.
Kishan se levantou e falou baixinho com Ren, que cruzou os braços e indicou as duas mulheres outra vez. Kishan começou a discutir em voz baixa com o irmão. Ele olhou para mim e então para o Sr. Kadam, como
que pedindo ajuda. Ren parecia mais confuso do que zangado. Ele disse alguma coisa que soou como uma pergunta. Em resposta, Kishan fez um gesto, inflexível, e apontou para o gunia. Ren riu, tocou o cabelo da garota, esfregou-o entre os dedos e disse alguma coisa que a fez rir.
- Essas duas garotas também estão pretendendo cortar o cabelo? - perguntei.
O Sr. Kadam franziu a testa.
- Não. Não creio.
Kishan fez uma reverência para o gunia e as duas mulheres, disse algumas palavras e então voltou as costas para Ren, sentando-se ao meu lado outra vez. Ren sorriu para a garota, deu de ombros e tornou a sentar-se perto de Kishan.
- Sr. Kadam! O que acabou de acontecer?
Ele pigarreou.
- Ah, sim... parece que os baigas querem oferecer aos nossos dois filhos a condição de membros permanentes da tribo.
- Ótimo. Que mal pode haver nisso?
- Para se tornarem membros, devem se casar com mulheres baigas. Essas duas irmãs se ofereceram a nossos nobres filhos.
- Ah. - Franzi a testa, confusa. - Então por que Kishan e Ren estavam discutindo?
- Estavam discutindo sobre... se deviam ou não aceitar.
- E por que Ren estava tocando o cabelo daquela mulher?
- Eu... realmente não sei dizer.
O Sr. Kadam se virou de lado, obviamente relutante em continuar a conversa.
Pensei no que eu tinha visto e então cutuquei Kishan.
- Kishan, se você quer uma esposa baiga, tudo bem. Se isso vai deixá-lo feliz, então vá em frente - sussurrei. - As duas são muito bonitas.
Ele resmungou baixinho.
- Eu não quero uma esposa baiga, Kells. Explico depois.
Agora eu estava mais confusa ainda e ligeiramente enciumada, mas descartei essa sensação lembrando a mim mesma que diferentes culturas
interpretam gestos de maneiras diferentes. Decidi deixar o assunto de lado e assistir às festividades. Quando a celebração chegou ao fim, eu cochilava com a cabeça no ombro do Sr. Kadam.
Kishan me acordou.
- Kells? Venha. Hora de irmos.
Ele me puxou, me ajudando a ficar de pé, e colocou minha mochila nos próprios ombros antes de dar instruções a Ren, que parecia feliz em fazer o que quer que Kishan lhe dissesse para fazer. O Sr. Kadam se despediu dos baigas, que se acomodaram para passar a noite enquanto nós prosseguíamos na direção de nosso ponto de encontro.
O Sr. Kadam ligou um sofisticado dispositivo militar. Era um relógio de pulso com uma tela de vídeo do tamanho de um baralho de cartas que carregava imagens de satélite enquanto andávamos. O aparelho não só mostrava nossa longitude e latitude atuais, como mantinha um registro de quantos quilômetros ou milhas tínhamos que percorrer para chegar ao nosso destino.
Ren se transformou em tigre. Kishan disse que isso o ajudaria a se recuperar mais depressa. Ele seguiu trotando atrás de nós três. Tentei voltar a andar, porém meu tornozelo estava inchado, do tamanho de uma toranja. O Sr. Kadam o envolveu com uma atadura elástica antes de comermos, deu-me ibuprofeno para reduzir o inchaço e me fez elevar o pés, mas eu precisava de gelo. O local ainda latejava. Kishan me deixou andar um pouco porque eu estava teimando, no entanto insistiu que eu usasse seu braço como apoio. Ren passou perto de mim, no entanto, quando estendi a mão para tocar sua cabeça, ele rosnou baixinho. Kishan rapidamente se colocou entre nós dois.
- Kishan? O que há de errado com ele?
- Ele não está... em seu estado normal, Kells.
- É como se ele não me conhecesse.
Kishan tentou me consolar:
- Ele provavelmente está reagindo a você como um animal ferido. Tem a ver com autoproteção. Perfeitamente natural.
- Mas quando vocês dois foram feridos na selva antes, eu cuidei de vocês. Nenhum dos dois tentou me machucar ou me atacar. Vocês sempre souberam quem eu era.
- Ainda não sabemos o que Lokesh fez com ele. Tenho certeza de que ele vai sair dessa à medida que seus ferimentos forem se curando. Até lá, quero que você fique sempre perto de mim ou do Sr. Kadam. Um tigre ferido é uma criatura muito perigosa.
- Está bem - concordei, relutante. - Não quero causar a ele nenhuma dor além daquela que ele já está sentindo.
Depois de me permitir mais alguns minutos dolorosamente lentos de caminhada, Kishan me pegou no colo. Quando protestei, dizendo que o deixaria exausto, ele zombou, afirmando que poderia me carregar durante dias sem se sentir cansado. Dormi em seus braços enquanto andávamos pela selva. Quando paramos, ele me colocou com delicadeza no chão. Oscilei e os braços de Kishan em meus ombros foram a única coisa que me mantiveram em pé.
- Sr. Kadam, que lugar é este?
- É uma represa artificial chamada Maithan. Nosso transporte deve chegar em breve.
Logo depois ouvimos o barulho de hélices quando um pequeno avião sobrevoou o ponto onde estávamos, seguindo para o lago. Corremos para a margem coberta de seixos e observamos o avião aterrissar na água lisa e iluminada pela lua. O Sr. Kadam acenou com uma luz de neon e entrou no lago escuro. Kishan me conduziu para lá, mas hesistei, olhando o tigre branco.
- Não se preocupe, Kells. Ele sabe nadar.
Kishan esperou que eu fosse na frente. A água estava fria e serviu para aliviar a dor em meu tornozelo. Enquanto o avião deslizava, aproximando-se da margem, mergulhei até o pescoço e comecei a nadar. O Sr. Kadam já estava de pé nos flutuadores do avião, segurando-se na porta. Ele se inclinou e agarrou minha mão, me ajudando a subir. Nilima sorriu para mim do assento do piloto e indicou com a mão o lugar ao seu lado.
Desculpando-me por molhá-la, acomodei-me enquanto Kishan embarcava e então observei o tigre branco nadando. Ao se aproximar do avião, Ren voltou à forma humana e subiu, ocupando o assento perto de Kishan, no fundo. O Sr. Kadam fechou a porta e afivelou o cinto de segurança na poltrona ao lado da minha.
- Segurem-se todos - advertiu Nilima.
Um súbito deslocamento nos impulsionou adiante quando as hélices aceleraram ruidosamente. Ganhamos velocidade, quicamos na água algumas vezes e então alcançamos o céu noturno. Ren havia mudado mais uma vez para a forma de tigre. Ele fechara os olhos e descansava a cabeça no colo de Kishan. Sorri brevemente para Kishan. Ele retornou meu olhar em silêncio e olhou pela janela.
O Sr. Kadam nos cobriu com um cobertor. Descansei a cabeça em seu ombro molhado e adormeci ao ronco monótono de nosso hidroavião.

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