Protestei que poderia tentar andar, mas Kishan me ignorou e me carregou escada a baixo. Minha perna começou a sangrar através da bandagem e pedi a Echarpe Divina para amarrar várias vezes até que o sangramento parasse.
Quando finalmente chegamos na piscina, Ren estava pronto esperando por nós. Eu não apreciava a ideia de voltar a água novamente, mas corajosamente coloquei meu tanque.
Kishan havia acabado de oferecer seus óculos quando Ren o interrompeu. “Os óculos dela estão aqui. Assim como sua outra nadadeira. Fanindra os trouxe para cima.”
Uma cabeça dourada pulou para fora d’água. Eu me inclinei para dar tapinhas em sua cabeça, e ela deslizou pelo meu braço. Kishan chegou os indicadores de meu tanque enquanto Ren pulou para a água.
“O tanque dela está baixo.”
“Iremos dividir.” Ren replicou.
Assisti ele largar todos os seus pesos, mas ele ainda não conseguia alcançar a flutuação com o disco do céu. Era muito pesado. Quando expressei preocupação, ele se virou e disse, “Vou dar um jeito.”
Ren pegou a mochila que fiz com a Echarpe e posicionou as amarras contra seu peito enquanto eu balanceava a pressão em minhas orelhas.
“Teremos que ser rápidos.” Kishan alertou. “Iremos apenas nadar transversalmente e dar o fora daqui o mais rápido que pudermos. Se encontrarmos com o kraken novamente, iremos apenas dar a volta e nadar de volta para cá. Encontraremos uma maneira diferente de voltar para o iate. Ok?”
“Ok.”
Ele sorriu e beijou meu nariz antes de baixar sua mascara. Experimentei tomar um ar no regulador e mergulhei pelo buraco da piscina, seguindo Ren. Fanindra ficou perto de mim enquanto descíamos. As serpentes marinhas a cercaram para recebê-la de volta e nos rodearam enquanto nadávamos.
A caverna estava escura novamente sem a luz do kraken, mas Fanindra parecia saber o caminho. Ela emitiu luz apenas o suficiente para nós vermos enclausurados em nossa bolha de serpentes. Mantive meus olhos abertos para o kraken, mas não havia sinal dele. Ainda sim, parecia que olhos gigantes estavam vigiando nosso progresso e esperei um tentáculo tremulo me arrebatar para o esquecimento.
Meus nervos estavam no limite. Senti como se fosse uma daquelas garotas burras na escola, em um filme de terror, que abre portas que ela não deveria abrir, colocando-se no caminho do perigo, deliberadamente provocando o monstro para persegui-la. A única diferença era que eu não estava dando uns amassos com meu namorado em uma casa assombrada ou usando uma minissaia.
Cruzamos a caverna negra sem nenhum incidente e retornamos pela pequena passagem. Ren entrou primeiro, cercado pelas cobras se contorcendo. Convenci a mim mesma segui-lo.
Quando conseguimos chegar do outro lado, meu tanque de ar estava vazio. Dei a Ren um sinal, e ele balançou a cabeça, entregando o seu regulador a mim. Respirei profundamente e o devolvi. Fizemos isso algumas vezes até que Kishan emergiu da passagem. Ele tocou meu braço e balançou a cabeça, indicando que ele iria dividir comigo agora, então Ren poderia ir em frente.
Estar em baixo d’água sem meu próprio ar era assustador. Ele era tudo que me impedia de subir imediatamente para cima. Eu sabia que não havia nada acima de mim a não ser rochas, mas o intenso instinto de sobrevivência de procurar pela superfície era convincente. A única coisa que me mantinha no fundo era a sólida presença de Kishan ao meu lado.
Nadei e segui Ren. A luz estava ficando mais brilhante. A água turva mudou de um negro meia-noite para um escuro anil e então, felizmente, um claro azul turquesa do oceano aberto. Finalmente nós passamos por uma curva e eu vi a abertura da caverna e a luz do por do sol se inclinava na água.
Kishan me passou o respiradouro e eu respirei. O ar silvou e parou. O seu tanque estava vazio também. Ele me deu sinal para esperar e sorriu com segurança. Ele nadou atrás de Ren, que retornou e pressionou seu respiradouro em minhas mãos. Dei uma respiração profunda e entreguei ao Kishan.
Nós três nos movemos lentamente para fora da caverna em direção a superfície, dividindo um respiradouro entre nós. As serpentes marinhas, liberadas do dever de escolta, correram rapidamente para longe no oceano aberto. Muitas delas torceram seus corpos com Fanindra quando passaram por ela. Um momento depois, elas haviam ido.
Kishan deu uma curta respirada. O tanque de Ren estava quase vazio. Ele sinalizou isso e nós olhamos para cima. Teríamos que fazer uma pausa. Kishan me entregou o regulador para que eu pudesse dar o ultimo respiro. Sacudi minha cabeça, mas ele insistiu, tomei um ultimo fôlego e comecei a nadar para a superfície. Deixei meu ar sair lentamente enquanto a água ficava mais e mais brilhante. Precisava de ar. Eu não iria conseguir.
Morrer afogada era muito menos exótico do que morrer por causa de um kraken. Era quase uma morte embaraçosa, como se sua morte fosse de alguma forma sua própria culpa. Eu esperava que outras pessoas mortas dissessem. “Afogada? Bem, como você vai e faz uma coisa assim? Não conseguiu achar a válvula? Diz A-R na lateral. Você esqueceu de usar o aparato em baixo de seus olhos? É chamado nariz. Você respira através dele.” Ah claro, eu tentaria explicar o que aconteceu, mas eu passaria a eternidade sendo alvo de piada de mortos. Minha mãe iria pensar que era hilário.
Fanindra nadou na minha frente, liderando o caminho, mas isso não importava. Comecei a ver pontos pretos em minha visão. A superfície estava próxima, talvez apenas a seis metros de distancia. Nadei com mais força e tentei tomar um ar de meu próprio tanque, mas isso não foi bom. Meus pulmões pareciam estar sendo marcados a ferro quente. A queimação era intensa enquanto meu corpo gritava para que eu tomasse um ar.
Eu gostaria de pensar que tinha meu cérebro como dominante, que eu poderia enfrentar o inevitável afogamento serenamente, calmamente. Mas de frente com a morte, meu corpo reinou. Uma necessidade, uma fúria selvagem de sobrevivência tomou conta, e eu comecei a agarrar minha mascara com um frenesi. Uma mão segurou a minha. Era Kishan. Ele estava chutando com mais força e me levando com ele.
Nós alcançamos a superfície e ele me segurou por perto enquanto arquejava e engasgava. O ar correu pelos meus pulmões que queimavam, e eu me tornei um ser completamente focado na respiração. Nos próximos segundos, nada existiu a não ser o ritmo apressado da inalação e exalação. Ren emergiu alguns segundo depois e arquejou.
O peso do disco deve ter tornado para ele duas vezes mais difícil chegar e permanecer na superfície. Quando sua cabeça submergiu novamente, Kishan nadou para ajuda-lo, e eu sussurrei para a Echarpe Divina para fazer uma dupla para que Kishan pudesse pegar metade do peso do disco.
O oceano estava coberto com névoa novamente. A água gelada anestesiou minha perna latejante, mas eu podia dizer que a lesão estava ruim. Ele soou como um tamborilar distante de canhões, abafados mas
perigosos. Kishan e Ren nadaram para perto de mim enquanto eu me virei em um circulo procurando pelo Deschen.
Ren disse. “Fique por perto. Não devemos estar muito longe de onde estávamos ancorados. Iremos seguir Fanindra. Você ficará bem?”
Concordei. Ele tirou a água de seu snorkel e liderou até o navio.
Finalmente no iate, Kishan jogou suas barbatanas na garagem molhada e foi de encontro a escada. Ren entregou a ele o disco do céu e então jogou suas próprias nadadeira. Meus membros tremiam. Eu não podia colocar nenhum peso em minha perna machucada. Joguei meu braço ao redor do ombro de Ren e lentamente subi a escada em segurança ao nosso barco.
Pegando uma rede, Kishan tirou Fanindra para fora d’água. Ela se contorcia e girava pelo deque. Sua larga boca abriu e fechou várias vezes como se estivesse engasgando por ar. Simpatizei por ela assistindo seu corpo expandir e tremer violentamente. A pele ao redor da cabeça ondulou e rasgou, criando um capuz. Seus olhos de joias se tornaram maiores, e o formato de sua cabeça mudou. Não demorou e os movimentos erráticos de peixe-fora-d ’água cessaram, e ela era uma cobra dourada novamente.
Nilima enrolou uma grande toalha ao meu redor. Cuidadosamente eu apoiei minha cabeça contra a parede e gemi. Ren a ajudou a tirar meu equipamento e ficou ao meu lado. Engasguei de dor quando ela tocou minha perna.
“O que aconteceu?” Ela perguntou.
“Mordida de kraken.” Ren replicou. “Não estou certo de quão mal está. Ela manteve bem amarrado desde que isso aconteceu.”
A enfermeira Nilima mandou Ren atrás de um kit de primeiros socorros e Kishan atrás de uma muda de roupas. Enquanto estavam fora, ela me ajudou a tirar minha roupa de mergulho e me enrolou em um robe. Ela cuidadosamente desfez as bandagens e checou meus ferimentos.
“Sua perna é a pior de tudo. Você precisará de pontos. O que aconteceu aqui?” Ela indicou a faixa em torno da minha cintura.
“O kraken me segurou com seus tentáculos.”
“Hmm...seu traje de mergulho provavelmente te protegeu aqui. Está na maior parte machucado, mas há cortes circulares também, bem rasos.”
“Ventosas de sucção.”
Ela estremeceu.
Uma bolha de gosma verde escorreu de meu nariz onde eu havia sido cortada até meu braço, eu gritei em dor. Doeu. Nilima lavou rapidamente e queimação aliviou. Os rapazes retornaram. Uma bolha de liquido verde escorria pelo braço de Kishan e pingou no deque. Não queimava a ele como me queimava, provavelmente devido a sua super-velocidade de cura de tigre.
Nilima o encarou. Ela disse. “Vocês dois vão tomar banho agora. A substancia verde parece ser toxica. Provavelmente algum tipo de ácido. Tire isso de vocês o mais rápido possível. Não posso ter vocês próximos de Kelsey ou a tocando com isso. Pode não afetar vocês , mas a machuca.” Os garotos hesitaram.
“Não se preocupem.” Nilima assegurou. “Ela estará bem. O sangramento está sobre controle. Ela está segura.”
Nilima pegou o chuveirinho e limpou a lama de mim. Ela gentilmente limpou minhas feridas. Quando eu estava suficientemente limpa, ela aplicou pomada antibactericida nos cortes circulares de minha cintura, pediu a Echarpe para me enrolar em bandagens e então ajudou-me a me vestir.
Em seguida ela voltou atenção para minha perna. A pele estava enrugada e inchada, irritada por causa da água salgada. Engoli um choro de dor. Minha perna latejava enjoativamente. Ela começou a sangrar novamente depois que Nilima a limpou. Engoli em seco quando vi minha carne aberta.
“Não olhe para isso. Acho que irá se curar direito, como eu disse, vai precisar de pontos. Preciso buscar o vovô para isso.” Ela pediu a Echarpe para me fazer bandagens novamente. “Você ficará bem por um minuto?”
Concordei e recostei-me no banco de madeira, fechando meus olhos. Imaginei que podia sentir o veneno do kraken em minhas veias. Meus nervos se arrepiaram como se houvesse pequenas formigas vermelhas sobre minha pele. Estava cansada. Balancei a cabeça e em seguida fui despertei sacudindo com um barulho. Fanindra se aproximou de mim.
“Você vai me morder? Se vai, estou fechando meus olhos. Faça ser rápido.”
Não escutei nada então abri somente um olho. Fanindra havia se enrolado e descansava próxima ao meu pé.
“Eu não devo estar morrendo então né? Obrigada por me fazer companhia. Mas ainda sim, que tal uma mordidinha para curar entre amigas? Não quer gastar seu veneno de ouro, entendo. Ótimo. Me acorde se eu morrer.”
Kishan retornou um momento depois recém saído do banho e sentou do meu lado, segurando minha mão. Logo, Ren, Nilima e Sr.Kadam se juntaram a nós. Sr.Kadam abriu a mochila e colocou uma pílula em sua mão, me oferecendo um uma garrafa de água.
“O que é isso?”
“Antibiótico.” Kishan entregou a garrafa a Kishan. “Tenha certeza que ela tome um na manha e um a noite durante os próximos dez dias.”
Kishan concordou.
“Agora vamos ver essa ferida.” Sr.Kadam pediu para a Echarpe Divina remover a bandagem e deu uma olhada no corte. Mantive meus olhos fechados dessa vez. “Você está certa Nilima. Ela vai precisar de pontos. Mas não acho que trouxemos suturas conosco. Tudo que podemos fazer nesse momento é manter cuidadosamente enrolado, limpo, mantê-la nos
antibióticos, e torcer para o kraken não ser venenoso. Kishan, você pode carrega-la até sua cama? Ela precisa descansar.”
“Espere.” Ren deu um passo para frente. “Tenho uma ideia.”
Ele explicou o que ele queria fazer e Sr.Kadam olhou para mim. “Você está disposta a tentar Srta.Kelsey?”
Concordei, fechei meus olhos, e apertei a mão de Kishan quando Ren ordenou que a Echarpe costurasse a minha ferida.
Todos observaram minha perna com curiosidade enquanto a Echarpe começou a trabalhar. Engasguei primeiro, sentindo aquela estranha sensação de puxar em minha pele. Fios caleidoscópicos se afiaram em uma pequena ponta e deslizaram pelas camadas de minha pele, quase não picava, então puxou as bordas da minha pele juntando-a e apertando. Em menos de um minuto estava feito. Pequenos pontos desceram pela lateral de minha pele, fazendo parecer que eu estava usando um par de góticas meias-calças.
Nilima espalhou creme antibiótico por todo o ferimento e pediu a Echarpe para fazer bandagens novamente. Sorri para Ren, o que provavelmente pareceu mais como uma careta, antes de Kishan me pegar, me carregar até meu quarto e me colocar na cama. Ele me trouxe aspirina e um copo de água. Obediente eu tomei meu medicamento e adormeci.
Doze horas depois, acordei dolorida, machucada e voraz. Ninguém estava por perto, o que era bom para variar. Sentei na cama e pedi a Echarpe para desfazer as bandagens. Um circulo de machucados verde-amarelados circulavam meu tronco e desciam até meus quadris, mas os cortes haviam todos cicatrizado bem. Hmm...os machucados ainda deveriam estar roxos e os cortes mais doloridos. Doía mas não como ontem. Minha perna na verdade parecia muito bem também, considerando tudo. Parecia que havia feito uma semana de cura em uma noite. Não era rápido como a cura dos garotos, mas ainda sim impressionante.
Decidi que a primeira coisa, na ordem dos negócios era um banho. Limpa, com o cabelo lavado e condicionado, com bandagens e vestida, saí do banheiro para encontrar Kishan esperando por mim. Ele cuidadosamente me colocou em seus braços.
“Como está se sentindo?” Ele perguntou massageando meu pescoço.
“Melhor, eu acho que meus ferimentos se curam melhor aqui, mas não tão rápido quanto os seus fazem.”
Kishan me trouxe uma bandeja com ovos, morangos, um rolinho de canela, suco de laranja, aspirina e um antibiótico. Após me entregar um garfo, ele sentou ao meu lado e esperou que eu terminasse. Algo o estava incomodando.
“Você está bem Kishan?”
Ele me olhou e me deu um meio sorriso. “Sim. Eu só estou-”
“Só está o que?” Peguei uma garfada dos ovos macios sabendo que ele levaria tempo para responder.
“Só estou ... preocupado.”
“Não se preocupe comigo. Irei me recuperar. Na verdade, estou me sentindo muito bem agora.” Sorri.
“Não. Preocupado é a palavra errada. Algumas vezes eu penso...” Kishan suspirou e passou uma mão por seu cabelo. “Não é importante agora. Você precisa se curar. Você não precisa escutar sobre meus ciúmes mesquinhos.”
“Que ciúmes mesquinhos?” Coloquei a bandeja para o lado e peguei sua mão. “Você pode me contar.”
Ele se inclinou para frente e estudou minhas mãos. “Eu acho que talvez,” ele disse com um suspiro, “que talvez você esteja tento arrependimentos sobre nós, quero dizer.”
“Arrependimentos?”
“Eu vejo como você e Ren se olham as vezes, e isso me faz sentir que sou um expectador. Sinto que não importa o que eu faça, não serei capaz de ultrapassar o abismo entre nos ou consertar a fenda em seu coração e encontrar uma maneira de estar com você.”
“Ah. Entendo.” Recordei de quando Ren e eu consertamos a estrela no lar do dragão vermelho e mordi meus lábios culpada.
Ele continuou. “Eu quero que você se sinta da mesma maneira sobre mim como eu me sinto sobre você. Mas mais do que isso, quero que você seja inteira e feliz como você era em Oregon.” Ele se inclinou e acariciou minha bochecha com seus dedos. “Eu amo você Kelsey. E eu não estou certo de que você se sente da mesma maneira, ou se é ate mesmo possível que fiquemos juntos.”
Anulei meus pensamentos de culpa, trouxe sua ao até minha boca e beijei sua palma. “Você sabe qual é o problema? Nós temos muito pouco tempo sozinhos juntos nesse navio, e estando nesse reino dos Sete Pagodes realmente não nos da muita oportunidade para romance. Por que não temos um jantar a luz de velas essa noite, só nos dois? Você usa uma gravata, e eu vestido. O que me diz?”
“E se chegarmos no terceiro dragão até lá?”
Dei de ombros. “Nós improvisamos. Sr.Kadam já descobriu o que o disco do céu faz ainda?”
“Não. Ele e Ren estão trabalhando nisso. Estamos fora do nevoeiro do dragão azul, mas estamos ancorados até que eles descubram o que fazer em seguida.”
“Ok. Então iremos dizer que precisamos da noite de folga. Irá dar mais tempo para minha perna se curar melhor também.”
Kishan concordou. “Se você tem certeza.”
“Tenho certeza. Se uma garota não pode tirar um dia de folga depois lutar com um kraken, quando ela pode fazê-lo ?”
Ele riu. “Palavras mais verdadeiras nunca foram ditas.”
Fui deixada sozinha pelo resto do dia, exceto por Nilima constantemente afofando meus travesseiros. Depois de algumas horas de tédio, fiz uma pesquisa sobre o disco do céu, que era similar em sua forma com o Disco do Céu Alemão Nebra, datado em 1600 AEC * que estudei em minhas aulas de historia da arte. O Disco do Céu Nebra era um registro das estrelas e do solstícios de verão e inverno, assim os fazendeiros sabiam a hora certa de plantar certas colheitas.
O disco do céu do dragão azul obviamente não era para ser usado em plantio. Ele tinha marcas de estrelas e sete luas no lugar do desenho da lua de Nebra. Um caminho traçado entre as estrelas levava de um dos sóis no fundo para um dos sóis no topo. Abri um livro para procurar por outros famosos discos e achei o Calendário Asteca mostrando as cinco fases do mundo. Cada dia assinalado no calendário estava associado a uma divindade diferente. Folheei as paginas mas realmente não encontrei qualquer outra coisa que pudesse ser aplicada em nossa situação. Frustrada, suspirei e coloquei o livro e as anotações de lado. Minha mente devaneou para algo que definitivamente não queria pensar. Era hora. Era hora de realmente deixar Ren e seguir em frente com Kishan. Não é como se eu não amasse Kishan. Eu amo. Mas eu ainda amo Ren também. Acho que uma parte de mim sempre vai ama-lo. Kishan merece minha total atenção. Ele provavelmente está sentindo minha hesitação interior. Não quero que ele se sinta assim. Eu quero que ele saiba que estou comprometida com ele.
Eu já havia dito a Ren que uma vez comprometida com Kishan, eu iria ficar com ele, e não sou o tipo de pessoa que brinca com os sentimentos das pessoas. Eu iria permanecer com ele. Se eu não conseguisse esquecer Ren, então pelo menos eu poderia esconder meus sentimentos. Iria tranca-los em uma pequena parte de minha cabeça e nunca deixa-los saírem. Afoga-los nas
profundezas do mar. Deixei o peso de minhas mágoas caírem e mergulharem em um abismo escuro.
Eu queria que as coisas dessem certo com Kishan, mas eu sabia que havia uma parte de mim que eu estava segurando. Não havia dado meu coração por inteiro. Não havia o amado do modo que eu amei Ren. Ele merecia mais. Ele merecia algo melhor. Era hora de me permitir amar novamente.
Saí da minha cama e testei minha perna. Parecia muito melhor, e os cortes e machucados ao redor de meu tronco praticamente haviam desaparecido. Depois de consultar Nilima , nos duas concordamos que era hora dos pontos saírem.
Ela pediu para a Echarpe remover meus pontos, e os fios gentilmente saíram de minha pele. Ainda havia uma cicatriz descendo pela minha perna, mas estava completamente fechada e eu podia andar confortavelmente. Pedi a Nilima para ajudar a Echarpe a fazer para mim um vestido, ela se moveu depressa e fez um vestido curto de cetim com mangas cobertas e um decote quadrado. Ele se juntava na minha cintura no lado direito, pregueado e fixado com apliques de joias pretas. A saia até o joelho foi embelezado por um caimento de babados de um material que se curvava sobre meu quadril e drapejado dramaticamente até a bainha.
Meu pensamento original foi fazê-lo azul, mas eu rapidamente percebi que mandaria a Kishan uma mensagem estranha. Decidimos fazer de um bronze antigo no lugar, e a cor acabou se tornando muito lisonjeira em mim. Realçou meus olhos e fez minha pele parecer melhor. Pedi a Echarpe para fazer sapatilhas de cetim planas para combinar, que combinou com os apliques do vestido. Graças a Nilima, comecei a escovar meu cabelo, e meus pensamentos se voltaram para a noite que estava por vir.
O que poderia fazer? O que eu poderia fazer para Kishan perceber que não era um expectador? Eu realmente queria isso? Queria a ele? Tentei entrar em sintonia com a voz em minha cabeça e perguntar a minha mãe por conselhos. Eu esperava alguma coisa. Ela sempre estava lá antes quando precisava de ajuda em relacionamentos. No lugar, eu não consegui nada. Muito obrigada mãe. O que? Estou tentando fazer o meu melhor aqui. Não é como se você estivesse para me
ajudar com esse assunto. Algumas vezes uma garota precisa da sua mãe, você sabe. Fiz uma pausa no meio do pensamento e enviei uma reprovação mental. Você deveria estar aqui.
Encarei o espelho enquanto mecanicamente escovava meu cabelo e finalmente descansei a escova. Eu parecia magra. Pálida. Tinha sombras em baixo de meus olhos. Não exatamente o melhor para um encontro, apesar de que eu posso culpar o kraken pela minha aparência. Eu me sentia com irritadiça...nervosa. Tinha um nó em meu estomago. Entorpecida, apliquei a maquiagem.
Buscando inspiração do meu novo cabelo na altura dos ombros, eu o enrolei e puxei uma das flores do ramo de Lótus da Durga. Estudei a flor e silenciosamente esperei que ela fosse me guiar, que iria me ajudar a passar por cima de meu passado teimoso de sentimentos pelo Ren e dar o amor para Kishan o amor que ele precisa. Ela foi quem me encorajou a seguir em frente depois de tudo.
Prendi um lado do meu cabelo para trás com uma presilha e coloquei a flor branca em minha orelha direita. Seu perfume me deu uma sensação de conforto. Uma sensação de paz tomou conta de mim, e eu senti como se braços macios houvessem me abraçado pelos ombros, me transmitindo segurança. Quer fosse Durga ou minha mãe, esse sentimento me deu uma sensação de convicção, me fez acreditar que tudo ficaria bem. Escorreguei para dentro do meu vestido e havia acabado de colocar as sapatilhas quando bateram em minha porta.
Fiquei aliviada que Kishan não havia perdido tempo. Havia ficado sozinha com meus pensamentos por tempo demais. Coloquei um sorriso determinado em meu rosto e abri a porta. O sorriso se tornou genuíno quando vi o quão feliz ele estava. Ela admirou abertamente o meu vestido e me entregou um buque de flores de seda.
“Desculpe se elas não são de verdade. Não há nenhuma loja de flores no reino dos dragões pelo o que parece.”
“Tudo bem. Eu não me importo.”
“Você está linda.”
“Assim como você.”
Ele estava bonito. Kishan
estava usando uma gravata, embora eu realmente não esperasse que ele usasse. Ele usava uma blusa de seda cobre com listras pretas e uma gravata dourada para combinar. Dei um passo a frente e ajeitei sua gravata. Ele segurou minha mão, a beijou e sorriu. Seus olhos dourados cintilaram, e ele me ofereceu um braço.
“Como está sua perna?” Ele perguntou.
“Boa. Quase curada. Mais um dia e eu estarei pronta para enfrentar outro kraken.”
Ele franziu a testa. “Espero que não tenhamos que fazer isso.”
Concordei e fizemos nosso caminho até o deque. A lua aparecia, e o mar estava calmo. Era lindo. O céu escuro estava claro, e as estrelas estavam vívidas. Era o cenário perfeito para um jantar romântico.
Ao invés de me levar para a sala de jantar na popa, Kishan me guiou até a proa do navio.
“Não iremos comer?”
“Sim. Montei uma mesa aqui. E não se preocupe em sermos observados da casa do leme. Sr.Kadam e Nilima estão tirando a noite de folga. Todos estão abaixo do convés.”
“Alguém não deveria estar pronto para pular para a casa do leme somente em caso de uma emergência de dragões ou algo assim?”
“Este será o meu trabalho pelas próximas horas. Se algo aparecer, seremos os primeiros a saber.”
Apertei seu braço. “Isso parece bom. Oh Kishan! É adorável!”
O deixei e andei em sua frente até a linda mesa posta. Kishan tinha usado a Echarpe para criar um brilhante toalha de mesa prata e guardanapos.
Um conjunto de porcelanas e prataria reluzente e pesada, com sereias gravadas em suas alças, enfeitava a mesa. Delicados cálices, com pequenas estrelas do mar presas nas hastes estavam cheios de suco brilhante e dourado. Ele havia organizado conchas em grupos por todo o convés. As velas tremulavam na minúscula brisa, deslumbrantes apesar da simplicidade. Luzes de lanternas sobre nossas cabeças aumentavam o efeito, e uma musica suave tocava em algum lugar ao fundo.
Estiquei um dedo e toquei uma concha. “Isto deve ter tomado de você um longo tempo.”
Ele deu de ombros. “Não muito. Eu queria que parecesse especial.”
“Parece.”
Kishan puxou a cadeira para mim. Se sentou a minha frente e sorriu com a minha expressão. “Você gostou.”
“Dizer ‘você gostou’ é uma espécie de eufemismo.”
Ele riu. “Bom. Está pronta para comer?”
“Sim. Como isso funciona exatamente? Imagino que esteja usando o Fruto.”
Ele concordou. “Inventei um menu. Você confia em mim?”
“É claro.”
Ele fechou seus olhos e um jantar delicioso apareceu em nossa frente. Atacamos a comida e falamos como iremos encontrar o terceiro dragão. Inicialmente começamos sendo sérios; e então começamos a supor descontroladamente cenários loucos para o dragão como, “E se ele for banguela? E se ele for do tamanho de um gato de estimação? E se ele é um dragão covarde que conta piadas como o dragão Eddie Murphy em Mulan?”
Kishan nunca havia visto esse filme, então fizemos planos para assisti-lo mais tarde. Cantei para ele “Puff, o Dragão Mágico” o máximo que consegui lembrar, e ele me contou uma historia chinesa maluca sobre um dragão que perde sua calda.
Para sobremesa, Kishan criou um bolo de oito camadas de chocolate e framboesa, com calda quente de chocolate e framboesas frescas no chantilly.
Fechei os olhos e gemi, “Você realmente me conhece bem. Chocolate é minha fraqueza.”
Ele se inclinou para frente. “Eu sinceramente espero que te conheça.”
Eu ri. “O problema é...eu estou muito cheia para comer agora.”
“Teremos tempo. Posso esperar.” Ele me olhou e estendeu a mão. “Dançaria comigo Kelsey?”
“Eu adoraria.” Peguei sua mão e ele me puxou para perto. A musica era suave e a noite estava fria. Me aconcheguei contra ele, aproveitando seu calor.
“Você sabe, essa é a primeira vez que posso dançar com você sem me preocupar em ter alguém se aproximando e te tirando de mim.”
“Hmm..isso é verdade.”
Ele pegou minha mão e me girou em uma estranha volta. Eu ri com nosso braços emaranhados.
“Desculpe. Sei que não sou a melhor dançarina. Mas é que isso-” Levantei minha cabeça. “O que é isso?”
“Você parece apreciar um tipo mais extravagante de dança. Como dançava com Ren. Eu nunca provavelmente irei aprender a fazer isso.”
“Kishan, você não precisa se comparar a ele. Eu gosto de quem você é, e não porque eu quero uma cópia carbonada.”
“O que é uma cópia carbonada?”
“É uma...isso não importa. O ponto é seja você mesmo. Não espero que você mude. Se você não gosta de dançar, está tudo bem.”
“Ah, eu gosto de dançar. Só não sou muito bom nisso.”
“Está tudo bem. Não sou uma ótima dançarina também.”
“De verdade?”
“De verdade.” Coloquei minha cabeça em seu ombro e fechei os olhos, o deixando me conduzir, guiando meus passos. Confiava nele. Sabia que ele não iria me machucar, eu queria oferecer a mesma sensação de paz que ele havia dado tão abertamente para mim. Eu queria desesperadamente não apenas amar ele, mas estar apaixonada por ele. Pequenos pensamentos de estar nos braços de outro homem penetraram em minha mente. Eu violentamente os rasguei e os enterrei. Queria que meus únicos pensamentos fossem sobre Kishan. Sobre esse ótimo homem que me amava.
“Foi quando você viu os ferimentos que Ren costuma ter quando lutamos na floresta. Isso foi antes de você saber que nos curamos com rapidez e você chorou.”
“Eu me lembro.”
“Quebrou meu coração que você pudesse chorar por animais como por homens, por criaturas violentas e amaldiçoadas que éramos .Você mostrou tanta ternura e preocupação. Eu queria te confortar. Queria fazer você feliz. Te fazer parar de chorar.”
“Você fez.”
Ele grunhiu. “Você se lembra quando saí da selva pela primeira fez e te surpreendi?”
“Sim.”
“Eu estivera te vigiando. Você me fascinava. Era quase como se eu pudesse falar o que você estava pensando apenas baseado em suas expressões.”
“Não acho que eu era tão fácil de ler.”
“Você tem um tipo de rosto, um livro aberto.”
“Obrigado.”
Uma pequena brisa soprou meu cabelo para minha bochecha e Kishan a colocou para trás de minha orelha e suavemente acariciou meu pescoço.
“Sabia que você foi a primeira pessoa com quem conversei em mais de cem anos?”
Pisquei. “Não sabia disso. Você deveria estar muito solitário.”
Ele olhou para mim com seus olhos dourados, e eu me encontrei perdida nas manchas de cobre. Ele colocou outro braço ao redor da minha cintura. “Eu estava. Estive sozinho por muito tempo. Me sentia como se fosse o ultimo homem do mundo. Então eu vi você, era como um sonho. Você era um anjo que veio me resgatar de minha miserável existência. Eu nem ao menos ligava se estava vivo ou morto desde que você trouxesse um final a minha isolação. Então você partiu, pensei que pudesse voltar a ser do jeito que era antes. Eu realmente não tinha nenhuma esperança de algum dia você pudesse ser minha. Era óbvio que Ren havia te reivindicado para ele mesmo. Então ignorei a vontade. Ignorei meus sentimentos. Mas não importava. Eu estava amarrado a você.”
“Retornei para o mundo dos vivos. Aprendi a andar nas minhas duas pernas novamente. Aprendi o que significava ser um homem. Então você foi embora, e parte de mim ficou feliz. Minha intenção era te dar algum tempo e então ir atrás de você. Mas não funcionou dessa maneira.”
Concordei e não disse nada. Não pude evitar de refletir sobre aquele tempo em Oregon, mas rapidamente eu chutei a porta e os pensamentos retornaram para o presente. Sorri para Kishan.
Ele continuou. “Quando te vi novamente, feliz na América. Decidi que iria me contentar em ser seu amigo e protetor. Tentei manter meus sentimentos sob controle. Fazer o que fosse preciso para te ajudar a ser feliz. Mas quando te vi sozinha em Shangri-la, meus sentimentos ficaram ainda mais fortes por você. Queria você, e não ligava em quem fosse machucar ou como você se sentiria. Estava com raiva quando você me mandou recuar. Eu queria que você me desejasse da mesma maneira, e você não queria. Queria que você se sentisse do mesmo jeito sobre mim do jeito que você se sentia sobre Ren, mas não consegui.”
“Mas Kishan-”
“Espere...me deixe terminar.”
Concordei.
“Talvez tenha sido aquele pássaro idiota em Shangri-la, mas eu pude ver com mais clareza desde então – e não só sobre meu passado e Yesubai, mas também sobre você, meu futuro. Eu sabia que não ficaria sozinho para sempre. Vi no Bosque dos Sonhos. E depois disso, eu pude ver que você me amava também. Mas eu apressei isso. Te pressionei. Então ele voltou para casa, e apesar de tudo, você ainda o queria. Talvez não suma com a distância. Talvez você sempre sinta essa conexão com ele.”
Fiz um som e toquei seus lábios com um dedo.
“Não. Está tudo bem. Eu entendo agora. Eu não estava realmente pronto para estar em um relacionamento. Eu não tinha nada para dar, nada para oferecer. Não para uma mulher nesse intervalo de tempo. Mas Shangri-la me deu mais valioso do que ser homem por mais seis horas. Me deu esperança. Uma razão para acreditar. Então esperei. Eu aprendi como ser paciente. Aprendi como viver nesse século. E agora... mais importante, acho que finalmente aprendi o que significa amar alguém.”
Kishan levantou um dedo e o deslizou desde minha testa até meu queixo, inclinando meu rosto para olhar para seus olhos. “Então suponho que a única questão restante é, Kelsey...meus sentimentos ecoam em seu coração? Você sente, mesmo que uma parte pequena, do que eu sinto por você? Existe uma parte de você que reserva para mim? Que eu possa chamar de minha? Que eu possa reivindicar e manter para sempre? Prometo que irei aprecia-la. E irei guardar sempre possessivamente por todos os meus dias.”
As mãos de Kishan apertaram minha cintura, e ele se inclinou para que sua testa se unisse a minha. “Seu coração bate por mim de alguma maneira, meu amor?
Pressionei minhas mãos contra seu rosto quando uma lágrima desceu pela minha bochecha. Depois de uma leve pausa, eu assegurei, “Claro que ele bate. Não deixarei você sozinho nunca mais. Eu também te amo Kishan.”
Pressionei meus lábios contra os deles. Ele se descolou para me manter pressionada nele e me beijou de volta. Era gentil, suave e doce. Passei meus braços ao redor de seu pescoço e me pressionei para mais perto. Ele me puxou contra seu peito e envolveu seus braços firmemente ao meu redor. No inicio era apenas bom. Era agradável, satisfatório. Mas então, algo aconteceu. Senti um estalo, um zunido, um puxão. Meu coração disparou loucamente, e um fogo queimou de repente em mim. Me consumia, eu ardia interiormente com um calor que não sentia a um bom tempo. Beijei Kishan com uma paixão veemente e descontrolada, e ele retornou a ardência dez vezes mais. O inferno queimava em chamas, crepitante, purificador, e restaurador .Eu queria aproveitar o calor criado entre nós. Foi consumidor e potente. Meu coração se abriu. Minha conexão voltou. Minha estrutura sacudiu dada a intensidade. Eu estava inteira novamente. O tempo pareceu parar. Algo imenso bateu no deque atrás de mim, e diversas velas se extinguiram com o súbito vento quente. Ouvi a madeira estalar e rachar. Meu corpo vibrou com o impacto, e o choque me fez tropeçar. Mas Kishan me segurou de pé com facilidade. Nossos lábios se separaram. Pensei. O que é? Um dragão? Um meteoro?
Pisquei mal acreditando em como uma cadeira de praia passou por mim com uma lufada e aterrissou no oceano com um esguicho, levando a mesa, a porcelana, as lanternas, bolo, e candelabros de concha juntos. Kishan olhou para mim em confusão e então congelou quando escutamos uma voz nos ameaçar enfurecida e intratável em algum lugar acima de nós.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
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