quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Capítulo 10: Templo de Durga

Postado por Estante de Livros às quarta-feira, outubro 23, 2013
Eu estava deitada numa superfície dura. A primeira coisa que percebi foi que eu não conseguia respirar. Eu engasguei e tossi e rapidamente rolei para o lado. Depois de engolir quase um litro de água do mar, meus pulmões queimavam, mas eu podia ao menos respirar oxigênio de novo. Eu repirei rouca duas vezes, e rolei de costas novamente, e me achei olhando para o rosto preocupado de Kishan. Ele ainda estava usando sua roupa de mergulho, e seu cabelo estava pingando.
Eu tossi, “O que... aconteceu?”
Kishan respondeu. “Shh. Apenas relaxe e respire fundo.”
Eu finalmente descobri onde estava – no chão da garagem molhada. Wes e Sr.Kadam estavam de acima da figura curvada de Kishan, e todos três estavam me olhando atentamente. Eu tossi de novo e olhei em volta. “Onde está Ren?”
“Estou aqui.”
Ele estava encostado na parede bem longe de mim.
“Você consegue se sentar, Kells?” Kishan perguntou.
“Sim. Eu acho.”
Eu me sentei, mas oscilei tonta, e Kishan se moveu para apoiar meu peso no seu peito. Wes se agachou tocando minha cabeça. Ele começou a me fazer perguntas como minha idade e meu aniversário e o lugar onde nasci para avaliar minha atenção.
Satisfeito, ele disse, “Você com certeza nos deu um susto. O que aconteceu lá embaixo?”
“Uma enguia me encostou, e eu surtei. Eu não olhei onde estava indo e bati minha cabeça numa pedra. Obrigada por me tirar da água, Wes. Você é um bom parceiro.”
“Não fui eu. Foi o Ren aqui.”
Eu sorri fracamente para Ren. “Parece que você salvou minha vida. Quantas vezes agora?”
Ele devolveu meu olhar com uma expressão tensa. “Eu só te tirei da água. Kishan fez RCP.” Depois de dizer isso, ele abruptamente saiu da garagem.
Kishan me ajudou a levantar. “Vamos para o seu quarto, Kelsey. Kadam? Pode ligar para Nilima nos encontrar lá e ajudar Kelsey?”
“Claro.”
Enquanto nós andamos de volta ao meu quarto, descobri que e apoiar em Kishan não era mais necessário. Minha cabeça doía onde eu bati na pedra, mas não estava terrível. Nada que algum Tylenol não resolva. Kishan insistiu que Nilima ficasse comigo pela próxima hora pelo menos, e ela me ajudou a tirar o traje de mergulho então consegui tomar banho. Kishan levou jantar no meu quarto mesmo lhe dizendo que eu estava bem e estava ansiosa
para mergulhar de novo. Todos eles pareciam achar que eu deveria descansar por um dia ou mais. Wes disse que queria fazer mais treinos.
Eu continuava dizendo a eles que eu fiz um erro estupido e só aconteceu de eu bater a cabeça e desmaiar. Foi por acaso, não iria se repetir. Eu tinha aprendido a lição. Mas eles votaram contra mim, até o Sr.Kadam deu desculpas, dizendo que ele estava muito ocupado para mergulhar no dia seguinte. Finalmente, para deixar as mentes deles descansarem, eu lhes disse que iria dormir cedo. Fui para o meu quarto esperando encontrar Ren. Ele havia desaparecido o resto do dia, e eu queria perguntar mais sobre o que aconteceu. Todos estavam agindo estranhamente. Eu só não conseguia entender por que.
Ren não estava em seu quarto. Eu esperei horas para ele vir ao meu quarto e até deixei a porta que nos conectava aberta, ele não apareceu.
Ren não se juntou a nós em nenhum dos treinos de Wes no dia seguinte. Wes fez par com Sr.Kadam e Kishan comigo. Quando perguntei Sr.Kadam ou Kishan onde Ren estava, ele admitiram que Ren estava no navio e seguro – e que ele não queria ser encontrado.
Eu fiquei brava com Kishan e usei cada método persuasivo a minha disposição para fazê-lo falar onde Ren estava escondido, mas ele não iria se abalar. Ele disse que quando Ren quisesse falar comigo, ele iria. Andei de um lado para o outro no meu quarto, hora após hora pensando no que estava errado e me sentindo frustrada por não poder ajudar. Eu implorei ao Sr.Kadam e Nilima para me ajudarem, mas eles também educadamente recusaram, dizendo que Ren falaria comigo quando estivesse pronto.
Logo, o Deshen estava em movimento de novo e indo para a próxima cidade portuária. Eu pulei o jantar e fui para cama cedo.
Repetindo o mesmo padrão das outras noites, eu fiquei parada na porta que nos conectava, olhando perdida para o quarto escuro de Ren.
Onde ele poderia estar? Ele está bravo comigo? Está machucado? Tem algo errado? Ele está preso como tigre em algum lugar? Alguma coisa aconteceu entre ele e Wes? Entre ele e Kishan?
Perguntas encheram minha mente, e meu coração doeu de preocupação. Eu tinha prometido não usar o rastreador do celular, mas ainda assim procurei por ele no barco, em cada canto possível. Não havia absolutamente nenhum sinal dele.
Na terceira noite sem Ren, eu fui para cama, mas não consegui dormir. Por volta de meia-noite, eu decidi que talvez o ar fresco me ajudaria clarear a mente.
Pegando as escadas externas para o terraço, eu parei no corrimão perto da nossa área de jantar por um momento. O vento estava soprando forte, e quando eu afastei meu cabelo do rosto, pude ouvir o suave murmuro de vozes masculinas. Imaginei se quem estava conversando eram o capitão e algum tripulante e pensei em dizer oi. Seguindo o som das vozes, eu andei para a brisa quase congelante quando vi Ren e Kishan. Eles estavam de costas para mim. Eu estava a favor do vento, e o tempo anunciava uma tempestade, então eles não me ouviram ou me farejaram. Enquanto eu andava na direção deles, ouvi Kishan dizer. “Eu não acho que ela vai fazer o que você espera.”
“Ela está quase fazendo. Fora de vista, fora da mente.” Ren respondeu.
“Eu acho que você subestima os sentimentos dela.”
“Não importa. Eu tomei minha decisão.”
“Você não é a única pessoa envolvida.”
“Eu sei disso. Mas é para o bem. Claro que você consegue ver isso.”
Kishan parou. “Não interessa o que eu vejo, o que eu penso, ou o que eu quero, sobre esse assunto.”
“Esse é o jeito que tem que ser, Kishan. Eu não vou deixar isso acontecer de novo.”
“Não foi sua culpa.”
“Foi sim. Eu fiz isso. Eu tenho de aguentar as consequências.”
“Isso vai machuca-la.”
“Você estará lá para ajudar.”
“Não vai importar.”
“Vai sim.” Ren colocou a mão no ombro de Kishan. “Com o tempo... vai sim.”
“Você precisa dizer a ela. Se você vai terminar com a Kelsey, ela merece ouvir de você.”
Terminar?
Eu corri os últimos degraus, interrompi os irmãos, e gritei. “O que diabos vocês pensam que estão discutindo? Eu sinceramente espero que eu seja sonâmbula e que não escutei essa conversa!”
Os dois se viraram. Kishan parecia culpado, mas a expressão de Ren se endureceu como se estivesse se preparando para uma luta.
Eu cutuquei Ren no peito. “Onde você esteve nos últimos dias? Você tem explicações para dar, senhor! E você!” Eu me virei para Kishan. “Como vocês ousam conspirar e fazer planos sobre mim sem a minha opinião! Vocês deveriam saber!”
Kishan fez uma careta. “Me desculpe, Kells. Você e Ren precisam conversar. Eu te encontro mais tarde e deixo você gritar mais comigo.”
“Ótimo.”
Kishan saiu rapidamente enquanto Ren se encostou no corrimão com uma expressão determinada no rosto.
“Bom, você vai se explicar ou vou ter que te dar um tiro?”
“Você ouviu o que eu queria dizer. Eu quero terminar.”
Minha boca caiu. “Quer o que?”
“Eu não quero que fiquemos mais juntos.”
Eu não conseguia pensar em mais nada para dizer exceto. “Por que?”
“Eu não posso... isso não vai... nós não devíamos... olha, eu tenho as minhas razões, ok?”
“Não. Só dizer que você tem razões não é bom o suficiente.”
Alguma coisa tremulou em seus olhos. Dor. Mas desapareceu rapidamente e foi substituída por coragem. “Eu não amo mais você.”
“Eu não acredito em você. Terá de fazer melhor que isso. Eu li os seus desejos no Festival da Estrela. Lembra?”
Ele fez uma careta. “Eu havia esquecido disso. Mas deveria acreditar em mim de qualquer jeito. Será mais fácil para nós dois assim. Kishan tem sentimentos por você, e seria melhor se estivesse com ele.”
“Você não pode me dizer quem devo ou não amar.”
“Você já o ama.”
“Eu amo você, seu grande idiota!”
“Então pare.”
“Eu não posso ligar e desligar meus sentimentos como uma lâmpada.”
“É por isso que não vou mais ficar por perto. Vou evitar estar perto de você. Você nunca irá me ver.”
“Ah, entendo. Você acha que não ver você vai resolver tudo?”
“Provavelmente não. Mas vai ajudar”
Eu cruzei os braços e olhei para ele com total incredulidade. “Eu não acredito que está me dizendo para ficar com o seu irmão. Por favor me diga o que eu fiz para causar isso?”
“Você não fez nada.”
Ren se virou, inclinou-se e colocou os cotovelos no corrimão. Ele não disse nada por um minuto então eu andei até ele e me inclinei também. Eventualmente, ele disse baixinho. “Eu não pude te salvar.”
“O que quer dizer?”
“Eu não pude. Eu tentei RCP, mas me senti muito mal, eu não pude te salvar. Kishan teve de interferir, e com meu ciúme e frustração eu o empurrei. Eu quase deixei você morrer porque não queria que ele tocasse em você. Foi quando eu percebi que tinha de deixar você.”
“Mas Ren-”
Eu estiquei a mão e toquei seu braço. Ren olhou para minha mão e se afastou.
Eu me enrijeci e disse. “Tenho certeza de que está exagerando.”
“Não, não estou.” Ele se afastou de mim como se estivesse indo embora.
“Alagan Dhiren Rajaram, você vai ficar aqui, e vai me escutar!”
Ele se virou de volta para mim com raiva. “Não Kelsey. Não! Eu não posso ficar com você! Eu não posso tocar você! E eu não posso salvar você!” Ele apertou o corrimão tão forte que seus nós dos dedos ficaram brancos. “Você precisa de um homem que possa te dar todas essas coisas. Esse homem não sou eu. Já se passaram meses, Kelsey. Eu não achei o gatilho. Eu provavelmente nunca vou, e você vai perder a sua vida inteira esperando por mim! Kishan precisa de você. Kishan quer você. Fique com ele.”
“Eu não quero. Eu escolho você, e eu não me importo com essas outras coisas. Tenho certeza que vamos dar um jeito. Por favor não me afaste por causa disso.”
“É pro melhor, Kelsey. Nós sabemos o que é o melhor para você.”
“Não, você não sabe! Você é o melhor para mim!”
“Eu não sou. E eu não vou discutir isso com você mais. Eu tomei minha decisão.”
“Ah! Você tomou sua decisão, não é? Bom, isso pode ser um choque para você, mas você não toma decisões por mim! Vocês dois podem planejar
e tramar o quanto quiserem, mas não podem me forçar a sentir diferente sobre você!”
Os ombros de Ren caíram e ele disse resignado. “Não será forçar. Seus sentimentos por ele virão naturalmente, e ao mesmo tempo, seus sentimentos por mim irão diminuir.”
“De jeito nenhum!” E comecei a entrar em pânico. Ren estava sério. Ele nunca havia voltado atrás em alguma coisa quando tomava uma decisão antes, e eu não estava fazendo nenhum avanço em convencê-lo a mudar de ideia. Eu comecei a hiperventilar. Lágrimas escorreram pelo meu rosto.
“Nada disso parece natural. Eu não acredito que está pensando em desistir de mim.”
“Não seja teimosa sobre isso, Kelsey.”
Eu ri chorosa com humor sarcástico. “Eu não acho que seja a única sendo teimosa aqui.”
Ele suspirou. “Precisamos encarar que nossa relação é disfuncional. Por que nos infringir tanta dor quando não é necessário? Você pode ser feliz com Kishan e... tenho certeza de que também posso achar alguém.”
Tenho certeza que ele poderia. Tudo que teria de fazer era passear por qualquer rua no mundo, e teriam centenas de “alguéns” em filas por quarteirões.
Eu solucei. “Mas não há mais ninguém que eu quero. Eu não quero terminar.”
Ren sorriu cinicamente. “Eu sabia que você não ouviria a razão.” Ele suspirou. “Ótimo. Então vamos fazer isso do jeito difícil.” Ele separou os ombros, e sua boca se curvou para cima cruelmente. “Pessoas terminam o tempo todo, Kelsey. Apenas aceite. O que importa é que, foi bom por um tempo, mas é hora de seguir em frente. Nenhuma lembrança esquecida possivelmente poderia valer toda essa... dor. Todo esse drama.”
“Eu ainda não acredito em você. Eu sei que ainda se importa comigo.”
“Como posso me importar com uma garota quando estômago se torce em agonia toda vez que encosto nela?”
“Você nunca tinha reclamado antes.”
“Você é a única garota que eu já beijei, e um beijo que pode durar apenas alguns segundos simplesmente não vale a pena.”
“Você sabe o que eu acho? Acho que está se sentindo extremamente culpado pela coisa da RCP, e está tentando me proteger. Você sempre foi superprotetor, então agora acha que terminar comigo irá me salvar. Você sempre teve um tipo de complexo hiperativo de Super-homem, e seu passatempo preferido é sacrificar nosso estar juntos pela minha segurança.”
Ele grunhiu e passou uma mão pelos cabelos. “Aparentemente não estou sendo claro. Eu... não... quero... você. Não mais. Eu nem tenho certeza se quero uma namorada agora. Talvez eu queira apenar curtir a vida por um tempo, partir alguns corações. Acho que vou tentar uma ruiva ou uma loira da próxima vez.”
“Vou acreditar nisso quando eu ver.”
“É isso que será necessário? Você terá que me ver com outras mulheres antes de acreditar que estou falando sério?”
Cruzei meus braços. “Sim.”
“Ótimo. Ficarei feliz em satisfazê-la.”
“Ah... não... você... não vai! Se eu te ver com outra mulher, vou te estrangular pessoalmente, Tarzan!”
“Não quero te machucar, Kelsey, mas você está me forçando. Estou falando sério sobre isso. Nós não somos feitos um pro outro, e até que você venha a aceitar isso, não vai me ver.” Ren se virou para ir embora.
“Seu covarde. Se escondendo de uma garota com a metade do seu tamanho.”
Ele se virou de volta. “Não sou covarde, Kelsey. Você me deixou uma vez dizendo que nós não éramos feitos um para o outro. Que nós não...
combinávamos. Eu vim a crer que você estava certa. Você não é para mim. Vou achar outra pessoa. Alguém,” ele trincou a mandíbula. “mais bonita. E um pouco menos faladeira seria bom também.”
Ofeguei baixinho quando grandes lágrimas corriam pelas minhas bochechas.
Me vendo vacilar, Ren deu o golpe final. “Tenho certeza que ambos seremos capazes de seguir rapidamente em frente. Talvez em até uma semana.”
Me virei para esconder meu turbilhão emocional, ainda sem fala.
“As boas notícias são que, você já tem um namorado reserva ou dois. Será fácil para você. Homens parecem vir a você como abelhas vêm ao mel, então aproveite seus benefícios.”
Envolvi minhas mãos na minha barriga tentando conter a dor. Tomando um ar trêmulo, eu perguntei baixinho. “Então é isso? Isso é um adeus? Nós não mais significar nada um pro outro? Você não será nem meu amigo?”
“É isso. Ajudarei nas tarefas para quebrar a maldição, mas além disso, não espere me ver. E quando os desafios de Durga estiverem completos, vou simplesmente desaparecer. Você nunca me verá novamente.”
Ele se afastou uns passos mas parou quando eu disse suavemente, “Ren?”
Ele suspirou. “Sim?”
Me virei e dei uns passos para que pudesse encará-lo. Olhei para seu belo rosto, procurando por um sinal de ele iria acabar com essa tolice. Sua expressão estava dura como pedra. Não haveria nenhuma mudança de ideia, nenhuma concessão. Tentei outro jeito e ameacei, “Se você fizer isso... se você me deixar de novo... não haverá outra chance.”
Outra lágrima gorda saltou dos meus olhos. Ele deu um passo mais perto, estendendo o dedo para a lágrima. Nossos olhos se encontraram, meu coração bateu horrivelmente em meu peito. Eu o amava tanto que doía.
Como ele podia fazer isso com a gente? Parecia errado. Essas palavras que ele estava dizendo eram falsas. Meu Ren nunca diria essas coisas para mim, mas ele ainda era meu Ren? Teria ele mudado tanto?
Ren encarou a lágrima enquanto ele a esfregava entre seus dedos. Ele me olhou, seus olhos azuis pareciam duras safiras. “Eu não precisarei de outra chance. Eu não vou correr atrás de você de novo.”
Talvez ele realmente não fosse mais meu Ren. Talvez eu estive enganando a mim mesma todo esse tempo, desejando e esperando por uma coisa que nunca vou ter outra vez. Raivosamente eu disse, “É melhor que você tenha certeza. Porque se eu me comprometer com Kishan, eu não vou deixa-lo por você. Não seria justo com ele.”
Ren riu ironicamente. “Eu me considero devidamente avisado.”
Ele foi embora enquanto eu sussurrei, “Mas eu ainda amo você.”
Se ele me ouviu, ele não parou. Eu fiquei parada no corrimão por um longo tempo tentando descobrir como engolir de novo. Emoção entupiu minha garganta, e eu só conseguia respirar de pouco em pouco.
Ren foi fiel a sua palavra. Eu não o vi aquela semana inteira. O resto de nós foi mergulhar como combinado. Todos mantinham seus olhos treinados em mim, mas eu estava muito mais segura e me saí bem. Eu até vi um tubarão lixa nadando no leito do mar e não surtei. Contudo, eu havia perdido meu apetite, e Kishan continuou tentando me enfiar comida pela boca.
Uma manhã, eu pulei o café da manhã. Wes me achou sentada no topo da casa do leme num pequeno ponto onde achei que ninguém conhecia. Ele se sentou ao meu lado.
“Nossa! Isso parece o topo do mundo. Porque, eu acho que até consigo ver a curva da Terra daqui.”
Eu assenti.
“Então seu rapaz pediu para sair, eu fiquei sabendo.”
Não respondi, então ele continuou. “Um bom rapaz é raro como dentes em galinhas. Eu com certeza sinto muito sobre isso, querida. Um cara que largaria uma bonita e doce garota como você... bom, isso não faz sentido. O garoto provavelmente imagina que o sol nasce só pra vê-lo cantar.”
“Você já terminou alguma vez com alguém?”
“Uma vez. Eu ainda me arrependo.”
“O quê aconteceu?”
“Ela era minha namorada no ensino médio. Todos perceberam que iríamos nos formar e eu fui para a faculdade. Ela foi para a faculdade local até eu me tornar um veterano, e então voltei e coloquei um anel de noivado no dedo dela. Minha vida inteira estava planejada para mim. Não era uma vida ruim, mas eu queria ter alguma opinião nela. Quando comecei a ter um impulso irresistível de viajar, eu terminei com ela antes mesmo de desistir da faculdade. Eu a amava. Ainda amo. Ela poderia até ter vindo comigo. Eu suspeito que ela me esperou por um tempo, mas quando eu não liguei ou escrevi, ela desistiu e se casou com outro.”
“Talvez você devesse ligar para ela agora.”
“Nah. Ela tem filhos agora. E uma vez que você deixa a chance escapar... bem, vamos dizer que é mais fácil deixar escapar que pegá-la de volta.”
“Eu entendo. Arrependimento é uma coisa dura para se viver com.”
“Ela provavelmente me odeia feliz agora. Eu acho que é melhor desse jeito.”
“Não consigo imaginar por que ela iria te odiar. Eu nunca poderia odiar Ren.”
Ele esfregou seu queixo. “Você não poderia, é? Bem... talvez algum dia eu escreva uma carta para ela.”
“Você deveria.”
“Seu Sr.Kadam disse que nós vamos para a cidade hoje a noite. Ele disse que vocês têm negócios perto de Mangalore. Ele queria falar com você sobre isso. Quer descer comigo?”
“Acho que sim.”
Wes me escoltou até o Sr.Kadam, que estava ocupado pesquisando. Ele indicou uma cadeira perto.
“Obrigado, Wes. Eu teria mandado Kishan, mas ele parece ter desaparecido no momento.”
“Ele provavelmente está levando recados para o homem invisível.” Eu comentei.
“Sim. Talvez.” Sr.Kadam bateu na minha mão compassivamente, e Wes nos deixou com um aceno.
Indo direto aos negócios, Sr.Kadam virou seu laptop para me mostrar a foto de um templo. “Esse é o Templo Sri Mangaladevi perto de Mangalore. Nós vamos lá a meia-noite tentar acordar a deus Durga mais uma vez. Acredito que as oferendas dessa noite devam ser relacionadas ao pilar que representa a água. Aqui está uma figura dela. Está um pouco danificada, mas ainda se pode discernir os entalhes.”
A figura mostrava a deusa Durga em cima de um pilar de pedra ornado com entalhes de estrelas do mar, conchas e peixes. As imagens mostravam pescadores recolhendo suas redes do mar, um rio brotando de uma concha, e fazendas com nuvens de chuva acima delas. Aldeões ofereciam bacias de água, juntamente com a generosidade do mar.
Sr.Kadam continuou. “Eu pensei que eu e você pudéssemos ir hoje comprar alguns itens que poderemos precisar enquanto eu asseguro acesso ao templo depois de horas.”
Eu dei de ombros, não me importando com o que fizéssemos.
Na hora marcada, eu esperei pelo Sr.Kadam perto do Jeep e assisti estupidamente aos trabalhadores baixarem a rampa para que pudéssemos sair de carro do navio.
Ren é enfurecedor. O que ele está pensando? Ele realmente acredita que pode me empurrar para Kishan, e tudo ficará bem? Arranje um homem para Kelsey. Qualquer homem e ela ficará feliz. Phet disse que eu teria de fazer uma escolha. Isso não é uma escolha; é um arranjo*. Bom, eu não preciso ser arranjada * (de casamento arranjado e tal). Eu sei que não é fácil ter uma namorada que você não pode tocar, mas eu estava disposta a me conformar com isso. Esse problema particular acontece em ambos os lados. Me afeta tanto quanto ele.
Kishan disse a Ren que a coisa da RCP não foi culpa dele. Eu estou bem. Sem danos. Como ele espera que eu me conforme com suas mudanças de humor de 180 graus? Francamente! Eu deveria deixar uma margarida por perto para que eu puxe as pétalas e descubra se ele me ama ou não. Se ele não quiser ficar comigo, então tudo bem, mas ele não pode me fazer amar Kishan ou qualquer outra pessoa. Por que a minha vida tem que ser tão complicada?
Eu fiquei lá mordendo meu lábio e pensando enquanto esperava pelo Sr.Kadam. Ele finalmente apareceu, se desculpando por estar atrasado. Aparentemente, ele teve um problema localizando Ren também.
Ótimo. Deixe ele brincar de pique-esconde. Eu tenho outras coisas para fazer.
Sr.Kadam e eu passamos à tarde na cidade comprando uma bolsa cheia de coisas relacionadas ao oceano ou a água. Nós almoçamos num pequeno café enquanto ele falava de coisas mundanas. Ele não tinha nenhum conselho a dar exceto tentar ser feliz. Ele não tinha nenhuma ideia de como eu poderia ser feliz, mas disse que se sentia confiante de que eu iria.
Logo que chagamos no barco, eu peguei meu celular rastreador. Agora que tínhamos terminado, todas as apostas estavam fora, e eu liguei a pequena tela com uma vingança. O pontinho de Ren mostrava que ele havia se mudado para os quartos de convidados a um convés abaixo de nós, mas ele nunca ficava parado por muito tempo. Segui seu pontinho no meu GPS por um tempo naquela tarde. Eu o deixei fora de vista enquanto mantinha um olho no seu paradeiro, mas comecei a me sentir como uma namorada perseguidora - do tipo que circula por estacionamentos procurando o carro do ex-namorado. Então fechei meu telefone e parei de procurar por ele.
Aquela noite, eu coloquei para fora a bolsa com as compras e coloquei todos os itens numa mochila. Nós compramos óculos de sol, chinelos, conchas, estrelas-do-mar, um pequeno pote de cobre selado de água do rio Ganges, protetor solar, um peixe dourado vivo, coral, um pacote de algas secas, uma garrafa de água potável, um CD de sons do oceano, e adicionei uma pena de um pássaro do mar que achei na praia.
Eu tinha tirado um cochilo quando chegamos e estava lendo um livro no salão quando Nilima entrou.
“Olá, Srta.Kelsey. Como você está?”
“O melhor possível, eu acho. E você?”
“Muito bem. Espero que não se importe, mas queria fazer algo para você.”
“O que é isso?”
Ela me deu uma linda peça de seda. “Você pode levar isso com você e oferecer a Durga também?”
“Ok, mas por quê?”
“No templo que estão visitando, donzelas participam de um jejum chamado Mangala Parvati Vrata, ou o jejum do Templo Durga Mangalore. Mulheres ficam sem comer toda terça-feira no verão por muitas semanas e oferecem seda a deusa.”
“Por que elas fazem isso?”
“Porque elas acreditam que a deus Durga irá achar para elas um noivo bonito e encantador que será bom para elas.”
“Ah, entendo.”
“Sim. Quando ouvi que vovô queria ir a esse templo, eu comecei a jejuar, não por mim, mas por você.”
“Então você jejuou ontem? Na terça?”
Ela jogou seu lindo cabelo preto sobre o ombro. “Não, eu tenho jejuado muito antes disso. Você deve se lembrar que eu não tenho estado no jantar ou no café da manhã muito antes de termos chegado no barco.”
Eu me inclinei e peguei a mão de Nilima. “Você quer dizer que não tem comido por mais de duas semanas?”
“Eu tenho ingerido água e leite, mas não tenho comido comida sólida por esse tempo. Eu esperava mesmo embora eu não tenha jejuado toda terça-feira que meus muitos dias de jejum irão mostrar minha dedicação. Meu desejo é que Durga lhe ajude a encontrar a felicidade.”
“Nilima, eu não sei o que dizer.” Eu a abracei. “Ninguém havia feito algo assim por mim antes. Eu fico feliz de aceitar a seda, e darei para Durga essa noite.”
Ela sorriu e apertou minha mão. “Por via das dúvidas. Vou esperar até que retorne para quebrar meu jejum. Boa sorte para você hoje, Srta.Kelsey.”
“Obrigada por ser uma amiga tão boa. Eu nunca tive uma irmã, mas não consigo imaginar uma melhor que você.”
“E você é minha boa amiga e irmã também. Boa noite.”
“Boa noite.”
Nilima foi para cama, e eu voltei para minha cadeira. Passei os dedos pelo lindo tecido que ela havia trazido e pensei sobre sua oferenda até que Sr.Kadam viesse me buscar. Eu peguei a mochila, a coloquei nos meus ombros, e deslizei Fanindra pelo meu braço. Nós fomos para a garagem e encontramos Kishan, que tinha uma bolsa com o Fruto Dourado, a Echarpe e as armas, por via das dúvidas.
Kishan abriu a porta do passageiro para mim e entrou atrás. De repente, a porta atrás de mim se abriu e Ren entrou no Jeep. Ele olhou para mim brevemente e então fechou a porta e abotoou o sinto de segurança. A ida para a cidade foi estranha e silenciosa.
No templo, nós estacionamos nos fundos. A construção estava iluminada brilhantemente, tão brilhante que de fato, parecia uma atração da
Disneylândia. A estrutura era cônica na forma, como os outros templos que tínhamos visitado, e tinha duas construções quadrangulares ligada a cada lado. Os prédios do lado tinham janelas de vidro que me lembravam de restaurantes fast-food exceto pelas estatuetas douradas colocadas nas janelas.
Com a iluminação, o templo parecia alaranjado ou dourado, mas na realidade era branco com detalhes durados. Quando expressei preocupação sobre as luzes, Sr.Kadam me assegurou que ele tinha arranjado para nós ficarmos sozinhos e que era normal para o templo ficar iluminado nessa época do ano.
Nós andamos pela porta destrancada, entramos no templo e passamos vários portais. Sr.Kadam nos guiou pelo saguão até que entramos numa espaçosa área aberta. No longe final da sala, iluminada em todos os ângulos possíveis, estava uma estatua dourada de Durga sentada num trono dourado.
Seus olhos estavam fechados, e ela estava vestida em seda vermelha. Joias preciosas estavam ao redor do seu pescoço com guirlandas de flores. Quando perguntei ao Sr.Kadam se ela era feita de ouro, ele disse que ela era na verdade de bronze e que todas as estátuas de Durga eram ou feitas de pedra ou bronze. Ele reconheceu, no entanto, que era possível que ela fosse pintada de dourado ou ter uma cobertura de ouro.
O chapéu alto e pontudo de Durga era cheio de joias e guirlandas de flores pendiam do topo curvado, o que o fez parecer uma versão feminina do cocar do chefe dos índios Nativos Americanos. Eu podia ver apenas quatro de seus braços e só duas de suas armas: um machado e um bastão. Duas de suas mãos tinham símbolos entalhados nas palmas. Seus lábios eram pintados de vermelho. Ela parecia tão diferente das outras estátuas que imaginei se ela estaria acordada.
Sr.Kadam esperava ficar dessa vez, mas ele estava preparado para partir a qualquer momento. Eu abri a mochila, retirei nossas oferendas, e as coloquei aos pés de Durga. Retirei o pedaço de seda por ultimo e o coloquei gentilmente no seu colo. Ninguém fez perguntas, o que foi um alívio. Foi até que todos nós demos alguns passos para trás e olhamos a sala. Não haviam pilares para que pudéssemos nos segurar.
“As coisas podem ficar um pouco instáveis, então estejam avisados.”
Kishan assentiu para mim, e eu toquei minha tornozeleira de sinos com meu dedo, e engasguei com a lembrança dela, mas rapidamente afastei o pensamento da cabeça. Tocando meu amuleto por coragem, eu estendi a mão a Kishan. Ele se aproximou e a pegou. Eu estendi minha mão para Ren também, ele foi para o outro lado do Sr.Kadam, que pegou minha mão ao invés dele. Cerrei meus dentes, esperei Ren pegar a mão do Sr.Kadam, e então falei.
“Deusa Durga, nós voltamos mais uma vez para pedir sua ajuda no começo dessa terceira jornada. Ajude-nos a quebrar a maldição que caiu sobre esses homens e a derrotar o malvado que a lançou sobre eles.”
Eu apertei a mão de Kishan, e ele deu um passo à frente. “Linda deusa, por favor apareça para nós mais uma vez e nos conceda as ferramentas necessárias para superar aqueles que irão nos impedir de achar nosso prêmio.”
Eu olhei incisivamente par Ren, que disse, “Nós viemos buscando sabedoria e força. Por favor nos ajude em nossa hora de necessidade.”
“Sr.Kadam? Gostaria de dizer alguma coisa?” eu perguntei.
“O que eu digo?”
“Diga com o que gostaria que Durga o ajudasse.”
Ele ponderou por alguns minutos. “Me ajude a ajudar meus... príncipes e traga um final para deu sofrimento.”
“Ok, agora se vocês dois se transformarem em tigres.”
Eles se transformaram, mas nada aconteceu.
Sr.Kadam perguntou, “O que normalmente acontece depois?”
“Hmm, no segundo que os tigres mudam, um tipo de tremor ou terremoto ou vento terrível começa.”
“Talvez minha presença aqui esteja prejudicando.”
“Eu não acho.”
“O que mais está diferente a não ser que eu estou aqui?”
“A estátua é dourada, não de pedra. Ren e Kishan estão aqui. Antes tinha sido apenas um ou o outro.”
“Vocês sempre deram as mãos assim?”
“Sim.”
“Vamos tentar isso antes de abandonar o templo. Kishan e Ren, se vocês puderem dar as mãos a Srta.Kelsey, eu vou me afastar dessa vez.”
Ren relutantemente pegou minha mão. Ele gemeu suavemente, e eu imaginei que podia sentir a ardência também. Nós três rapidamente repetimos nossos pedidos antes dos irmãos se transformarem em tigres. De repente, a sala sacudiu. Ren voltou a ser homem logo antes de eu bater em seu peito. Ele pôs os braços a minha volta para me manter de pé. Vento soprou pelo templo e o chão se abalou de novo. Nós dois colidimos com Kishan, e nós três caímos emaranhados no chão.
Água começou a gotejar da estátua. Começou com pingos. Então alguma coisa pareceu explodir e uma enxurrada caiu e alagou o chão. Um rio de água bateu contra minhas pernas e um vento nos atingiu como um chicote. Logo quando as luzes se apagaram, gotas de chuva nos atingiram no rosto. Logo nossos pés não tocavam mais o chão. Não tivemos chance a não ser nadar na água escura enquanto as ondas ficavam mais altas.
Ren gritou, “Kelsey! Pegue na minha blusa! Não solte!”
Eu gritei quando algo pegou minha perna.
“Sou eu!”
“Kishan? Nós temos que achar o Sr.Kadam. Finalmente, ouvimos ele. “Estou aqui.”
Ren me deixou com Kishan e usou a técnica de reboque do nadador cansado que Wes havia nos ensinado para trazer o Sr.Kadam para perto. Logo o vento se acalmou, e as ondas pararam. Ouvi um som de sucção, de
drenagem. Depois de alguns minutos, Ren disse que podia ficar de pé de novo. Não se passou muito tempo antes que eu pudesse ficar de pé também, e nós quatro estávamos amontoados juntos no escuro, molhados e desconfortáveis.
“Eu deveria ter feito mais perguntas antes de decidir participar,” Sr.Kadam riu enquanto ele ria. “Eu deveria ter decidido deixar vocês mesmos fazerem isso.”
A água tinha quase acabado, e Kishan andou até o outro lado da sala para recuperar nossas mochilas. Ele tirou um bastão de neon da dele e usou a luz para examinar a estátua. O bonito ouro e a seda estavam agora encharcados e sujos. Lama e algas a cobriam, o chão e nós.
“Ah... o senhor pode não recuperar sua oferenda, Sr.Kadam.” eu disse comicamente.
“Certamente.”
“Kelsey! Aqui!” Kishan me chamou para mais peto.
Uma marca de mão emergiu no trono onde não havia nada antes.
“Ok. Fique longe.”
Kishan se afastou só um pouco enquanto eu pressionava minha mão na marca e liberei meu poder de raio. Minha mão ficou azul depois translúcida, e as marcas de Phet surgiram mais uma ver. Senti algo mudar na estátua antes de Kishan me puxar para trás. Uma chuva leve caia em nós. A coroa e o “cocar” se dissolveram. O trono dourado se dissolveu também e se tornou uma cadeira de coral encrustada de conchas, estrelas-do-mar, e joias. Os braços de Durga pingavam água, e dois deles começaram a se mover.
A deusa removeu as gotas de seus braços, e onde ela enxugava, sua pele iridescente e brilhosa iluminou a sala o suficiente para que pudéssemos vê-la claramente. Sua pele tinha o brilho perolado de alabastro que se mudava quando ela se movia, brilhando com azuis, verdes, e roxos. Ela se virou ligeiramente, e um espetacular raio de luz me fez fechar os olhos. Quando eu os abri pensei que o padrão rodopiante na pele dela me lembrava um
esmalte perolado, ou talvez se pareciam mais como as escamas de um peixe. O que quer que fosse, era lindo.
Durga retirou a parte restante de seu “cocar” e passou as mãos nos cabelos na chuva como se estivesse no banho. Assisti fascinada quando todo o ouro se foi para revelar maravilhoso cabelo longo e preto da deusa. Ela vestia um simples vestido verde-água e uma guirlanda de flores-de-lótus. Estava descalça. Quando a chuva parou, ela espremeu água de seu cabelo e jogou a massa molhada por cima do ombro.
Com uma voz de uma sereia tilintante, Durga riu. “Ah, Kelsey, minha filha. Suas ofertas foram aceitas.”
Pelo canto do meu olho, vi objetos brilhando por toda a sala onde a água os havia depositado.
Durga estalou sua língua. “Ah, mas vocês estão desconfortáveis. Deixe-me ajudar.” Ela bateu suas mãos, e quando as separou, um arco-íris apareceu. Ela o empurrou, e ele passou por nós como uma cobre, nos cercando. Depois de alguns momentos, estávamos limpos e secos. O arco-íris circulou ao redor de Durga também antes de se dissipar, deixando-a seca, com lábios cor de coral e bochechas rosadas.
Curvando o dedo, a deusa pediu que eu chegasse mais perto. Fanindra acordou e deslizou do meu braço para o colo de Durga, e então se enroscou no pulso dela.
Durga falou enquanto acariciava a cabeça da cobra. “Também sinto a sua falta.” Ela pegou o corte de seda de Nilima e a encostou em sua bochecha.
Indicando o tecido, ela disse, “Vamos falar sobre isso daqui a pouco. Mas primeiro, eu devo conhecer alguém.”
“Sim. Esse é o Sr.Kadam.” eu disse gesticulando ele.
Sr.Kadam se aproximou e ajoelhou no chão.
“Por favor, levante-se e fale comigo.”
Ele se levantou, juntou as mãos, e curvou-se.
“Estou feliz por ter vindo me ver. Você sacrificou muito e será pedido para sacrificar mais. Está preparado para isso?”
“Eu sacrificaria qualquer coisa pelos meus filhos.”
A deusa sorriu para ele. “Bem dito. Se ao menos houvesse mais homens, mais pais como você. Eu sinto seu grande orgulho e sua alegria por eles. Essa é a maior benção e conquista que um pai pode ter, passar seus anos desenvolvendo e sustentando seus filhos e então ver seus resultados gloriosos - fortes, nobres filhos que se lembram de suas lições e que irão passa-las para os seus próprios filhos. Isso é o que o todos os pais desejam. Seu nome será lembrado com muito respeito e amor.”
Uma lágrima escorreu pelo rosto do Sr.Kadam, e eu apertei sua mão. Durga virou sua atenção para Kishan.
“Meu tigre de ébano, chegue mais perto.”
Kishan se aproximou da deusa com um sorriso largo. Ela estendeu uma mão para que ele a beijasse. Ela sorriu de volta para ele, e, por um segundo, pensei que aquele era mais que um tipo de sorriso de deusa-para-súdito. “Isso é para você.” Disse Durga. Ela pegou um fino colar que eu não havia visto de seu pescoço e pôs ao redor do de Kishan. Uma concha de náutilo estava pendurada nele.
“O que é isso?” ele perguntou.
“É um kamandal. Uma vez mergulhado no Oceano de Leite, ele nunca ficará vazio.”
Kishan se curvou. “Obrigado, minha Senhora.”
“Tigre branco, venha aqui.”
Enquanto Ren se aproximava, eu fui para o outro lado de Kishan.
“Eu tenho algo para você também.” Outro braço se materializou nas costas dela para entregar a Ren uma arma dourada que parecia uma das facas Sai penduradas na coleção de espadas do Sr.Kadam em casa. Ouvi um
click enquanto ela virava a faca e separava suas lâminas afiadas. Depois de juntá-las de novo, Durga torceu o punhal até que as pontas rolaram e a cabeça rodou.
O cabo ficou mais longo e virou um tridente. Ela o apontou para longe e o lançou. Um longo, tiro limpo se enterrou no muro de pedra. Uma lança substituta se materializou. Ela torceu o punho outra vez, e ele encolheu de volta para seu formato menor. Ren o pegou de sua mão, maravilhado com a arma de ouro.
“É chamado trisula, ou ‘tridente’.”
“Obrigado, deusa.” Ren se afastou, não dizendo mais nada.
Ela o estudou pensativamente por um momento, e então se virou para mim com um sorriso. “Gostaria de falar com a minha filha sozinha agora.”
Todos os homens assentiram. “Nós vamos espera-la no carro, Srta.Kelsey. Temos bastante tempo antes de voltarmos ao barco.”
Ren foi o último a sair. Brevemente, ele olhou para a deusa e para mim, antes de desaparecer no saguão junto com os outros. Quando eu me virei para Durga, ela estava acariciando Fanindra e murmurando para a cobra. Eu as deixei se reencontrarem por um minuto, pensando no que eu iria falar sobre a oferenda de seda.
Ela finalmente direcionou sua atenção de volta a mim e estendeu um dedo para levantar meu queixo. “Porque ainda está tão triste, querida? Eu não cumpri minha promessa de tomar conta de seu tigre?”
“Você cumpriu. Ele está de volta e a salvo, mas ele não se lembra de mim. Ele me bloqueou, e ele disse que não fomos feitos para ficarmos juntos.”
“O que está escrito, está escrito. Todas as coisas nesse universo são conhecidas, e ainda assim os mortais buscam o seu propósito, seu próprio destino, e eles precisam tomar decisões que os levam para um caminho de sua própria escolha. Sim. Seu tigre branco fez a escolha de remover você de sua memória.”
“Mas por quê?”
“Porque ele ama você.”
“Isso não faz o menor sentido.”
“As coisas normalmente não fazem quando você tem seu nariz pressionado nelas. Dê um passo para trás e tente ver toda a paisagem.” Ela passou a seda entre os dedos. “Muito sacrifício tem sido feito por você. Muitas donzelas vêm a este santuário buscando a minha benção. Elas desejam um marido virtuoso, e querem ter uma vida boa. É isso que você procura também, Kelsey? Você deseja um honesto e nobre jovem para ser o seu companheiro de uma vida?”
“Eu... eu não estava pensando realmente sobre casamento, para ser sincera. Mas sim, eu gostaria que meu companheiro fosse honesto, nobre e meu amigo. Quero amá-lo sem arrependimentos.”
Ela sorriu para mim. “Ter arrependimento é ficar desapontada com você mesma e suas escolhas. Aqueles que são sábios veem suas vidas como pedras para pular através de um grande rio. Todos perdem uma de vez em quando. Ninguém consegue cruzar o rio sem ficar molhado. Sucesso é medido pela sua chegada na outra margem, não o quanto de lama tem nos seus sapatos. Arrependimentos são sentidos por aqueles que não entendem o propósito da vida. Eles se tornam tão desiludidos que ficam parados no rio e não dão o próximo passo.”
Eu assenti.
Durga se inclinou e acariciou meu cabelo. “Não tenha medo. Ele será seu amigo, seu companheiro em todos os sentidos. E você vai amá-lo mais furiosamente que já tenha amado antes. Vai amá-lo tanto quanto ele ama você. Você será feliz.”
“Mas que irmão será esse?”
Ela sorriu e ignorou minha pergunta. “Eu também irei considerar sua irmã Nilima. Uma mulher com tanta devoção precisa de amor também, eu irei pensar. Leve isso.” Ele me deu seu ramo de flor de lótus. “Não tem
nenhum poder especial exceto que as flores não irão murchar, mas terá um propósito na sua viagem. Eu quero que aprenda uma lição da flor de lótus. Ela floresce de águas lamacentas. Ela cresce suas pétalas delicadas para o sol e perfuma o mundo enquanto, ao mesmo tempo, suas raízes se firmam na lama elementar, a bruta essência da experiência mortal. Sem aquele solo, a flor iria murchar e morrer.”
Ela colocou o ramo no meu pescoço. “Cave fundo, e faça suas raízes crescerem fortes, minha filha, para que você cresça em frente, vença as águas, e finalmente ache paz na calma superfície. Você vai descobrir que se não tivesse se esticado, teria se afogado nas profundezas, sem nunca florescer ou compartilhar seus dons com os outros.”
Eu assenti e limpei uma lágrima do meu olho. Os membros de Durga começaram a se mover e pararam, sendo tomados por uma coloração dourada novamente.
“É tempo de ir, preciosa. Leve Fanindra.”
A cobra balançou a língua para fora algumas vezes e então, deixando o pulso de Durga, para meu braço. Ouro líquido começou a subir pelos lados do torno, cobrindo o coral e as conchas.
“Quando chegar a Cidade dos Sete Pagodes, busque o Templo da Costa. Uma mulher espera por você lá. Ela lhe dará orientação para sua viagem.”
“Obrigada. Por tudo.”
Os lábios cor de coral de Durga sorriram de novo e se endureceram. Ouro líquido escorreu pelo seu corpo e rosto, e ela logo era uma estátua. A peça de seda estava ainda grudada em sua mão como se alguém a tivesse enfiado em seu pulso.
“Adeus.” Eu me afastei da estátua e acariciei a cabeça de Fanindra. As luzes se acenderam, e o saguão parecia como se nunca houvesse sido perturbado. Eu inalei o cheiro doce das flores de lótus e fui pelo caminho até o Jeep. As flores cheiravam como algo cítrico, toranja, talvez. O cheiro era leve e floral e feminino, um pouco com jasmim e gardênia. Estava pensando
tanto sobre o que Durga havia dito que quando uma mão quente tocou meu cotovelo, eu me assustei.
“Você está bem?”
“Estou bem. Você não precisava ter esperado por mim Kishan.”
Ele beijou minha testa. “Claro, eu precisava. Venha. Os outros estão no carro. Vamos voltar para o barco;”
Quando chegamos ao barco Ren deu o tridente a Kishan antes de desaparecer de novo.

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