Portão do espírito
Estremeci e dei um puxão em minhas luvas, ajustando-as mais para cima nos pulsos. Passáramos a maior parte do primeiro dia subindo a montanha e montamos acampamento perto de algumas rochas que bloqueavam o vento. Quando paramos, foi com alívio que me livrei da mochila e me alonguei.
Dei uma busca na área, juntando lenha para acender uma fogueira. Após um jantar quente, graças ao Fruto Dourado, aconcheguei-me em meu saco de dormir king size, completamente vestida. Kishan enfiou a cabeça pela abertura e entrou em seguida. A princípio foi esquisito, mas depois de uma hora eu me sentia extremamente grata pela pelagem quente que me fez parar de tremer. Estava tão exausta que, apesar do barulho do vento, consegui dormir.
Na manhã seguinte, para o café da manhã, usei o Fruto Dourado para obter mingau de aveia quente com xarope de bordo e açúcar mascavo, além de chocolate quente. Kishan quis ficar como tigre para se manter aquecido, então lhe dei a opção de uma grande travessa cheia de bifes malpassados de carne de caça ou um prato gigantesco do mesmo mingau que eu comi e uma grande tigela de leite. Ele começou pela carne, mas comeu também o mingau e tomou o leite, engolindo
rapidamente. Juntei nossos pertences e arrumei-os na mochila antes de partirmos de novo.
Nos quatro dias seguintes estabelecemos uma rotina. Kishan guiava o caminho, eu providenciava as refeições com a ajuda do Fruto Dourado e acendia a fogueira, depois dormíamos aconchegados, tigre e humana, no grande saco de dormir, enquanto o vento uivava ao nosso redor. A escalada era desafiadora. Se eu não viesse me exercitando com Kishan e o Sr. Kadam, não estaria fisicamente preparada.
A subida não era difícil a ponto de exigir equipamento de montanhismo, mas tampouco era um passeio no parque. Respirar ficava mais complicado à medida que subíamos, pois havia menos oxigênio, e por isso parávamos freqüentemente para beber algo e descansar.
Chegamos ao limite das neves no quinto dia. Mesmo no verão havia neve no monte Everest. Era fácil avistar Kishan agora, mesmo à distância. Um animal negro na neve branca não passava despercebido. Ele tinha sorte de provavelmente ser uma das maiores criaturas ali. Se fosse menor, seria caçado por predadores.
Será que existem ursos polares por aqui? Não, ursos polares vivem nos polos. Hum, talvez existam outros ursos ou pumas. Pé Grande? O Abominável Homem das Neves? Melhor não pensar nisso.
Segui os rastros de Kishan e comecei a ficar atenta a pegadas. Quando avistava rastros de pequenos animais na neve, tentava adivinhar quais seriam. Alguns eram aves, evidentemente, mas outros eu não sabia se poderiam ser coelhos ou pequenos roedores. Sem ver nada maior e ficando entediada com esse jogo, relaxei e deixei a mente vagar enquanto seguia Kishan.
As árvores estavam ficando esparsas e o terreno, rochoso. A camada de neve era funda e respirar tornava-se cada vez mais difícil. Comecei a ficar nervosa. Eu não achava que demoraria tanto para chegar ao portão do espírito.
No sétimo dia, encontramos o urso.
Kishan afastara-se havia cerca de meia hora para procurar madeira e um bom local para acamparmos. Eu devia seguir seu rastro e ele retornaria
e me encontraria pelo faro. Na verdade, ele estaria de volta muito em breve, pois nunca me deixava por mais de 30 minutos.
Eu caminhava lenta e penosamente, pisando em suas pegadas de tigre, quando ouvi um urro estrondoso atrás de mim. Imaginei que Kishan tivesse feito a volta e estivesse tentando chamar minha atenção. Virei-me e me detive bruscamente, arquejando, apavorada. Um enorme urso pardo vinha em minha direção, num galope de ataque. Suas orelhas redondas estavam para trás. A boca aberta revelava os dentes afiados e ele se aproximava, veloz. Era muito mais rápido que eu.
Gritei.
O urso parou a pouco mais de um metro de onde eu estava, ergueu-se nas patas traseiras e rugiu para mim de novo, golpeando o ar com as patas. Seu pelo desgrenhado estava molhado de neve. Os olhos pequenos e negros me encaravam sobre o focinho comprido, enquanto ele avaliava minha capacidade de luta. A pele ao redor da boca repuxou quando sua mandíbula estremeceu, deixando à mostra um impressionante conjunto de dentes que poderia me fazer em pedaços.
Rapidamente me joguei no chão, lembrando-me de uma história sobre homens da montanha sobrevivendo na natureza selvagem. Ouvi que o melhor a fazer durante um ataque de urso é se deitar no chão, ficar em posição fetal e se fingir de morto.
Enrolei-me numa bola e cobri a cabeça com as mãos. O urso pôs as patas dianteiras no chão e pulou um pouco, as patas triturando a neve, enquanto tentava fazer com que eu me movesse para que pudesse atacar. Ele golpeou minhas costas e ouvi o tecido rasgar quando acertou a mochila, despedaçando o compartimento externo.
Por estar tão perto do urso, eu podia sentir o cheiro do seu pelo, que trazia o odor de grama molhada, terra e água do lago. Seu hálito quente cheirava levemente a peixe. Gemi e rolei um pouco. O urso mordeu a mochila e apertou a pata dianteira na parte de trás da minha coxa para me imobilizar. A pressão era intensa. Tive certeza de que meu fêmur ia quebrar.
E provavelmente teria quebrado se eu estivesse num solo mais compacto. Por sorte, o peso da perna do urso apenas me afundou mais na neve. Eu não sabia se ele estava defendendo seu território ou se queria me comer. De uma forma ou de outra, logo estaria morta.
Nesse exato momento, ouvi o rugido de Kishan. O urso olhou para cima e bramiu de volta, defendendo seu jantar. Virou-se para encarar o tigre e arranhou fundo com suas garras a parte de trás da minha coxa e a panturrilha da outra perna. Ofeguei de dor quando as garras de Freddy Krueger, com quase 300 quilos por trás delas, rasgaram minha coxa e panturilha. Mas a boa notícia era que o urso não tivera intenção de me machucar. Havia sido só um tapinha de amor, avisando que já estaria de volta.
Minhas pernas queimavam de dor e lágrimas rolavam pelo meu rosto, mas permaneci o mais quieta possível. Kishan rodeou o animal por um momento e então se lançou ao ataque. O tigre mordeu a pata dianteira do urso, enquanto este enfiava as garras em seu dorso. Os animais se afastaram o bastante para eu arriscar uma olhada nas minhas pernas. Não consegui virar a cabeça o suficiente para ver os ferimentos, mas grandes gotas de sangue manchavam de vermelho a neve.
O urso ficou de pé nas patas traseiras e rugiu. Depois se pôs de quatro, aproximou-se um pouco e ficou de pé novamente. Kishan traçou um semi-círculo fora do alcance do urso, que tentou atingi-lo com as patas dianteiras duas ou três vezes, como se tentasse afugentá-lo.
Kishan se aproximou e o urso atacou. O tigre se chocou com o urso de pé. Quando colidiram, o urso passou as patas dianteiras ao redor do corpo de Kishan, atacando violentamente suas costas, dando-me uma nova perspectiva da expressão "abraço de urso". Eles se rasgavam um ao outro, numa fúria de dentes e garras. O urso mordeu a orelha de Kishan, quase arrancando-a. Kishan afastou a cabeça, fazendo com que ambos perdessem o equilíbrio. Os animais caíram e rolaram algumas vezes, numa confusão de pelos negros e castanhos.
Então me recuperei o suficiente para me dar conta de que tinha uma arma. Mas que idiota eu era. Que espécie de guerreira eu me tornara?
Kishan agora estava rodeando o animal, tentando confundi-lo e cansá-lo. Tirei vantagem da distância entre eles, levantei a mão e atingi o urso no focinho com um pequeno raio. Não foi suficiente para feri-lo, mas o bastante para afastá-lo de seu jantar em potencial. Ele se distanciou num passo rápido, urrando de dor e frustação.
Rapidamente Kishan se transformou em homem e começou a avaliar os ferimentos da minha perna. Ele retirou a mochila dos meus ombros e em poucos segundos vestiu suas roupas de inverno. Em seguida debruçou-se sobre mim. O sangue já estava congelando na neve. Kishan rasgou uma camiseta ao meio e enrolou minha coxa e a panturrilha, apertando bem.
- Me desculpe se doer, mas preciso mover você. O cheiro do seu sangue pode atrair o urso de volta.
Ele se abaixou e me pegou com cuidado nos braços. Apesar de sua delicadeza, minhas pernas ardiam. Gritei e não pude deixar de me contorcer para tentar aliviar a dor. Pressionei meu rosto contra seu peito e cerrei os dentes. Então, perdi a consciência.
Eu não sabia se havia dormido ou desmaiado. Na verdade, não importava. Acordei deitada de bruços, junto a uma fogueira, com Kishan examinando meus ferimentos. Ele rasgara outra camiseta e limpava cuidadosamente minhas pernas com uma espécie de líquido quente e malcheiroso que ele produzira com o Fruto Dourado.
Arquejei.
- Isso pinica! O que é?
- É um remédio à base de ervas para aliviar a dor, deter a infecção e ajudar seu sangue a coagular.
- Não cheira muito bem. O que tem nele?
- Canela, equinácea, alho, hidraste, milefólio e algumas outras coisas cujo nome eu não conheço em sua língua.
- Está doendo!
- Imagino que sim. Você precisa de pontos.
Respirei fundo e comecei a lhe fazer perguntas para distrair minha mente da dor. Arquejei quando ele começou a limpar minha panturrilha.
- Onde você... aprendeu a fazer isso?
- Lutei em muitas batalhas. Sei um pouco como cuidar de ferimentos como estes. A dor deve diminuir logo, Kells.
- Tratou de ferimentos antes?
- Sim.
- Pode... me contar como foi? - perguntei, gemendo. - Vai me ajudar a me concentrar em outra coisa.
- Tudo bem.
Ele molhou o pano e continuou trabalhando em minha panturrilha.
- Kadam me levou com um grupo de sua infantaria de elite para conter alguns bandidos.
- Do tipo Robin Hood?
- Quem é Robin Hood?
- Um personagem que roubava dos ricos para dar aos pobres.
- Não. Eram assassinos. Roubavam caravanas, violentavam mulheres e depois matavam todos. Tornaram-se famosos numa certa região onde havia muito comércio. Suas riquezas atraíram muitas pessoas ao grupo e seu grande número causava muita preocupação. Eu estava estudando teoria militar e aprendendo com Kadam como estabelecer uma estratégia e entrar na guerra de guerrilha.
- Quantos anos você tinha?
- Tinha 16.
-Ai!
- Desculpe.
- Tudo bem - gemi. - Por favor, continue.
- Um grande grupo deles se achava escondido em algumas cavernas e estávamos tentando encontrar um modo de expulsá-los quando fomos atacados. Eles haviam construído uma saída secreta do esconderijo e nos rodearam, matando nossas sentinelas. Nossos homens lutaram bravamente e venceram os canalhas, mas vários de nossos melhores
soldados foram mortos e muitos ficaram gravemente feridos. Eu tive o braço deslocado, mas Kadam o colocou no lugar e ajudamos tantos quantos pudemos.
- Nossa...
- Foi quando aprendi a fazer a triagem de batalha. Aqueles que podiam, acompanhavam o cirurgião e o ajudavam a cuidar dos ferimentos dos soldados. Ele me ensinou um pouco sobre plantas e suas propriedades curativas. Minha mãe também entendia um pouco de botânica e tinha uma estufa cheia de plantas, muitas das quais usadas em medicamentos. Depois disso, sempre que eu saía para os combates, levava comigo uma bolsa de medicamentos para ajudar quando fosse necessário.
- Parece um pouco melhor agora. Está latejando menos. E você? Seus ferimentos estão doendo?
- Já estou curado.
- Isso não é justo - comentei, com inveja.
- Trocaria de lugar com você se pudesse, Kells - disse ele em voz baixa.
E continuou a limpeza cuidadosamente, envolvendo minha coxa e a panturrilha em tiras finas de tecido e depois fixando-as com as ataduras elásticas que o Sr. Kadam incluíra em nossa caixa de primeiros socorros. Kishan me deu duas aspirinas e levantou minha cabeça para me ajudar a beber água.
- Consegui parar o sangramento. Só um dos ferimentos me preocupa, por ser mais profundo. Descansaremos esta noite e começaremos a voltar amanhã. Terei que carregá-la, Kells. Acho que você não vai poder andar. Seus ferimentos podem abrir e voltar a sangrar.
- Mas, Kishan...
- Não se preocupe com isso agora. Descanse e veremos como se sentirá pela manhã.
Estendi a mão e a coloquei sobre a dele.
- Kishan?
Ele voltou seus olhos dourados para o meu rosto e me observou atentamente, avaliando se eu sentia dor.
-Sim?
- Obrigada por cuidar de mim.
Ele apertou minha mão.
- Quem dera eu pudesse fazer mais. Agora durma.
Fiquei cochilando intermitentemente, acordando quando Kishan colocava mais lenha na fogueira. Não sabia como ele encontrara lenha seca o bastante para queimar, mas não me dei ao trabalho de perguntar. Ele pôs a panela com o líquido que usara para banhar meus ferimentos junto das chamas a fim de mantê-lo aquecido. Eu estava confortável no saco de dormir, deitada de bruços, e, em meio a um torpor, olhava as chamas lamberem o fundo da panela. O cheiro de ervas do líquido quente se espalhava pelo ar e eu cochilava e acordava.
A certa altura devo ter dormido mais profundamente, pois sonhei com Ren. Ele se encontrava amarrado a um poste com as mãos atadas acima da cabeça. Eu estava encostada numa parede atrás de outro poste, onde Lokesh, que falava numa língua estranha e batia na mão com um chicote, não podia me ver. Ren abriu os olhos e me viu. Ele não se mexeu nem moveu um músculo sequer, mas seus olhos se agitaram. Eles brilharam e rugas minúsculas surgiram dos lados. Sorri para ele e dei um passo em sua direção. Ele balançou a cabeça ligeiramente. Ouvi o estalo do chicote e congelei.
Ren arquejou de dor. Deixei correndo meu esconderijo, gritando, e ataquei Lokesh, surpreendendo-o. Agarrei o chicote, mas não conseguia arrancá-lo de sua mão. Ele era extremamente forte. O meu gesto era tão inútil quanto o de um pássaro atacando uma árvore. Enquanto eu me debatia e lutava, vi seu indisfarçável prazer ao me reconhecer.
A excitação febril alcançou seus olhos negros e brilhantes. Ele agarrou minhas mãos e as torceu sobre minha cabeça e então chicoteou a parte posterior de minhas pernas três vezes. Gritei de dor. Um rugido atrás de mim atraiu sua atenção. Agarrei sua camisa e enfiei as unhas em seu pescoço e no peito. Ele me sacudiu.
- Kelsey! Kelsey! Acorde!
Acordei sobressaltada.
- Kishan?
- Você estava sonhando de novo.
Ele estava dentro do saco de dormir comigo. Delicadamente, soltou meus dedos que agarravam com firmeza sua blusa.
Olhei para seu peito e seu pescoço e vi os arranhões feios e ensangüentados. Delicadamente toquei um deles.
- Ah, Kishan, me desculpe. Está doendo muito?
- Tudo bem. Já estão cicatrizando.
- Não tive a intenção. Estava sonhando com Lokesh de novo. Eu... eu não quero voltar, Kishan. Quero seguir em frente, continuar a procurar o portão do espírito. Ren está sofrendo. Eu sei.
Para minha grande consternação, comecei a soluçar. Em parte por causa
da dor em minhas pernas e em parte por causa do estresse da viagem, mas o motivo principal era porque eu sabia que Ren estava sofrendo. Kishan mudou de posição e me abraçou.
- Shh, Kelsey. Vai ficar tudo bem.
- Isso você não sabe. Lokesh pode matá-lo antes de encontrarmos essa porcaria de portão do espírito.
Eu chorava enquanto Kishan massageava minhas costas.
- Lembre-se de que Durga disse que cuidaria dele. Não se esqueça disso.
Solucei.
- Eu sei, mas...
- Sua segurança é mais importante do que a busca e Ren concordaria com isso.
Ri, entre as lágrimas.
- Provavelmente sim, mas...
- Nada de "mas". Precisamos voltar, Kells. Quando estiver curada, podemos tentar novamente. Temos um trato?
- Acho que sim.
- Ótimo. Ren tem sorte... de ser dono do coração de uma mulher como você, Kelsey
Virei-me de lado para olhá-lo. O fogo ainda estava aceso e observei as chamas dançarem em seus olhos dourados e preocupados.
Toquei seu pescoço já cicatrizado e disse:
- E eu tenho sorte de ter dois homens tão maravilhosos na minha vida.
Ele levou minha mão aos lábios e beijou meus dedos.
- Sabe que ele não ia querer que você sofresse por ele.
- Nem que eu encontrasse consolo em você.
Ele sorriu.
- Não mesmo.
- Mas você me consola. Obrigada por estar aqui.
- Não há outro lugar em que eu desejasse estar. Durma um pouco, bilauta.
Ele me puxou para perto e me aninhou junto a seu peito. Experimentei a sensação de culpa por me sentir confortada nos braços de Kishan, mas rapidamente peguei no sono, sem outros incidentes.
Os dois dias seguintes de viagem foram curtos por necessidade. Tentei caminhar sozinha, mas a dor era forte, então Kishan precisou me carregar. Descemos de volta a montanha, andando devagar, parando para descansar de vez
em quando, reservando a última hora para Kishan montar o acampamento e cuidar de mim. A maioria dos meus ferimentos estava cicatrizando, mas o mais profundo começara a supurar.
A pele ao redor se tornara vermelha, inchada e inflamada. Era evidente que o ferimento estava piorando. Quando a febre chegou, Kishan começou a se desesperar. Ele amaldiçoou o fato de só poder me carregar durante seis horas do dia. Usou todos os remédios de ervas em que pôde pensar. Infelizmente o Fruto Dourado não produzia antibióticos.
Uma tempestade nos atingiu e percebi vagamente que Kishan me carregava através do granizo e da neve. O fato de não me movimentar sozinha deixava-me mais suscetível ao frio. Eu estava congelando e perdia e recobrava os sentidos, sem saber quantos dias haviam se passado. A certa altura ocorreu-me a idéia de que talvez Fanindra pudesse me curar, como em Kishkindha. Ela, porém, continuava rígida e congelada. Eu sabia que o clima não estava exatamente propício a cobras, mas talvez ela soubesse que eu ainda não estava à beira da morte, apesar das aparências.
Nós nos perdemos na tempestade, sem saber se estávamos voltando para o Sr. Kadam ou seguindo na direção do portão do espírito. Kishan estava constantemente preocupado em não me deixar dormir e por isso conversava comigo enquanto andávamos. Eu não me lembrava muito do que ele dizia. Deu-me uma aula sobre sobrevivência na natureza e disse que era importante que nos mantivéssemos aquecidos, alimentados e hidratados. Essas três coisas estavam relativamente garantidas. Quando parávamos para passar a noite, ele me envolvia no saco de dormir, deitava-se perto de mim para que seu corpo de tigre me mantivesse quente e deixava que o Fruto Dourado fornecesse a comida e a bebida de que necessitávamos.
Perdi o apetite quando adoeci. Kishan me forçava a comer e beber, mas eu tremia e a febre me fazia sentir como se estivesse ora congelando ora quente demais. Ele tinha que se transformar em homem com freqüência para me manter coberta com o saco de dormir porque, com a febre, eu tentava constantemente me descobrir.
Eu me sentia fraca agora e passava o tempo olhando para o céu ou para o rosto de Kishan, enquanto ele falava de vários assuntos. O que ele chamou de "arroz do mato" foi um tópico do qual me lembrei mais tarde por ser nojento. Ele falou sobre como conseguira se manter quando foi o único sobrevivente de uma batalha dentro do território inimigo. Como não havia comida, ele comia arroz do mato, que na verdade não era arroz, mas larvas brancas de cupins.
Resmunguei, mas estava sonolenta demais para mover os lábios e emitir qualquer comentário. Não conseguia falar. Ele me olhou, preocupado, e puxou um pouco mais o capuz sobre meu rosto para que a neve não caísse diretamente sobre mim.
- Prometo que vou tirá-la daqui, Kelsey - sussurrou, inclinando-se em minha direção. - Não vou deixá-la morrer.
Morrer? Quem falou em morrer? Eu não pretendia morrer, mas não conseguia dizer isso a ele. Meus lábios pareciam congelados. Não posso morrer. Tenho que encontrar os próximos três itens e salvar meus
tigres. Tenho que resgatar Ren da prisão de Lokesh.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
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