quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Capítulo 3 : Phet

Postado por Estante de Livros às quarta-feira, outubro 23, 2013

Na manhã seguinte, nós decidimos levantar cedo. A temperatura caiu durante a noite, e a selva estava relativamente fresca e perfumada. Eu respirei fundo, me espreguicei, e inalei o cheiro picante e doce das árvores de olíbano. Depois do café da manhã, Kishan seguiu para a floresta para vestir as novas roupas que tinha criado com a Echarpe Divina.
Ren mexeu nas cinzas frias e negras da nossa fogueira com um longo graveto. Eu fiquei à uma distância suficiente assim minhas presença não iria incomoda-lo. Essa coisa nova de “ser amigos” era estranho. Eu não estava segura de como falar com ele. Assim era como Ren era antes de mim. Eu queria que ele fosse como o meu Ren. Em muitas coisas ele era, mas como você consegue ser a mesma pessoa com um pedaço de sua vida faltando?
Ren ainda era charmoso, bom, e doce. Ele ainda amava as mesmas coisas, exceto que ele não era mais tão seguro de si. Kishan sempre tinha sido o seguidor e Ren o líder, mas seus papéis estavam invertidos agora. Kishan era confiante; ele tinha direção. Ren tinha sido deixado para trás, como se ele não pertencesse mais a esse século.
Ren não parecia saber mais quem ele era ou como ele se encaixava nesse mundo. Era alarmante para mim, perceber que seu senso de pertencimento tinha sumido. Ele não parecia mais querer escrever poesia. Ele raramente tocava seu violão. Ele lia livros apenas quando era encorajado pelo Sr.Kadam e por mim. Ele perdeu seu senso próprio, sua convicção.
Em tomar decisões, Ren não parecia se importar com muitas coisa e ficava feliz de fazer qualquer coisa ou ir a qualquer lugar que Kishan mandasse. Visitar Phet era só uma atividade em vez de obter sua memória de volta ou quebrar a maldição. Ren não resistiu à visita, mas também não a almejava. Era decepcionante reconhecer que me perder o fez mudar dramaticamente. Eu estava preocupada com ele.
Agachei-me na sua frente e sorri. “Você não vai mudar de roupa também? Nós temos outro dia inteiro de caminhada planejado.”
Ren jogou o graveto no círculo da fogueira e olhou para mim. “Não.”
“Ok, mas seus pés descalços não vão ficar muito bons depois de um tempo. A selva é cheia de pedras afiadas e espinhos finos.”
Ele andou até a mochila, pegou um tubo de protetor solar e me deu. “Passe isso no seu rosto e braços. Você está ficando rosa.”
Eu obedientemente comecei a passar protetor nos meus braços e estava surpresa de ouvi-lo dizer, “Eu acho que serei um tigre hoje.”
“O quê? Porque você faria isso? Oh. É provavelmente mais confortável para seus pés, eu não culpo você. Se eu tivesse outra opção, eu provavelmente seria um tigre também.”
“Não é por causa da caminhada.”
“Não? Então por quê?”
Naquele momento, Kishan emergiu da floresta com seu cabelo penteado para trás. Ren deu um passo mais perto como se ele quisesse de dizer algo mais, mas a aparição de Kishan tomou minha atenção.
“Não é justo! Você tomou banho?” eu perguntei com um mínimo toque de ciúmes na minha voz.
“Tem um córrego decente ali. Não se preocupe. Você vai ter um ótimo banho quando chegarmos à cabana de Phet.”
Eu espalhei protetor solar pelo meu nariz. “Ok.” Sorri em antecipação ao pensamento. “Estou pronta, então. Conduzam-nos, Lewis e Clark.”
Eu virei para Ren, que havia se transformado em tigre e se sentou olhando para nós dois. Kishan levantou uma sobrancelha e cerrou os dentes ao olhar para o seu irmão.
“Tem algo errado?” Eu perguntei a ele.
Kishan se virou para mim com um sorriso e ofereceu sua mão. “Não há nada.”
Eu aceitei a reposta, e nós começamos a caminhar. Nós tínhamos caminhado por um minuto ou dois quando senti o corpo peludo de Ren sob minha outra mão. Um pensamento me ocorreu de que Ren pudesse estar mais confortável como tigre, como Kishan havia feito por tantos anos. Eu mordi meu lábio, em preocupação, e massageei o tufo no pescoço de Ren, depois empurrei o pensamento para o fundo da minha mente e contei a Kishan tudo sobre incenso.
Nós andamos a manhã toda e então paramos para comer e descansar. Depois de cochilar durante a tarde quente, nós caminhamos outras duas horas e finalmente chegamos à clareira de Phet. O xamã estava do lado de fora cuidando do seu jardim. Ele estava de quatro, puxando raízes e falando com as plantas enquanto cuidava delas.
Antes mesmo de saudá-lo. Eu o ouvi gritar, “Olá, Kahlsee. Encontros alegres acontecem com você!”
Kishan passou por cima do muro de pedra de Phet, me levantou e me colocou no outro lado. Ren ultrapassou o muro facilmente para o nosso lado.
Eu corri para o jardim. “Olá, Phet! É muito bom ver você também!”
Phet me olhou por cima de um pé de alface e estalou de alegria. “Ah! Minha flor crescer firme e forte.”
Ele se levantou, limpou as mãos e me abraçou. Um pequeno sopro de poeira flutuou no ar. Ele ajustou seu manto e o balançou. Montes de terra rica e fértil caíram da frente onde ele estava ajoelhado.
Phet tinha mais ou menos a minha altura, mas suas costas eram curvadas, provavelmente pela idade, então ele aparentava ser menor. Eu
podia ver claramente sua careca brilhante no centro do ninho embolado de cabelo grisalho e rebelde. Ele olhou para as botas de caminhada de Kishan e deixou seu olhar viajar lentamente pela figura alta de Kishan até que seus olhos sagazes parassem no rosto do irmão mais novo.
“Homem de tamanho considerável viaja com você.” Ele deu um passo e ficou frente a frente com Kishan, colocou suas mãos nos ombros dele, e inclinou sua cabeça enquanto olhava nos olhos dourados de Kishan.
Kishan resistiu pacientemente a analise de Phet.
“Ah, eu vejo. Olhos profundos. Muitas cores aí. Pai de muitos.”
Phet se virou para pegar suas ferramentas de jardinagem enquanto eu fiz uma expressão surpresa e disse sem emitir som “Pai de muitos?”
Kishan mudou inconfortavelmente. Cor subiu pelo seu pescoço enquanto eu lhe dava uma cotovelada e cochichava, “Hey, então o que você acha que ele quis dizer com aquilo?”
“Não sei, Kells. Eu acabei de conhecer o cara. Talvez ele seja maluco.” Disse Kishan nervoso como se estivesse tentando esconder alguma coisa.
Eu o pressionei. “O que? O que aconteceu? Espere um pouco. Você não é um pai, é? Você e Yesubai -”
“Não!”
“Huh, eu nunca tinha visto você tão perturbado antes. Tem alguma coisa que você não está me contando. Bom, não interessa. Eu vou arrancar isso de você cedo ou tarde.” (o verbo certo para o arrancar era o weasel que quer dizer doninha em inglês, mesmo assim significa xeretar ou tirar muito rápido o segredo dele, como uma doninha faz...)
Ele se inclinou e sussurrou no meu ouvido. “Eu como doninhas no café da manhã.”
Eu sussurrei de volta. “Eu sou muito esperta. Você não vai me pegar.”
Ele grunhiu em resposta.
Phet cantava uma canção. “Crazy, crazy. Lazy, daisy.” Cantarolava alegremente enquanto se esquivava para sua cabana.
“Venha, venha, Kahl-see,” Phet anunciou. “Hora da conversa.”
Ren se transformou em homem e tocou meu braço levemente, mas depois deu uns passos para trás. “Phet não é maluco.” Ele disse a Kishan, e se voltou para mim e sorriu. “Melhor um tolo espirituoso do que eu espírito tolo.”
Eu sorri para ele e rebati seu trecho de Shakespeare com um provérbio africano. “Quando o tolo fala, o homem sábio escuta.”
Ren se curvou galantemente. “Vamos?”
Kishan grunhiu e empurrou Ren para o lado. “Primeiro as damas. Depois de você, Kelsey.”
Kishan pôs sua mão nas minhas costas e me conduziu para dentro, sem tirá-la da minha cintura. Eu tive uma boa impressão de que ele estava tentando provar alguma coisa. Eu olhei para trás e vi Ren sorrindo bem humorado enquanto nos seguia e sentava na cama.
Se movimentando na cozinha, Phet começou a fazer comida para nós. Eu tentei dizê-lo que não era necessário, mas ele insistiu e logo colocou grandes pratos cheios de um vegetal picante refogado e bolinhos fritos de berinjela na mesa. Kishan encheu um prato para mim antes de preparar o seu.
Eu dei o meu para Ren, que aceitou com um sorriso convencido e me deu uma piscadela. Eu tropecei enquanto voltava para a mesa, sentindo os olhos dele em mim. Ren se sentou na cama e me olhou abertamente enquanto comia sozinho.
Kishan já tinha enchido outro prato para mim depois de olhar para Ren. Eu o agradeci e depois a Phet, que dispensou meu gesto.
“Phet sabia que você vinha, Kahl-see.” Ele tocou seu nariz e piscou. “Voz doce dos pássaros nos ouvidos de Phet. Me disseram que os tigres se aproximariam em breve.”
Eu ri. “Como você sabia que viriam dois tigres?”
“Pássaros veem toda a área. Pássaros estão sabendo de muita coisa. Contam dois tigres apaixonados. Apenas uma garota.” Ele riu ruidosamente e depois sorriu e deu um tapinha no meu rosto feliz. “Liiiiiiiiinda flor cativa muitos. Antes pequeno botão. Agora botão está aberto, florescendo. Depois, o botão redondo se torna flor. Então o perfeito florescer e vida da flor se completa.”
Eu dei tapinhas em sua mão morena e parecida com papel e ri. “Phet, Você se importa se tomar banho depois do jantar? Eu me sinto pegajosa, suja e cansada.”
“Sim. Sim. Phet fala com tigres.”
Depois do jantar os pratos foram lavados, eu ri suavemente enquanto via Phet balançar o dedo no rosto de Kishan e apontando severamente para a porta. Ren me lançou um olhar sobre o ombro, e os dois homens seguiram Phet para o lado de fora, fechando a porta silenciosamente atrás deles. Ouvir Phet manda-los se encarregarem da capina me fez sorrir.
Kishan foi bom ao ponto de ter enchido o balde várias vezes na bomba da cozinha de Phet para que eu tivesse uma banheira cheia. Eu me livrei das roupas sujas e pedi a Echarpe Divina que fizesse novas enquanto eu entrava na banheira. Esfregando minha pele com o sabonete de ervas feito em casa de Phet, eu o escutei recriminar os irmãos enquanto ensaboava meu cabelo.
Ele estava sendo duro com eles. Parecia que ele estava lhes dando uma severa lição. Frustrado, ele disse, “Você precisa cuidar flor frágil! Pétalas finas e delicadas danificam fácil, ferem. Estraga, prejudica. Jardinagem não é maldade! O manuseio descuidado, batalha pela flor a destrói. Corte o caule, a flor morre. Precisa florescer radiante para admirar. Amar é olhar, não arrancar. Esforço reunido antes da colheita é desperdício de energia, perda de tudo. Lembrem-se.”
Eu parei de escutá-lo e aproveitei meu banho, pensando que água perfumada ganhava de um banho de leite sempre. Então eu me lembrei do comentário de Kishan sobre o banho de leite, o que me fez corar
furiosamente. A voz de Phet transpassou as paredes outra vez. Ele com certeza está acabando com os caras por causa das flores. Engraçado, eu não notei nenhuma flor, pensei e me afundei ainda mais dentro da banheira. Depois da minha imersão completa, eu pedi que a Echarpe me fizesse duas toalhas macias e fofas e enrolei uma no meu corpo e outa do meu cabelo molhado. Eu saí da banheira para uma esteira de bambu trançada e me escorreguei para dentro de um par de pijamas finos e confortáveis. A blusa dizia:
I S2 TIGERS
A calça tinha figuras de tigres desenhados em preto e branco dormindo tranquilamente. Eu franzi a testa.
Eu não me lembrava de ter pedido a Echarpe pijamas de tigre, mas minha cabeça devia estar viajando quando os criei. Pedi a Echarpe para se livrar dos tigres, e o tecido brilhou enquanto linhas pretas e brancas mudavam para azul claro para combinar com a blusa. Eu criei meias azuis de caxemira e escorreguei meus pés para dentro, suspirando satisfeita.
No momento em que os homens voltaram, eu estava sentada na cama com um travesseiro no meu colo lendo, meu cabelo longo e molhado estava preso em uma trança que descia pelas minhas costas. Estava escuro, por isso eu tinha acendido a luminária e pedi um lanche do Fruto Dourado. Ren e Kishan fizeram contato visual comigo rapidamente, deram sorrisos fracos e foram para a mesa. Suas expressões oprimidas faziam parecer que eles haviam levado uma bronca de uma hora de seu avô. Eu fiquei na cama para que Ren não ficasse muito desconfortável. Phet entrou por ultimo e pendurou um chapéu de palha num cabideiro.
“Ah. Kah-see. Você limpa? Sente refrescada e revigorada?”
“Sim, me sinto sem por cento melhor. Obrigada. Eu preparei um lanche. É de Shangri-la.”
Ele se aproximou da mesa e sentou-se ao lado dos meninos. Eu havia criado um lanche com as delícias de Shangri-la: chá de mel e flor de cerejeira,
tortas espumantes de pêssego, palitos crocantes de açúcar e canela, mistura de cogumelos e castanhas espalhada por camadas de biscoitos de queijo, delicados crepes de frutas silvestres com creme, e mirtilos misturados com biscoitos doces de fadas.
Phet esfregou as mãos, encantado, e deu um tapa na mão de Kishan antes que ele pudesse alcançar a torta de pêssego. O xamã encheu seu prato, comeu os pedaços deliciosos com prazer, e sorriu para mim com seu divertido sorriso desdentado.
“Ah. Phet não vai Shangri-lá há muito tempo. Comidas deliciosas lá.”
Kishan perguntou, “Quer algo, Kells? Melhor dizer agora.”
“Não, obrigada. Eu ainda estou cheia com o jantar. Você já esteve em Shangri-la, Phet?”
“Sim, sim. Muitos anos atrás. Muito cabelo atrás,” ele gargalhou.
Por alguma razão, eu não estava surpresa. Fechei meu livro e deslizei para frente na cama. “Então, Phet, você queria falar com a gente? Você pode ajudar o Ren?”
O olhar azul brilhante de Ren se virou para mim. Ele me olhou pensativamente enquanto Kishan picava lentamente um crepe. Phet espanou açúcar de suas mãos.
“Phet pensando nisso por longo tempo. Talvez conserte ou talvez não. Amanhã melhor hora para olhar os olhos do tigre.”
“Olhar os olhos dele? Porque você precisa fazer isso?”
“Olho é vidro. Não espelho. Dentro olho zumbe como uma abelha. Pele é carne?” Ele agarrou um pedaço de seu cabelo embolado. “Cabelo é nada.” Ele sorriu para mim. “Dentes e língua? Sem zumbido. Palavras sem zumbido. Só olho fala.”
Eu pisquei. “Você está querendo dizer que os olhos são as janelas da alma?”
Phet riu alegremente. “Ah! Muito bom, Kahl-see. Garota esperta!”
Ele bateu na mesa e apontou para os meninos. “Digo a vocês rapazes. Minha Kahl-see muito rápida.”
Eu abafei um risinho enquanto Ren e Kishan balançavam as cabeças como colegiais castigados.
“Okay, então você quer fazer um ckeck-up nele amanhã,” eu continuei. “Nós trouxemos as armas de Durga para você. Você pediu para vê-las, certo?”
Phet se levantou, empurrou sua cadeira, e balançou os braços. “Não, não. Amanhã vez das armas. Hoje para presentes. Presentes para a liiiiiiiiiiiiiinda deusa.”
“Oh! Você quer os presentes. Ok.” Eu escavei na minha mochila. “Será difícil abandoná-los. Eles são realmente úteis. Ter o fruto significa que eu preciso carregar muito menos peso quando temos de andar semanas pela selva, e nós não temos de comer barras de energia o tempo todo. Mas, tecnicamente eles não pertencem a nós. Eles são para Durga.”
Eu tirei o Fruto Dourado e a Echarpe Divina da minha mochila, coloquei-os em cima da mesa e então rapidamente, me afastei quando Ren se mexeu desconfortavelmente em sua cadeira. Phet juntou as mãos ao redor do Fruto Dourado que começou a brilhar na luz bruxuleante da cabana.
“Presente esplêndido. Ama sunahara.”
Ele acariciou a casca do Fruto e murmurou suavemente para ele que brilhava com as suas atenções. Depois ele se virou para a Echarpe. Ele esticou os dedos, gentilmente tocou o tecido iridescente e disse, “Dupatta pavitra.”
As linhas na borda se esticaram em direção a palma de Phet e começaram a tecer entre os dedos dele como se fossem uma trama num tear. A Echarpe se fixou na sua mão enquanto ele murmurava e a acariciava, e então as cores giraram mais e mais rápidas. Ela cintilou e crepitou até que estalou como uma pequena estrela e o tecido se tornou branco puro.
Ele falou com a Echarpe como ele havia falado com o Fruto, murmurando palavras e estalando sua língua enquanto a Echarpe lentamente se desenrolou de sua mão e assumiu sua forma de repouso. Sombras alaranjadas, amarelas e vermelhas apareceram na superfície branca como corpos brilhantes de peixe num oceano limpo. As cores correram mais rapidamente, até que o branco se dissipou e ela assumiu sua forma natural, se assentando numa cor laranja dourado. O tecido pareceu vibrar ou zumbir em contentamento enquanto ele a acariciou preguiçosamente com a mão.
“Ah, Phet sentindo falta dos presentes há muito tempo. Muito, muito bom, Kahl-see. Presentes tão bons para você. Concede dois presentes, adquire dois presentes.”
Ele pegou o Fruto Dourado e o colocou nas mãos de Ren. Depois ele pegou a Echarpe e deu para Kishan. A Echarpe imediatamente mudou de cor, para verde e preto. Phet olhou para a Echarpe e então incisivamente para Kishan, que corou e dobrou a Echarpe, colocando-a na mesa a frente dele.
O xamã limpou a garganta alto. “Phet atribui a vocês uma segunda vez. Alivia, facilita para vocês.”
“Você quer dizer que quer que nós continuemos a usá-los?” eu perguntei.
“Sim. Agora Phet apresenta oferta fresca para vocês.”
Ele se levantou e reuniu algumas ervas e vasos com líquidos. Colocando colheres de ervas terrestres num copo, ele pôs algumas gotas de diferentes vasos e então adicionou algumas conchas de água quente. Ele mexeu devagar e polvilhou a mistura com alguns grânulos brancos. Eu não conseguia ver o que ele realmente estava fazendo, mas estava curiosa.
“Phet? Isso é açúcar?”
Ele se virou para mim com um sorriso desdentado.
“Açúcar mais doce. Bebida amarga, açúcar melhor.”
Ele ria enquanto mexia e começava a zunir e cantar “remédio amargo, açúcar melhor” de novo e de novo. Depois de satisfeito, ele deslizou o copo para Kishan que, com uma expressão confusa, o passou para Ren.
Phet estalou sua língua, “Não, não, tigre negro. É seu.”
“Meu? Eu não preciso de nenhum remédio. Ren é o que está com problemas.”
“Phet conhece todos problemas. Para você, essa bebida.”
Kishan levantou o copo, o cheirou, e fez uma careta. “O que isso vai fazer comigo?”
“Nada e tudo.” Ele riu. “Dá o que você mais deseja no mundo e te deixa em falta, não incluindo o que você mais quer.”
Ren estava estudando Phet intensamente. Eu tentei entender também o que Phet queria dizer.
Kishan pegou o copo e hesitou, “Eu preciso beber isso?”
Phet levantou as mãos e balançou os ombros. “ Você escolhe. Escolhe sempre beber, não beber. Comer, não comer. Amar, não amar.” Ele levantou um dedo no ar. “Mas sua escolha, molda muitas.”
Kishan espiou dentro do copo, rodou o liquido e então olhou para mim. Seus olhos se estreitaram, e ele levou o copo aos seus lábios e o tomou.
Phet assentiu, satisfeito. “Presente um, outro dar a vocês agora.”
“Aquilo foi um presente?” eu perguntei.
“Sim. Dois e dois.”
“Mas você nos deu o Fruto e a Echarpe. Você ainda está nos dando dois presentes?”
Ele assentiu.
“Se aquela bebida foi um presente para Kishan, o que era?” Ren perguntou.
Phet se inclinou para trás em sua cadeira e, com uma expressão estranha em seu rosto ele disse, “Soma.”
Kishan começou a tossir violentamente e Ren congelou.
“O que é soma?” eu perguntei.
Ren se virou para mim. “Soma é a versão hindu de ambrosia. É a bebida dos deuses. No mundo moderno soma é também um alucinogênico.”
“Oh.”
Phet grunhiu. “Minha soma sem sonho.’
“Isso significa que ele vira um deus?” eu perguntei a Phet.
Os irmãos estavam olhando para Phet também.
Ele apenas encolheu os ombros. “Phet não sabe de tudo, apenas alguma coisa. Agora outro presente.”
Ele pegou um vaso da sua prateleira que continha uma substancia pegajosa, clara e rosa.
“Você, tigre branco, sente aqui.”
Ele direcionou Ren a se sentar no meio do cômodo e inclinar sua cabeça para trás. Então ele pegou uma mão cheia de gosma rosa e passou nos cabelos de Ren. Ren se levantou imediatamente.
“Não! Não! Phet não acabou. Senta, tigre!”
Ren sentou e Phet zumbia enquanto pegava outra mão cheia e penteou os cabelos de Ren com ela. Rapidamente sua cabeça inteira estava coberta com a coisa pegajosa, e Phet começou a massagear aquilo no seu couro cabeludo como um cabelereiro bizarro. Kishan inclinou sua cadeira para trás para assistir com um sorriso zombeteiro no rosto. Ren parecia irritado. Eu não podia evitar rir dele, o que o fez ficar ainda mais carrancudo.
“O que isso deveria fazer?” ele perguntou a Phet cautelosamente.
Phet o ignorou completamente e agora estava afastando o cabelo de Ren como um macaco procurando piolhos. Bolhas da coisa rosa cobriam cada centímetro da sua cabeça. Finalmente, Phet disse que tinha acabado.
“Agora hora dormir.”
“Você espera que eu durma assim?”
“Sim. Todo tempo da noite dormindo. Testemunha o que acontece nas manhãs.”
“Ótimo.”
Kishan riu abertamente. Phet foi até a pia para lavar suas mãos. Ren me olhou com uma infelicidade sombria, como um cachorro molhado com sabão no pelo sentado em uma banheira encarando melancolicamente o dono que o pôs lá. Eu abafei uma risadinha e fiz a Echarpe fazer uma toalha. Ele estava sentado de braços cruzados e uma carranca para uma gota da coisa que caiu no seu nariz e escorregou para sua bochecha.
“Aqui, deixe-me ajudar. Vou tentar não tocar em você.”
Ele assentiu, o que fez com que outra gota começasse a descer pelo seu pescoço. Eu agarrei meu pente e o passei pelo seu cabelo preto, penteando tudo para longe do seu rosto e enxugando o excesso de gosma na toalha. Quando acabei, eu desejei outra toalha, a molhei, e limpei sua nuca, suas orelhas e então seu rosto, começando pela linha do cabelo, passando para o nariz e bochechas.
Eu era gentil, mas meticulosa. Enquanto eu lentamente passei a toalha na bochecha de Ren, eu distraidamente acariciei sua pele com meu polegar. Alguma coisa dentro de mim se ligou. Uma emoção tenra lentamente subiu na superfície da minha mente. Minha mão tremeu, e eu congelei. O cômodo ficou silencioso. Tudo que eu podia ouvir era a dificuldade de respirar quando meu coração batia mais rápido.
Eu o senti pegando meu pulso, e lentamente, eu movi meu olhar para os seus olhos. Ele encarou os meus com um sorriso suave. Eu me perdi em seus olhos até que ele disse baixo, “Obrigado.”
Abruptamente, eu afastei a toalha e ele soltou meu pulso. Eu o vi esfregando os dedos com o polegar. Quanto tempo eu fiquei encarando ele como uma idiota? Eu devo ter o queimado terrivelmente. Rapidamente, eu abaixei meu olhar e me afastei. Todos estavam olhando para mim agora. Eu virei minhas costas para eles e desfiz a cama. No momento que eu me virei, eu estava recomposta. Eu sorri brilhantemente. “Phet está certo. È hora de ir para cama.”
Phet bateu palmas. “Kahl-see dentro de casa. Tigres do lado de fora. Phet,” ele sorriu. “com a Echarpe.”
Ele gargalhou com alegria e criou uma bela tenda para ele. Então ele abriu a porta e esperou teimosamente que o tigres saíssem.
Kishan tocou minha bochecha e disse, “Noite, Kells.” E saiu pela porta.
Ren o seguiu, mas parou na porta me deu um de seus sorrisos de parar o trânsito. Meu coração queimou com uma dor esperançosa.
Ele inclinou a cabeça marotamente na minha direção e foi para fora. Eu ouvi Phet murmurando instruções para ambos enquanto se arrumavam para dormir.
Na manhã seguinte, eu acordei com Phet zunindo na cozinha.
“Kahl-see! Acordada. Coma!”
Sua pequena mesa estava cheia de uma variedade de pratos. Eu me juntei a ele e peguei um pouco de salada de frutas e alguma coisa que parecia requeijão. “Onde está todo mundo?”
“Tigres tomam banho no rio.”
“Oh.”
Ele comeu em silêncio. Phet me estudou e gentilmente pegou minha mão em ambas as dele. Ele a virou e a acariciou em diferentes lugares. Quando ele tocou a pele, as marcas de hena que ele havia me dado na nossa
ultima visita apareceram e brilharam vermelhas por um pouco tempo antes de desaparecerem.
“Hmm. Ah. Hmm.” Ele pegou uma fatia de maçã e a comeu, deixando os olhos na minha mão enquanto estalou a língua.
“Oh, Kahl-see, você colocou os olhos em muitas coisas, percorre um longo caminho a lugares longínquos.”
“Sim.”
Ele espiou dentro dos meus olhos.
“Você está olhando dentro da minha alma?”
“Huh-uh-huh. Kahl-see extraordinariamente deprimida. Porque o estrago?”
“Qual é o meu estrago?” eu ri secamente. “É na maior parte emocional. Eu amo Ren, e ele não se lembra de mim. Kishan me ama, e eu não sei o que fazer sobre isso. É um desses horríveis triângulos amorosos em que ninguém está feliz. Todos estão péssimos. Exceto por Ren, eu acho. Ele não consegue se lembrar se ele está péssimo ou não. Algum conselho?”
Phet considerou minha pergunta seriamente. “Amor semelhante à água. Água ao nosso redor, por toda parte. Gelo, rio, nuvem, chuva, oceano. Alguns são grandes, outros pequenos. Alguns bons de beber, outros salgados demais. Todos são úteis para a terra. É um ciclo movimentando o tempo todo. Precisa de água para durar. Mulheres como terra; precisam de muita água. Água com terra se esculpem, crescem.”
“Terra muda por rio, faz córrego. Leito do lago não deixa água escapar, tudo contém. Água gelada é geleira, move terra. Chuva faz deslizamento de terra. Oceano faz areia. Sempre dois: terra e água. Precisam um do outro. Viram um só juntos. Você é obrigada a escolher. Em breve.”
“E se eu não conseguir escolher ou não puder escolher? E se eu fizer a escolha errada?”
“Nenhuma escolha errada. Sua escolha.”
Ele foi à sua cama e pegou dois travesseiros. “Você gosta de travesseiros redondos ou quadrados?”
“Eu não sei. Os dois são travesseiros.”
“Você gosta redondo? Escolha redondo. Você gosta quadrado? Escolha quadrado. Não importa. Você quer dormir, use travesseiro. Você escolhe pedra? Não! Travesseiro é bom. O mesmo a água. Você escolhe gelo? Rio? Oceano? São todos bons. Escolha o oceano, você vira areia. Escolha rio, vai virar lodo. Escolha chuva, você será terra de jardim.
“Você está dizendo que eu escolho o homem baseado em o que eu quero me virar? Em que tipo de vida que eu quero ter?”
“Sim. Ambos os homens fazem sua vida especial. Escolha oceano ou rio. Não importa.”
“Mas -”
“Sem mas. É. Costas de Kahl-see muito resistentes. Pode aguentar muita carga, muitos dever. Você como terra. A forma que você irá se transformar será a mesma com o homem que você escolher.”
“Então basicamente o que você está tentando me dizer é que Ren e Kishan são travesseiros num mundo de pedras e que eu seria feliz com qualquer um deles?”
“Ah! Garota esperta!” Phet riu.
“O único problema é... um deles não ficará feliz.”
Phet acariciou a minha mão. “Você não se preocupe. Phet ajuda tigres.”
Os irmãos chegaram fazendo barulho na cabana uma hora e meia depois.
Os dois me cumprimentaram educadamente: Kishan apertou minha mão e Ren acenou para mim da mesa.
Eu perguntei baixinho a Kishan, “Funcionou? Ele se lembra?”
Ele balançou a cabeça negativamente e recuou para a mesa para ajudar Ren a rapidamente completar todos os pratos que Phet tinha criado. O cabelo deles estava molhado e penteado para trás. Ren tinha tirado toda a coisa rosa. Eu sorri, pensando, ou isso, ou a coisa tinha sido absorvida pelo seu cérebro durante a noite.
Enquanto os irmãos comiam, eu pensei sobre o que Phet havia dito. Poderia eu realmente ser feliz com qualquer um deles? Poderia Ren e eu nos apaixonarmos de novo? E se sim, o que nós faríamos sobre a nossa relação física? Será que eu nunca poderia tocá-lo novamente sem lhe causar dor? Eu nunca havia realmente considerado um futuro com Kishan antes. Eu sempre tive tanta certeza sobre meu relacionamento com Ren. Agora que suas memórias de nós se foram, eu não sabia nem se seria possível recuperar o que tínhamos perdido.
Eu peguei Kishan me olhando de tempos em tempos enquanto ele ouvia Phet. Kishan estaria certo? Será que perder Ren de algum modo seria parte do meu destino? Seria Kishan a pessoa com quem eu deveria estar, com quem eu fui feita para estar? Ou, como Phet disse, será que eu deveria apenas escolher com quem eu queria ficar? Com quem eu quisesse construir uma vida? Eu só não via como eu poderia ser feliz se um deles não estivesse.
Depois do café da manhã, Phet pediu para ver as armas. Eu tirei a gada, o chakram, Fanindra, e o arco e flechas da mochila e dei cada um a Kishan, que os colocou em cima da mesa. Toda vez que seus dedos se encostavam nos meus Kishan sorria. Eu sorri de volta, mas minha expressão feliz se foi quando vi Ren rapidamente desviar o olhar com desapontamento.
Phet estudou cada uma intensamente antes de dá-la para a pessoa que Durga havia dado originalmente.
“Como você sabia?” perguntei incrédula. “Como você sabia que o arco e flechas eram meus e a gada de Ren?”
“Cobra deixou claro para mim.”
Como resposta, Fanindra se desenrolou, levantou sua cabeça no ar, capuz aberto, e olhou nos olhos de Phet. Ele começou a cantar e mexer a
cabeça. Ela começou a balançar para trás e para frente como se estivesse sobre o feitiço de um encantador de serpentes. Quando ele parou de cantar, ele abaixou a cabeça e voltou a descansar.
“Ah, Fanindra declarou que gosta de você, Kahl-see. Você boa mulher e mostra consideração por ela.”
Ele pegou Fanindra e a entregou gentilmente para mim. Eu peguei um travesseiro redondo e a coloquei no meio dele. Huh, eu gosto de travesseiros redondos. Me pergunto qual homem ele representa.
Phet anunciou que estava na hora de olhar os olhos de Ren. Ele tirou duas cadeiras da mesa e as colocou um em frente à outra. Ren se sentou em uma; Phet na outra. Kishan se juntou a mim na cama e me deu a mão. Os olhos de Ren dispararam para nós.
Phet bateu na mão dele. “Olhe no meu olho, Tigre!”
Ren resmungou suavemente ao mesmo tempo que se virou para encarar o velho monge. Phet perscrutou os olhos de Ren e estalou a língua enquanto virava a cabeça de Ren para vários ângulos diferentes como se ele estivesse ajustando o espelho retrovisor de um carro. Finalmente, ele estava satisfeito, e os dois homens congelaram no lugar por vários minutos enquanto Phet só olhava. Eu mordi meu lábio nervosamente enquanto assistia.
Depois de um longo silêncio desconfortável, Phet deu um pulo fora da cadeira.
“Não posso consertar.”
Eu levantei. “O que você quer dizer?”
“Tigre muito teimoso. Me bloqueia.”
“Te bloquear?” eu me virei para Ren. “Porque você iria bloquear ele?”
“Eu não sei.”
“Phet,” perguntei, “você pode nos dizer o que você sabe?”
Phet suspirou. “Consertar a dor da faca e da jaula. Preto mal já foi a muito tempo. Mas lembrança é doce, tem gatilho, apenas tigre branco conhece.”
“Ok, para simplificar, você foi capaz de consertar o SPT, as dores e memórias da tortura? Todo o trauma de Lokesh se foi agora? Ele ainda pode lembrar disso?”
“Sim. Eu ainda lembro. Eu estou bem aqui, você sabe.” Ren resmungou.
“Ok, mas Phet disse que retirou a escuridão. Você se sente diferente sobre isso?”
Ele se concentrou. “Eu não sei. Acho que veremos.”
Eu olhei para Phet outra vez. “Mas a memória dele ainda está bloqueada? O que você quer dizer com existe um gatilho?”
“Significa tigre prejudica ele mesmo. Não do criminoso, do malvado. Da mente do tigre. Só ele capaz de consertar.”
“Você está dizendo que ele deliberadamente está fazendo isso com ele mesmo? Ele está bloqueando as lembranças de mim de propósito?”
Phet assentiu.
Eu fiquei boquiaberta olhando para Ren, chocada. Ele olhou pasmo para Phet; depois uniu as sobrancelhas em confusão e olhou para as próprias mãos. Meus olhos se encheram de lágrimas.
Com uma voz minúscula, eu engasguei, “Por quê? Por que você faria isso comigo?”
Ele tencionou os músculos do maxilar e olhou para mim. Seus olhos azuis estavam brilhantes de emoção. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa... e então a fechou. Eu me afastei em direção a porta e a abri.
Ren se levantou. “Kelsey? Espere.”
Eu balancei a cabeça.
“Por favor não fuja,” ele implorou baixinho.
“Não me siga.” Eu balancei a cabeça, lágrimas escorrendo pelo meu rosto enquanto eu corria para a selva.

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