Alguns dias depois, Sr.Kadam nos reuniu na sala de jantar. Enquanto nós sentávamos ao redor da mesa, eu secretamente esperei que não fossem más notícias e que Lokesh não tivesse nos achado de novo.
“Eu gostaria de propor uma ideia,” Sr.Kadam começou. “Eu achei uma maneira de ter certeza de poderemos achar um ao outro se, por exemplo, alguém for raptado de novo. Não será confortável, mas eu acho que um pequeno desconforto é um preço pequeno a pagar para termos certeza de que ninguém irá se perder.”
Ele abriu uma caixa e tirou um pacote de plástico-bolha. Dentro estava um embrulho de veludo preto que envolvia cinco seringas grossas com agulhas do tamanho de um espinho de porco-espinho.
Nervosamente, eu perguntei, “Umm, Sr.Kadam? O que exatamente você quer dizer com um pequeno desconforto?”
Ele abriu a primeira seringa e pegou uma garrafa de solução salina e alguns lenços com a álcool. “Você já ouviu falar de chips IDPRF?”
“Não,” eu respondi alarmada enquanto assistia ele gentilmente pegar a mão esquerda de Kishan, limpar a área entre o polegar e o indicador com álcool, e depois passar um líquido amarelo no mesmo lugar.
“Quer dizer chip de Identificação Por Rádio Frequência. Eles são usados em animais.”
“Você quer dizer aqueles usados para rastrear baleias e tubarões? Coisas assim?”
“Não exatamente. Aqueles são maiores e caem depois que a bateria acaba.”
Ren se inclinou e pegou um chip do tamanho de um grão de arroz. “Isso parece com o que Lokesh implantou em mim.”
Ele colocou o chip na mesa e esfregou as mãos lentamente, olhando para o horizonte.
“Doeu? Você podia senti-lo dentro da sua pele?” eu perguntei, tentando trazê-lo de volta de qualquer lugar negro que ele tenha se metido.
Ren soltou um suspiro e me deu um pequeno sorriso. “A dor foi mínima na hora, mas sim, eu podia senti-lo sob a minha pele.”
“Esse chip é ligeiramente diferente.” Sr.Kadam hesitou e continuou, “Nós não precisamos usá-los, mas eu acho que será uma precaução para todos nós.”
Ren balançou a cabeça em afirmação, e Sr.Kadam continuou, “Esses são similares aos chips IDPRF que são usados em animais de estimação. Eles emitem uma frequência, normalmente um número de dez dígitos, que podem ser scaneados através da pele.”
“Os chips são revestidos de vidro biocompatível para evitar que entrem em contato com a umidade. Chips IDPRF para humanos não são comuns ainda, mas estão começando a ser aprovados para fins médicos. Eles
identificam histórico médico, alergias, e os tipos de medicação que a pessoa está tomando no momento.”
Ele colocou um pouco de solução salina na seringa e substituiu a menor agulha pela gigante. Depois ele colocou um pequeno chip no sulco da agulha. Ele furou a pele entre o polegar e o dedo de Kishan e cuidadosamente enfiou a agulha. Eu desviei o olhar.
Imperturbado Sr.Kadam continuou, “Agora para os grandes animais marinhos de que você falou, pesquisadores usam chips ligados à satélites que transmitem qualquer coisa desde a localização atual em latitude e longitude, até A profundidade do animal, a duração do mergulho, e a velocidade. Esse tipo de chip é externo e é colado a uma bateria que é eventualmente usada na transmissão de informação. A maioria delas duram apenas um período curto mas outras mais caras podem durar alguns meses.”
Ele pressionou uma bola de algodão na mão de Kishan, removeu a agulha, e cobriu com um Band-Aid. “Ren?”
Kishan e Ren trocaram de lugares, e Sr.Kadam recomeçou o processo com Ren.
“Existem alguns chips internos colocados em animais marinhos que podem gravar o ritmo cardíaco, a temperatura da água, a temperatura do corpo, e a profundidade do animal. Muitos deles transmitem informações à satélites quando os animais emergem.”
Ele pegou outra seringa, colocou um pouco de soro, substituiu a agulha pela maior, e colocou outro chip no sulco da agulha. Quando ele furou a pele e aproximou a seringa, eu fiz uma careta, Ren olhou pra cima e fez contato visual comigo. Ele sorriu e disse, “Fácil, como torta de pêssego.”
Torta de pêssego. A cor se esvaiu do meu rosto.
Ele tentou me convencer, “Não, é sério. Não é tão mau.”
Eu sorri fracamente. “Não acho que a sua tolerância a dor e a minha sejam as mesmas, mas eu vou sobreviver. O Sr. Estava dizendo Sr.Kadam?”
“Sim. Então o problema com os chips IDPRF e os chips via satélite é energia. O que temos aqui não está tecnicamente no mercado e provavelmente nunca estará, devido ao medo do público geral de roubo de identidade e ter agências governamentais os monitorando.”
“Quase todos os desenvolvimentos tecnológicos podem ser usados tanto como benefício quanto como detrimento da humanidade. Eu entendo o medo associado a tal dispositivo, mas existem muitas razões válidas pra explorar tecnologias como esta. Por sorte, eu tenho contatos militares, e eles frequentemente caminham por onde outros temem. Nossos chips podem fazer todas essas coisas e mais, muitos mais, transmitem dados constantes tanto acima quanto abaixo do nível do mar.”
Ele acabou com Ren e olhou pra mim. Hesitante, eu arrastei minha cadeira para trás e troquei de lugar com Ren. Quando me sentei, Sr.Kadam acariciou minha mão brevemente, eu me achei encarando fixamente a agulha enquanto ele trocava as agulhas outra vez. Ele escolheu a mão que não fora marcada pela tatuagem de hena de Phet e repetiu o processo de limpar a mão e passou uma pomada.
“Eu estou passando um remédio tópico que vai anestesiar ligeiramente a área, mas a injeção ainda vai doer.”
“Ok.”
Ele colocou o chip no sulco da agulha. Quando ele furou minha pele, eu fechei os olhos e soltei o ar por entre os dentes cerrados enquanto ele achava o lugar certo.
A mão morna de Kishan pegou a minha, e ele disse carinhosamente, “Aperte o mais forte que precisar, Kells.”
Sr.Kadam lentamente inseriu a agulha. Doeu. Parecia que ele estava enfiando uma das agulhas gigantes de tricô da minha avó na minha mão. Eu apertei a mão de Kishan e comecei a respirar rapidamente. Os segundos passaram, mas pareciam minutos. Eu ouvi o Sr.Kadam dizer que ele precisaria inserir um pouco mais fundo.
Eu não pude segurar um gemido de dor e me balancei em minha cadeira enquanto ele torceu a agulha, e a empurrou mais longe. Meus ouvidos começaram a zunir e as vozes de todos ficaram mais grossas. Eu estava desmaiando. Eu nunca pensei em mim como uma covarde, mas agulhas, eu percebi, me deixavam enjoada. Quase caindo, eu abri meus olhos e olhei para Ren.
Ele estava me olhando com preocupação. Quando nossos olhos se encontraram, ele sorriu meu sorriso torto favorito, a expressão doce que ele usava só comigo, e por um momento a dor desapareceu. Por um breve instante, eu me permiti acreditar que ele ainda era meu, e que ele me amava. Todos na sala desapareceram deixando apenas nós dois.
Eu desejei que eu pudesse tocar sua bochecha e alisar seu sedoso cabelo preto ou traçar o arco da sua sobrancelha. Eu olhei para seu belo rosto e deixei aqueles sentimentos me invadirem, e naquela hora fugaz, eu senti o fantasma da nossa conexão emocional.
Era apenas um mero suspiro, como um aroma na brisa que passa rápido demais, trazendo com ele a memória de algo que você não consegue alcançar. Eu não estava certa se isso foi um truque da luz, uma centelha de alguma coisa real, ou alguma coisa que eu imaginei, mas havia capturado toda a minha atenção. Meu inteiro ser estava focado em Ren, ao ponto de quando Sr.Kadam tirou a agulha e a substituiu por uma bola de algodão, eu percebi que tinha largado a mão de Kishan completamente.
Vozes voltaram a minha consciência. Eu balancei a cabeça em resposta para a pergunta de Kishan e olhei da minha mão para Ren de novo, mas ele tinha deixado a sala. Sr.Kadam pediu Kishan que o ajudasse a inserir seu próprio dispositivo. Ele começou a explicar a diferença entre a nossa tecnologia e as outras que ele havia descrito.
Eu escutei apenas a metade, mas o ouvi dizendo que nós podíamos acessar um ao outro com novos celulares, que ele distribuiu. Ele explicou como a fonte de energia funcionava. E sentei assentindo um pouco, mas sai do meu transe quando Kishan se levantou alguns minutos depois. Sr.Kadam me ofereceu uma aspirina e água, eu engoli a pílula e fui para o meu quarto.
Inquieta e desconfortável, eu deitei em cima das minhas cobertas tentando cair no sono sem sucesso. Minha mão estava dolorida e dormente e dormir com ela em baixo da minha bochecha estava fora de questão. Eu ouvi uma suave batida na minha porta. “Entre.”
“Eu ouvi você se mexendo e presumi que ainda estava acordada,” disse Ren, fechando a porta suavemente atrás dele. “Eu espero que não esteja incomodando você.”
Eu me sentei e liguei a luminária ao lado da cama. “Não. Tudo bem. O que foi? Você quer ir para a varanda?”
“Não, Kishan parece ter fixado residência permanente lá fora.”
“Ah.” Eu olhei através da janela e vi uma cauda negra pendendo do sofá de palha balançando pra lá e pra cá.
“Eu vou falar com ele sobre isso. Ele não precisa ser minha babá. Estou perfeitamente segura aqui.”
Ren deu de ombros. “Ele gosta de tomar conta de você.”
“Então o que você queria falar comigo?”
Ele sentou na beirada da minha cama. “Eu... eu não tenho certeza. Como está a sua mão?”
“Arde. Como está a sua?”
“A minha já se curou.” Ele levantou a mão para me mostrar. Eu peguei a sua mão e a estudei. Eu não podia falar que havia algo debaixo da sua pele. Ele fechou os dedos ao redor meus brevemente. Eu corei, e ele passou levemente as costas dos dedos dele na minha bochecha quente, o que fez minha pele queimar ainda mais.
“Você está corando.”
“Eu sei. Me desculpe.”
“Não peça desculpas. É até... conveniente.”
Eu sentei e assisti a expressão dele enquanto ele se concentrava no meu rosto. Ele levantou a mão e tocou uma mecha do meu cabelo. Ele passou os dedos por toda a sua extensão. Eu puxei o ar e ele também – mas por uma razão diferente. Uma gota de suor desceu pela sua testa até sua têmpora e ele a enxugou.
“Você está bem?”
Ele fechou os olhos e respirou fundo. “É pior quando eu te toco.”
“Então não me toque.”
“Eu preciso passar por isso. Me dê sua mão.”
Eu coloquei minha mão direita na dele, e ele a cobriu com a esquerda. Ele fechou os olhos e segurou minha mão por um minuto inteiro. Eu senti um fraco tremor no seu braço enquanto ele segurava minha mão gentilmente entre as dele. Finalmente, ele as soltou.
“Não está na hora de você se transformar em tigre?”
“Não. Eu ainda tenho tempo. Eu posso ser humano por doze horas agora.”
“Então o que foi? Por que está tremendo?”
“Eu não sei. Parece que alguma coisa queima dentro de mim quando eu te toco. Meu estômago dói, minha visão embaça, e minha cabeça lateja.”
“Tente sentar ali.” Eu apontei para o sofá. Ele teimosamente sentou no chão com suas costas na cama e juntou os joelhos sob seus cotovelos.
“Está melhor?” eu perguntei.
“Sim. A ardência se foi, mas a visão embaçada, dor de cabeça e o estômago embolando ainda estão aqui.”
“Você sente dor quando está em outra parte da casa?”
“Não, só tocar você causa a dor excruciante. Ver você ou escutar você traz os sintomas eu outros graus. Se você estiver sentada longe o suficiente, não chega a ser uma pontada. É meramente desconfortável, e eu tenho que
lutar com a necessidade de me afastar. Segurar sua mão ou tocar seu rosto é como segurar carvão queimando.”
“Quando você voltou e nós conversamos, você pôs meu pé no seu colo. Aquilo não doeu?”
“Seu pé estava sobre um travesseiro. Eu o toquei por apenas alguns minutos, e eu estava sentindo tanta dor no momento de qualquer jeito que eu quase não notei mais.”
“Vamos testar. Fique lá perto da porta do banheiro, e eu vou para o outro lado do quarto.”
Ele se moveu.
“Então agora, como se sente?”
“Eu sinto que preciso sair daqui. O desconforto melhorou, mas o quanto mais eu fico, pior eu me sinto.”
“A necessidade de ir é um sentimento arrepiante, como a necessidade de correr para salvar sua vida?”
“Não. É um desespero que se constrói... como quando você segura o fôlego debaixo d’agua. Está tudo bem no início, até mesmo bem, mas depois parece que meus pulmões estão gritando por ar, e tudo que eu não posso fazer é atingir a superfície.”
“Hmm, talvez você tenha SPT.”
“O que é isso?”
“Stress pós-traumático. É um transtorno que você pode ter quando é exposto traumas terríveis e altos níveis de stress. Lembra de quando disse a Kishan que quando ouvia o meu nome, tudo que você conseguia pensar era em Lokesh torturando você, questionando você?”
“Certo. Ainda existe um pouco daquilo, eu acho. Mas agora que eu você conheço melhor eu não a associo mais a ele. Eu consigo afastar aquilo de você agora. Não foi por causa de você que tudo isso aconteceu.”
“Parte dos seus sintomas comigo podem ainda estar relacionados com isso. Talvez você precise de um terapeuta.”
Ren riu, “Kelsey, em primeiro lugar, um terapeuta iria me colocar num hospício por eu dizer que era um tigre. Segundo, eu não sou um estranho para batalhas sangrentas ou dor. Essa não foi a primeira vez que Lokesh me torturou. Foi definitivamente uma experiência que eu não gostaria de ter outra vez, mas eu sei que você não tem culpa.”
“Pedir ajuda de vez em quando não te fazer ser menos homem.”
“Eu não estou tentando ser heroico se é o que você acha. Se isso fizer você se sentir melhor, eu já comecei a falar com Kishan sobre isso.”
Eu pisquei. “Ele tem sido útil?”
“Kishan é... surpreendentemente compreensivo. Ele é um homem diferente agora. Ele disse que mudou por causa de você. Você o influenciou. Trouxe à tona um lado dele que eu não via desde que nossa mãe morreu.”
Eu concordei, “Ele é um homem bom.”
“Nós falamos sobre muitas coisas. Não apenas sobre Lokesh mas sobre o nosso passado também. Ele me contou sobre Yesubai e sobre como vocês dois se aproximaram.”
“Ah.” Por um momento em pânico, eu imaginei se Kishan tinha compartilhado outras coisas com Ren, coisas como talvez seus sentimentos. Eu não estava certa se queria abordar esse assunto, então eu mudei. “Eu não quero que você sinta dor sofra quando está perto de mim.”
“Eu não quero evitar você. Eu gosto de você.”
“Você gosta?” Eu não podia evitar sorrir.
“Sim. Eu imagino que seja por isso que eu namorava você,” ele disse secamente. Ele escorregou para o chão e descansou as costas na porta do banheiro. “Vamos ver o quanto eu posso durar. Chegue perto.”
Obedientemente, eu dei alguns passos a gente. Ele fez um gesto para mim outra vez. “Não. Mais perto. Senta na cama.”
Eu cheguei a cama e procurei pela dor em seu rosto. “Você está bem?”
“Sim.” Ele esticou suas longas pernas e as cruzou nos tornozelos. “Me conte sobre nosso primeiro encontro.”
“Você tem certeza?”
“Sim. Está tolerável agora.”
Eu deslizei para a beira da cama o mais longe possível dele, me arrastei debaixo das cobertas, e pus meu travesseiro no meu colo. “Ok, nosso primeiro encontro seria provavelmente o que você me enganou para ir.”
“Quando foi?”
“Logo depois que deixamos Kishkindha. No restaurante do hotel.”
“O restaurante? Foi aquele logo depois que ganhei seis horas de novo?”
“Sim. O que você se lembra sobre isso?”
“Nada, exceto jantar pela primeira vez em séculos num bom restaurante com uma mesa cheia de comida. Eu me senti... feliz.”
“Há! Bom, eu imagino que você tenha se sentido feliz. Você estava muito convencido, e flertou descaradamente com a garçonete.”
“Eu fiz isso?” Ele esfregou o queixo. “Eu nem me lembro da garçonete.”
Eu bufei. “Como você sempre sabe a coisa certa a se dizer mesmo quando não se lembra de nada?”
Ele sorriu. “Deve ser um dom. Então sobre a garçonete... ela era bonita? Me diga mais.”
Eu descrevi nosso encontro e como nós brigamos durante o jantar. Eu lhe contei como ele ordenara um banquete e fez o Sr.Kadam me trazer ali. Eu falei como ele estava bonito, sobre como nós discutimos, e como eu chutei seu pé quando ele piscou para a garçonete.
“O que aconteceu depois do jantar?”
“Você me levou de volta pro meu quarto.”
“E?”
“E... nada.”
“Eu ao menos te dei um beijo de despedida?”
“Não.”
Ele levantou uma sobrancelha. “Isso não soa como eu.”
Eu ri. “Não era como se você não quisesse. Você estava me punindo.”
“Te punindo?”
“De certo modo. Você queria que eu admitisse meu sentimentos.”
“E você admitiu?”
“Não. Sou muito teimosa.”
“Estou vendo. Então a garçonete estava flertando comigo, huh?”
“Se você não parar de sorrir para o pensamento na garçonete, eu vou socar o seu braço e fazer você fisicamente doente.”
Ele riu. “Você não faria.”
“Eu faria.”
“Eu sou muito rápido pra você conseguir chegar perto.”
“Quer apostar?”
Eu me arrastei até ele na cama enquanto ele me olhava com uma expressão divertida. Eu me debrucei sobre um lado, fiz um punho com a minha boa mão, e girei, mas ele rapidamente se afastou, ficou de pé, e estava agora parado aos pés da cama. Saindo da cama, eu andei em torno da cama, tentando encurralá-lo. Ele riu baixinho e fez sinal pra que eu chegasse perto. Eu espreitei em sua direção lentamente.
Ele se manteve firme com um leve sorriso de confiança e me deixou aproximar dele. Quando eu estava a cinco passos, ele perdeu seu sorriso. A
três passos, ele fez uma careta. A um passo, ele gemeu e cambaleou. Ele se moveu alguns metros para longe e agarrou as costas do sofá procurando apoio e respirou fundo.
“Eu acho que é o máximo que posso aguentar hoje. Me desculpe, Kelsey.”
Eu dei alguns passos pra trás e disse baixinho. “Me desculpe também.”
Ele abriu a porta, e me deu um pequeno sorriso. ‘Eu acho que foi pior dessa vez porque eu toquei a sua mão por muito tempo. A dor cresceu muito rápido. “Normalmente, ficar ao seu lado não me afeta tão fortemente.”
Eu concordei.
Ele sorriu. “Da próxima vez eu vou apenas ter que me lembrar de tocar em você no final da noite. Boa noite.”
“Boa noite.”
Alguns dias depois, nossa aventura à maldição do tigre recomeçou. Nós partimos para visitar o xamã Phet que finalmente respondeu à mensagem do Sr.Kadam e indicou que queria ver “Tigre, Kahl-see, e os presentes especiais de Durga.” Ele foi inflexível em dizer que apenas nós três devíamos fazer a jornada.
Embora eu não tenha falado em voz alta, eu esperava que Phet, com suas estranhas e místicas poções de ervas, pudesse reverter a perda da memória de Ren.
Apesar de eu e Ren estarmos muito melhores e ambos os irmãos estivessem se dando bem desde a nossa última viagem de carro, eu ainda me sentia um pouco tensa sobre ficar presa num lugar pequeno com dois tigres de cabeça quente. Bom, se eles não se comportarem, eu vou atingi-los com um pequeno raio. Isso vai ensina-los a não brigarem quando eu estiver perto, pensei com um meio sorriso e andei para o sol da manhã.
Os homens estavam parados perto do recém lavado e abastecido Jeep quando eu sai pela porta da frente. Sr.Kadam colocou a mochila cheia de armas no banco de trás, piscou pra mim, e me abraçou. Eu pus outra bolsa contendo o cobertor da minha avó, que até agora tinha provado que me dava sorte, do lado das nossas armas.
Nós todos estávamos usando botas de caminhar e macias calças cargo sem costura que Ren havia feito com a Echarpe Divina. Ele procurou modelos na internet e fez a Echarpe cria-los em várias cores. Ele disse que minha blusa verde-maçã iria proteger meu corpo dos raios UV e afastar a umidade sendo respirável ao mesmo tempo. Eu tinha que admitir que a blusa era confortável, e para mostrar a ele o quanto eu gostara, eu fiz duas longas tranças embutidas e as amarrei com uma fita verde-maçã.
Kishan vestia uma blusa cor de tijolo do mesmo tecido, mas tinha um bolso do lado, enquanto Ren vestia uma blusa azul-cerúleo que caia perfeitamente em sua figura musculosa. Ele ainda estava magro, mas começou a ganhar peso nas semanas que ele esteve em casa, e seus exercícios diários com Kishan estavam mostrando resultados. Obviamente não demorou muito para que seus músculos voltassem a aparecer.
“Você consegue respirar nessa blusa, Ren?” eu provoquei alegremente. “Você provavelmente foi para um tamanho maior.”
Ren respondeu, “A blusa é apertada então não limita meus movimentos.”
Meu bufar se transformou numa risadinha. Depois, estimulada por Kishan a risada se transformou em um alto ataque de risos.
“Não é como se houvesse alguma garçonete bonita lá fora na selva, Ren. Você não tem nenhuma razão para exibir os seus músculos.”
Ainda rindo, Kishan sentou no banco do motorista.
Enquanto eu pegava na maçaneta da porta, Ren se inclinou pra mim e murmurou no meu ouvido. “Caso você não tenha percebido, a sua blusa também é bastante apertada, Kelsey.”
Meu queixo caiu.
“Aí está.”
Eu soquei o braço dele e sibilei, “Aí está o que?”
Ele se encolheu e esfregou o braço, mas sorriu. “O seu adorável rubor.”
Ele pulou pra dentro do carro empurrou Kishan de brincadeira pro lado para que ele também pudesse ouvir as instruções de direção do Sr.Kadam juntamente com o pedido de que Kishan manobrasse o carro com cuidado pra não bater.
Eu sentei atrás e abotoei meu cinto de segurança, decidida a ignorar as palhaçadas dos irmãos. Eles tentaram me incluir na conversa, mas eu prestei nenhuma atenção neles, enterrando meu nariz num livro ao invés.
Eles falaram o caminho todo, e eu estava fascinada pela conversa deles. Eu nunca tinha escutado eles falarem tão civilizadamente um com o outro antes. Ren disse a Kishan sobre a primeira vez que visitou Phet e educadamente me pediu para preencher as lacunas. Ele lembrou bastante como foi. Ele apenas de algum jeito esqueceu tudo que se referia a mim.
Eu falei sobre o amuleto em meu pescoço, a tatuagem de hena que Phet fez em minha mão, e como nós descobrimos que isso me deu o poder para entrar nas cidades míticas. Ren não se lembrava nem um pouco disso e não tinha ideia de como ele entrou em lugares sem mim. Ele tinha apenas um branco.
Pela hora que nós chegamos no Santuário de Yawal, Ren estava bastante desesperado para sair do carro e para longe de mim. Ele saiu a pé, andando por entre as arvores.
Kishan o viu ir e me ajudou a pegar a grande mochila com todas as armas. Ele a colocou sobre os ombros antes de trancar o Jeep.
“Vamos?”
“Claro.” Eu suspirei. “Ele está bem a frente, não está?”
“Sim. Embora não tão longe. Eu consigo facilmente seguir seu rastro.”
Nós andamos silenciosamente por alguns minutos. Árvores de teca * pairavam sobre nós, o que era bom, pois providenciavam sombra do sol quente.
“Nós vamos caminhar até o Lago Suki e então vamos almoçar e descansar na parte mais quente do dia.”
“Parece bom.”
Eu escutei o triturar dos meus sapatos enquanto andava pela cobertura de samambaias do chão da floresta. Kishan estava quieto, presente constantemente ao meu lado.
“Eu sinto falta disso.” Ele disse.
“Sente falta de que?”
“Caminhar pela floresta com você. É tranquilo.”
“É, quando não estamos fugindo de coisas.”
“É bom. Eu sinto falta de ficar sozinho com você.”
“Eu odeio arruinar isso pra você, mas mesmo agora, nós não estamos sozinhos.”
“Não, eu sei disso. Mesmo assim, é mais sozinho do que eu estive com você em semanas.” Ele limpou a garganta. “Eu ouvi você naquela noite quando Ren foi ao seu quarto.”
“Ah. Então você sabe que ele se sente mal perto de mim. Ele não pode me tocar.”
“Sinto muito. Eu sei que isso te causa dor.”
“É mais como se causasse dor a ele.”
“Não. Ele está apenas se machucando fisicamente. Você está se machucando emocionalmente. É difícil passar por isso. Eu só queria que você soubesse que eu estou aqui se você precisar.”
“Eu sei que está.”
Kishan estendeu as mãos e pegou a minha enquanto eu olhava nos seus olhos dourados e perguntava, “Para que isso?”
“Eu queria segurar sua mão. Nem todo mundo se encolhe de dor quando toca você, sabe.”
“Obrigada.”
Ele sorriu e deu um beijo nas costas da minha mão. Nós andamos outras duas horas em silêncio, de mãos dadas o tempo todo. Eu refleti de novo sobre as diferenças entre Ren e Kishan. Ren estava sempre falando ou escrevendo. Ele gostava de pensar em voz alta. Ele disse que não se comunicar era a coisa mais frustrante em ser um tigre.
No Oregon, Ren me bombardearia com perguntas toda manhã. Ele responderia perguntas que eu já tinha esquecido e falaria sobre coisas que ele estivera pensando a tarde toda como tigre e não podia me contar.
Kishan era o oposto. Ele era constante, silencioso. Ele gostava de apenas ser, apenas sentir, apenas experimentar as coisas ao seu redor. Quando ele tomou um barril de cerveja, ele adorou a experiência e deu 100 por cento de sua atenção a ela. Ele se encharcou no seu ambiente e ficou feliz de guardar pra ele.
Eu ficava confortável com ambos. Eu podia apreciar mais a quietude e a natureza com Kishan. Mas com Ren perto, eu ficava tão ocupada em falar com ele e, eu admito, apreciar ele que tudo em volta desaparecia.
Quando o Lago Suki apareceu, nós achamos Ren parado na beira do lago jogando pedras na superfície. Ele se virou para nós com um sorriso e viu nossas mãos dadas. Seu sorriso vacilou brevemente, mas então ele me provocou e sorriu de novo. “Já era tempo de vocês dois chegarem. Vocês são mais lentos que mel na geladeira. Estou faminto. O que tem para o almoço?”
Eu tirei minha mochila. Minha blusa estava colada na pele. Coloquei a mochila no chão e a abri. “O que você quer?”
Ren se agachou ao meu lado. “Eu não ligo. Surpreenda-me.”
“Eu achei que você não gostasse da minha comida.”
“Não. Eu gostava. Só não gostava de todos vocês me encarando enquanto eu comia, esperando que cada mordida derramasse uma lembrança. Na verdade, eu adoraria alguns daqueles cookies de chocolate com manteiga de amendoim.”
“Ok. Kishan? E você?” Eu protegi meus olhos e olhei pra ele. Ele estava olhando para Ren.
“Faça para mim a mesma coisa que fizer para ele.”
Os irmãos foram jogar pedras no lago e eu podia ouvi-los rir enquanto competiam um com o outro. Eu pedi ao Fruto Dourado que criasse uma cesta de piquenique para nós cheia de limonada; biscoitos quentes e frescos com manteiga e uma variedade de geleias e doces; uma salada de massa gelada com azeitonas, tomates, cenouras, e um vinagrete de limão; um balde gigante frango havaiano ao molho barbecue; e meus cookies de chocolate com manteiga de amendoim.
Eu usei a Echarpe Divina para criar uma toalha xadrez branca e vermelha e a estendi sob um arvore. Nosso piquenique estava pronto.
“Almoço está pronto!” eu gritei.
Os irmãos não perderam tempo. Kishan estendeu as mãos para o frango, e Ren, para os cookies. Eu bati nas suas mãos e dei para cada um, um lenço bactericida.
Kishan resmungou, “Kells, eu comi minha comida crua na terra por trezentos anos. Eu não acho que um pouco de sujeira vai me matar.”
“Talvez não, mas limpar as mãos me faz sentir melhor.”
Eu passei a eles um balde gigante de frango e peguei um biscoito da cesta, passei manteiga, e espalhei geleia de amora em cima. Encostando as costas na arvore, eu olhei para os rios de sol por entres as folhas enquanto lentamente comia meu biscoito.
“Quanto falta para chegar à casa de Phet? Só levou mais ou menos um dia de caminhada para mim e Ren da ultima vez.”
“Nós teremos de dormir na selva essa noite.” Kishan respondeu. “Nós estamos no lado mais longe do Lago Suki.”
“Ah. Hey! Guarde uns pedações de frango pra mim!” Eu gritei enquanto o balde ia se esvaziando rapidamente. “Como vocês dois conseguem devorar tanto frango em apenas dois minutos?”
“Bem feito pra você, ficou aí olhando pro nada.” Disse Ren.
“Eu não estava olhando pro nada. Eu estava apreciando o ambiente.”
“Eu percebi. Me deu uma boa oportunidade de ‘apreciar o ambiente’ eu mesmo,” ele sorriu maliciosamente, me provocando.
Eu chutei seu pé. “Você deveria ao menos ter guardado alguma coisa para mim.”
Ele sorriu e me deu uma das últimas coxinhas de frango.
“O que você esperava? Dois ou três minúsculos frangos para alimentar dois tigres famintos? Nós precisamos de algo no mínimo do tamanho de... o que você diria, Kishan?’
“Eu diria algumas coisa do tamanho de um búfalo pequeno.”
“Um búfalo pequeno seria bom ou talvez um cabra ou duas. Você já comeu um cavalo?” Ren perguntou.
“Não, muito fibroso.”
“E um chacal?”
“Não. Mas matei alguns. Eles gostam de ficar perto e esperar que eu termine com a minha presa.”
“Javali?”
“Pelo menos, um por mês.”
“E um... você está bem, Kelsey?”
“Podemos mudar o assunto da conversa?” A coxa de frango caiu dos meus dedos. Eu a olhei e imaginei o animal que ele era. “Eu acho que não
consigo mais comer isso. Na verdade, sem mais conversa sobre as suas matanças na mesa de jantar. Já horrível ter de assistido vocês dois caçando.”
Ren mastigou e provocou, “Agora, pensando nisso, você é do tamanho perfeito para um lanche. Você não acha, Kishan?”
Kishan me estudou com um brilho provocante nos olhos. “Eu já pensei várias vezes que Kelsey seria divertida de caçar.”
Eu olhei para Kishan. Ele mordeu um biscoito e piscou.
Ren juntou os joelhões em seu peito e riu. “O que você diz, Kelsey? Quer brincar de pique-esconde com os tigres?”
“Eu acho que não,” eu disse arrogantemente enquanto cuidadosamente limpava meus dedos com outro lenço.
“Ah, vamos lá. Nós deixaríamos você começar primeiro.”
Eu encostei minhas costas no tronco da árvore. “Sim, mas a pergunta continua... o que vocês fariam quando me pegassem?”
Kishan passou manteiga em outro biscoito enquanto tentava sem sucesso esconder um sorriso.
Ren deitou sobre seus cotovelos e inclinou a cabeça como se seriamente considerasse a pergunta. “Eu acho que isso dependeria do tigre que te pegasse. Você não acha, Kishan?”
“Ela não vai correr,” ele disse.
“Você acha que não?”
“Não.” Kishan levantou e sugeriu que nós andássemos outra hora ou duas e depois parar para acampar a noite. Ele se agachou ao meu lado e tocou meu ombro. “Está bastante quente agora. Me fale quando estiver cansada.” Ele disse e saiu andando para a selva para achar a trilha.
“Kishan está certo. Eu não vou correr.” eu afirmei enquanto bebia minha limonada.
Ren suspirou. “Isso é péssimo. Na maior parte do tempo a diversão está na perseguição, mas eu suspeito que com você a captura seria igualmente interessante.” Ele esticou um dedo e acariciou minha bochecha. “Fiz você corar de novo.”
“Eu acho que é uma queimadura de sol.” Eu disse e o olhei.
Ele se levantou e ofereceu sua mão para me ajudar a levantar. Uma vez de pé eu a soltei imediatamente.
Pegando a caixa de cookies, Ren disse suavemente, “Não é uma queimadura de sol.”
Ele colocou minha mochila nas costas e saiu atrás de Kishan. Com nada para carregar, eu mentalmente instrui o Fruto Dourado e a Echarpe Divina para fazerem os restos de o nosso piquenique desaparecerem e segui atrás de Ren.
Nós caminhamos outras duas horas antes de desistir de andar. Ren se encostou numa árvore alguns metros longe, e Kishan usou Echarpe para criar uma pequena barraca.
“Não é grande o bastante para dois tigre, Kishan.”
“Nós não precisamos dormir do seu lado, Kells. Está quente. Nós vamos fazer você se sentir mal.”
“Eu não me importo, sério.”
Kishan molhou uma roupa e tocou meu rosto.
“Isso é bom,” eu disse agradecida.
“Você está superaquecida. Eu não deveria tê-la deixado andar tanto em um dia.”
“Eu vou ficar bem. Talvez eu devesse fazer um banho mágico de leite com o Fruto Dourado, hein?” eu ri.
Kishan considerou e sorriu. “Uma tigela gigante de leite com você no meio pode ser um pouco demais para nós gatos resistimos.”
Eu sorri, mas estava muito exausta para dar uma resposta petulante.
“Eu quero que você relaxe agora, Kelsey. Tire um cochilo.”
“Ok.” Eu fui para dentro da minha barraca para limpar meus braços e minha nuca com a roupa molhada. A barraca estava tão abafada que logo eu estava do lado de fora. Os dois tigres – um preto e um branco – estavam descansando na sombra de uma árvore próxima. Eu ouvi o suave borbulho de um riacho. O calor estava me deixando definitivamente sonolenta.
Eu sentei entre os tigres com minhas costas na árvore. Depois que minha cabeça caiu pela terceira vez, eu a encostei nas costas macias de Kishan e cai no sono.
Pelo coçou meu nariz. Eu balbuciei e virei a cabeça. Eu escutei o canto de um pássaro, abri meus olhos, e vi Kishan sentado com as costas contra a árvore, me olhando silenciosamente. Ele estava descalço e usando as roupas pretas que pareciam toda vez que ele se voltava a ser homem.
“Kishan?” Eu levantei a cabeça, confusa, sabendo que eu tinha caído no sono no seu pelo escuro, macio. Minha mão estava sobre o ombro branco de Ren. “Ren?” eu rapidamente deslizei para o lado de Kishan, que colocou seus braços sobre meus ombros. “Ren? Eu sinto muito! Machuquei você?”
Eu assisti o corpo tigre de Ren mudar para sua forma humana. Ele se levantou sobre as quatro patas. O sol da tarde brilhou na sua blusa branca enquanto ele me considerava pensativo. “Não doeu.”
“Você tem certeza?”
“Sim. Você se mexeu durante o sono. Não me queimou ou causou nenhum tipo de dor.”
“Por quanto tempo?”
“Pouco mais de duas horas.”
“Você ainda sente necessidade de escapar? De ficar longe de mim?”
“Não. Eu me senti... bem. Talvez eu precise ficar mais tempo como tigre perto de você.”
Ele sorriu, voltou a se transformar em tigre, andou até mim, e encostou seu nariz no meu rosto. Eu ri e desajeitadamente fiz carinho atrás de sua orelha. Ele soltou um ronrono em seu peito e caiu ao meu lado, virando seu pescoço para que eu pudesse alcançar a outra orelha.
Kishan pigarreou, levantou, e se esticou. “Já que vocês dois estão... se reconhecendo, eu vou esticar minhas pernas um pouco, talvez fazer uma pequena perseguição só por diversão.”
Eu levantei e coloquei minha mão na sua bochecha. “Não seja pego por uma armadilha.”
Kishan levantou sua mão, colocou-a em cima da minha e sorriu. “Eu vou ficar bem. Vou voltar em uma hora ou duas depois do pôr-do-sol. Você pode praticar me rastrear nos novos celulares se quiser.”
Kishan se transformou no tigre preto. Eu acariciei sua cabeça brevemente antes dele correr para a floresta.
Eu me sentei ao lado de Ren com o celular rastreador. Eu precisei de uma boa hora para descobrir como ele funcionava. A tela parecia um mapa do Google. Eu era o ponto escrito Ke. Ren era R. Kishan era o ponto Ki, e eu podia ver seu pontinho se movendo na tela. Ele estava mais ou menos a duas milhas de distância, se movendo rapidamente a leste.
Alargando o mapa, eu descobri como dar um zoom na localização do Sr.Kadam e de Nilima. Se eu clicasse em um dos pontos, uma pequena janela surgia me dizendo a exata latitude e longitude, e também seus sinais vitais. Aparelhinho muito legal. Eu acariciei o pelo de Ren distraída, e expliquei a ele como tudo funcionava. Suas orelhas se moviam para trás e para frente atentamente. Então de repente ele ficou de pé e olhou a selva escurecida.
“O quê? O que foi?”
Ren se transformou em homem. “Vá para dentro da barraca e se feche lá.”
“Ela não tem zíperes. A Echarpe não pode fazê-los. O que tem lá?”
“Uma serpente. Espero que ela continue e nos deixe em paz.”
Entrei na barraca enquanto ele voltava a ser tigre. Ren ocupou a entrada da barraca e esperou. Espiei e vi uma cobra gigante preta e verde-oliva deslizando pela selva. Sua cabeça era desproporcionalmente maior que seu corpo. Quando viu Ren, ela parou para sentir o ar. Ren rosnou baixinho, e a cabeça da cobra se levantou, o que mostrou a pálida pele amarela da sua barriga. Conforme o capelo dela se abriu e mandou uma ameaça, eu percebi que estava olhando para uma Cobra Real.
Ren não se moveu. A cobra iria provavelmente sair dali se nós ficássemos quietos. Ela abaixou a cabeça devagar e deslizou alguns centímetros a frente, mas então eu vi Ren balançar a cabeça um pouco antes de um alto espirro de tigre reverberou pelo seu corpo. A cobra levantou seu tronco outra vez e lançou jatos duplos de veneno de suas presas por uns dois metros e meio. O jato não atingiu os olhos de Ren, felizmente, ou isso provavelmente o teria cegado. A serpente se moveu um pouco mais perto e tentou de novo.
“Ren! Vá para trás! Ela está mirando nos seus olhos!”
Alguma coisa se mexeu na minha bolsa. Era outra cobra! Uma cabeça dourada escorregou de um buraco mínimo na minha mochila e saiu da tenda.
Fanindra?
Ren recuou, e eu desamarrei alguns nós para que ele pudesse entrar na barraca comigo. Nós assistimos de dentro.
Fanindra traçou seu caminho diretamente para a Cobra Rei, levantou sua cabeça, e abriu seu capelo. Seus olhos de esmeralda faiscaram apesar da diminuição da luz do sol. A Cobra Real balançou para trás e para frente, provou o ar, e depois deixou sua cabeça abaixo da dela. Ela lentamente baixou sua cabeça para descansá-la no topo da cabeça da cobra, que abaixou o corpo, se virou, e deslizou rapidamente para a floresta. Fanindra voltou para a barraca, enrolou seu corpo numa espiral, dobrou sua cabeça, e ficou inanimada.
Ren se transformou em homem. “Nós fomos sortudos. Aquela era uma cobra zangada com atitude.”
“Ela o acalmou bem rápido.”
A barraca ficou escura. Os olhos azuis e o sorriso de Ren brilhavam no escuro. Eu senti um leve toque na minha mandíbula. “Mulheres bonitas têm esse efeito sobre homens.” Ele voltou a ser tigre e sentou aos meus pés.
Kishan logo voltou fez um som gutural enquanto entrava no acampamento. Depois de mudar de tigre para homem, ele colocou sua cabeça na barraca. “Porque vocês estão se escondendo?”
Eu fui para o lado de fora e lhe contei sobre a cobra. “O que foi aquele barulho que você acabou de fazer?” eu perguntei enquanto começava a preparar o jantar.
Ren virou homem e sentou-se na minha frente. Eu lhe dei um prato enquanto ele respondia por Kishan. “Se chama chuffing (ronco ofegante, similar a um ronronar baixo http://en.wikipedia.org/wiki/Prusten) É um oi de tigre.”
Eu pisquei e olhei para Ren. “Você nunca fez isso.”
Ele deu de ombros. “Nunca quis, eu acho.”
Kishan grunhiu. “É assim que se chama?” Ele deu uma cotovelada em Ren. “Agora eu acho que sei o todas aquelas tigresas estavam falando. Onde você aprendeu isso?”
“No zoológico.”
“Hmm.”
Ren sorriu. “Então... você e as tigresas, eh? Tem alguma coisa que você gostaria de compartilhar Kishan?”
Kishan enfiou um garfo cheio de comida na boca e balbuciou, “O que você acha de eu compartilhar meu punho com a sua cara?”
“Uau. Sensível. Tenho certeza de que suas tigresas eram muito atraentes. Então, eu já sou um tio?”
Kishan rosnou bravo e colocou seu prato no chão. Ele se transformou em tigre negro e rugiu.
“Tudo bem. Já chega,” Eu ameacei. “Ren, você quer que eu compartilhe sua história do programa de reprodução do tigre branco com Kishan?”
Ren empalideceu. “O que você sabe sobre isso?”
Eu sorri perversamente. “Sim.”
Kishan mudou outra vez, pegou seu prato, e sorriu. “Por favor continue, Kells. Me conte tudo sobre isso.”
“Ótimo,” eu suspirei. “Vamos colocar tudo às claras. Kishan, você já se envolveu em alguma... atividade promíscua com tigres fêmeas?”
“O que você acha?”
“Apenas responda a pergunta.”
“Claro que não!”
“Foi o que pensei. Ren, eu já sei que você também não, apesar de que o zoológico tentou bastante que você se reproduzisse. Agora sem mais provocações ou brigas sobre o assunto, ou eu vou atirar um raio em vocês. Eu espero que vocês dois tenham seus melhores comportamentos.” Eu sorri. “Hmm... talvez nós possamos investir em coleiras de choque para vocês dois. Não, melhor não. Isso seria tentador demais para mim.”
Eles dois bufaram, mas logo se sentaram e comeram mais ou menos cinco pratos de jantar cada.
Depois de comermos, Kishan fez uma fogueira para deixar os animais afastados, e eu contei a história do leão e do rato, mas mudei para o tigre e o porco-espinho. Ela nos levou para uma conversa sobre caça e as histórias das melhores caçadas dos irmãos, durante as quais eu me contorci e tentei ignorá-los.
Enquanto assistíamos ao pôr-do-sol, Kishan colocou seu braço ao meu redor e descreveu as mudanças que ele podia sentir na selva enquanto o dia
virava noite. Era fascinante, mas também apavorante saber quantas criaturas começavam a se mover nas árvores durante o anoitecer.
Mais tarde, naquela noite sufocante, eu fui para minha pequena barraca e deitei sobre meu saco de dormir, me enrolando no cobertor mais leve no estilo múmia.
Ren enfiou a cabeça para checar se eu estava bem e riu. “Você sempre faz isso?”
“Só quando estou acampando.”
“Você sabe, insetos ainda podem entrar ai.”
“Não diga isso. Eu gosto de viver na ignorância.”
Eu ouvi seu leve riso enquanto amarrava os nós para mim.
Depois de passar uma hora sem descanso rolando de um lado para o outro, Kishan apareceu na porta da minha barraca. “Não consegue dormir?”
Eu me levantei sobre um cotovelo. “Eu realmente preferiria ter um tigre perto de mim. Me ajuda a dormir na floresta.”
Kishan suspirou. Seus olhos dourados brilhavam ao luar. “Tudo bem, chegue para lá.”
Eu alegremente me desloquei para abrir espaço para Kishan. Ele virou um tigre negro e pressionou seu corpo contra as minhas costas, eu tinha acabado de me ajeitar quando senti um nariz molhado na minha bochecha. Ren tinha espremido seu corpo gigante no minúsculo espaço entre a parede da barraca e eu e deitou – metade em cima de mim.
“Ren! Eu não consigo respirar. Meu braço está preso debaixo de você.”
Ele se virou e lambeu meu ombro. Eu empurrei seu corpo pesado e me virei. Exasperada, eu disse, “Echarpe Divina, você pode fazer a barraca ficar maior para todos nós, por favor?”
Eu senti a barraca balançar levemente e ouvi o sussurro das linhas enquanto se trançavam. Pouco tempo depois, eu estava encostada
confortavelmente entre meus dois tigres. Eu rolei para um lado, beijei o topo da cabeça peluda de Kishan e acariciei seu pescoço. “Boa noite. Kishan.”
Depois eu rolei para o outro lado e fiquei cara a cara com meu tigre branco de olhos azuis. Eu acariciei sua cabeça e disse boa noite antes de fechar os olhos. Logo depois, eu senti pelos fazendo cócegas no meu nariz. A cabeça de Ren estava pressionada contra o meu rosto. Eu sabia o que ele queria.
“Tudo bem,” eu beijei sua cabeça também. “Boa noite, Ren. Vai dormir.”
Ele começou a ronronar e fechou os olhos. Eu fechei os meus também e sorri na escuridão.
*http://www.google.com.br/imgres?q=arvores+de+teca&um=1&hl=pt-BR&sa=N&biw=1366&bih=643&tbm=isch&tbnid=Hz95hyH_CLxO-M:&imgrefurl=http://www.ipef.br/identificacao/tectona.grandis.asp&docid=NfliD_r4_4NTjM&imgurl=http://www.ipef.br/images/identificacao/tectona.grandis/teca07.jpg&w=450&h=600&ei=LGnGT6alIced6AHHrozvBg&zoom=1&iact=rc&dur=359&sig=116911120724038324331&page=1&tbnh=139&tbnw=102&start=0&ndsp=20&ved=1t:429,r:1,s:0,i:72&tx=39&ty=65
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
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