Com Kishan segurando minha mão,
começamos escolhendo o caminho cuidadosamente através da terra
com cicatrizes alienígenas. As armas de Durga a postos. Levamos
todos os dons da deusa, e era bom ter o arco e a flecha contra
minhas costas novamente, especialmente com os pensamentos
sombrios espontâneos provocativos na borda da minha mente. Eu
imaginava feras selvagens e eriçadas, criaturas com dentes afiados à
espreita nas sombras das árvores de mangue com despojados
membros verdes mutilados, leprosos e verdes que rasgavam nossas
roupas; suas garras cheias de raízes tornaram nosso progresso difícil.
Nossos pés afundavam nas cinzas como se fosse neve de
carbono e o ar parecia pesado, quente e ameaçador. Nervosa eu
murmurei enquanto nos movíamos pela paisagem assustadora.
“Eu... eu... eu já contei sobre Monte Vesúvio?”
Kishan balançou a cabeça, mas se manteve olhando para
frente.
“É um estrato vulcão* como esse. Ele destruiu duas cidades. A
maior parte das pessoas morreu instantaneamente, mas algumas
foram lentamente sufocadas sob as camadas de cinzas. Eles encontraram os esqueletos intactos. Um deles era de uma mulher grávida que estava deitada em sua cama, o esqueleto do feto ainda estava dentro dela. Ela estava cercada por outros que eram provavelmente membros de sua família olhando para ela.” *Um estrato vulcão é um vulcão em forma de cone, formado pelo magma extravasado. Quando nasce um vulcão ele não tem esse formato, com suas erupções ele ganha formato. Kishan grunhiu e continuou se movendo. Ren colocou sua mão em torno do meu braço, aperto um pouco, e disse. “Vamos ficar bem Kells.” “Eu sinto como se a cinza estivesse me sufocando. É difícil respirar.” “Se ajudar, temos a Echarpe para fazer uma máscara para você. Tente não pensar sobre isso. Se foque nos bíceps superdesenvolvidos de Kishan ao invés das cinzas incapacitando seus pés e de profundas respirações.” Bufei nervosamente. Kishan parou abruptamente, ele franziu a testa para Ren e então me disse: “Vamos mais devagar se você está se sentindo cansada.” “Não estou cansada. Estou apenas… O que é isso?” Exclamei e apontei para as folhas farfalhantes. Kishan se virou e, com um movimento hábil jogou o chakram nas árvores raquíticas. Escutamos um berro aterrorizado enquanto vários animais desajeitados saíram da área, o som de suas patas amortecido pelas cinzas. Eles se afastaram das árvores, pulando pelos lados perigosos da caldeira e desaparecendo ao longo do topo. “Cabras? Como cabras chegaram aqui?” Eu perguntei. Ren respondeu, “Li que animais de gados eram frequentemente deixados em ilhas menores no caso de algum navio encalhar e alguns marinheiros precisarem de algo para comer. Podemos ver também morcegos e pequenos roedores.” “Morcegos, cabras e ratos, puxa.” Se isso era tudo que iriamos encontrar, eu iria me considerar sortuda. Continuamos a subir a lateral do vulcão. Escorreguei muitas vezes em terra fofa, cascalho e cinzas.Tive que usar minhas mãos para buscar por apoio à medida que a inclinação se tornou mais íngreme.
As cinzas estavam mornas, até mesmo quentes algumas vezes. Agarrar raízes de árvores não ajudou muito, conforme as raízes me davam suporte elas se partiam em pedaços. Kishan demolia o caminho e muitas vezes estendeu a mão para me ajudar. Ren tomou à traseira e me pegou duas vezes quando eu escorreguei no chão macio. No topo a vista era incrível. Parecia que estávamos de pé na parte quebrada de uma grande tigela. A parede da caldeira em ambos os lados era de mil metros acima da superfície do oceano. Uma leve brisa soprava, fazendo cócegas em meu nariz com o cheiro do mar misturado com o cheiro de fumaça da madeira remanescente das árvores que cobriam as encostas rochosas, eu podia ver os pedaços verdes espreitando aqui e ali, mas quando meu olhar desceu para o centro da caldeira, eu não pude deixar de tremer. Estimava que a base do vulcão tivesse cerca de três quilômetros de diâmetro. Enquanto Ren e Kishan discutiam o melhor lugar para descermos eu permaneci desolada. O terreno parecia uma superfície de uma maligna lua circulando um planeta infernal. Bexiguento, rasgado e cru, o interior escurecido era uma fervura inflamada no que já havia sido um mar tropical bonito. Bebi um pouco de água na esperança de limpar o pó seco de minha garganta. “Nós vamos fazer uma corda com a Echarpe Divina e descer de rapel até em baixo” Ren explicou o plano. “Vocês tem certeza de que a entrada para a Cidade da Luz está lá em baixo?” Kishan respondeu. “Não é uma grande ilha, Kells. Se não é lá em baixo então vamos procurar por toda ilha até encontrar.” Todos nós colocamos luvas e depois Kishan garantiu várias cordas diferentes ao redor do meu corpo e do tronco de uma árvore grossa. Estávamos indo caminhar na face da rocha, utilizando uma roldana e um sistema de cordas para nos impedir de ir muito rápido. “Não salte. Não empurre. Somente caminhe lentamente.” Ren estará abaixo de você e eu estarei ao seu lado. Não vamos deixar você cair. Está pronta?” Kishan perguntou calmamente.
Eu não estava pronta para descer de rapel em um penhasco enquanto minha mão ficava em lava. Ren agarrou a corda e deixou seu corpo cair para trás e desapareceu. Eu cautelosamente espiei a borda e o encontrei alguns metros abaixo de nós, com seus pés apoiados na pedra. Ele olhou para mim e disse gentilmente. “Vamos Kells. Estou bem aqui.” Tremendo e nervosa eu mudei para a posição e peguei minhas cordas. No começo eu estava bem, Kishan manteve o ritmo enquanto eu descia a colina como uma avó de patins. Então quando a face da rocha teve um declive eu deixei meus pés balançando no ar. Em pânico e me balancei freneticamente e gritando. Torcendo a corda, eu girei em um círculo, mas Kishan me pegou e endireitou minha corda enquanto eu me envolvia em torno de sua perna em desespero. Ele sorriu e disse, “Você está bem bilauta. Solte sua aderência e deslize para baixo onde Ren está.” Torci minha perna o deixando ir, e balancei ligeiramente a distância. Olhei para cima e me senti mal. Olhei para baixo e me senti doente. Engolindo em seco, deixei a corda deslizar através de meus dedos e fui para baixo rapidamente, só parando quando finalmente senti a rocha solida contra meus pés novamente. Embora descêssemos em câmera lenta, nós fomos até o fundo sem maiores incidentes. Meu corpo tremia, minhas pernas pareciam como gelatina enquanto entorpecida, deixava Ren remover as cordas do meu corpo. Deixamos as cordas penduradas e nos dirigimos para o centro da caldeira. As cinzas foram substituídas por lóbulos pretos e brilhantes que se estendiam em nossa direção como dedos nodosos. Ren testou a crosta refrigerada dando alguns passos. Declarando-a segura, ele caminhou por um tentáculo torto, e Kishan e eu nos juntamos a ele. A caminhada pela superfície árida foi lenta e complicada devida as pedras de rocha maciça, que muitas vezes barraram o nosso caminho. Pedras como balas de canhão colidiram com as cordas e de lava seca e quebrada, criando formas bizarras em superfícies irregulares, farpando na crosta. Em outros lugares a lava cobria pedras tão grandes com três metros de diâmetro, como um arenoso glacê sobre um bolo.
Ocasionalmente pisávamos em algumas bolhas carbonizadas que estouravam em grânulos de pó. Vapores sulfurosos subiam de rachaduras finas. Quando a bota de Kishan rompeu a crosta negra em um local, vapor escaldante explodiu para fora do buraco e queimou a pele em seu braço. Vendo a minha expressão de preocupação, Kishan me deu um sorriso reconfortante. Ele bateu o kamandal oculto sob sua camisa. “Vamos nos curar Kelsey e se algo acontecer com você, usaremos o elixir da sereia.” Eu concordei e me arrastei para frente, me perguntando se o elixir era poderoso o suficiente para me curar depois que a lava derretesse o meu rosto. Utilizei o Colar de Pérolas para preencher os cantis de água e bebemos tanto quanto podíamos. Prosseguimos e não demorou muito para chegarmos a um grande buraco que brilhava com uma ligeira luz. Ren se agachou para espiar dentro. “É um tubo de lava, provavelmente ativo.” “Então lava virá jorrando de lá?” “Eu não sei.” “Bem, o que devemos fazer? Ir em frente ou entrar?” Kishan se inclinou sobre a abertura. “É muito quente. Ela não vai sobreviver.” “E vocês dois?” Interrompi. “Eu suponho que vocês não queiram sua pele queimada também.” “Então seguimos em frente.” Ren disse enquanto se levantava e mudava de posição sua mochila. Seguindo seus passos começamos a pé, mas então eu parei e me virei. “Você ouviu isso?” “Ouvir o quê?” Kishan perguntou atrás de mim. “É uma... canção.” “Não ouvi nada.” Ren respondeu. “Nem eu.” Kishan acrescentou. Fechei os olhos e ouvi. “Novamente. Vocês não podem escutar com a audição de tigre?” Eles balançaram a cabeça. “Eu odeio dizer isso, mas eu me sinto como... este é lugar.”
“Mas está muito quente Kells.” “Então precisamos esfriar. Esfriar-me no processo não seria uma má ideia.” Ao afastar o suor que fez cócegas em minha nuca meus dedos tocaram o Colar de Pérolas Negras. “Eu tenho uma ideia.” Disse a Kishan. “Siga-me” Subimos a lateral superior do túnel, e toquei a pérola de flor de lótus sobre o Colar em meu pescoço e murmurando algumas palavras. Um estrondo sacudiu a ilha e eu ouvi o barulho de água. Ren passou o braço em volta de mim quando tropecei quando o chão se moveu. “Espero que possa controlar disso.” Murmurei nervosamente com meus braços levantados. Concentrei-me na parede da caldeira. Árvores sacudiram descontroladamente, e em seguida, um jato de água do oceano correu por cima do muro e mergulhou na bacia. Visualizei o fluxo de água, quis que chegasse mais perto, ela rapidamente se tornou preto na superfície do vulcão. Vapor subiu em vários lugares e sibilou como o som de mil cobras. Levantei minhas mãos as juntando e lentamente as reuni. Eu domei a água, a moldei, até que se ela se tornou exatamente o que eu queria que fosse. Guiando-nos pelo tubo de lava. Água fria do oceano corria a nossa frente e surgia da abertura da boca do tubo. Eu podia sentir o movimento da água através da ilha viajando através dos túneis por quilômetros,eu quis mais e mais água veio até que eu havia deslocado algo do tamanho de um pequeno lago do oceano circundante. Movimentando meus dedos, enviei a água do mar fria subterrânea para fluir sobre a lava, que assobiou, cozinhou e enegreceu quando os dois elementos se encontraram. Fiquei em silêncio, com os olhos fechados e senti o progresso fluir até que a ultima gota tivesse evaporado. Quando abri os olhos Ren e Kishan estavam me assistindo intrigados. “Como você sabe fazer isso?” Kishan perguntou. “Eu não sei. Acho que foi a música. Tem certeza que não consegue ouvir?” Quando ambos balançaram a cabeça, eu me perguntei se estava ouvindo coisas além com ter estranhos poderes de controle sobre objetos mágicos. Seja qual tenha sido minha
inspiração, pareceu ter funcionado. O túnel estava quente, mas tinha esfriado significativamente. Entramos na abertura miúda. Enquanto descíamos o túnel torcido ficou muito escuro, e apenas o brilho dos olhos de Fanindra iluminou nosso caminho. O ar estava abafado e úmido. Veios de fibras metálicas agarravam na lateral do túnel e tossi com os pequenos fios que flutuavam no ar. Chegamos à bifurcação e eu virei à esquerda, só hesitando quando Kishan sussurrou. “Como você sabe aonde ir?” “Eu não sei.” Respondi. “Acabei de fazer.” Minha resposta ecoou sinistramente através das passagens escuras. Eu bati com a parte de trás do meu pescoço e puxei uma pegajosa parte de minha camiseta para longe de minhas costas. Para manter minha mente longe do calor e do perigo, eu cantarolei canções natalinas e pensei na neve. Para minha surpresa, Ren e Kishan se juntaram a mim no “Jingle Bells”, mas a música foi tranquila e hesitante quando ecoou de volta, soava mais como fantasmas do feriado há muito esquecidos. O tubo de lava foi ficando liso e redondo como se uma minhoca gigante houvesse cavado um túnel para nós. Ele facilmente tinha três metros de diâmetro e dois de nós poderia facilmente andar lado a lado. Viajamos pelo túnel cerca de um quilômetro e meio. Certamente estávamos bem abaixo do nível do mar agora. Ouvi um som de corrente à frente e me perguntei se a água do oceano ainda corria através dos tubos. Chegamos a uma seção quebrada que brilhava com uma luz laranja. Aproximamos-nos e uma onda de calor intenso instantaneamente secou o suor em todo meu corpo. Ren me segurou, mas nós três nos esticamos para frente para ver a abertura. Uma centena de metros a baixo um rio de lava fluía. Suas bordas rochosas eram escuras e lentas, mas o meio era laranja brilhante e se movia com rapidez. Uma pele gelada e escura rachou e flutuou na superfície, em lugares diferentes, fazendo com que parecesse um pudim de lava laranja-avermelhado deixado descoberto no frigorífico. Kishan me afastou do espetáculo, e continuamos para baixo através do labirinto de tubos até que finalmente chegamos a um
beco sem saída. Coloquei minha mão sobre a superfície áspera de uma parede de pedra. “Não entendo. Este é o lugar.” Murmurei. Ren colocou suas mãos na parede e limpou a superfície, escavando a poeira em pó. Cascalho caiu solto sobre meus pés e um momento depois eu gritei. “É aqui. A marca da mão!” Coloquei minha mão na depressão e deixei crepitar faíscas na rocha. Meu desenho de hena veio à tona e brilhou, iluminando minha mão de dentro para fora. A caverna sacudiu e a parede de pedra se deslocou. Pó choveu em nós, Kishan me segurou e pressionou meu rosto contra seu peito, me cobrindo com seu corpo. A pedra gemeu e balançou para trás e para frente, e em seguida lentamente rolou para o lado e parou. Limpei um pouco de poeira emplumada em meu rosto que fez cócegas em minha bochecha e passei pela abertura. Estávamos de pé na borda de uma gigante floresta subterrânea. “Árvores? Como pode ter árvores aqui?” Perguntei incrédula. “Não acho que sejam árvores normais. Devem ser como as de Kishkindha.” Ren murmurou. “Um mundo subterrâneo.” “Sim, exceto que esse mundo é mais quente que o inferno.” Quando Ren encontrou uma série de degraus de pedra, nós começamos a trilhar nosso caminho. À medida que prosseguia, fiquei maravilhada com a beleza da floresta. Grossos troncos com fuligem apoiavam uma vasta cobertura de membros coberto com folhas que piscavam suavemente como brasas de um incêndio morrendo. Gavinhas enroladas de ouro cresciam a partir dos ramos e moveram-se em nossa direção enquanto caminhávamos. Ren as assistiu com cautela e removeu a gada de sua mochila, mas eu avancei sem medo e estendi um dedo. Um pequeno tentáculo se estendeu em sua direção quase que como hesitante, e então lentamente, gentilmente, se envolveu em meu dedo e se agarrou em mim. O calor reverberou em meu corpo e o amuleto em meu pescoço começou a brilhar. “Kelsey?” Ren andou em minha direção. Estendi minha mão para detê-lo. “Está tudo bem. Não está me machucando.” Eu sorri. “É atraído pelo poder do amuleto.”
Outra videira fina com duas folhas trêmulas acariciou minha bochecha. Kishan se aproximou da árvore, mas as folhas piscaram em cores de alarme. Eu acariciei o tronco para tranquilizá-lo. “Eles não vão te machucar. Vocês não tem nada a temer vindo de nós.” A árvore pareceu se recuperar e deixou Kishan tocar seu membro. Tremendo delicadamente, a árvore de fogo estendeu outra videira com botões minúsculos e se abriu em pétalas laranja com brilhantes folhas de ouro. “É lindo.” Eu exclamei. Kishan resmungou dizendo: “Eles parecem gostar de você.” As folhas tremiam e se viravam para nós conforme descíamos a encosta. Nós vimos samambaias e flores cintilantes de fogo que queimavam em radiantes flores enquanto andávamos. Ren e Kishan encontraram vestígios e avistaram um animal vermelho-laranja que parecia um coelho. A floresta parecia nos aquecer, mas nos poupava do calor devastador do vulcão. O ar estava seco e o chão era rico e escuro, como um solo fértil em um vaso. Grossos musgos brilhantes em uma variedade de tons de laranja e vermelho cresciamnas rochas negras e nos troncos de árvores. Sentamos em um tronco caído e comemos o almoço feito pelo Fruto Dourado, muitas vezes videiras encaracoladas se estendiam para tocar meu cabelo ou meu braço. O amuleto brilhava em contato e propagava calor através dos meus membros. Sentia-me como se estivesse recarregando minhas baterias e o calor não me incomodou. Embora a floresta estivesse em chamas de luz, o céu era escuro e sem estrelas. Começamos a subir e depois alcançamos o pico. Ren apontou para o horizonte distante. “Você pode vê-las?” “Ver o quê?” Perguntei. “Lá. É uma cadeia de montanhas. É difícil de ver porque as montanhas são preto no preto.” “A sua visão de tigre deve ajudar. Não consigo ver nada.” Ren assentiu e sugeriu um acampamento no vale abaixo. Havíamos começado a descer quando uma luz brilhante atravessou
o céu e explodiu em uma cascata silenciosa que me lembrou fogos de artificio em Quatro de Julho (Dia da independência do EUA). Então como se alguém tivesse virado um interruptor, todas as árvores ficaram escuras. Eu não pude nem mesmo ver minha mão diante de mim. “O que aconteceu?” Eu exclamei nervosa. Ren pegou minha mão e me puxou para seu lado. “Não tenho certeza.” Os olhos de esmeraldas de Fanindra brilharam, lançando um vislumbre verde bem vindo deste mundo estranho e escuro. Ren fez seu caminho descendo a colina segurando firmemente em minha mão. Quando cheguei a tocar no galho de uma árvore, não senti nada. Ele não se moveu ou me encheu de calor. Parecia morto. Coloquei minha mão contra o tronco e permiti que alguma energia minha se infiltrasse nele. A árvore vibrou fracamente confirmando que estava viva, mas eu imaginei que essa era sua versão de dormir. Quando me arrastei para a tenda para me juntar a Ren e Kishan, eles pararam de falar abruptamente. “Guardando segredos hein?” Eu provoquei. “Não quero saber de qualquer forma. Só gostaria de dizer que as árvores estão dormindo. Acho que é apenas um apagão ou algo assim.” Ren assentiu. “Ótimo. Vamos ficar de vigília essa noite. Acreditamos que... é possível que você tenha sido manipulada Kells.” “O quê?” Eu ri. “Você está falando sério?” Nenhum deles fez contato visual. “Vocês acham que as árvores estão me desviando do caminho?” Ren falou baixo. “Temos que manter a mente aberta para a possibilidade.” Kishan adicionou: “E por essa razão que estamos de vigia e você não está autorizada a participar.” Cruzei meus braços sobre o peito. “Eu acho que sei quando estou sendo manipulada. E porque vocês dois tigres acham que sabem o que é melhor para mim? Vocês são tão... tão... homens!” “Kells.” Ambos protestaram.
“Tudo bem. Divirtam-se. E se sentem em uma faísca enquanto isso.” Ouvi o suspiro baixo de Kishan. “Boa noite Kelsey” enquanto eu rolava e colocava meu punho em baixo de minha bochecha. Torci-me e chutei o cobertor no calor, e adormeci. Uma luz brilhante penetrou o tecido da tenda e me acordou. Eu escutei um som de estalo e zumbido metálico, e de repente, tudo foi banhado em chamas de fogo. Ren estava dormindo. Ele tinha um braço levantado sobre a cabeça e outro descansando sobre seu estomago. Eu me aproximei e ele suspirou e inclinou a cabeça melhor em seu travesseiro. Queria me aproximar dele, tocá-lo. Eu sabia que sua pele dourada seria suave e quente, mas ao invés disso, me sentei e o escutei respirar calmamente e me perguntei como eu poderia estar noiva de um homem e ainda ansiar por outro. Que pessoa terrível eu sou, eu pensei e tropecei para fora da barraca. “Bom dia bilauta.” Kishan disse ainda mantendo vigilância. “Você ainda está brava?” “Não.” “Bom.” Ele me envolveu em um abraço de urso e beijou minha cabeça. Uma minúscula vinha tão suave como a pata de um gatinho tocou minha mão. Eu a deixei se enrolar ao redor de meu dedo mindinho e senti seu calor. Sentindo-me pegajosa e encardida de vulcão, andei para longe e tentei criar um chuveiro usando o colar. Mas assim que as gotas de água as tocaram, as árvores tremeram violentamente, suas folhas ficaram marrons e caíram.
Hm... Isso é estranho, pensei e parei o fluxo da água. Lembrando-me da atração das árvores para o amuleto de fogo, eu me perguntei se o fogo pode ser sua fonte de energia. Tentei reparar as árvores danificadas as aquecendo com meu poder de fogo. A primeira árvore começou a curar, mas eu ainda podia sentir a energia ser drenada para fora dela. Desolada eu tirei as mãos do tronco com lágrimas silenciosas escorrendo pelo meu rosto. Ren me encontrou poucos minutos depois, limpou uma lágrima e me perguntou: “Por que está chorando?” “Eu matei uma árvore.” Disse através de uma fungada. “Acho que essas árvores se alimentam de fogo e morrem quando entram em contato com a água. Tentei salvá-las, mas não tenho energia o suficiente,” Ele estudou a árvore, e em seguida pegou minha mão e a colocou no tronco. “Tente novamente.” Fechei meus olhos e deixei o fogo se construir até começar a fluir na árvore. Senti o brilho fraco e profundo dentro dela responder a mim e alcançar com dedos fracos. Nós esticamos um em direção ao outro, mas eu sabia que nunca preencheríamos a lacuna. Em desespero, eu chorava de novo, mas então senti uma explosão de energia dourada irradiar de nossas mãos e viajar pelas raízes da árvore uma vez feitas de fogo. O outro liquido percorreu os membros mortos, revigorando as secas gavinhas. Pulsando com uma nova vida, a árvore se aproximou de mim e suavemente acariciou meu cabelo e meu rosto. Minhas lágrimas secaram no calor. Um ramo me envolveu em seu abraço arborizado, e eu alegre estava em seu brilho. Virando-me percebi que todas as outras árvores haviam sido curadas também. “Como uma árvore curou todas elas?” Perguntei em voz alta. Ren respondeu. “Talvez suas raízes sejam interligadas.” Ren tirou o cabelo de meu pescoço e passou seu polegar suavemente sobre o lugar sensível apenas atrás de minha orelha. Eu estremeci e nossos olhos se encontraram. “Talvez elas respondam ao toque.” Ele disse em voz baixa, seus lábios a poucos centímetros dos meus. “Por que você tem que olhar para mim assim?” Perguntei enquanto me afastava e baixava os olhos.
Sua mão caiu de meu pescoço. “Como estou olhando para você?” “Como se eu fosse um antílope. Da mesma forma que antes.” Ren sorriu um pouco, mas sua expressão se tornou séria quando ele me puxou para seus braços. “Talvez seja porque eu esteja morrendo de fome.” “Você não comeu essa manhã?” Minha tentativa de difundir o humor com a tensão falou. “Não quero comida Kells. Estou faminto por você.” Eu estava prestes a protestar quando ele pressionou seus dedos contra meus lábios. “Sh... apenas me deixe aproveitar esse momento. Eu tenho pouco deles. Prometo que não irei te beijar. Só quero te segurar e não pensar em nada nem ninguém.” Suspirando, deixei minha cabeça cair contra seu peito. Um minuto ou dois depois, um Kishan irritado perguntou: “Você já terminou de abraçar minha noiva?” Ren enrijeceu-se e se afastou sem dizer nada. “Estávamos curando as...” Kishan girou sobre os calcanhares e saiu. “... árvores.” Disse para suas costas quando ele se afastou. Claramente era hora de começarmos a nos mover novamente, depois de uma hora de caminhada feita principalmente em silêncio, chegamos a um prado cheio de flores brilhantes balançando em finas hastes pretas. A vegetação rasteira era cercada de camadas de ouro, arbustos vermelhos,arbustos carmesins e samambaias cobres, enquanto o bosque circundava e queimava com árvores em um raio amarelo, por do sol laranja e escarlate. Paramos para apreciar a beleza da floresta ao nosso redor, quando eu ouvi o barulho de asas no ar. Kishan destravou seu chakram e Ren desembainhou a espada de ouro a separou em duas e jogou uma para Kishan. Ele também torceu a faca Sai e a segurou até que ela se alongou em sua familiar forma de tridente. Ele levantou seu braço, pronto para joga-lo como um dardo. Ouvimos o inconfundível som de um pássaro guinchar. Eu engoli e procurei no céu escuro, esperando que não fosse outro bando de pássaros de ferro. A criatura atirou contra nós um cometa em chamas, enegrecido nas bordas, mas queimando por dentro. Ele
circulou o céu inclinado, a cabeça olhando para nós com um olho branco varrendo o chão como um holofote. O pássaro abriu o seu bico de águia curvo e gritou de novo, então ele bateu as asas mais rapidamente e desceu direto para nós. As penas de voo que revestem o pássaro eram macias- em parte cabelo de anjo e em parte chamas. Asas largas terminavam em pontas que eram amarelo-brilhante como velas mais perto do seu corpo, mas terminava em um vermelho tão escuro que era quase preto. Seu bico era dourado e seus pés eram cobertos de penas escuras alaranjadas, terminando com poderosas garras afiadas. Uma ardente crista se erguia de sua cabeça, uma plumagem longe e vermelha protegia sua nuca e refletia a luz flamejante. Ele tinha uma calda longa que se espalhava por trás dele enquanto voava. As cores cintilantes combinavam com a flora da terra, conforme suas asas, cauda e crista ondulavam no vento, o pássaro realmente parecia que estava pegando fogo. Ele pousou em um tronco caído e agarrou a madeira firmemente com suas garras. Dançando para frente e para trás até que estivesse balanceado, o pássaro dobrou suas asas para trás e olhou para nós três. A voz masculina penetrou o prado. Quente e musical, ele parecia brilhar como o mundo ao seu redor. “Por que veio ao meu reino?” O pássaro perguntou. Ren se adiantou. “Nós estamos procurando pela Corda de Fogo.” “E qual sua razão para procurarem por isso?” “Queremos acabar com nossa missão, levar a Durga seu prêmio, e recuperar nossa humanidade.” Kishan respondeu. “Para entrar em meu reino vocês devem fazer um sacrifício para provar que são dignos.” “Diga-nos o que fazer e iremos ver.” Ren prometeu. Uma gargalhada suave ecoou em torno de nós. “Esse sacrifício não é seu para oferecer tigre branco. Não, o sacrifício que eu preciso de é de uma esposa de Sati. Existe apenas uma pessoa aqui capaz de cumprir o meu pedido.” Ren e Kishan saltaram para minha frente, levantaram suas armas e gritaram: “Não! Você não irá levá-la!”
Confusa, olhei por entre os ombros dos irmãos e logo fui cativada pelos olhos brilhantes da Fênix.
sábado, 2 de novembro de 2013
Assinar:
Postar comentários (Atom)


0 comentários:
Postar um comentário