terminar a faculdade. Tenho que... Adormeci.
Sonhei que passava o dedo no vidro de uma janela congelada. Tinha acabado de desenhar um coração com "Ren + Kelsey" no meio e desenhara um segundo coração com "Kishan +..." quando alguém me sacudiu, me acordando.
- Kells. Kells! Pensei que estivéssemos voltando, mas acho que encontramos o portão do espírito!
Espiei pela abertura do capuz e olhei para cima, para um céu cinza-ametista. Uma chuva de granizo gelada e dolorosa nos fustigava e eu precisei apertar os olhos a fim de ver para onde Kishan apontava. No meio de uma extensão nua e branca de neve encontravam-se duas estacas de madeira. Enroladas em cada uma delas, viam-se longas cordas de um material que tremulava na tempestade, como rabiolas de pipas. Uma fileira de bandeiras coloridas estava presa em diferentes seções das estacas. Algumas das cordas estavam atadas à estaca oposta. Outras se achavam presas a anéis fixados no solo ou apenas balançavam soltas no vento.
Umedeci os lábios com a língua e sussurrei:
- Tem certeza?
Felizmente sua audição de tigre era bastante aguçada. Ele se curvou, apro- ximando-se do meu ouvido, e gritou mais alto que o barulho do vento:
- Pode ser um monumento ou memorial criado por nômades, mas há algo de diferente naquilo. Quero verificar.
Assenti, fraca, e ele me acomodou no saco de dormir perto de uma das estacas. Passara a me carregar no saco de dormir para me manter mais aquecida. Caí num sono profundo. Quando ele me acordou, não sabia se haviam se passado horas ou segundos.
- É aqui mesmo, Kelsey. Encontrei uma marca de mão. A questão é: devemos atravessá-lo ou voltar? Acho que devemos voltar e retornar depois.
Estendi a mão enluvada e toquei-lhe o peito. Sussurrei, sentindo o vento engolir minhas palavras e dispersá-las assim que passavam pelos meus lábios. Por sorte, ele as ouviu.
- Não... Não conseguiremos... achá-lo... de novo... muito difícil - eu disse. - O Mestre do Oceano disse que... provássemos nossa... fé. É... uma prova. Temos... que... ten... tentar.
- Mas, Kells...
- Leve-me... à... marca de mão.
Ele me olhou, com a indecisão travando uma batalha em seus olhos. Cuidadosamente, esticou a mão enluvada e afastou os flocos de neve do meu rosto.
Apertei a mão dele na minha.
- Tenha fé - sussurrei no vento.
Ele soltou um suspiro profundo e em seguida deslizou os braços sob meu corpo e me carregou até a estaca de madeira.
- Aqui está. À esquerda da estaca, sob o tecido azul.
Vi do que ele falava e tentei tirar minha luva. Kishan me colocou de pé, sustentando todo o meu peso num só braço. Puxou minha luva com a outra mão e a enfiou em seu bolso. Depois guiou minha mão para dentro da depressão fria esculpida na estaca. Agora que eu estava mais perto, conseguia enxergar os entalhes intrincados por toda a madeira, que tinha sido parcialmente coberta pela neve. Se estivesse me sentindo melhor, teria adorado examiná-los, porém mal conseguia me sustentar de pé sem Kishan.
Mantive a mão pressionada contra a madeira, mas nada aconteceu. Tentei evocar o fogo em minha barriga, a centelha que fazia minha mão brilhar, mas sentia-me entorpecida.
- Kishan.. n...não... consigo. Estou com... muito... fr... frio - balbuciei, sentindo vontade de chorar.
Ele tirou as luvas, abriu o casaco, rasgou a camiseta que vestia por baixo e pôs minha mão congelada sobre seu peito nu, cobrindo-a com a sua mão quente. Seu peito estava quente também. Ele pressionou seu rosto aquecido contra o meu rosto frio e, com a palma da mão, esfregou as
costas da minha mão por alguns minutos. Ele falou, mas não entendi suas palavras. Então virou-se para me proteger do vento e quase adormeci protegida no casulo aconchegante que ele criara. Por fim, afastou-se um pouco e disse:
- Pronto. Assim é melhor. Agora, tente outra vez.
Ele me ajudou a posicionar a mão. Senti uma pequena centelha de calor formigando e a induzi a crescer. A força estava lenta e letárgica, mas foi crescendo até a marca de mão brilhar. A estaca sacudiu e começou a brilhar também. Algo aconteceu aos meus olhos. Um filtro verde cobriu minha visão, como se eu tivesse colocado óculos escuros de lentes verdes. Isso fazia com que o brilho de minha mão parecesse laranja-vivo e ele viajava de uma estaca à outra, atravessando a rabiola de tecido.
O chão tremeu e fomos envolvidos numa bolha de calor. Fraca demais para continuar, minha mão escorregou e tornei a desabar de encontro a Kishan, que me pegou no colo novamente. Uma pequena bolha de estática se formou entre as duas estacas e começou a crescer. As cores mudavam dentro da bolha, inicialmente muito borradas para que fosse possível distingui-las, mas foram crescendo e começaram e entrar em foco. Ouvi um estouro e a imagem tornou-se nítida.
Vi a grama verde e um sol amarelo e quente. Rebanhos de animais pastavam preguiçosamente em meio a árvores frondosas. De onde estávamos, eu inalava o perfume de flores e sentia o sol em meu rosto, embora o granizo gelado ainda caísse sobre mim. Kishan deu um passo à frente, depois outro. Ele me carregou para o paraíso. Com a cabeça recostada em seu braço, eu escutava o som da tempestade morrer. O ar frio se tornou mais distante e depois partiu com um leve estalo. Foi então que desmaiei.
18
Coisas boas
Despertei ao amanhecer junto a uma fogueira crepitante. Kishan estava aquecendo as mãos.
Virei-me e gemi.
-Oi.
- Oi. Como está se sentindo?
- Hum... Na verdade, melhor.
Ele resmungou.
- Seu ferimento começou a cicatrizar assim que chegamos a este lugar.
- Dormi por quanto tempo?
- Cerca de 12 horas. Você se curou aqui quase tão depressa quanto Ren e eu do lado de fora.
Estendi as pernas e fiquei aliviada. A dor era ruim, mas uma infecção era pior. Eu estivera de certa forma contando com o amuleto de Kishan para me curar, mas não estava funcionando como o Sr. Kadam dissera. Talvez o amuleto de Kishan fizesse algo diferente. Eu tivera sorte.
- Estou faminta. O que temos para o café da manhã? - perguntei.
- O que gostaria de comer?
- Que tal panquecas com gotas de chocolate e um copo bem grande de leite?
- Parece bom. Vou querer o mesmo.
Kishan pediu ao Fruto Dourado que providenciasse nossa refeição, agachando-se ao meu lado para comer. Ainda me sentia fraca e, quando ele me puxou para mais perto, para que me apoiasse nele, não protestei. Ao contrário, ataquei, contente, minhas panquecas.
- E então, Kishan, onde estamos?
- Não tenho certeza. Cerca de um quilômetro e meio além do portão do espírito.
- Você me carregou?
- Sim. - Ele pousou o prato e passou o braço ao meu redor. - Tive medo de que você morresse.
- Aparentemente, meu retorno dos mortos é um tema recorrente nestas cidades míticas.
- Espero que esta seja a última vez que você chega tão perto.
- Eu também. Obrigada. Por tudo.
- De nada. A propósito, parece que posso manter a forma humana aqui, como Ren fez em Kishkindha.
- E mesmo? E como está se sentindo?
- Estranho. Não estou acostumado. Fico esperando o tigre assumir o controle. Ainda posso me transformar se quiser, mas não sou obrigado a isso.
- O mesmo aconteceu com Ren. Bem, aproveite enquanto durar. Ren transformou-se de volta no instante em que deixamos Kishkindha.
Ele murmurou algo e começou a vasculhar a mochila.
- Pode me dar a profecia e as notas do Sr. Kadam? - pedi. - A primeira tarefa é achar a pedra ônfalo, a pedra do umbigo, a pedra da profecia. Quando olharmos dentro dela, ela nos mostrará onde encontrar a árvore. A pedra parece uma bola de futebol americano apoiada numa das extremidades com um buraco no topo.
- E como é uma bola de futebol americano?
- É meio ovalada.
Levantei-me com as pernas trêmulas.
- Não acha que devia descansar um pouco mais?
- Estou me sentindo bem descansada e, além disso, quanto mais rápido encontrarmos a pedra, mais cedo resgataremos Ren.
- Tudo bem, mas avançaremos devagar. Está bem quente aqui. Não gostaria de trocar as roupas de neve primeiro?
Olhei para minha calça rasgada.
- É melhor.
Kishan tirara meu casaco, mas eu estava suando com a calça térmica. Ele já se trocara e agora usava calça jeans, botas de montanhismo e uma camiseta preta.
- Não enjoa de preto?
Ele deu de ombros.
- Eu me sinto bem assim.
- Hum.
- Enquanto você se troca, vou verificar a área e tentar encontrar uma trilha para seguirmos. - Ele sorriu. - E não se preocupe. Não vou espiar.
- Acho bom.
Ele riu e se afastou andando pela grama, em direção ao início do bosque. Enquanto eu mudava de roupa, examinei assombrada minha calça rasgada. Aquele urso me pegou de jeito. Chequei a perna e a panturrilha. Não havia mais nenhum ferimento. Nem uma cicatriz sequer. A pele estava normal e rosada, como se nunca tivesse sido machucada.
Quando Kishan voltou, eu já havia me lavado usando a melhor solução que pude encontrar - uma panela de chá de rosas quente, cortesia do Fruto Dourado, e uma camiseta. Joguei o restante do chá de rosas no cabelo, escovei-o e o prendi numa trança que caía pelas minhas costas. Eu já vestira uma camiseta de mangas compridas, calça jeans e botas de montanhismo para combinar com Kishan quando ele gritou, avisando de sua chegada, e entrou no acampamento. Ele me olhou de cima a baixo com aprovação masculina e sorriu.
- Está rindo de quê?
- De você. Está com uma aparência muito melhor.
- Ah! O que eu não daria por um banho! Mas me sinto melhor.
- Encontrei um riacho que corre junto ao início do bosque com uma trilha. Acho que pode ser um bom lugar para começarmos. Vamos?
Concordei com a cabeça enquanto ele colocava a mochila em seus ombros e seguimos para as árvores. Quando chegamos ao riacho, espantei-me com sua beleza. Flores maravilhosas brotavam junto a pedras e troncos de árvores. Reconheci narcisos crescendo nas margens e contei a Kishan a história da mitologia grega sobre o belo homem que se apaixonou pelo próprio reflexo.
Ele escutou, absorto, e ficamos os dois tão envolvidos com a história que não notamos os animais. Estávamos sendo seguidos por criaturas da floresta. Paramos e um par de coelhos veio, saltando, nos olhar com curiosidade. Esquilos pulavam de árvore em árvore, aproximando-se, como se quisessem escutar a história. Eles saltaram para um galho que se curvou com seu peso e os trouxe para apenas alguns metros de nós. O bosque estava cheio de criaturas. Vi raposas, cervos e pássaros de todas as espécies. Ergui a mão e um belo cardeal vermelho pousou delicadamente no meu dedo.
Kishan levantou o braço e um falcão de olhos dourados voou do topo da árvore para se equilibrar em seu antebraço. Andei até uma raposa que, destemida, observou minha aproximação. Esticando a mão, acariciei sua cabeça peluda e macia.
- Estou me sentindo a Branca de Neve! É incrível! Que lugar é este?
Ele riu.
- O paraíso. Está lembrada?
Caminhamos o dia todo, escoltados às vezes por uma variedade de animais. À tarde deixamos a floresta e encontramos cavalos pastando num prado repleto de flores silvestres. Colhi algumas a fim de fazer um buquê. Os cavalos vieram trotando para investigar.
Kishan deu-lhes maçãs de uma árvore próxima e eu trancei flores na crina de uma linda égua branca. Eles andaram ao nosso lado por algum tempo.
No início da noite avistamos uma estrutura no sopé de uma grande colina. Kishan quis montar acampamento para que pudéssemos dormir e explorar a área no dia seguinte.
Naquela noite, deitei-me de lado no saco de dormir com uma das mãos sob o rosto e disse a ele:
- É como o Jardim do Éden! Jamais imaginei que um lugar assim existisse!
- Ah, mas, se bem me lembro, havia uma serpente no jardim.
- Bem, se não havia uma aqui antes, agora há.
Olhei para Fanindra. Suas dobras douradas ainda estavam duras e imóveis, enquanto ela descansava perto da minha cabeça. Voltei-me para Kishan, que atiçava o fogo com um galho.
- Não está cansado? Avançamos bastante hoje. Não quer dormir?
Ele me deu uma olhada rápida.
- Daqui a pouco.
- Ah, tudo bem. Guardarei um espaço para você.
- Kelsey, acho que seria prudente de minha parte dormir do outro lado da fogueira. Você ficará bastante aquecida aqui, sozinha.
Olhei para ele, curiosa.
- É verdade, mas há bastante espaço, e prometo não roncar.
Ele deu uma risada nervosa.
- Não é isso. Sou homem o tempo inteiro agora e seria difícil para mim dormir com você sem... abraçá-la. Dormir ao seu lado como tigre, tudo bem, mas como homem é diferente.
- Ah, uma vez eu disse o mesmo para Ren. Você está certo. Deveria ter pensado nisso e não deixá-lo numa posição desconfortável.
Ele bufou, irônico.
- Não estava preocupado em me sentir desconfortável, mas sim em me sentir um pouco confortável demais.
- Ah, tá. - Agora eu estava nervosa. - Então... é... quer ficar com o saco de dormir? Posso usar minha colcha.
- Não. Estou bem, bilauta.
Alguns minutos depois, Kishan acomodou-se do outro lado da fogueira. Ele enfiou as mãos sob a cabeça e disse:
- Conte-me outra lenda grega.
- Certo. - Pensei por um momento. - Era uma vez uma bela ninfa, chamada Clóris, que cuidava das flores e da primavera, ordenando aos brotos das árvores que florescessem. Seus longos cabelos louros cheiravam a rosas e estavam sempre enfeitados com uma grinalda de flores. Sua pele era macia como pétalas de rosas. Seus lábios rosados formavam o biquinho de uma peônia e suas faces se assemelhavam a orquídeas em flor. Embora fosse amada por todos que a conheciam,
Clóris desejava um companheiro, um homem que pudesse apreciar sua paixão por flores e que desse à sua vida um sentido mais profundo.
- Continue - disse Kishan, quando fiz uma pausa.
- Uma tarde, ela cuidava dos copos-de-leite e sentiu uma brisa morna soprar seu cabelo. Um homem entrou no prado e deteve-se, admirando seu jardim. Ele era bonito, com cabelos escuros agitando-se ao vento e usava uma capa púrpura. A princípio, não a viu; ela o observou de um caramanchão coberto de folhas enquanto ele caminhava entre as flores. Os narcisos levantaram a cabeça à sua aproximação. Ele apanhou entre as mãos um botão de rosa para inalar sua fragrância e a flor abriu as pétalas e desabrochou em sua palma. Os lírios estremeceram ao seu toque e as tulipas curvaram seus longos caules em sua direção.
- Hum... E o que fez a mulher?
- Clóris ficou surpresa. Normalmente suas flores só reagiam a ela. As hastes de lavanda tentaram se enroscar nas pernas dele quando passou. Ela cruzou os braços e franziu a testa para elas. Os gladíolos todos se abriram ao mesmo tempo, em vez de se alternarem como seria esperado, e as ervilhas-de-cheiro dançavam para a frente e para trás, tentando atrair a atenção dele. Ela arquejou de leve ao ver o flox tentar desenterrar as próprias raízes. "Chega!", disse ela. "Comportem-se!" O homem se virou e a viu oculta entre as folhas. "Pode sair", chamou. "Não vou machucá-la." Ela suspirou, empurrou as gardênias para o lado e saiu ao sol, os pés descalços pisando na relva.
Uma brisa suave soprou pelo jardim quando o homem inspirou de leve. Clóris era mais linda que qualquer uma das flores que ele viera admirar. Ele se apaixonou imediatamente por ela e caiu de joelhos à sua frente. Ela implorou que ele se erguesse. O homem se pôs de pé e o vento morno levantou sua capa e envolveu os dois em suas ondas púrpura. Clóris riu e ofereceu-lhe uma rosa prateada. Sorrindo, ele arrancou as pétalas, atirando-as no ar.
Como Kishan nada dizia, continuei a contar a história.
- De início, ela ficou aborrecida, mas então ele girou o dedo e as pétalas formaram uma espiral ao redor deles, num túnel de vento. Ela bateu
palmas, deliciada, ao ver as pétalas dançarem. "Quem é você?", perguntou. "Meu nome é Zéfiro", ele respondeu. "Sou o vento do oeste." Ofereceu-lhe a mão. Quando ela pousou sua mão na dele, ele a puxou para si e a beijou. Acariciando seu rosto macio com a ponta dos dedos, ele disse: "Há séculos viajo pelo mundo e você é a donzela mais linda que já vi. Diga-me, por favor, qual é o seu nome?" Corando, ela respondeu: "Clóris." Ele envolveu suas mãos pequenas com as dele e fez uma promessa. "Voltarei na próxima primavera. Quero que seja minha esposa. Se você me quiser." Clóris assentiu timidamente. Ele tornou a beijá-la e a capa púrpura esvoaçou ao seu redor. "Até nosso próximo encontro, no próximo ano, minha Flora." O vento o levou rapidamente para longe.
Achei que tivesse escutado alguém se aproximar, mas meus sentidos me enganaram. Retomei meu relato.
- Durante todo o ano ela se preparou para a chegada de Zéfiro. Seu jardim estava mais belo do que nunca e as flores, mais felizes. Sempre que pensava nele, sentia o beijo de sua brisa roçar-lhe o rosto. Na primavera seguinte, ele voltou e encontrou sua linda noiva à espera, e os dois se casaram cercados por milhares de florações. Tiveram um casamento feliz. Ela cuidava dos jardins, enquanto a cada primavera o vento oeste de seu marido espalhava suavemente o pólen. Seus jardins eram os mais lindos, os mais famosos e pessoas vinham de todas as partes do mundo admirá-los. Eles se adoravam e o amor deles era generoso. Tiveram um filho chamado Carpo, que significa "fruto".
Fiz uma pausa.
- Kishan?
Ouvi um ronco leve vindo do outro lado da fogueira. Perguntei-me quando ele pegara no sono e disse baixinho:
- Boa noite, Kishan.
Na manhã seguinte acordei com um som de mastigação acima da minha cabeça. Olhei para cima e vi um corpo alto e amarelo, com círculos negros, e sussurrei:
- Kishan, acorde!
- Já estou acordado e vigiando, Kells. Não tenha medo. Ela não vai ma-chucá-la.
- É uma girafa!
- É. E há alguns gorilas se movimentando naquelas árvores.
Virei-me devagar e vi uma família de gorilas apanhando frutas de uma árvore.
- Vão nos atacar?
- Não estão reagindo como gorilas normais, mas só há um modo de saber. Fique aqui.
Ele desapareceu entre as árvores, surgiu um momento depois na forma de tigre e foi até a girafa. Ela piscou para ele seus olhos de cílios longos e voltou calmamente a arrancar as folhas do alto das árvores com a língua. O mesmo aconteceu quando ele seguiu na direção dos gorilas. Eles o observaram preguiçosamente e tagarelaram entre eles. Então voltaram ao seu café da manhã, mesmo quando ele se aproximou de um dos bebês.
Kishan se transformou de novo em homem, olhando atentamente os animais.
- Muito interessante. Eles não estão com medo de mim.
Comecei a desfazer o acampamento.
- Você perdeu suas roupas de montanhismo. Está de volta ao preto.
- Não perdi, não. Deixei-as entre as árvores. Já volto.
Depois do café da manhã, caminhamos até a grande estrutura que tínhamos visto no dia anterior. Era imensa, feita de madeira e, obviamente, muito antiga. Uma grande rampa apodrecida levava ao seu interior. Quando nos aproximamos, exclamei:
- É um barco!
- Acho que não, Kells. É grande demais para ser um barco.
- É, sim, Kishan. Acho que é a arca!
- O quê?
- A Arca de Noé. Lembra-se de quando o Sr. Kadam falou sobre todos os mitos do dilúvio? Bem, se esta de fato é a montanha onde Noé aportou, então aquilo deve ser o que restou de seu barco. Vamos!
Caminhamos até a imensa estrutura de madeira e espiamos lá dentro. Eu queria subir e dar uma olhada, mas Kishan me advertiu.
- Espere, Kells. A madeira está podre. Deixe-me ir primeiro e fazer um teste.
Ele desapareceu dentro da barriga escancarada da construção e surgiu alguns minutos depois.
- Acho que é seguro o bastante, se você ficar bem atrás de mim.
Entrei atrás dele. Estava escuro, mas, nos lugares onde a madeira havia caído do teto, aberturas irregulares deixavam a luz do sol entrar. Eu esperava ver baias de alguma espécie para conter os animais, porém não havia nenhuma. Havia, sim, alguns níveis com degraus de madeira, mas Kishan achou que os degraus seriam perigosos demais. Peguei a câmera e tirei algumas fotos para o Sr. Kadam.
Mais tarde, ao sairmos da relíquia de madeira, eu disse:
- Kishan... tenho uma teoria. Acho que a Arca de Noé realmente aportou aqui e os animais que vimos são descendentes daqueles animais originais. Talvez seja por isso que eles tenham um comportamento diferente. O único lugar em que viveram foi aqui.
- Só porque um animal vive no paraíso não significa que ele não tenha instintos. Eles são muito poderosos. O instinto de proteger o território, de caçar o alimento e de... - ele olhou para mim propositalmente - encontrar um companheiro pode ser irresistível.
Limpei a garganta.
- Certo. Mas a comida é abundante aqui e tenho certeza de que existem muitos - gesticulei com a mão no ar - companheiros para todos.
Ele ergueu uma sobrancelha.
- Talvez. Mas como você sabe que é sempre assim? Talvez o inverno venha numa época diferente aqui.
- Pode ser, mas acho que não. Vi flores crescendo que florescem na primavera, mas também vi flores que florescem no outono. É estranho. É como se reunisse o melhor de tudo. Os animais são todos perfeitos e bem alimentados.
- Sim, mas não vimos nenhum predador ainda.
- É verdade. Vamos manter os olhos abertos.
Peguei o caderno e comecei a categorizar o que tínhamos visto. O lugar lembrava mesmo um paraíso e, aparentemente, Kishan e eu éramos os únicos seres humanos ali. O aroma fresco de flores, maçãs, frutas cítricas e grama pairava no ar. A temperatura estava perfeita - nem quente demais, nem fria demais.
Parecia um jardim bem cuidado. Eu não via nada que se assemelhasse a uma erva daninha. Seria impossível este tipo de terreno se manter naturalmente, pensei. Encontramos um ninho de pássaro perfeito, com ovos azuis pintados. Os pais chilreavam alegremente, sem se aborrecerem quando nos aproximamos para inspecionar os ovos.
Também fiz uma lista de todas as criaturas com que travamos contato. No início da tarde, tínhamos visto centenas de animais diferentes que eu sabia que não deveriam estar vivendo naquele meio ambiente - elefantes, camelos e até cangurus.
Já perto do anoitecer avistamos nossos primeiros predadores - um bando de leões. Kishan os farejou a quase dois quilômetros de suas terras e decidimos olhar mais de perto. Ele me fez subir numa árvore enquanto investigava. Por fim, ele voltou, com um olhar de espanto.
- Há um grande rebanho de antílopes perto do bando, mas eles estão pastando ao lado dos leões! Vi uma leoa comendo algo vermelho, que pensei ser carne, mas na verdade era uma fruta. Os leões estavam comendo maçãs!
Comecei a descer. Kishan me pegou pela cintura e me levou até o chão.
- Então minha teoria estava correta. Aqui é realmente como o Jardim do Éden. Os animais não caçam.
- Parece que você acertou. Ainda assim, gostaria de guardar certa distância entre nós e os leões antes de acamparmos.
Mais tarde identificamos outros predadores - lobos, panteras, ursos e até outro tigre. Eles não fizeram qualquer movimento contra nós. Na verdade, os lobos eram tão amigáveis quanto cães e se aproximaram para que os acariciássemos.
Kishan resmungou.
- Isso é estranho... Me deixa nervoso!
- Sei o que quer dizer, mas... eu gosto. Queria que Ren pudesse ver este lugar.
Kishan não respondeu, apenas me apressou para deixarmos os lobos e seguirmos em frente.
Ao anoitecer nos deparamos com uma clareira cheia de narcisos no meio de uma floresta. Tínhamos acabado de montar acampamento quando ouvi a melodia doce e melancólica de uma flauta. Nós dois nos imobilizamos. Era a primeira evidência de que havia pessoas ali.
- O que fazemos? - perguntei.
- Deixe-me ir ver.
- Acho que nós dois devíamos ir.
Kishan deu de ombros e rapidamente fui atrás dele. Seguimos as notas persistentes do misterioso som e encontramos a fonte da música sentada numa pedra elevada junto a um córrego, tocando uma flauta de bambu. A criatura segurava o instrumento delicadamente entre as mãos e o soprava de leve. Quando nos aproximamos, hesitantes, ela parou de tocar e sorriu.
Seus olhos eram de um verde vivo, brilhando num lindo rosto. Seu cabelo prateado, na altura dos ombros, caía solto. Dois pequenos chifres castanhos e aveludados despontavam do alto de sua cabeleira brilhante, lembrando um jovem cervo começando a desenvolver a galhada. Era ligeiramente menor que um ser humano de altura mediana e sua pele era branca, com um tom ligeiramente lilás. Estava descalço, mas usava uma calça que parecia feita de um tecido que imitava couro. Sua camisa de manga comprida era cor de romã.
Ele pendurou a flauta no pescoço e olhou para nós.
- Olá.
Kishan respondeu, cauteloso:
-Olá.
- Estava esperando sua chegada. Todos nós estávamos.
- Nós, quem? - perguntei.
- Eu, os silvanos e as fadas.
Perplexo, Kishan acrescentou:
- Vocês estavam nos esperando?
- Ah, sim. Na verdade, há muito tempo. Devem estar cansados. Venham comigo e eu lhes darei algo para beber.
Kishan continuou grudado no chão. Dei a volta por ele.
- Oi, meu nome é Kelsey.
- Muito prazer. O meu é Fauno.
- Fauno? Já ouvi esse nome antes.
- Ouviu?
- Sim! Você é Pã!
- Pã? Não. Eu sou Fauno. Pelo menos é o que minha família me diz. Venham.
Ele se levantou, saltou sobre uma rocha e desapareceu na floresta, por um caminho de pedras. Virei-me e segurei a mão de Kishan.
- Vamos. Confio nele.
- Eu não.
Apertei a mão dele e sussurrei:
- Está tudo bem. Acho que você daria conta dele.
Kishan aumentou a pressão em minha mão e deixou que eu fosse na frente, seguindo nosso guia.
Seguimos Fauno através de árvores frondosas e logo ouvimos o riso agudo de muitas pessoas. Ao nos aproximarmos da aldeia, percebi que o som era algo que eu jamais ouvira gente produzir. Era sobrenatural.
- Fauno... o que são silvanos?
- São o povo das árvores, as ninfas das árvores.
- Ninfas das árvores?
- Sim. De onde vocês vêm não existe povo das árvores?
- Não. Também não temos fadas.
Ele pareceu confuso.
- Que tipo de gente sai de uma árvore quando ela se parte?
- Até onde sei, nenhum. Na verdade, acho que nunca vi uma árvore se partir, a não ser quando um raio a atinge ou alguém a derruba.
Ele se deteve.
- Seu povo derruba árvores?
- Na minha terra? Sim.
Ele balançou a cabeça com tristeza.
- Fico muito feliz de viver aqui. Pobres árvores! Eu me pergunto o que será das futuras gerações.
Olhei para Kishan, que sacudiu a cabeça imperceptivelmente, antes de recomeçarmos a andar.
Quando a noite caiu, passamos por baixo de um amplo arco repleto de centenas de rosas trepadeiras em miniatura, em todas as variedades de cor, e entramos na aldeia dos silvanos. Lanternas pendiam de trepadeiras semelhantes a cordas, que desciam das maiores árvores que eu já vira. As pequenas luzes dentro das lanternas pulavam para cima e para baixo em suas casas de vidro, cada uma de uma cor viva e diferente - rosa, prata, turquesa, laranja, amarelo e violeta. Olhando mais de perto, vi que as luzes eram criaturas vivas. Eram fadas!
- Kishan! Olhe! Elas brilham como vaga-lumes!
As fadas pareciam grandes borboletas, mas seu brilho não vinha do corpo. A luz suave emanava de suas asas coloridas, que se abriam e fechavam preguiçosamente, enquanto as pequenas criaturas permaneciam sentadas num suporte de madeira.
Apontei para uma delas.
- Elas são...
- Lâmpadas? São. Elas têm turnos de duas horas como lanterna, à noite. Gostam de ler em serviço. Isso as mantém acordadas. Se dormirem, suas luzes se apagam.
- Certo. Claro - murmurei.
Entramos com ele no povoado. Os pequenos chalés eram feitos de plantas fibrosas entrelaçadas e se encontravam dispostos em círculo ao redor de um trecho gramado. A área central havia sido preparada para um banquete. Uma árvore gigantesca se erguia atrás de cada cabana; os galhos se estendiam no alto, enlaçando seus ramos aos das árvores vizinhas e criando assim um belo caramanchão verde acima de nós.
Fauno segurou sua flauta e tocou uma melodia alegre. Pessoas graciosas e delicadas começaram a sair de seus chalés e saltar de esconderijos em meio à folhagem.
- Venham! Venham conhecer quem estávamos esperando! Estes são Kelsey e Kishan. Vamos dar-lhes as boas-vindas.
Rostos radiantes se aproximaram. Todos tinham cabelo prateado e olhos verdes como os de Fauno. Eram belos seres masculinos e femininos, vestidos com roupas de tecidos finos cintilantes, nas cores vivas das flores que brotavam por toda parte.
Fauno virou-se para mim:
- Gostariam de comer ou de tomar banho primeiro?
Surpresa, eu disse:
- Banho primeiro. Se não for problema.
Ele se curvou.
- Claro. Antrácia, Phiale e Deiopeia, por favor, levem Kelsey à lagoa de banho feminina.
Três silvanas adoráveis timidamente se aproximaram de mim. Duas delas pegaram minhas mãos, enquanto a terceira me guiou para fora da clareira, floresta adentro. Kishan franziu a testa, obviamente aborrecido com nossa separação, mas notei que ele foi logo levado embora também, numa direção diferente.
As mulheres eram ligeiramente menores que Fauno, cerca de 20 centímetros mais baixas que eu. Minhas acompanhantes seguiram um caminho iluminado por luzes coloridas de fadas até chegarmos a um lago redondo, alimentado por um pequeno riacho. A água caía de grandes pedras para pedras menores e depois para o lago, criando um diminuto e oculto borrifo de água. Funcionava como uma grande ducha constantemente aberta.
Elas tiraram minha mochila e desapareceram, enquanto eu despia o restante das roupas e entrava no lago. A água estava surpreendentemente quente. Uma rocha longa e submersa, conveniente demais para ser natural, estendia-se ao longo do arco dentro do lago, servindo de apoio para pisar e para sentar, quando se entrava na água.
Depois que molhei o cabelo, as três ninfas voltaram trazendo tigelas com líquidos aromáticos. Deixaram-me escolher a fragrância que mais me agradava e me entregaram uma bola de musgo que funcionava como bucha. Esfreguei minha pele com o sabonete perfumado, eliminando a sujeira, enquanto Phiale ensaboava meu cabelo com três produtos diferentes, fazendo-me enxaguá-lo a cada vez sob a pequena queda-d'água.
As luzes de fada brilhavam calorosamente. Quando saí do lago e as mulheres envolveram meu corpo e meu cabelo num tecido macio, minha pele e meu couro cabeludo estavam formigando, e eu me sentia relaxada e refrescada. An- trácia massageou minha pele com uma loção perfumada, enquanto Phiale trabalhava em meu cabelo. Deiopeia desapareceu brevemente e voltou com um belo vestido de tecido muito leve, verde-pálido, bordado com flores cintilantes.
Estendi a mão para tocar o vestido.
- É lindo! O bordado é tão benfeito que as flores parecem reais.
Ela riu.
- Elas são reais.
- Não pode ser! Como vocês as prenderam no tecido?
- Não as prendemos. Elas cresceram nele. Pedimos que fossem parte deste vestido e elas concordaram.
Antrácia perguntou:
- Não gostou?
- Eu amei! Ficarei muito feliz de usá-lo.
Todas sorriam e cantarolavam, contentes, enquanto me arrumavam. Após terminarem, trouxeram um espelho prateado encaixado numa moldura oval entalhada com flores entrelaçadas.
- O que acha, Kelsey? Satisfeita com sua aparência?
Fitei a pessoa no espelho.
- Esta sou eu?
Elas irromperam em risadinhas.
- Sim, claro. É você.
Fiquei paralisada. A mulher descalça que me olhava do espelho tinha grandes olhos castanhos de corça e pele clara e macia irradiando saúde. Uma sombra verde cintilante intensificava meu olhar e meus cílios estavam longos e escuros. Meus lábios brilhavam com gloss vermelho-maçã e minhas bochechas estavam rosadas. O vestido verde em estilo grego fazia com que eu parecesse mais curvilínea do que era. Era drapeado nos ombros, preso na cintura e caía até o chão em longas dobras. Meus cabelos estavam soltos e ondulados sobre as costas, terminando logo acima da cintura. Eu não havia me dado conta de que ele havia crescido tanto. Estava enfeitado com flores e asas de borboleta.
As asas moveram-se ligeiramente. Haveria fadas segurando meu cabelo em feixes ondulados?
- Uau! As fadas não precisam ficar no meu cabelo. Tenho certeza de que prefeririam fazer outra coisa.
Phiale balançou a cabeça.
- Absolutamente. Elas se consideram honradas em segurar os cabelos de alguém tão bonita quanto você. Elas dizem que seu cabelo é lindo e macio, e que ficar nele é como descansar numa nuvem. Sentem-se felizes quando podem servir. Por favor, deixe-as ficar.
Sorri.
- Tudo bem, mas só durante o jantar.
As três silvanas ficaram me enfeitando por mais alguns minutos e então me declararam apresentável. Começamos a caminhar de volta à aldeia. Pouco antes de chegarmos à área do banquete, Deiopeia me entregou um buquê de flores perfumado.
- Hum... Não estou me casando nem nada parecido, certo?
- Casando-se? Ora, não.
- Quer se casar? - perguntou Phiale.
Fiz um gesto com a mão.
- Não, só perguntei por causa do lindo vestido e do buquê de flores.
- Esses são os costumes de casamento em sua terra?
- São.
Deiopeia deu uma risadinha nervosa.
- Bem, se quisesse se casar, seu homem também está muito bonito.
As três moças recomeçaram com os risinhos e apontaram para a mesa do banquete, onde Kishan estava sentado, evidentemente frustrado. Elas saltitaram até a mesa antes de desaparecerem em meio ao grupo de cabelos prateados. Precisava admitir que Deiopeia tinha razão. Kishan estava mesmo muito bonito. Eles o haviam vestido com uma calça branca e uma camisa azul, feita do mesmo material que o meu vestido. Ele também tomara banho. Ri alto ao vê-lo olhar para as silvanas ao redor, pouco à vontade, sentindo-se deslocado.
Ele deve ter me ouvido, pois ergueu os olhos e observou a multidão. Seus olhos se iluminaram ao me ver, mas passaram direto, ainda procurando. Kishan não me reconheceu! Ri de novo. Dessa vez, seus olhos voltaram a mim e se detiveram. Erguendo-se devagar, caminhou em minha direção. Olhou-me de cima a baixo, com um largo sorriso no rosto, e soltou uma gargalhada.
Aborrecida, perguntei:
- Do que você está rindo?
Ele pegou minhas mãos nas dele e olhou nos meus olhos.
- De nada, Kelsey. Você é a criatura mais encantadora que já vi na vida.
- Ah. Obrigada. Mas por que você riu?
- Ri porque sou eu que tenho a sorte de vê-la assim, de estar com você neste paraíso, enquanto Ren foi perseguido por macacos e lutou contra árvores de agulhas. Obviamente, fiquei com a melhor busca.
- Sem dúvida. Pelo menos até agora. Mas proíbo você de provocá-lo com isso.
- Está brincando? Meu plano é tirar uma foto sua e contar tudo para ele nos mínimos detalhes. Aliás, fique bem aí.
Kishan desapareceu e retornou com uma câmera.
Franzi a testa.
- Kishan.
- Ren iria querer uma foto. Pode acreditar. Agora, sorria e segure suas flores.
Ele tirou várias fotos, guardou a pequena câmera no bolso e pegou minha mão.
- Você está linda, Kelsey.
Corei com o elogio, mas um sentimento de melancolia me invadiu. Pensei em Ren. Ele teria adorado este lugar. Era uma cena saída diretamente de Sonho de uma noite de verão. Ele teria sido o belo Oberon para minha Titânia.
Kishan tocou meu rosto.
- A tristeza está de volta. Isso parte meu coração, Kells. - Ele se inclinou e beijou meu rosto suavemente. - Você me daria a honra de me acompanhar no jantar, apsaras rajkumari?
Tentei me animar e sorri.
- Sim, se você me disser do que acabou de me chamar.
Seus olhos dourados cintilaram.
- Eu a chamei de "princesa", "princesa das fadas" para ser exato.
Eu ri.
- Ah, é? E você? Como se chamaria?
- Eu sou o belo príncipe consorte, naturalmente.
Ele passou meu braço pelo dele e me ajudou a me acomodar à mesa. Fauno sentou-se numa cadeira à nossa frente, ao lado de uma silvana adorável.
- Posso apresentar-lhes nossa soberana?
- Claro - eu disse.
- Kelsey e Kishan, esta é Dríope, rainha dos silvanos.
Ela assentiu delicadamente e sorriu. Em seguida anunciou:
- Está na hora do banquete! Aproveitem!
Eu não sabia por onde começar. Travessas com delicados biscoitos finos como renda e pães de mel estavam arrumadas ao lado de tortas de limão, pratos com compotas de frutas, pequenas quiches e crepes de canela. Servi-me de salada de folhas de dente-de-leão com frutas secas e molho de limão, e de uma porção de galette de cogumelo, cebola e maçã, com queijo stilton assado. Também foram trazidos pratos com torta de ameixa, pãezinhos de mirtilo e bolinhos de abóbora com
recheio de queijo cremoso, pães salgados com manteiga e geléias de frutas.
Bebemos néctar de flores adoçado com mel e refresco de melancia. Kishan me serviu uma minúscula cestinha de massa recheada com framboesas e coberta com creme de leite fresco. Todos os alimentos eram pequenos, exceto o prato final: um gigantesco bolo de morango. Uma calda vermelha pingava pelos lados da massa branca, recheada com morangos doces e creme leve. Coberto com chantili e polvilhado com açúcar, foi servido acompanhado por leite.
Quando terminamos, inclinei-me para Kishan e disse:
- Não fazia idéia de que os vegetarianos comiam tão bem.
Ele riu e se serviu de mais uma fatia de bolo.
Limpei os lábios com o guardanapo.
- Fauno, posso lhe fazer uma pergunta?
Ele assentiu.
- Encontramos as ruínas da arca. Você sabe sobre Noé e os animais?
- Ah, está falando do barco? Sim, vimos o barco parar nas colinas e todos os tipos de criatura emergiram dele. Muitas delas deixaram nosso reino e entraram no seu mundo, inclusive as pessoas que estavam a bordo. Algumas das criaturas resolveram ficar. Outras tiveram gerações de descendentes e depois voltaram para nós. Concordamos em deixar que todos ficassem se agissem de acordo com a lei da nossa terra: a de que nenhum ser vivo pode machucar outro.
- Isso é... incrível!
- É mesmo maravilhoso que tantos animais tenham voltado para nós. Aqui eles encontram paz.
- Assim como nós. Fauno... estamos procurando a pedra ônfalo ou pedra do umbigo. Você já a viu?
Todos os silvanos sacudiram a cabeça e Fauno respondeu:
- Não, acho que não conheço essa pedra.
- E uma árvore gigante, com milhares de metros de altura?
Ele refletiu um pouco e depois sacudiu a cabeça.
- Não. Se essa árvore ou essa pedra existem, encontram-se fora do nosso reino.
- Quer dizer que estão no meu mundo?
- Não necessariamente. Há outras partes deste mundo que não controlamos. Enquanto andarem por nossas terras, sob nossas árvores, vocês estarão seguros, mas, uma vez fora do abrigo de suas copas, não poderemos mais protegê-los.
- Entendo.
Afundei na cadeira, desapontada.
O rosto dele se iluminou.
- No entanto, talvez encontrem sua resposta se dormirem no Bosque dos Sonhos. É um lugar especial para nós. Se temos uma pergunta difícil que precisa de resposta ou se necessitamos de orientação, dormimos lá, onde podemos descobrir a resposta ou sonhar com o futuro e perceber que a pergunta não era tão importante afinal.
- Poderíamos experimentar?
- Claro! Levaremos vocês.
Um grupo de silvanas agitadas começou a tagarelar na outra ponta da mesa.
- Que oportuno vocês terem vindo agora! Uma das árvores está se partindo! - explicou Fauno. - Venham ver, Kelsey e Kishan! Venham ver o nascimento de uma ninfa das árvores!
Kishan segurou minha mão enquanto Fauno nos guiava por trás de um dos chalés. A aldeia inteira aguardava, murmurando baixinho, ao pé da árvore.
Fauno sussurrou:
- Estas árvores estavam aqui antes da chegada de Noé e de seu barco de animais. Elas deram à luz muitas gerações de silvanos. Cada chalé que vocês estão vendo encontra-se na frente de uma árvore de família. Isso significa que todos que vivem no chalé nasceram da árvore-mãe atrás dele. Está chegando a hora. Olhem. Reparem como as outras árvores lhe oferecem apoio.
Ergui os olhos para o caramanchão frondoso e a impressão realmente era de que os galhos apertavam os dedos folhosos da árvore que fazia força. Ela emitia sons de madeira vergando e estalando, enquanto suas folhas tremiam acima de nós.
As ninfas das árvores pareciam concentradas numa grande saliência nodosa, próxima de um galho baixo. A árvore estremeceu quando o longo galho se agitou. Após momentos intensos escutando os profundos roncos da árvore e observando o tronco se expandir e contrair tão devagar que eu não teria notado se não estivesse prestando atenção, o galho de baixo se quebrou, separando-se do enorme tronco com um estalo terrível.
O silêncio caiu sobre os presentes. O galho ficara pendurado, tocando o solo perto de nós, preso apenas pela casca da árvore. Encaixada no espaço onde a base do galho se unia ao tronco estava uma pequena cabeça prateada.
Um grupo de silvanas se aproximou e começou a falar carinhosamente com o pequeno ser descansando na árvore. Com todo o cuidado, elas o levantaram e o envolveram numa manta. Um membro do grupo ergueu o pequeno bebê silvano no ar e anunciou:
- É um menino!
Elas desapareceram dentro do chalé enquanto todos comemoravam. Outro grupo de silvanos removeu cuidadosamente da árvore o galho trêmulo e espalhou uma pomada sobre a marca oval no tronco onde o galho estivera.
Os silvanos começaram a dançar em torno da árvore e fadinhas voaram até seu topo e iluminaram todos os galhos com suas asas. Quando a celebração terminou, já era tarde.
Enquanto Fauno nos acompanhava até o Bosque dos Sonhos, eu lhe perguntei:
- Agora sabemos de onde vêm os silvanos, mas, e as fadas? Nascem das árvores também?
Ele riu.
- Não. As fadas nascem das rosas. Quando a flor envelhece e cai, nós a deixamos no solo para produzir sementes. Um broto cresce e, quando chega a hora, uma fada nasce com asas da cor da rosa.
- Vocês são imortais?
- Não, mas vivemos muito. Quando um silvano morre, seu corpo é depositado nas raízes da árvore-mãe e suas lembranças se tornam parte das futuras gerações. As fadas só morrem se sua roseira morre, então podem viver por muito tempo, mas ficam acordadas apenas à noite. Durante o dia, encontram uma flor para descansar e seu corpo se transforma em orvalho da manhã. À noite, elas se transformam em fadas novamente. Ah, chegamos. Este é o Bosque dos Sonhos.
Ele nos levara a uma área isolada. Parecia uma suíte de lua de mel de fadas. Árvores altas sustentavam uma cama de folhas que pendia de trepadeiras. Cestas de flores perfumadas achavam-se suspensas em cada canto do bosque. Travesseiros e roupa de cama de tecido fino eram bordados com trepadeiras espiraladas e folhas. Um grupo de fadas que havia nos seguido assumiu seus postos nas lanternas.
- As quatro árvores grandes que sustentam o caramanchão marcam cada qual uma direção: norte, sul, leste e oeste. Os melhores sonhos acontecem quando a cabeça aponta para o oeste e você acorda com o sol no leste. Boa sorte para vocês e bons sonhos.
Fauno sorriu e foi embora, levando duas fadas com ele.
Eu ainda estava de pé, constrangida.
- É... isso é um pouco embaraçoso.
Kishan fitava a cama como se ela fosse um inimigo mortal. Virou-se para mim e curvou-se galantemente.
- Não se preocupe, Kelsey. Vou dormir no chão.
- Mas... e se o sonho couber a você?
- Você acha que faz diferença eu estar ou não na cama?
- Não faço idéia, porém, em todo caso, acho melhor deitarmos juntos.
Ele ficou tenso.
- Tudo bem. Mas vamos dormir um de costas para o outro.
- Combinado.
Subi primeiro e afundei na cama e nos travesseiros de penas macias. A cama balançava para a frente e para trás, como uma rede. Kishan resmungou ao pôr de lado a mochila. Entendi apenas fragmentos de frases. Algo sobre princesas das fadas, como ela espera que eu durma, é melhor que Ren agradeça, etc., etc. Abafei o riso e me virei de lado. Ele puxou a coberta de tecido fino sobre mim e então senti a cama oscilar quando ele se deitou ao meu lado.
Quando uma brisa agitou de leve meu cabelo, ouvi Kishan dizer:
- Mantenha o cabelo do seu lado, Kells. Faz cócegas.
Eu ri.
- Desculpe.
Puxei o cabelo por sobre o ombro. Ele resmungou um pouco mais, algo sobre mais do que um homem pode agüentar, e se mexeu em silêncio. Peguei no sono logo e tive sonhos nítidos com Ren.
Num deles, ele não me conhecia e se afastava de mim. Em outro, estava rindo e feliz. Estávamos juntos de novo e ele me abraçava e dizia baixinho que me amava. Sonhei com uma longa corda em chamas e um colar de pérolas negras. Em outro sonho, eu estava debaixo dagua, nadando ao lado de Ren, e estávamos cercados por cardumes de peixes coloridos.
Apesar de os sonhos serem muito claros, não havia pista da pedra ônfalo. Acordei decepcionada e descobri que estava dormindo cara a cara com Kishan. Seu braço estava em volta de mim e sua cabeça pesava sobre o meu cabelo, prendendo-me à cama.
Eu o sacudi.
- Kishan! Kishan! Acorde!
Ele me puxou para mais perto sem abrir os olhos.
- Shh, volte a dormir. Ainda não amanheceu.
- Já é de manhã, sim. - Empurrei-o na altura das costelas. - Hora de acordar. Vamos!
- Está bem, querida, mas que tal um beijo antes? Um homem precisa de motivação para sair da cama.
- Esse tipo de motivação mantém um homem na cama. Não vou beijar você. Agora, levante-se.
Ele acordou com um sobressalto. Confuso, resmungou e esfregou os olhos.
- Kelsey?
- Sim, Kelsey. Com quem andou sonhando? Durga?
Ele parou e piscou algumas vezes.
- Isso não é da sua conta. Mas, para sua informação, sonhei com a pedra ônfalo.
- Sonhou? E onde ela está?
- Não sei descrever. Vou ter que mostrar a você.
- Tudo bem.
Pulei da cama e ajeitei o vestido.
Kishan me observava e comentou:
- Você está mais bonita agora do que na noite passada.
Achei graça.
- Ah, com certeza. Eu me pergunto por que você sonhou com a pedra ônfalo e eu não.
- Talvez porque você tenha ido para a cama ontem com perguntas diferentes na cabeça.
Abri a boca mas não falei nada. Ele estava certo. Eu não pensara na pedra antes de dormir. Meus pensamentos estavam todos concentrados em Ren.
Ele me olhava, curioso.
- E com que você sonhou, Kells?
- Também não é da sua conta.
Ele estreitou os olhos e franziu a testa.
- Esqueça. Acho que posso imaginar sozinho.
Kishan seguiu à frente na caminhada de volta ao povoado dos silvanos. A uma curta distância, ele parou e correu de volta para o Bosque dos Sonhos.
- Já volto. Esqueci uma coisa - gritou por sobre o ombro.
Quando voltou, Kishan estava com um sorriso de orelha a orelha, mas, por mais que eu tentasse, não consegui que me contasse o que o deixara tão feliz.
Coisas ruins
ornamos o café da manhã com os silvanos outra vez e recebemos roupas novas de presente. Ganhamos camisas leves, calças cáqui com um brilho sutil e botas forradas. Perguntei se eram de couro e as pacíficas criaturas não sabiam do que eu estava falando. Quando expliquei, pareceram chocadas e disseram que nenhum animal jamais havia sido ferido ali em sua terra. Disseram que as fadas teciam todas as suas roupas e que não havia na Terra nenhum material tão fino, macio e bonito.
Concordei. Elas também acrescentaram que, se você estiver viajando pela terra dos silvanos e pendurar roupas feitas por fadas no galho de uma árvore à noite, as fadas limparão e consertarão as roupas enquanto a pessoa dorme. Agradecemos os presentes e desfrutamos a refeição. Em seguida Fauno apareceu carregando um recém-nascido.
- Antes de irem, gostaríamos de lhe pedir um favor - disse ele. A família do novo bebê quer saber se você poderia escolher um nome para seu filho.
- Tem certeza? - perguntei, confusa. - E se eu der um nome de que eles não gostem?
- Eles ficarão honrados com qualquer nome que der à criança.
Antes que eu pudesse dizer mais uma palavra de protesto, ele colocou o minúsculo bebê em meus braços. Um pequeno par de olhos verdes me fitou do meio da manta macia. Ele era lindo. Eu o ninei e instintivamente comecei a falar de forma amorosa com ele. Estendi um dedo para tocar de leve seu nariz e a penugem macia e prateada em sua cabeça. O bebê, muito mais ativo do que um recém-nascido humano, estendeu a mão para agarrar um cacho do meü cabelo e o puxou.
Kishan delicadamente tirou meu cabelo do alcance da criança. Em seguida jogou o restante do cabelo sobre meu ombro. Então tocou a mão do bebê, que agarrou seu dedo.
- Ele tem força na mão - disse Kishan, rindo.
- Tem, sim. - Olhei para Kishan. - Gostaria de chamá-lo de Tarak, em homenagem a seu avô, se você não se importar.
Os olhos dourados de Kishan cintilaram.
- Acho que ele iria gostar de ter um xará.
Quando disse a Fauno que gostaria de chamar o bebê de Tarak, os silvanos deram vivas. Tarak bocejou, sonolento, indiferente a seu nome e começou a chupar o dedo.
Kishan passou o braço pelos meus ombros e sussurrou:
- Você vai ser uma boa mãe, Kelsey.
- Neste momento estou mais para tia. Aqui. Sua vez.
Kishan acomodou a criaturinha na curva de seu braço e falou baixinho com ela em sua língua nativa. Fui trocar de roupa e trançar o cabelo. Quando voltei, ele embalava o bebê adormecido nos braços e olhava, pensativo, para seu rosto diminuto.
- Pronto para ir?
Ele me olhou com uma expressão terna.
- Claro. Vou trocar de roupa também.
Ele passou o bebê para a família. Antes de sair, roçou um dedo no meu rosto e me dirigiu um sorriso. Seu toque era hesitante e doce. Quando voltou, nos despedimos e pegamos nossa mochila, que agora continha meu vestido de fada, vários pães de mel e um frasco de néctar de flores. Então nos pusemos a andar, seguindo para leste.
Kishan parecia saber o caminho, portanto ia na frente. Com freqüência eu o pegava me olhando com um estranho sorriso no rosto. Depois de cerca de uma hora de caminhada, perguntei:
- O que deu em você? Está agindo diferente.
- Estou?
- Sim. Poderia dizer por quê?
Ele hesitou por um longo momento e então suspirou.
- Um dos meus sonhos foi com você. Você estava recostada numa cama, cansada, mas feliz e linda. Tinha um menino recém-nascido de cabelos escuros nos braços. Você o chamou de Anik. Era seu filho.
- Ah. - Isso explica por que ele estava agindo diferente comigo. - Havia... mais alguém lá comigo?
- Havia, mas eu não conseguia ver quem.
- Sei.
- Ele parecia conosco, Kelsey. Quero dizer... ou ele era de Ren ou... era meu.
O quê? Ele está dizendo o que acho que está dizendo? Imaginei um doce bebezinho com os olhos azuis de Ren; num lampejo, os olhos mudaram de cor e se tornaram tão dourados quanto o deserto do Arizona. Mordi o lábio, nervosa. Isso não é bom. Será que Ren não vai sobreviver? Será que, de alguma forma, vou ficar com Kishan? Eu sabia que Kishan gostava de mim, mas não conseguia imaginar um futuro no qual eu o escolhesse e não a Ren. Talvez não me fosse dada a opção. Preciso saber!
- E você... hã... viu os olhos do bebê?
Ele fez uma pausa e olhou atentamente o meu rosto antes de dizer:
- Não. Os olhos dele estavam fechados. Ele estava dormindo.
- Ah.
Recomecei a caminhar. Ele me deteve e tocou meu braço.
- Uma vez você me perguntou se eu queria ter um lar e uma família. Eu não pensava que fosse querer isso sem Yesubai, mas, vendo você daquele jeito no meu sonho, com aquele bebezinho... sim. Eu quero. Quero aquele bebê. Quero... você. Eu o vi e me senti... possessivo e orgulhoso. Quero a vida que vi em meu sonho mais do que tudo, Kells. Achei que você deveria saber disso.
Concordei, calada, e me senti pouco à vontade enquanto ele me observava.
- Quer me contar o que você sonhou? - perguntou.
Sacudi a cabeça e brinquei com a bainha da minha camisa de fada.
- Não. Não mesmo.
Ele resmungou e seguiu adiante.
Um bebê? Eu sempre quis ser mãe e ter uma família, mas nunca imaginei que teria dois homens - irmãos, ainda por cima - disputando
minha atenção. Se Ren, por algum motivo, não sobreviver... não. Vou parar com essa linha de raciocínio agora mesmo. Ele vai sobreviver! Farei tudo o que puder para encontrar Lokesh. Se isso representa perigo para mim, que seja.
Caminhamos a tarde toda, fazendo pausas para descansar ao longo do percurso. Eu estava abalada com a confissão de Kishan. Não queria ter que lidar com isso, não queria magoá-lo. Havia tantas questões não resolvidas. As palavras se formavam em minha mente, no entanto eu não parecia encontrar coragem para tocar no assunto.
Meu coração gritava que queria Ren, porém minha mente me lembrava de que nem sempre conseguimos o que queremos. Eu queria meus pais de volta também, e isso era impossível. Meus pensamentos borbulhavam como água fervente, mas explodiam no vazio vaporoso quando chegavam à superfície.
Não falamos muito durante o trajeto, exceto para dizer "Cuidado com aquele tronco" ou "Não pise na poça". Estar com Kishan agora era diferente, constrangedor. Ele parecia esperar alguma coisa de mim, algo que era mais do que eu podia dar a ele.
Ele nos conduziu a uma série de morros e seguiu para uma pequena caverna na base de um deles. Quando chegamos, espiei sua profundidade sombria.
- Ótimo. Outra caverna. Não gosto de cavernas. Até agora minhas experiências com elas não foram nada boas.
- Vai ficar tudo bem - replicou ele. - Confie em mim, Kells.
- Como quiser. Por favor, você primeiro.
Ouvi um zumbido que foi aumentando à medida que penetrávamos mais na caverna. Estava escuro ali. Peguei minha lanterna e corri o facho de luz pelo lugar. Pilares estreitos de luminosidade rompiam o solo acima em vários lugares, iluminando as rochas e o chão. Alguma coisa roçou meu rosto. Abelhas! A caverna estava cheia de abelhas. Das paredes pendiam favos de mel. Era como se tivéssemos entrado numa colmeia gigante. No meio da caverna, num pedestal, encontrava-se um
objeto de pedra com um buraco no topo que não era muito diferente de uma colméia.
- A pedra ônfalo!
Uma abelha desceu pela gola da minha camisa e me picou.
-Ai!
Esmaguei o inseto com a mão.
- Shh, Kells. Fique quieta. Elas vão nos incomodar menos se nos movermos devagar e em silêncio e fizermos logo o que viemos fazer.
- Vou tentar.
As abelhas enxameavam, zangadas, à nossa volta. Precisei lançar mão de toda a minha determinação para não afastá-las violentamente de mim. Várias pousaram em minhas roupas, mas parecia que os ferrões não conseguiam penetrar o tecido das fadas. Senti uma picada no pulso e encolhi as mãos dentro das mangas compridas, mantendo as aberturas fechadas. Aproximei-me da pedra e olhei lá dentro.
- O que eu faço? - perguntei.
- Tente usar seu poder.
Kishan havia sido picado várias vezes no rosto; na verdade, seu supercílio já estava inchando. Libertei minhas mãos das mangas e estremeci quando uma abelha aproveitou a oportunidade para subir pelo meu braço. Coloquei as mãos nas laterais da pedra e instei o calor a subir de minha barriga. Uma ardência disparou pelos meus braços até chegar à pedra.
A pedra se tornou amarela, depois laranja e, em seguida, vermelho vivo. Ouvi um som sibilante vindo de seu interior e senti o cheiro de fumaça. Quando um gás opaco começou a encher a caverna, as abelhas foram se tornando lentas e, por fim, tombaram no chão da caverna como jujubas gordas e dormiram.
- Acho que talvez você tenha que aspirar os vapores, Kells, feito aqueles oráculos de que o Sr. Kadam falou.
- Certo. Vamos lá.
Inclinando-me sobre a pedra, inspirei fundo. Vi estrelas cadentes e cores. A imagem de Kishan tornou-se distorcida, com seu corpo
retorcido e alongado. Então fui sugada por uma poderosa visão. Quando acordei, estávamos novamente na selva e Kishan aplicava em minhas picadas uma substância pegajosa e verde. Dizer que ela exalava um cheiro forte seria um eufemismo. O fedor permeava meu cabelo, minhas roupas e tudo à nossa volta.
- Argh! Que coisa nojenta! O que é isso?
Ele estendeu um frasco em minha direção.
- Os silvanos nos deram isso quando eu lhes disse que encontraríamos muitas abelhas. Eles nunca ouviram falar de abelhas que picam, mas usam este unguento nas árvores para reparar o dano quando um galho é quebrado pelo vento. Acreditaram que ajudaria.
- Quando você contou a eles que iríamos a uma caverna de abelhas?
- Quando você estava trocando de roupa. Eles explicaram que essa caverna ficava fora de seus domínios.
- O cheiro é horrível.
- Mas qual é a sensação?
- É... boa. Calmante e refrescante.
- Então imagino que você possa tolerar o cheiro.
- Acho que sim.
- Você conseguiu? Viu a árvore?
- Sim. Vi a árvore e as quatro casas e algo mais também.
- O que mais?
- Como você disse antes, tem uma serpente no jardim. Para ser específica, é uma serpente muito grande enrolada na base da árvore, impedindo que se tenha acesso a ela.
- É um demônio?
Refleti.
- Não. É só uma serpente excepcionalmente grande com um dever a cumprir. Eu sei como chegar lá. Siga-me e no caminho decidiremos o que fazer.
- Está bem. Antes, porém... você se importa?
Ele estendeu o unguento e comecei a espalhar a substância em seu pescoço. Ele tirou a camisa para que eu tivesse acesso às picadas
vermelhas e inchadas na parte superior de seu tórax e nas costas. Eu rapidamente me coloquei atrás dele para esconder o rubor em meu rosto. Embora tentasse não me demorar na tarefa, não pude deixar de notar que sua pele cor de bronze era macia e quente.
Quando dei a volta, ele jogou o cabelo para trás, afastando-o do rosto para que eu pudesse espalhar a substância viscosa e verde em suas bochechas e na testa. Havia uma picada grande perto do lábio superior. Toquei-a de leve.
-Dói?
Meu olhar subiu de seus lábios para os olhos. Ele me olhava de um jeito que me fez corar.
- Sim - disse ele baixinho.
Era óbvio que não estava se referindo à picada, então eu não disse nada. Podia sentir o calor de seu olhar no meu rosto enquanto eu terminava rapidamente com seu lábio e queixo. Afastei-me dele o mais rápido possível e recoloquei a tampa no frasco, mantendo-me de costas enquanto ele vestia a camisa. Comecei a caminhar e ele me alcançou, acompanhando meu ritmo.
Andamos por mais uma ou duas horas e montamos acampamento quando o sol se punha. Naquela noite Kishan quis ouvir outra história, então lhe contei uma das aventuras de Gilgamesh.
- Gilgamesh era um homem muito inteligente. Tão inteligente que encontrou uma forma de entrar furtivamente no reino dos deuses. Vestiu um disfarce e fingiu que estava incumbido de uma tarefa de grande importância. Por meio de perguntas astutas, ele descobriu o esconderijo da planta da eternidade.
- O que é a planta da eternidade?
- Não tenho certeza. Talvez fossem folhas de chá ou alguma coisa que se colocava na salada ou na comida. Ou talvez uma erva ou até mesmo uma droga, como o ópio, mas a questão é que ele a roubou. Quatro dias e quatro noites ele correu sem parar nem para descansar a fim de escapar da ira dos deuses. Quando descobriram que a planta havia sido roubada, ficaram furiosos e anunciaram que haveria uma recompensa
para quem conseguisse deter Gilgamesh. Na quinta noite, Gilgamesh estava tão cansado que teve que se deitar para descansar, mesmo que apenas por alguns instantes.
Tomei fôlego e continuei:
- Enquanto ele dormia, uma cobra em sua caçada noturna passou por ele e encontrou a planta fragrante, que Gilgamesh havia colocado numa pequena bolsa de pelo de coelho. Pensando ter conseguido facilmente um coelho como jantar, a cobra engoliu a bolsa inteira. Na manhã seguinte, tudo o que Gilgamesh encontrou foi a pele da cobra. Essa foi a primeira vez que uma cobra trocou de pele. A partir daí, as pessoas dizem que as cobras têm uma natureza eterna. Quando troca de pele, ela morre e nasce de novo.
Fiz uma pausa. Kishan estava calado.
- Ficou acordado desta vez? - perguntei.
- Fiquei. Gostei dessa história. Durma bem, bilauta.
- Você também.
Mas fiquei acordada por muito tempo. A imagem de um bebê de olhos dourados me tirou o sono.
Levamos dois dias para encontrar o que eu estava procurando. Eu sabia que a árvore ficava num vale amplo e que, se subíssemos entre dois picos, nós a veríamos. Chegamos à base dos picos no primeiro dia e passamos quase todo o segundo dia escalando. Num mirante, finalmente olhamos para baixo.
Estávamos num ponto tão elevado que as nuvens obscureciam a visão. O vento rompeu o manto das nuvens e o vale pareceu ser uma floresta escura. As árvores eram tão altas que chegavam à altura da montanha. Em minha visão da pedra ônfalo, eu tinha visto apenas uma árvore com um tronco enorme.
Apesar de as coisas parecerem diferentes em minha visão, descemos para o vale. A medida que prosseguíamos, fiquei chocada ao perceber que o que eu estava vendo não era uma floresta com muitas árvores - e sim os galhos de uma árvore gigantesca, uma árvore cujos galhos se estendiam a uma altura maior que a montanha. Quando comentei isso
com Kishan, ele me lembrou da pesquisa do Sr. Kadam. Peguei os papéis na mochila e li enquanto andávamos.
- Ele diz aqui que é uma árvore do mundo gigante com raízes que descem ao submundo e folhas que tocam o céu. Supõe-se que tenha mais de 300 metros de largura e centenas de metros de altura. Acho que é esta mesmo.
- Parece que sim - respondeu Kishan, simplesmente.
Quando por fim pisamos no solo gramado do vale, seguimos um galho gigantesco até o tronco. Como o sol não conseguia penetrar a copa densa acima, ali embaixo era escuro, frio e sossegado.
O vento soprava através das folhas imensas, que batiam nos galhos como roupas no varal. Ruídos estranhos e apavorantes assaltavam nossos ouvidos. Rangendo e gemendo, o vento encontrava maneiras de soprar acima e através dos poderosos galhos, fazendo parecer que estávamos andando em meio a uma floresta assombrada.
Kishan se aproximou de mim para segurar minha mão. Aceitei seu gesto, grata, e tentei ignorar a sensação de estar sendo vigiada. Kishan sentia o mesmo e disse que era como se estranhas criaturas estivessem nos estudando de cima. Tentei achar graça.
- Imagine o tamanho das ninfas que nasceriam desta árvore.
Minha intenção fora fazer piada, mas a possibilidade de que isso pudesse ser verdade fez com que nós dois olhássemos para cima, desconfiados.
Horas mais tarde, finalmente alcançamos o tronco. Ele se estendia como um enorme muro de madeira para além do nosso campo de visão. O galho mais próximo estava a dezenas de metros de altura. Era alto demais para que o alcançássemos e não tínhamos nenhum equipamento de escalada.
- Sugiro que acampemos aqui na base e comecemos a contorná-la de manhã bem cedo - disse Kishan. - Talvez possamos encontrar um galho mais baixo ou uma forma de escalá-la.
- Parece bom para mim. Estou exausta.
Ouvi um barulho de asas e fiquei surpresa ao ver um corvo negro pousar no chão perto de nosso acampamento. Ele grasnou para nós e bateu as asas ruidosamente ao levantar voo. Não pude deixar de pensar que esse podia ser um mau agouro, mas preferi não expressar minhas preocupações a Kishan.
Quando ele pediu uma história naquela noite, contei uma que havia lido num livro que o Sr. Kadam me dera.
- Odin é um dos deuses do povo nórdico. Ele tem dois corvos chamados Hugin e Munin. Corvos são ladrões notórios e esses dois corvos de estimação eram enviados pelo mundo todo para roubar para Odin.
- O que eles pegavam?
- Ah, esse é o aspecto interessante. Hugin roubava pensamentos e Munin, lembranças. Odin os mandava sair cedo pela manhã e eles retornavam à noite. Empoleiravam-se nos ombros dele e sussurravam em seus ouvidos os pensamentos e as lembranças que haviam roubado. Dessa maneira, ele sabia tudo o que acontecia e as idéias e intenções de todos.
- Seria conveniente tê-los numa batalha. Você saberia que movimentos o inimigo planeja.
- Exatamente. E era o que Odin fazia. Mas um dia Munin foi apanhado por um traidor. Quando Hugin voltou para sussurrar pensamentos na mente de Odin, este imediatamente os esqueceu. Naquela noite, um inimigo entrou furtivamente no palácio e derrotou Odin. Depois disso, as pessoas deixaram de acreditar nos deuses. Hugin fugiu e ambos os pássaros desapareceram. A lenda dos corvos de Odin é uma das razões por que se acredita que ver um corvo é mau agouro.
- Kells, você tem medo de que o corvo roube suas lembranças? - perguntou Kishan.
- Minhas lembranças são o que possuo de mais precioso agora. Eu faria qualquer coisa para protegê-las, mas não, não tenho medo do corvo.
- Durante muito tempo eu teria dado qualquer coisa para ter minhas lembranças apagadas. Pensava que, se pudesse esquecer o que aconteceu, talvez eu fosse capaz de dar continuidade à minha vida.
- Mas você não ia querer esquecer Yesubai, assim como eu não quero esquecer Ren nem os meus pais. É triste lembrar, mas faz parte de quem somos.
- Humm. Boa noite, Kelsey.
- Boa noite, Kishan.
Na manhã seguinte, quando arrumávamos as coisas para começar o dia, percebi que a pulseira que Ren me dera havia desaparecido. Kishan e eu procuramos por toda parte, mas não conseguimos encontrá-la.
- Kells, a câmera também sumiu, assim como todos os pães de mel.
- Ah, não! O que mais?
Ele olhou diretamente para o meu pescoço.
- O quê? O que foi?
- O amuleto sumiu.
- O que aconteceu? Como podemos ter sido roubados no meio do nada? Como não senti alguém tirando coisas do meu corpo enquanto eu dormia? - gritei, descontrolada.
- Desconfio de que tenha sido o corvo.
- Mas isso não é real! É só um mito!
- Você mesma disse que os mitos com freqüência se baseiam em fatos reais. Talvez o corvo os tenha levado. Eu teria acordado se tivesse sido uma pessoa. Um pássaro eu ignoro enquanto durmo.
- O que vamos fazer agora?
- A única coisa que podemos fazer. Prosseguir. Ainda temos nossas armas e o Fruto Dourado.
- Sim, mas o amuleto!
- Vai ficar tudo bem, Kells. Tenha um pouco de fé, lembra? Como disse o Mestre do Oceano.
- Para você é fácil falar. Não teve sua única fotografia de Yesubai tirada de você.
Ele me olhou em silêncio por um momento.
- A única fotografia que já tive de Yesubai é a que tenho na mente.
- Eu sei, mas...
Ele colocou o dedo sob meu queixo e ergueu meu rosto.
- Você tem uma chance de ter o homem de volta. Não se preocupe tanto com a fotografia.
- Tem toda a razão. Vamos em frente, então.
Escolhemos seguir pela esquerda do tronco e começamos a caminhar. O tronco era tão colossal que eu mal podia ver sua curva na distância.
- O que vai acontecer quando encontrarmos a serpente, Kells?
- Não é uma serpente perigosa. Ela simplesmente guarda a árvore. Pelo menos foi assim que pareceu pela pedra ônfalo. Se a serpente sentir que temos uma razão legítima para passar, ela vai nos liberar. Se não, vai tentar nos deter.
Uma ou duas horas depois, eu corria o dedo ao longo da casca do tronco quando ele se moveu.
- Kishan! Você viu isso?
Ele tocou o tronco.
- Não estou vendo nada.
- Ponha sua mão sobre ele. Sinta bem... aqui. Está vendo? A textura muda. Aí! Outra mudança! Ponha sua mão sobre a minha. Consegue sentir agora?
- Sim.
Uma seção do tronco de pouco menos de dois metros começou a se mover. Outro segmento acima dele se moveu na direção contrária. Os padrões pareciam familiares, mas eu não conseguia identificá-los. Era confuso, assim como ver a árvore gigante e tomá-la por uma floresta inteira. O vento redemoinhava à nossa volta, como se impelido por um imenso fole. Uma forte sucção de ar, seguida por um vento forte, agitou a grama curta e fez o pelo dos meus braços arrepiar.
Kishan olhou para cima e se imobilizou.
- Não se mexa, Kelsey.
O ar começou a se mover de forma mais intensa, como se o fole estivesse sendo soprado mais depressa.
- O que foi, Kishan? - murmurei.
Um ruído farfalhante soou atrás de mim. Parecia que alguém arrastava uma sacola pesada sobre um monte de folhas. Ramos partiam, folhas estremeciam e galhos gemiam. Ouvi uma voz profunda e sibilante.
- O que vocccêsss essstão fazendo na minha floresssta?
Virei-me lentamente e dei de cara com um gigantesco olho que não piscava.
- Você é a guardiã da árvore do mundo?
- Sssssim. Por que vocccêsss essstão aqui?
Fui subindo, subindo e subindo o olhar. Agora eu sabia o que tinha visto antes. A serpente gigante estava enroscada na árvore e os segmentos de quase dois metros no tronco eram seu corpo, que estava perfeitamente camuflado. Na verdade, enquanto eu observava, seu corpo mudou de cor para combinar com o ambiente, como um camaleão. Sua cabeça era tão grande quanto o Hummer de Ren e não havia como saber qual era a extensão de seu corpo. Kishan deu um passo à frente, parando ao meu lado e segurando minha mão. Percebi que ele segurava o chakram com a outra mão.
- Estamos aqui para reivindicar o prêmio aéreo que descansa no topo da árvore - declarei.
- Por que eu deveria deixá-lossss passssssar? Para que preccccisam do Lenççççço Divino?
- O prêmio aéreo é um lenço?
- Ssssssssim.
- Bem, precisamos dele porque irá ajudar a quebrar a maldição lançada sobre dois príncipes da índia e a salvar o povo de seu país.
- Quem sssão essssssesssss príncccccipesssss?
- Este é Kishan. Seu irmão, Ren, foi seqüestrado.
A serpente gigante lançou várias vezes a língua na direção de Kishan, que resistiu à inspeção bravamente. Eu teria saído correndo.
- Eu não conheçççço essssses irmãosssss. Voccccêssss não podem passssssssar.
A imensa cabeça começou a se virar enquanto o pesado corpo deslizava pelo chão. Senti um movimento semelhante em meu braço e gritei:
- Espere!
A serpente voltou-se para mim e baixou a cabeça para me ver melhor. Fanindra esticou suas dobras e deslizou pela minha nuca. Então ergueu a cabeça na direção do olho gigantesco e projetou a língua várias vezes para fora.
- Quem é esssssa?
- O nome dela é Fanindra. Pertence à deusa Durga.
- Durga. Ouvi falar dessssssa deusa. Essssssa ssssserpente é dela?
- E. Fanindra está aqui para nos ajudar em nossa busca. A deusa Durga nos enviou e nos forneceu armas.
- Essssstou vendo.
A guardiã examinou Fanindra por um longo momento, como se ponderasse nosso destino. As duas serpentes pareciam estar se comunicando silenciosamente entre si.
- Voccccêsss podem passssssar. Presssssinto que não esssstão mal-intencccccionadossssss. Talvezzzzz vocêsssss tenham ssssssuccccccessssssso. Talvezzzzzz ssssseja o ssssseu desssstino. Quem sssssabe? Vocccccêssssss irão passssssar por quatro casassssss. A casa dossssss pássssarosssss. A casa dasssss cabaççççassssssss. A casa dasssss ssssssereiasssssss. E a casa dosssss morcccccegossssss. Tenham cuidado. Para prosssssseguir, voccccccêssssss precccccisam fazer asssss melhoressss esssssscolhasssss.
Kishan e eu fizemos uma mesura.
- Obrigada, Guardiã.
- Boa sssssorte para voccccêsssss.
A imensa serpente balançou o corpo pesado e a árvore enorme roncou. A parte de seu corpo que estava enroscada no tronco se moveu, separando-se e revelando uma passagem secreta e uma escada oculta. Fanindra se enroscou na parte superior do meu braço e voltou a seu estado dormente.
Kishan me puxou para a passagem. Tive tempo suficiente para reconhecer que o chão estava coberto por serragem, quando a cobra
deslizou. Seu corpo tornou a fechar a passagem, selando-nos na raiz negra da gigantesca árvore do mundo.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
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