quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Capítulo 13: Senhora Bicho da Seda

Postado por Estante de Livros às quarta-feira, outubro 23, 2013
Depois de voltarmos ao nosso caminho, eu fui a casa do leme para visitar o capitão.
“Ah, olá, Srta.Kelsey. E como estamos nos sentindo essa noite, hein?”
“Ei, Capitão Dixon.”
“Me chame de Dix.”
Eu ri. “Ok, Dix. Sr.Kadam me pediu para trazer o jantar porque você não teve tempo para comer essa noite.”
Ele sorriu e me olhou brevemente, então voltou a olhar pela janela. “Apenas coloque isso aí por favor, Srta.”
Coloquei a bandeja na mesa, inclinei meu quadril para o console, e silenciosamente o assisti trabalhar.
Ele me espiou do canto do olho. “Você está parecendo mais à vontade do que já a vi em tempos, se posso falar.”
Eu assenti. “Tenho me sentido melhor. Kishan cuida bem de mim, e finalmente nos livramos da bruxa do mar.”
“E feliz foi a hora que ela pisou fora do meu barco também.”
Eu ri. “Eu ouvi falar que você a prendeu para fora da casa do leme.”
“Ela estava vindo me perturbar todas as horas do dia e da noite. Reclamava que estava enjoada e todo tipo de besteira.” Ele soltou alguns instrumentos e pegou sua bandeja de jantar. “Você poderia fazer companhia a um velho cão do mar enquanto ele come seu jantar?”
“Claro.”
Ele se sentou na cadeira do capitão e suspirou. “Toda vez que pouso meus velhos ossos numa cadeira fica mais difícil me convencer a sair dela.”
Sentei na cadeira ao seu lado. “Uma boa cadeira vale seu peso em ouro, minha mão sempre dizia.”
Ele riu cordialmente. “Está certo. Muitos homens prefeririam se afundarem numa confortável poltrona a serem ricos.”
“Então quanto falta para nossa próxima parada?”
Ele mastigou e engoliu. “Espero que não façamos mais paradas. Pelo menos não pegar mais nenhum passageiro. Meu plano é ir direto para o Templo da Costa. Nós ficaríamos no mar por uma semana mais ou menos.”
Nós conversamos casualmente até que ele acabasse sua bandeja de jantar. Ele checou seus instrumentos e disse, “Você gostaria de outro conto do mar hoje, Srta.Kelsey.”
“Você tem outra preparada?”
“No dia que esse capitão ficar sem histórias é o dia em que eu virar um chapéu de marinheiro.”
Eu sorri e cruzei minhas pernas, ficando confortável. “Então comece. Estou pronta.”
Ele tirou seu chapéu e coçou a testa. “Você já assistiu os gaivotas enquanto elas voam acima do oceano?”
“Algumas vezes.”
“Se você olhar bem de perto, você pode vê-las carregando galhos ramos e as vezes pedras. Elas os jogam na água.”
“Porque elas fazem isso?”
“Escute, e você vai aprender. Uma vez houve uma linda donzela chamada Jingwei que amava o oceano. Ela tinha um pequeno barco, e passava muitas horas na água. Ela partia de manhã e só retornava com o pôr-do-sol. Por muitos nãos o mar a aceitou, mas havia um charmoso cpitão do mar, um homem bonito, tão bonito quanto eu.”
Ele balançou as sobrancelhas me fazendo rir.
“Jigwei se apaixonou pelo capitão e queria navegar pelas ondas com ele. Mas ele queria que ela ficasse em cassa e criasse uma família. ‘A água não é lugar para mulher.’ Ele disse.”
“O que ela fez?” perguntei.
“Ela lhe disse que se ela não podia ir para a água, então ele também não poderia. Eles construíram um lar perto da praia, mas ambos desejavam o mar. Um dia, Jingwei disse a ele que ela estava esperando um filho. Ambos ficaram felizes por um tempo. Mas quando nenhum dos dois estava olhando ambos olhavam para a água. O capitão, pensou que estar grávida manteria sua esposa em casa. Então ele foi pescar cedo uma manhã. Mas o oceano, estava esperando por isso. Você veja, o mar, é uma amante ciumenta e estava muito brava com eles.
“O oceano se levantou e engoliu o barco dele. Jingwei, pesada com a criança esperou pelo seu homem o dia todo, mas ele nunca voltou. Mas tarde ela ouviu que ele tinha se afogado. Ela pegou seu pequeno barco e remou para longe da costa. Então ela balançou seu punho para o mar e perguntou porque ele levou seu homem?”
“O que aconteceu depois?”
“O mar, ela riu e disse a Jingwei que todos os capitães bonitos pertenciam a ela. Ela não podia leva-los embora.”
“Umm... ela se parece com Randi.”
Dixon riu alto. “Ah, isso é verdade. Jingwei brigou e ameaçou o oceano mas ele apenas mandou bolhas risonhas para a costa. Quando ele se cansou de escutar, mandou uma grande onda para afogar Jingwei, mas ela era parte mágica e se transformou numa gaivota. Por isso elas guincham tão alto para a costa. Elas estão ainda gritando para o mar. Elas jogam pedras e galhos no oceano para aterrá-lo para que nenhum homem volte a se afogar. Mas o mar? Ainda está rindo, hein? Se prestar atenção pode escutar as bolhas. Essa é a história de Jingwei e o limite principal.”
“A que se refere o limite principal?”
“O limite principal é as águas da terra. As águas abundam a superfície do planeta, e elas são o recurso principal. Muito mais abundante que as terras.”
“Aqui está você.” Kishan se inclinou contra o batente da porta e sorriu.
“Oi!” Eu levantei e pus meu braço ao redor da sua cintura. “Só escutando outra história.”
“Bom. Você pode me contar mias tarde. Se importa se eu roubar Kelsey pelo resto da noite, Capitão?”
Capitão Dixon gargalhou. “Claro. Só tente mantê-la longe das águas essa noite. O mar, ele escuta. Querendo afogar jovens amantes.”
Eu ri. “Boa noite, Dix.”
“Boa noite, Srta.Kelsey.”
Kishan me puxou para um abraço depois que descemos as escadas, e eu pousei minha cabeça debaixo do seu queixo. “Senti sua falta. Vamos passear.”
Era uma paisagem muito romântica. A lua cheia tinha acabado de nascer, e a água negra estava lisa como seda. Ela batia suavemente contra o
navio e gentilmente sussurrava segredos enquanto o barco avançava, escorregando para seu abraço frio. Milhares de estrelas brilhantes apareciam num céu que parecia se estender pelo infinito. Eu imaginei que elas eram lanternas que guiavam belos capitães do mar para casa e para as mulheres que os amavam. Algumas se escureciam com o passar dos anos, mas outras queimavam fortemente, demandando serem vistas.
Não havia terra a vista, apenas água e luar até onde o olho enxergava. Nós ficamos no parapeito, olhando a paisagem. Quando eu tremi, Kishan me puxou contra o seu peito e passou seus braços ao meu redor. Confortável em seu abraço, eu me vi relaxando sonolenta.
“Isso é bom.” Eu murmurei.
Ele baixou sua cabeça perto da minha e disse. “Mmm, é sim.” Ele acariciou meu braços nus até que eles se aquecessem e então começou a massagear levemente meus ombros. Eu suspirei de prazer e olhei vagamente para a lua enquanto meus pensamentos viajavam. Na verdade, eu fiquei tão alheia ao meu redor que não havia percebido quando Kishan começou a beijar meu pescoço.
Uma de suas mãos acariciaram me braço e a outra estava na curva da minha cintura. Ele deu beijos leves no meu ombro, e depois seus lábios passearam na curva do meu pescoço. Ele fez um progresso lento, deixando um rastro que formigava. Quando ele tocou a linha do meu cabelo, ele avançou pelo meu corpo, pegou minha mão, e gentilmente me girou para que pudesse encara-lo.
Meu coração começou a martelar. Ele correu suas mãos pelos meu braços de novo, segurou meu rosto, e escorregou sua mão para o meu cabelo. Ele sorriu, seus olhos dourados brilhavam na luz das estrelas.
“Está vendo? Ainda bastante cabelo para um homem enterrar suas mãos.”
Eu sorri nervosa enquanto me mexia um pouco. Ele inclinou minha cabeça, se aproximou e pressionou vários beijos leves e sedosos no meu pescoço. “Você sabe o quanto eu quis tocar você assim?” ele murmurou
suavemente. Eu balancei minha cabeça e o senti sorrir enquanto seus lábios roçavam a minha clavícula. “Parecem que foram anos. Mmm... é melhor do que eu imaginei. Você tem um cheiro tão bom. Isso é tão bom.”
Ele traçou beijos lentos do meu pescoço a minha testa. Eu passei meus braços ao redor da sua cintura e fechei meus olhos. Seu peito reverberava através do meu. Ele beijou minhas pálpebras, meu nariz, minhas bochechas com lábios quentes e macios. Ele me fez sentir acarinhada e desejada, e eu gostei do seu toque.
Minha pele formigava onde ele roçou as pontas dos dedos. Meu coração bateu mais rápido quando ele sussurrou meu nome, e eu respondi a ele, involuntariamente me aproximando. Esperei que ele tocasse meus lábios com os seus, mas ele pacientemente, lentamente beijou todas as outras partes do meu rosto e traçou as pontas dos seus dedos pelos seus planos, parecendo se deliciar com cada doce carícia. Seus beijos eram carinhosos, e adoráveis, e gentis, e... errados.
Pensamentos espontâneos surgiram e eu conseguia afastá-los, não importava o quanto eu tentava. Apesar dos meus melhores esforços de afastar minha batalha interna – mantê-la escondida – ela apareceu. Kishan parou e levantou a cabeça. Eu vi sua expressão mudar de doce adoração e felicidade, para surpresa e por fim para resignação e desapontamento. Segurando meu rosto, ele limpou as minhas lágrimas com seus polegares e perguntou triste. “Eu sou tão difícil de amar assim, Kelsey?”
Eu abaixei minha cabeça e fechei meus olhos.
Ele se afastou de mim para se inclinar no parapeito outra vez enquanto eu limpava raivosamente as lágrimas do meu rosto. Estava muito irritada comigo mesmo por arruinar esse doce momento entre nós e especialmente por machuca-lo. O arrependimento me inundou. Me virei para ele, corri minha mão pelas suas costas, e então deslizei meu braço sobre o dele. Inclinei minha cabeça para o seu ombro. “Me desculpe. E não... vocês com certeza não é difícil de amar.”
“Não, me desculpe. Eu fui depressa demais.”
Eu balancei a cabeça. “Não, está tudo bem. Eu não sei porque eu estava chorando.”
Ele se virou para mim, pegou minha mão, e brincou com os meus dedos. “Eu sei. E não quero que nosso primeiro beijo faça você chorar.”
Eu sorri torto, tentando provocar. “Esse não foi o nosso primeiro beijo. Se lembra?”
“Quero dizer o primeiro beijo que eu não roubei.”
“Isso é verdade.” Eu ri suavemente, “Você é o melhor ladrão de beijos do mundo.” Eu bati meu ombro nele e apertei seu braço em desculpa, mas a tristeza ainda aparecia em seu rosto.
Ele apertou as mãos no parapeito. “Você ainda tem certeza sobre isso? Sobre mim?”
Eu assenti contra o seu ombro. “Você me faz feliz. Sim, eu tenho certeza disso. Você vai tentar de novo?” Eu tentei me aconchegar mais perto.
Ele passou os braços ao meu redor e beijou a minha testa. “Outra noite. Vamos, estou com humor para uma história.” Nós descemos as escadas de mãos dadas.
Não vimos Ren a semana inteira. De acordo com o rastreador GPS, ele se escondia em um ou outro lugar nos conveses mais baixos do navio.
Kishan não tentou me beijar de novo, pelo menos não como antes. Ele acariciou o meu cabelo e me abraçou, acariciou meus ombros e passou dias inteiros comigo, mas quando eu chegava mais perto para dar um abraço de boa noite, ele me segurava por alguns momentos antes de beijar a minha testa. Ele estava me dando mais tempo, o que me fez sentir ao mesmo tempo aliviada e estressada.
Nós finalmente atracamos em Mahabalipuram, ou a Cidade dos Sete Pagodes, uma semana depois. Estávamos agora no lado oposto da Índia, o lado leste, navegando na Baía de Bengala na borda do Oceano Indico.
Era tempo de começarmos nossa terceira busca, e a ideia de lidar com dragões ao mesmo tempo me excitava e apavorava. Eu também estava morrendo de vontade de pisar em terra firme novamente. Kishan fazia minha vontade me levando para passear em sua moto. Nós passamos o dia vendo lojas. Ele me comprou um lindo bracelete decorado com diamantes encrustados como flores de lótus. Deslizando-o pelo meu braço, ele disse. “Eu tive um sonho com você usando uma flor de lótus no cabelo. Esse bracelete me faz lembrar de você.”
Eu ri. “Você provavelmente sonhou com a lótus porque você dorme bem ao lado da mesa onde eu pus a grinalda de lótus de Durga.”
“Talvez.” Ele disse com um sorriso, “mas um bom sonho é um bom sonho. Por favor use-o.”
“Ok. Mas só se me deixar comprar algo para você.”
Kishan sorriu, “Está combinado.”
Eu o fiz sentar numa mesa do lado de fora enquanto eu ia numa loja. Alguns minutos depois, eu sentei nervosamente. Ele se inclinou para pegar minha sacola, mas eu não deixei.
“Agora espere um minuto. Antes de te dar isso, você deve prometer me deixar explicar para que serve e tentar não ficar ofendido.”
Kishan riu e estendeu a mão para a sacola. “É muito difícil me ofender.”
Ansiosamente tirando meu presente da sacola, ele o estendeu no ar, o olhou com confusão, e então olhou para mim com sobrancelhas levantadas. “O que isso deveria ser?”
“É uma coleira para um cachorro muito pequeno.”
Ele balançou a coleira de couro preto entre seu polegar e seu indicador. “Aqui diz Kishan ao lado com letras douradas.” Ele riu. “Você achou que isso caberia em mim?”
Peguei a coleira da sua mão e contornei a mesa. “Estenda o seu braço por favor.” Ele me olhou curiosamente enquanto eu colocava a coleira em volta do seu pulso e a abotoava. Ele não parecia bravo, só confuso.
Eu expliquei. “Quando Ren se transformou em homem pela primeira vez, ele estava usando uma coleira. Ele a estendeu para provar que era o tigre com quem eu estivera viajando. Ele foi rápido em jogá-la fora. Para ele, era um lembrete físico do seu cativeiro.”
Kishan franziu o cenho. “Você está me dando um presente falando de Ren?”
“Espere, me deixe acabar. Quando eu te conheci, você era selvagem, um verdadeira criatura da floresta. Você havia ignorado seu lado humano por muitos anos. Eu pensei que uma coleira seria uma símbolo diferente, um símbolo de regeneração, um símbolo de reunião com o mundo, um símbolo de pertencimento. Isso significa que você veio para casa. Que você tem um lar... comigo.”
Eu soltei as mãos dele e mudei meu peso para a outra perna, esperando a sua resposta. Eu não podia ler a sua expressão. Kishan me encarou pensativo por uns segundos. De repente, ele pegou a minha mão, me puxou para o seu colo, e levou minha mão aos seus lábios.
“É um presente que eu sempre irei estimar. Toda vez que olha-lo, vou me lembrar que sou seu.”
Eu pressionei minha testa na dele e suspirei de alivio. “Bom. Eu estava preocupada de que iria odiá-lo. Agora que resolvemos isso, vamos voltar para o barco? Sr.Kadam quer que todos nós nos encontremos uma hora antes do pôr-do-sol para que possamos ir ao Templo da Costa juntos. A não ser que você ache que eu devo voltar e comprar uma guia. Você talvez queira passear.” Eu brinquei suavemente.
Sombriamente, ele pegou a minha mão. “Guia ou sem guia, eu nunca vou deixar o seu lado. Me lidere, minha dona.” Ele sorriu contente enquanto passava um braço pelo meu ombro.
No navio, achamos o Sr.Kadam esperando no convés, Ren logo veio pela rampa de seu mais recente esconderijo. Depois que Kishan estacionou a moto, nós quatro embarcamos na lancha.
A força do vento afastou meu cabelo do meu rosto, e eu sorri feliz para Kishan quando ele olhou para trás para ver se eu estava bem. Meu olhar vagueou, eu de repente me achei olhando dentro do olhos azuis de Ren.
“Bracelete novo?” ele perguntou.
Eu olhei para os diamantes cintilantes e sorri. “Sim.”
“É... bonito. Combina com você.”
“Obrigada.”
“Eu -” ele hesitou e se mexeu no seu lugar.
“O que foi?” eu o incitei gentilmente.
“Estou feliz por você. Você parece... contente.”
“Oh. Eu acho que estou.”
Apesar da felicidade que eu sentia em ficar com Kishan, eu percebi que existia uma falha em meu coração, um buraco que não queria sarar. Um amargo desapontamento penetrou em meus membros, e estar perto de Ren assim era como entronar suco de limão no buraco. Ardia.
Eu assenti evasivamente e deixei meus olhos vagarem para a água. Estendendo minha mão, deixei a água espirrar em meus dedos. Eu ainda podia sentir Ren me olhando. Algo tangível brilhou (achar palavra melhor.) entre nós por um momento. Uma coisa que estava ali por um segundo e sumido no outro.
O sol já havia se posto no momento que atingimos a costa. Os irmãos pularam para fora do barco, puxaram a proa para a areia, e usando uma corda longa, o amarraram em um galho robusto de uma árvore.
Olhei o templo enquanto andávamos em direção a ele. Era em forma de cone, mas tinha duas bases ao invés de uma. Sr.Kadam ficou para trás comigo enquanto Kishan e Ren caminhavam a frente com ousadia. Ambos
carregavam armas, só como garantia – Kishan seu chakram e Ren seu novo tridente.
“Sr.Kadam, porque esse templo tem duas construções?”
“Cada uma é um santuário. Esse templo em particular tem três. Mas não se pode ver a terceira daqui. Ela está no meio das outras duas. A mais alta tem aproximadamente cinco histórias( ver se é isso mesmo.).”
“Quem é adorado aqui?”
“Shiva principalmente, mas historicamente, outros foram adorados aqui também. O Templo da Costa é o último de sete que ainda está fora d’água.” Ele apontou o muro. “Você vê aquelas grandes estátuas ali?”
“As vacas?”
“Na verdade são touros. Eles representam Nandi, o criado de Shiva.”
“Eu achei que Nandi tomava a forma de um tubarão.”
“Ele tomava, mas ele também é conhecido por tomar a forma de um touro. Venha por aqui. Tem uma coisa que queria lhe mostrar.”
Nós andamos pela varanda de pedra e nos aproximamos de uma estatua que parecia um grande tigre com uma boneca agarrada a sua pata.
“O que é isso?” perguntei.
“É Durga com seu tigre.”
“Porque Durga é tão pequena?”
Ele se inclinou para frente e traçou os entalhes com os dedos.
“Não tenho certeza. Vamos explorar o templo primeiro e ver o que mais encontramos.”
Entramos no templo por portal em forma de arco. Sr.Kadam me disse que se chamava gopuram, uma entrada de templo adornada criada para impressionar e intimidar. Sua função era parecida com os portais de espírito do Japão. Pessoas que entrassem no templo sentiriam que estavam deixando as coisas mundanas para entrar num lugar considerado sagrado.
Nós alcançamos Ren e Kishan e entramos no templo escuro juntos. A escuridão era ainda mais densa por pelos beirais pendentes que bloqueavam a luz do luar. Kishan ligou sua lanterna para que pudéssemos continuar.
“Por aqui,” disse Sr.Kadam. “O santuário interno ficaria diretamente debaixo do domo central.” Nós exploramos a menor das duas estruturas primeiro e não achamos nada além do comum. Sr.Kadam apontou para uma rocha sem entalhes colocada no meio da sala. “Isso é o murti – o ídolo, ou ícone do santuário.”
“Mas não está esculpido para simbolizar nada.”
“Um ícone não esculpido pode representar algo tanto quanto um esculpido. Essa sala é a garbhagriha, ou o útero do templo.”
“Posso ver porque eles chamam de útero. É escuro aqui.” Eu disse.
Nós todos chegamos perto das paredes para estudar os entalhes. Estávamos fazendo isso apenas por alguns minutos quando vi um vulto branco perto da porta. Virei minha cabeça, mas não havia nada lá. Sr.Kadam disse que era hora de mover para outro santuário. Quando passamos perto de um arco que dava para o lado de fora, eu olhei para o oceano. Uma bela mulher, vestida de branco com um véu de gaze sobre seu cabelo, estava em pé perto da praia. Ela colocou um dedo nos lábios enquanto olhava para mim antes de desaparecer perto de uma amoreira.
“Kishan? Sr.Kadam?”
“O que foi?” Kishan perguntou.
“Eu vi alguma coisa. Uma mulher, ela estava ali. Estava vestida de branco, e parecia indiana ou talvez asiática. Ela meio que desapareceu andando para dentro daquela amoreira.”
Kishan se inclinou e olhou para o chão. “Não estou vendo nada agora, mas vamos ficar juntos.”
“Ok.”
Ele pegou a minha mão enquanto andávamos para o próximo santuário. Passamos Ren, a quem eu não tinha notado em pé na escuridão atrás de nós. Seus braços estavam cruzados em seu peito em uma de suas clássicas poses de “me vigiando”. No próximo santuário, eu fiquei perto de Kishan enquanto olhávamos os desenhos na parede juntos. Eu vi um entalhe de uma mulher tecendo num tear e tracei o contorno com o meu dedo. Nós seus pés estava sua cesta de linhas, uma das linhas tinha se desenrolado. Curiosa, segui a fina linha por mais alguns entalhes.
A linha estava embolada no calcanhar de um camponês, e um gato brincava com ela. A linha se estendia por um campo de trigo, onde eu a perdi tive de procurar em outros desenhos atrás antes de acha-la de novo. Fazia parte de uma echarpe que adornava o pescoço de uma mulher, e então se tecia numa corda grossa que ardia com fogo. Ela se transformou em uma rede de pesca, se enrolou ao redor de uma grossa árvore, fez um macaco tropeçar, foi pega pelas garras de um pássaro, e então... ela parou. Acabou no canto da sala, e apesar de eu ter procurado por ela na outra parede, não consegui achar onde ela continuava.
Pressionei meus dedos contra a linha entalhada para sentir sua textura. Era tão fina, que meu dedo quase não conseguia senti-la. Quanto cheguei no canto, no fim da linha algo estranho aconteceu. Meu dedo brilhou vermelho – só o meu dedo – e quando eu me afastei da parede, vi uma borboleta sair de uma rachadura. Ela começou a bater as asas rapidamente, mas não voava. Eu a olhei mais de perto e percebi que não era uma borboleta mais uma grande mariposa branca.
Tinha pelos, quase peluda, com grandes olhos pretos e um tipo de antenas plumosas marrons que me lembraram dentes de barbatanas de baleias. Quando ela bateu as asas, algumas coisa aconteceu na parede. Aquela pequena parte era lisa, o que era estranho pois o resto da parede era coberta com entalhes detalhados.
Finas linhas brancas apareceram, e todas elas se irradiavam da linha que eu estivera seguindo. Elas brilharam com uma luz tão intensa, que eu tive de estreitar os olhos para observá-las. Quando estiquei a mão para tocar uma, a luz pulou da parede para a minha mão. Ao mesmo tempo, as linhas
brancas brilharam com todas as cores do arco-íris. Elas contornaram o padrão de hena de Phet em minha mão com luz branca que logo começou a mudar de cor.
Me virei para olhar Kishan, mas atrás de mim só havia escuridão. Eu não conseguia falar. Não havia nada que eu pudesse fazer além de assistir a parede enquanto as linhas se esticavam mais e mais rápido.
Estavam desenhando alguma coisa – uma mulher, sentada perto de uma janela, bordando. Um segundo eu estava de pé perto da parede, olhando o desenho, e no segundo seguinte, a mulher respirou e iscou, e eu estava dentro do desenho com ela. Era a mesma mulher que eu havia visto na praia. Estava usando um vestido de seda branco e um véu de gaze sobre seu cabelo.
Ela sorriu e apontou para a cadeira em sua frente. Quando sentei, ela me passou um bastidor de bordar circular com a versão mais adorável de Durga bordada. Os pontos eram são pequenos e delicados, que pareciam uma pintura. Ela havia criado flores que pareciam real, e o cabelo de Durga fluía de sua coroa dourada em ondas que pareciam tão macias que eu tive de tocá-las. A mulher me passou uma agulha e uma pequena caixa cheia de pequenas pérolas de costurar.
“O que você quer que eu faça?”
“Durga precisa de seu Colar.”
“Eu nunca costurei com miçangas antes.”
“Olhe aqui... elas tem pequenos buracos. Vou lhe mostrar as duas primeiras, e você pode terminar.”
Habilmente, ela passou a linha na agulha, fez um ponto minúsculo, deslizou a pérola na agulha, amarrou a linha ao seu redor e inseriu novamente a agulha no tecido. Eu a observei fazer o mesmo processo de novo antes de passar a agulha para mim e pôs a caixa de pérolas no peitoril da janela.
Ela pegou seu bastidor, escolheu uma linha azul e continuou a trabalhar. Depois que eu tinha costurado duas miçangas e estava satisfeita com meu esforço, perguntei, “Quem é você?”
Ela deixou os olhos em seu trabalho e respondeu, “Eu sou chamada por muitos nomes, mas o mais comum é Senhora Bicho-da-Seda.”
“Durga me mandou a você. Ela disse que você podia ajudar a nos guiar em nossa jornada.” Eu pisquei. “Oh! Você é está na profecia. Você é a senhora que tece a seda.”
Ela sorriu enquanto olhava sua agulha. “Sim. Eu teço e bordo seda. Uma vez era por isso que eu vivia (trocar!), mas agora é minha penitência.”
“Sua penitência?”
“Sim. Por trair o homem que eu amei.”
Eu deixei meu bastidor em meu colo e olhei para ela. Ela olhou para cima acenou para mim até que eu peguei o bastidor e continuei.
“Posso lhe contar o que aconteceu?” ela perguntou. “Eu não compartilhei essa história com alguém em muito tempo, e algo me diz que você irá entender.”
Eu assenti silenciosamente, então ela começou. “Muitos, muitos anos atrás, mulheres eram admiradas por suas habilidades em costura. Meninas eram treinadas desde muito cedo, e aquelas mais habilidosas eram levadas para costurar para o imperador. Algumas, muito poucas, até se tornavam esposas de homens nobres, e devido ao seu talento, suas famílias eram bem cuidadas.
“Na celebração de cada Ano Novo, uma jovem moça era escolhida para aprender essa habilidade. Eles enchiam uma tigela de água e mergulhavam seus dedos nas bordas. Uma agulha era posta na superfície da água e girada. Quando ela parava, a menina para qual a agulha apontava era levada para um treinamento especial em bordado.
“Bebês meninas que nasciam com dedos finos e longos eram vigiadas cuidadosamente na esperança de que pudessem trazer a sua família fama e
fortuna pela arte. Eu fui uma criança assim. Eu era elogiada como sendo a costureira mais talentosa de todo o império, e as minhas criações eram procuradas pelos homens mais ricos. Meu pai recebeu cinquenta ofertas de casamento para mim antes de eu fazer dezesseis anos, mas ele rejeitou todas. Ele era um homem orgulhoso e pensava que eu poderia receber ofertas ainda mais caras enquanto eu crescia em minhas habilidades.”
“Então como você conheceu aquele que veio a amar?”
Ela estalou a língua. “Paciência, jovem. Para criar algo belo é preciso prática e muita paciência.”
“Me desculpe. Por favor continue.”
Ela se inclinou para examinar meu trabalho. “Você tem alguma destreza com a linha, mas precisa tirar as duas ultimas e refaze-las. Estão espaçadas um pouquinho demais.”
Eu olhei cuidadosamente o tecido. Elas pareciam exatamente alinhadas para mim, mas era o projeto dela, então eu obedientemente as retirei e comecei de novo.
“Alguns anos depois, com vinte anos, conheci alguém, um belo jovem que trabalhava com seda. Sua família criava os vermes, fiava, e secava os fios, e eles eram muito bons, os melhores do país. Uma vez eu senti os fios e vi a perfeição da coloração. Me decidi a só encomendar deles.
“Fui encomendada para fazer o enxoval da futura noiva do imperador. Ele havia planejado uma fantástica cerimonia apesar de não ter escolhido a mulher sortuda. Meu pai foi muito bem pago para me trazer ao palácio. Eu iria viver lá por um ano e costurar roupas maravilhosas e um véu de noiva para a nova esposa do imperador. A perspectiva era excitante para uma moça tão nova. Foram me dados arranjos de vida(mudaaar!) perto do imperador em pessoa, e eu não desejava nada. Quando minha família foi permitida a me visitar de tempos em tempos, eu podia ver a alegria que minha estada ali estava lhes trazendo.
“Haviam só dois problemas. O primeiro era que o imperador era muito seletivo e seus gostos mudavam todos os dias. Ele me visitava toda semana
para checar meu progresso. Eu só começava uma criação que ele logo mudava de ideia. Ele queria pássaros numa semana, flores na próxima, dourado em uma, então prateado e azul, vermelho, o lavanda mais claro, o púrpura mais rico, e assim ia. O homem mudava de ideia mais do que mudava sua água de banho. Talvez era por isso que demorou tanto tempo para escolher uma noiva.”
Eu ri silenciosamente.
Ela franziu a testa. “O segundo problema era que ele logo começou a fazer insinuações românticas em suas visitas. Quando eu mencionava a sua noiva, ele ria e dizia, ‘Tenho certeza de que ela não vai se importar. Eu nem decidi qual mulher escolher, mas deverei me casar no final do ano. Um imperador precisa de herdeiros, você não acha? Nós temos muito tempo para nos conhecer até então, eh, minha querida?’ Eu assentia e dizia a ele que estava ocupada e normalmente ele me deixava em paz.
“Por causa dos gostos variados e ecléticos do imperador, eu fiquei muito conhecida do homem que entregava os tecidos de seda. Ele era mantido muito ocupado sempre trazendo novas linhas e materiais. Ás vezes ele se sentava e conversava comigo enquanto eu costurava. Logo, eu comecei a ansiar por suas visitas, e não foi muito depois que comecei a inventar razões para fazê-lo vir. Eu sempre me achava sonhando acordada com ele, e meu trabalho começou a sofrer.
“Apesar de amar costurar, perdi o entusiasmo pelos projetos e atenções do imperador. Olhei pela janela um dia e vi meu rapaz andando pelo pátio. Inspiração veio, e eu fiquei excitada em começar um novo projeto, um que eu queria fazer. Eu nunca havia feito algo não encomendado antes. Tinha trabalhado para os outros desde que era uma garota e nunca tive tempo extra. Eu vi em minha mente exatamente o que eu queria criar – um presente para meu jovem tecedor de seda. Não conseguia dormir, de tão fascinada que estava pela minha tarefa.
“Dia e noite eu trabalhei, sabendo que meu rapaz iria me visitar de novo no final da próxima semana. Finalmente, ele bateu na porta. Escondi
minha criação nas minhas costas e o pedi que entrasse. Ele me saudou com um sorriso caloroso e pousou seu pacote. ‘Tenho algo para você.’ Eu disse.
“’O que é?’
“’Um presente. Algo que eu fiz para você.’
“Seus olhos se acenderam de surpresa e felicidade quando eu lhe dei o presente embrulhado em papel marrom. Ele cuidadosamente abriu e tirou o lenço. Amoreiras apareciam no comprimento do tecido dourado, e casulos de bichos-da-seda se penduravam dos galhos. Brancas mariposas da seda ficavam nas folhas, e fios de seda de todos os matizes se enrolavam em carroças em cada extremidade do lenço. Ele o estendeu gentilmente em suas mãos e tocou uma folha bordada. ‘É lindo.’ Ele disse. ‘Nunca ganhei algo tão belo.’
“’Não foi nada.’ Eu gaguejei.
“’Não, eu sei o quanto tempo você deve ter levado para fazer isso. Você me deu algo muito valioso.’
“Eu baixei meus olhos e disse hesitantemente, ‘Eu lhe daria mais... se pedisse.’ Foi quando ele me tocou. Ele simplesmente deu um passo a frente e passou as costas de seus dedos no meu rosto. ‘Eu não posso... ficar com você.’ Ele disse.
“’Oh.’ Eu disse, desapontada, e me afastei.
“Ele continuou, ‘Ah, você entendeu errado. Se houvesse qualquer coisa que eu pudesse fazer para fazer você minha, eu não iria hesitar. Mas não sou um homem rico. Com certeza não rico o bastante para alguém como você. Mas eu te escolheria se pudesse.’ Ele segurou minhas bochechas em suas palmas. ‘Por favor acredite nisso.’ Ele disse.
“Eu assenti, e enquanto ele saia, eu tentei aceitar que não não poderíamos ficar juntos. Ainda assim, eu esperava por ele semana após semana e enquanto o ano passava, nós nos apaixonamos profundamente. Apesar de que isso traria vergonha e desapontamento para minha família, eu lhe disse me meu amor por ele era muito forte para negar. Nós fizemos
planos para secretamente fugir e nos casar assim que eu acabasse a encomenda do imperador. Nós daríamos todas as riquezas para minha famílias e iríamos embora. Ele levaria bichos-da-seda, e eu levaria minha habilidade, e juntos poderíamos começar tudo de novo em uma província bem distante.
“Finalmente, o ano havia acabado, e o imperador me deixou terminar o véu. Era um bom trabalho. Não meu melhor, pois esse pertencia ao meu amor, mas era bonito. O véu era rosa claro com rosas escuras bordadas nas extremidades. Quando eu o apresentei ao imperador, ele o colocou em minha cabeça e pronunciou que estava pronto para casar com sua noiva. Então ele sugeriu que eu devesse me arrumar.
“’Me arrumar para que?’ eu perguntei.
“’Para o casamento, é claro.’
“’Eu vou ajudar sua noiva com o véu?’
“’Não, querida. Você é minha noiva.’
“Mulheres entraram no quarto e me prepararam. Eu entrei em pânico e implorei ao imperador por outro dia. Eu lhe disse que precisava falar com meu pai. Ele respondeu que meu pai concordou feliz com o casamento e estava esperando para me escoltar. Pensando freneticamente, eu gaguejei que queria fazer para ele um lenço de cabeça rosa para combinar com meu véu. Ele acariciou meu rosto, e disse que estava se sentido generoso e iria me satisfazer. Ele iria me dar outro dia.
“Mandei um recado urgente para o meu rapaz, exigindo que a linha rosa fosse entregue imediatamente. Quando ele chegou, eu enrolei meus braços em volta dele e o abracei forte. Ele me abraçou de volta e perguntou o que estava errado. Eu expliquei que o imperador tinha feito planos para casar comigo e meu pai havia concordado. Eu o implorei para me levar embora, rápido, naquela noite. Ele disse que não achava que pudéssemos escapar com os guardas vigiando o palácio, mas ele conhecia alguém, um mago, que poderia ser subornado a nos ajudar. Ele me disse para esperar por ele, que
alguém iria vir para me buscar aquela noite e iria usar o lenço que eu tinha lhe dado. Ele pediu que eu confiasse nele.”
“O que aconteceu?” eu perguntei. “Alguém veio?”
“Sim. Um simples cavalo lavrador marrom veio.”
“Um cavalo lavrador?”
“Sim. Ele trotou vagarosamente para minha janela e relinchou suavemente. Ele usava o lenço amarrado em seu pescoço.”
“O cavalo usava o lenço? Onde estava seu rapaz?”
“Eu não sabia. Estava assustada. O cavalo batei seus cascos e relinchou mais alto, mas eu fiquei na janela, retorcendo minhas mãos. Eu não sabia o que fazer. Eu deveria pular a janela para o dorso do cavalo? Onde eu iria depois? O cavalo ficou mais agitado, alertando um guarda irritado, que tentou assustá-lo. Homens foram mandados para levar o cavalo para os estábulos, mas ele dava coices e mordia e relinchava alto. Finalmente, um dos guardas chefes veio e disseram a eles que prendessem o cavalo antes que ele acordasse o imperador.
“Nada que eles tentaram acalmava o animal. O lenço escorregou e caiu na lama. Os soldados pisaram e arruinaram o lindo presente. Eu chorei e imaginei onde meu rapaz estava. Me desesperei pensando se ele foi ferido ou assassinado na estrada. Ele finalmente deram um jeito de levar o cavalo, para que todos pudessem descansar a noite. Meu rapaz nunca chegou. Eu esperei por ele na janela toda a noite.
“Na manhã seguinte o imperador veio a mim e me escoltou para a câmara de banhos. Mulheres banharam e vestiram-me com belas roupas que eu tinha feito, e logo antes de ser levada para o grande salão, o imperador veio ao meu quarto, dispensou os criados, e fechou a porta atrás dele. ‘Eu tenho um presente de casamento para você, minha querida.’ Ele me deu o lenço que eu dera ao meu rapaz. Tinha sido limpo e passado mas muitos dos pontos delicados haviam sido rompidos. Lágrimas caíram pelo meu rosto.
“’ Um incidente interessante ocorreu noite passada. Parece que um cavalo lavrador entrou nos terrenos do palácio usando esse lenço. Ele fez tanto barulho que os guardas o levaram e o trancaram no estábulo. Na manhã seguinte, para a nossa surpresa, achamos não um cavalo, mas o tecedor de seda no estábulo. Lhe perguntamos que magia ele usou e por que ele tinha vindo. Ele não diz. Se recusa a compartilhar sua razão de se infiltrar no meu palácio no meio da noite.’
“Ele passou o lenço suavemente em meu rosto e disse, ‘Eu só posso presumir que ele veio para me assassinar. Quão sortuda você é por seu futuro marido estar a salvo.’
“Antes que eu pudesse guardar minhas palavras, eu exclamei, ‘Ele não veio para assassinar você!’
“O imperador inclinou sua cabeça pensativamente. ‘Não? Tem certeza? Você realmente conhece ele melhor do que qualquer um aqui. Talvez ele tenha vindo por uma razão completamente diferente. Por que você acha que ele veio, minha querida?’
“’Eu... eu tenho certeza de que ele só estava me trazendo mais linha. Talvez ele sido transformado por um feiticeiro e precisava de ajuda.’
“’Hmm... que sugestão interessante. Mas por que ele viria a você em vez da sua própria família? Ou talvez a um dos guardas?’
“’Eu... não sei.’
“’Venha comigo.’ Ele disse.
“Ele fez levantar para a janela que dava para o pátio. Meu querido amor estava amarrado a um poste, enquanto um homem estava perto com um chicote. O imperador ergueu e abaixou sua mão abruptamente. Eu ouvi o estalo do chicote no ar e solucei como se eu também pudesse sentir a dor da chicotada enquanto rasgava as costas do meu amor. O imperador sussurrou friamente, ‘Você achou que eu não reconheceria o seu trabalho, minha querida? Você concedeu o seu favor a esse homem.’ Me encolhi quando ouvi o chicote bater outra vez.
“’Por favor, não o machuque,’ eu implorei.
“’Você pode parar a tortura dele quando desejar. Apenas diga que eu estou enganado e que esse rapaz não veio por você. Que tudo isso não passa de um engano. E... diga alto para que todos possam ouvir.’
“Eu ouvi o gemido daquele que eu amava e me virei para o imperador. ‘Esse rapaz -’ “’Mais alto, por favor. E faça com que todos lá fora possam te ouvir também.’
“’Esse rapaz não veio por mim, e eu não o amo! Não tenho desejo de vê-lo machucado! Ele é apenas um simples e pobre tecedor de seda. Eu nunca iria me comprometer a alguém tão comum e empobrecido. Por favor deixem ele ir!’
“Meu amor olhou para mim; seus olhos queimando com a minha traição. Eu queria gritar que era uma mentira. Que eu o amava. Que eu só queria ficar com ele, mas eu fiquei em silêncio esperando salvar sua vida.
“’É tudo que eu precisava ouvir.’ Disse o imperador. Ele gritou para os homens, ‘Acabem com o sofrimento dele.’
“O imperador levantou sua mão e fez outro movimento cortante no ar. O homem com o chicote tropeçou para fora do caminho de uma linha de soldados com arcos. Eles levantaram seus arcos e encheram o peito do meu amor de flechas. Ele morreu acreditando que eu não me importava com ele, que eu não o amava mais. Eu cai no chão em desespero enquanto o imperador ameaçava, ‘Lembre-se dessa lição, passarinho. Eu não serei feito de corno. Agora... se recomponha par o nosso casamento.’
“Quando ele saiu, eu me prostrei no chão e chorei amargamente. Se apenas eu tivesse confiado no que eu não entendia. Se eu não tivesse sido tão covarde, meu amor e eu poderíamos ter escapado e vivido um vida feliz juntos. Ele tinha sido o cavalo o tempo todo. Ele tinha estado comigo, perto de mim, o tempo todo, e eu me recusei a ver. Por que eu fui cega, eu perdi tudo.
“Mais tarde, uma boa mulher colocou sua mão no meu ombro e secou minhas lágrimas com seu lenço de seda. Ela disse que amava meu trabalho e
que meus dons podiam ainda ser usados para beneficiarem os outros. Essa mulher era Durga. Ela ofereceu me levar embora, me ajudar a escapar do imperador, mas disse que eu nunca poderia voltar a ter uma vida mortal. Ela pegou o lenço dourado de onde eu havia deixado cair e me disse que meu tecedor de seda sempre estaria perto, pois eu havia costurado amor em cada ponto.
“Então aqui eu me sento. Sou a Senhora Bicho-da-Seda. Ainda presa em meu casulo de tristeza. Costurando, sempre costurando. Eu costuro para juntar os outros, mas continuo sozinha. Amarro linhas para dar um significado a minha existência, para ter um propósito. Me dá uma certa felicidade ajudar os outros a tecer suas vidas juntos.” Ela se inclinou para frente. “Mas eu te direi agora, jovem, sem o seu amor – a vida é nada. Sem o seu companheiro, você está inteiramente sozinha.” Ela pousou seu bastidor e pegou minhas mãos. “Acima de tudo, eu lhe imploro que confie em quem você ama.”
Ela pegou meu trabalho finalizado do meu colo. “Aqui está. Está Vendo? Fez um ótimo trabalho.” Ela sorriu. “É tempo de você voltar. Leve isso com você.”
Ela retirou o tecido que ela estava bordando do bastidor, cuidadosamente o dobrou, e o pôs em meus braços. “Mas eu -’’
Ela me calou com um olhar e me guiou para a parede. Levantando uma mão delicada, ela traçou seus dedos em uma linha esculpida. “Não posso falar mais disso hoje. A tristeza é muito grande. É hora de você ir. Siga o bicho-da-seda, jovem.”
Ela colocou sua mão na parede, e quando ela a tirou, uma lagarta branca se agarrou na linha esculpida. Como se ela estivesse avançando pela linha , eu me virei para dizer adeus, mas Senhora Bicho-da-Seda tinha desaparecido. A lagarta fez um progresso lento até uma rachadura na parede e então rastejou para dentro dela. Eu tentativamente toquei a mesma rachadura. Primeiro meus dedos e então minha mão inteira sumiu na parede. Respirando fundo, eu andei a frente para me achar englobada pela escuridão.

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