20
As provas das quatro casas
Os olhos esmeralda de Fanindra começaram a brilhar e forneceram luz suficiente para que Kishan pudesse pegar nossa lanterna. Um metro e meio à nossa frente havia outro tronco de árvore que parecia tão sólido quanto o externo - um tronco dentro do outro. Entre os dois, subia uma escada em espiral. Ele pegou minha mão outra vez antes de começarmos nossa subida. Os degraus tinham largura suficiente para que andássemos lado a lado e profundidade bastante para que pudéssemos parar e recuperar o fôlego ou mesmo dormir, se precisássemos.Subimos em um ritmo lento, parando com freqüência para descansar. Era difícil dizer quanto já havíamos subido. Depois de várias horas, encontramos uma espécie de porta. Era amarelo-alaranjada e tinha a superfície irregular. Um talo tosco de madeira estava no ponto exato em que deveria haver uma maçaneta. Encordoei meu arco e encaixei uma flecha enquanto Kishan deixava seu chakram na posição de lançamento. Ele se postou de um lado, pegou a maçaneta e empurrou a porta lentamente enquanto eu deslizava um pé para dentro e esquadrinhava o lugar à procura de atacantes. Não havia ninguém à vista.
Tratava-se de uma sala cheia de prateleiras que tinham sido entalhadas nas paredes da árvore. Cobrindo as prateleiras e o chão, havia centenas de cabaças, de todos os tipos e tamanhos. Algumas eram sólidas, outras, ocas. Muitas tinham belos e elaborados desenhos e eram iluminadas por velas que bruxuleavam em seu interior.
Algumas abóboras apresentavam entalhes muito superiores a qualquer coisa que eu já tivesse visto no Halloween. Passamos por prateleira após prateleira, admirando os desenhos. Algumas eram pintadas e
envernizadas até cintilarem como pedras preciosas entalhadas. Kishan estendeu a mão para tocar uma delas.
- Espere! Não toque em nada ainda. Esta é uma das provas. Precisamos descobrir o que fazer. Espere um segundo enquanto consulto as anotações do Sr. Kadam.
O Sr. Kadam nos fornecera três páginas de informações sobre cabaças. Kishan e eu nos sentamos no chão de madeira polida e as lemos.
- Aqui tem muita coisa sobre onde certas cabaças se originaram e fatos sobre como marinheiros procuravam sementes de determinadas espécies para cultivá-las. Existe uma narrativa mitológica sobre barcos feitos de cabaças. Também não acredito que se trate disso.
Kishan riu.
- E o que me diz desta aqui? Sobre cabaças e fertilidade? Quer experimentar, Kells? Estou disposto a fazer o sacrifício, se você estiver.
Li o mito e encarei Kishan de olhos estreitados enquanto ele ria.
- Nos seus sonhos. Essa decididamente eu passo. - Virei a página. - Aqui diz que atirar uma cabaça na água evoca monstros e serpentes marinhos. Hum, não precisamos de nenhum desses.
- E quanto a este mito chinês aqui? Diz que um garoto se aproximando da idade adulta devia escolher a cabaça que guiaria sua vida. Cada uma delas continha algo diferente. Algumas eram perigosas; outras, não. Uma inclusive guardava o elixir da juventude eterna. Pode ser que tenhamos sorte. Talvez seja melhor escolher logo uma.
- Acho que escolher uma provavelmente é a coisa certa a fazer, mas como saber qual delas?
- Não sei. Precisamos tentar. Eu começo. Mantenha a mira no que quer que saia dela.
Kishan pegou uma cabaça simples em formato de sino. Nada aconteceu. Ele a sacudiu, jogou-a para o alto e a bateu contra a parede... nada.
- Vou tentar quebrá-la.
Ele a atirou contra o chão e uma pera saiu rolando dela. Pegou a fruta e deu uma mordida antes que eu pudesse avisá-lo de que talvez houvesse algo de errado com ela. Quando Kishan finalmente prestou atenção em
mim, a fruta já estava quase no fim. Ele desdenhou de meu aviso e disse que o sabor era bom. A cabaça quebrada se dissolveu e desapareceu no chão.
- Ok, minha vez.
Peguei uma cabaça redonda pintada com flores, ergui-a acima da cabeça e a atirei ao chão. Uma serpente negra e sibilante surgiu dos pedaços quebrados e imediatamente se enroscou para dar o bote em minha perna. Antes que eu pudesse levantar a mão, ouvi um zumbido metálico. O chakram de Kishan cravou-se no piso de madeira aos meus pés, decepando a cabeça da serpente. Seu corpo e a cabaça partida se dissolveram no chão.
- Sua vez. Talvez seja uma boa idéia nos ater às cabaças não decoradas.
Ele escolheu uma em forma de garrafa, que apresentou algo que parecia
leite. Adverti Kishan para que não o bebesse, pois podia não ser o que parecia. Ele concordou, mas descobrimos que, se não o bebêssemos, a cabaça seguinte não se partiria e a quebrada com o leite dentro não se dissolveria. Ele bebeu o leite e continuamos.
Escolhi uma cabaça branca imensa e obtive luar.
Uma pequena e verrugosa produziu areia.
Uma alta e estreita criou uma linda canção.
Uma cabaça cinza e gorda, que parecia um golfinho, jogou água do mar na perna de Kishan.
Minha escolha seguinte foi uma com formato de colher. Quando a quebrei, uma névoa negra subiu e veio em minha direção. Eu corri, mas ela me seguiu, dirigindo-se para minha boca e meu nariz. Não havia nada que Kishan pudesse fazer. Eu a inspirei e comecei a tossir. Minha visão nublou. Senti-me tonta e cambaleei. Kishan me segurou.
- Kelsey! Você está pálida! Como se sente?
- Nada bem. Acho que o conteúdo dessa era doença.
- Aqui. Deite-se e descanse. Talvez eu consiga encontrar uma cura.
Ele começou a quebrar as cabaças freneticamente enquanto eu observava. Estremeci e comecei a suar, um escorpião saiu de dentro da próxima e Kishan o esmagou com a bota. Em seguida, encontrou uma
cabaça com vento, outra com peixe e uma que continha uma pequena estrela que brilhava tanto que tivemos que fechar os olhos até que a luz diminuísse e ela desaparecesse no chão.
Todas as vezes em que encontrava um líquido, Kishan corria para mim e me fazia provar. Bebi néctar de frutas, água comum e um tipo de chocolate quente escuro e amargo. Recusei-me a beber um que cheirava a álcool, mas o esfreguei em minha pele para que a cabaça desaparecesse.
As três seguintes continham nuvens, uma tarântula gigante, que ele chutou para o canto da sala, e um rubi, que ele guardou no bolso. Minha visão, a essa altura, estava escurecendo e Kishan ia ficando desesperado. A próxima cabaça que ele escolheu tinha uma espécie de pílula. Debatemos se eu devia tomá-la ou não. Eu estava tonta e fraca, febril e coberta de suor. Era difícil respirar e meu coração estava disparado. Entrei em pânico, certa de que, se não encontrássemos algo logo, eu morreria. Mastiguei a pílula e a engoli. Tinha gosto de vitamina para crianças e não me fez melhorar.
Duas outras cabaças continham queijo e um anel. Ele comeu o queijo e colocou o anel no dedo. A seguinte tinha um líquido branco. Kishan estava nervoso. Até onde sabíamos, podia ser um veneno que me mataria imediatamente ou podia ser minha cura ou o elixir da eterna juventude. Acenei para que ele se aproximasse.
- Vou beber. Me ajude.
Ele ergueu minha cabeça e inclinou a cabaça, o conteúdo derramando-se entre meus lábios secos e rachados. O líquido escorreu pela minha garganta enquanto eu me esforçava para engolir. Imediatamente comecei a sentir a força retornar aos meus membros.
- Mais.
Ele segurava a cabaça com firmeza enquanto eu bebia. O sabor era delicioso e me deu força suficiente para pegar a cabaça dele. Envolvendo a forma arredondada com ambas as mãos, engoli o restante do líquido em dois grandes goles. Sentia-me agora mais forte do que quando tínhamos chegado ali.
- Você parece bem melhor, Kells. Como está se sentindo?
Eu me levantei.
- Estou me sentindo ótima! Forte. Invencível até.
Ele soltou um suspiro trêmulo.
- Ótimo.
Olhei ao redor com a visão clara. Quase mais do que clara.
- Ei. O que é aquilo?
Empurrei algumas cabaças, tirando-as do caminho, e agarrei a alça de uma cabaça grande e redonda com uma longa haste no topo.
- Tem um tigre entalhado no lado externo. Tente esta, Kishan.
Ele a pegou de minhas mãos e a atirou contra o chão. Lá dentro havia um papel dobrado.
- É como um biscoito da sorte! O que ele diz?
- Diz: O recipiente oculto mostra o caminho.
- O recipiente oculto? Talvez se refira a uma cabaça oculta.
- É muito fácil ocultar uma cabaça numa sala cheia de cabaças, Kells.
- É mesmo. Vamos procurar cabaças que estejam fora do caminho, no fundo da sala ou enfiadas nos cantos.
Recolhemos um grupo de cabaças menores. Kishan tinha cerca de 10 e eu, 4. Ele abriu seu grupo primeiro e obtivemos arroz, uma borboleta, uma pimenta-malagueta, neve, uma pena, um lírio, um chumaço de algodão, um camundongo, outra serpente da qual ele se livrou - poderia ser inofensiva, mas melhor prevenir que remediar - e uma minhoca.
Desapontados, nos voltamos para o meu grupo. A primeira continha linha, a segunda, sons de tambor, a terceira, aroma de baunilha e a quarta, que tinha o formato de uma maçã pequena, não tinha nada. Esperamos algum tempo e começamos a ficar nervosos, pensando que um de nós ia ficar doente outra vez. A cabaça quebrada desapareceu como as outras, o que significava que alguma coisa tinha acontecido.
- Será só isso? Está vendo alguma coisa? - perguntei.
- Não. Espere. Estou ouvindo algo.
Depois de um minuto, eu disse:
- E então? O que é?
- Tem alguma coisa diferente nesta sala, mas não sei dizer o que é. Espere. O ar! Ele está se movendo. Consegue sentir?
- Não.
- Espere um instante.
Kishan percorreu lentamente a sala, examinando prateleiras, paredes e cabaças. Ele pousou a mão numa das paredes e se aproximou dela, esbarrando em cabaças que rolaram e mudaram de lugar.
- Tem ar entrando por aqui. Acho que é uma porta. Me ajude a remover estas cabaças.
Limpamos toda aquela parte da parede, deixando as prateleiras nuas.
- Não consigo mover esta aqui. Está presa.
Era uma cabaça minúscula, que parecia crescer da parede. Puxei e empurrei, mas ela não cedeu. Kishan recuou um passo para ter uma visão melhor e começou a rir. Eu ainda estava puxando a cabaça pequenina.
- O que foi? Por que você está rindo?
- Afaste-se um segundo, Kells.
Saí do caminho e ele pôs a mão sobre a cabaça.
- Não sei o que você está tentando provar. Ela não se mexe.
Kishan girou e empurrou.
- É uma maçaneta, Kelsey.
Ele riu e abriu a seção da parede que agora era obviamente uma porta. Do outro lado, encontramos mais degraus que levavam a um nível mais alto no interior da árvore.
Ele estendeu a mão.
- Vamos?
Após algumas horas de subida, Kishan pediu que fizéssemos uma pausa.
- Vamos parar e comer alguma coisa, Kells. Não consigo acompanhá-la. Eu me pergunto quanto tempo o efeito de sua bebida energética especial vai durar.
Parei uns 10 passos à frente dele e esperei que me alcançasse.
- Agora você sabe como me sinto tentando acompanhar o ritmo de vocês, tigres, o tempo todo.
Ele grunhiu e tirou a mochila dos ombros. Então nos acomodamos confortavelmente num degrau amplo. Ele abriu o zíper da mochila, tirou o Fruto Dourado e o girou entre as mãos. Depois de pensar por um momento, sorriu e falou em sua língua nativa. Uma grande travessa tremeluziu e se materializou. O vapor que subia dos vegetais tinha um aroma familiar. Franzi o nariz.
- Curry? Argh. Minha vez.
Pedi batata gratinada, tênder com calda de cereja, vagem com amêndoas e pães com manteiga e mel. Quando meu jantar surgiu, Kishan olhou meu prato.
- Que tal dividirmos?
- Não, obrigada. Não sou fã de curry.
Ele terminou rapidamente sua refeição e ficou tentando me fazer olhar para monstros imaginários para que pudesse roubar bocados do meu prato. Terminei dando metade de minha comida para ele.
Mais uma hora subindo degraus e o efeito do meu energético se esgotou. Eu me senti exausta. Kishan me deixou descansar enquanto procurava a casa seguinte. Quando voltou, eu estava escrevendo no diário.
- Encontrei a próxima porta, Kells. Venha. Talvez seja melhor descansar lá. Os empoeirados degraus circulares no interior do tronco da árvore do mundo nos levaram a um chalé coberto com hera espessa e flores. Lá de dentro, ouvia-se o tilintar de risadas.
- Tem gente lá dentro - sussurrei. - Vamos ter cuidado.
Ele assentiu e desamarrou o chakram preso ao cinto enquanto eu encaixava uma flecha no arco.
- Pronta?
- Pronta - sussurrei.
Ele abriu a porta cuidadosamente e fomos recebidos pelas mulheres mais lindas que eu já tinha visto. Elas ignoraram nossas armas e nos deram boas-vindas à sua casa.
Uma jovem belíssima, com cabelos castanhos compridos e ondulados, olhos verdes, pele cor de marfim e lábios cor de cereja, vestida num cintilante vestido rosa pálido, pegou o braço de Kishan.
- Pobrezinhos. Devem estar cansados depois dessa viagem. Entrem. Vocês podem tomar um banho e descansar.
- Um banho me parece ótimo - disse Kishan, extasiado.
Ela não prestou a menor atenção em mim. Seus olhos estavam presos aos de Kishan. Ela acariciou-lhe o braço, sussurrando algo sobre travesseiros macios, água quente e refrescos. Outra mulher se juntou à primeira. Era loura, tinha olhos azuis e usava um vestido prata com brilhos.
- Isso, venha - chamou ela. - Você encontrará conforto aqui. Por favor, siga-nos.
Elas já levavam Kishan dali quando protestei. Kishan se virou e um homem se aproximou. Louro e de olhos azuis, com quase dois metros de altura, exibindo o tórax nu, bronzeado e musculoso, dirigiu toda sua atenção a mim.
- Olá. Bem-vinda ao nosso humilde lar. Minhas irmãs e eu raramente temos visitas. Adoraríamos que vocês ficassem conosco algum tempo.
Ele sorriu para mim e eu corei intensamente.
- É... é muita generosidade sua - gaguejei.
Kishan fechou a cara para o rapaz, mas as garotas jogaram seu charme piscando os longos cílios e o distraíram novamente.
- Kishan, não acho que...
Outro homem surgiu de trás de uma cortina. Este era ainda mais bonitoque o primeiro. Tinha cabelos e olhos castanhos e fiquei fascinada por sua boca. Ele fez cara de triste e disse:
- Tem certeza de que não podem ficar conosco? Nem um pouquinho? Adoraríamos ter companhia. - Ele suspirou dramaticamente. - A única coisa que temos para nos manter ocupados é nossa coleção de livros.
- Vocês têm uma coleção de livros?
- Sim. - Ele sorriu e me ofereceu o braço. - Posso mostrá-la a você?
Kishan havia saído com as mulheres e resolvi olhar a coleção de livros.
Racionalizei que, se os rapazes tentassem alguma coisa, eu poderia atingi-los com raios.
Eles de fato tinham uma coleção de livros, que contava com muitos dos títulos que eu amava. Na verdade, observando mais de perto, descobri que eu conhecia todos. Eles me ofereceram petiscos.
- Aqui, prove uma dessas tortas. São incríveis. Nossas irmãs são excelentes cozinheiras.
- Não, obrigada. Kishan e eu acabamos de comer.
- Ah, então talvez você queira se refrescar...
- Vocês têm um banheiro?
- Temos. Fica atrás daquela cortina ali. Também tem um chuveiro. Puxe o ramo comprido e a água cairá das folhas da árvore. Vamos providenciar refrescos e um lugar confortável para você descansar.
- Obrigada.
Estávamos obviamente na Casa das Sereias. O banheiro era de verdade, felizmente, e aproveitei a oportunidade para tomar um banho e trocar de roupa. Quando saí do banho, encontrei um longo vestido dourado pendurado para mim. Era semelhante aos vestidos que as duas mulheres usavam. Minhas roupas estavam rasgadas e ensangüentadas, então vesti o traje dourado e pendurei minhas roupas de fada para ver se elas iriam limpá-las mesmo na árvore do mundo.
Em silêncio, li as notas do Sr. Kadam sobre sereias. Passei os olhos pelas sereias da Odisséia e pela história de Jasão e os Argonautas. Eu já conhecia essas narrativas, mas ele também havia incluído informações sobre ninfas do mar e tritões, os equivalentes masculinos das sereias.
Essas pessoas provavelmente estavam mais para ninfas das árvores do que para ninfas da água. Elas mantinham a beleza até morrerem. Podiam flutuar. Passar por pequenos buracos. Hum, essa é nova. Vida extremamente longa... às vezes invisíveis... momentos especiais são meio-dia e meia-noite. A meia-noite deve estar se aproximando. Elas podiam ser perigosas, causar loucura, síncope, letargia e paixão obsessiva.
Uma batida suave na porta me arrancou do meu estudo.
-Oi?
- Está pronta para sair, senhorita?
- Quase.
Olhei rapidamente o restante das anotações e guardei os papéis na mochila. Os dois homens postavam-se diante da porta e me fitavam como um par de cobras observando o ninho de um pássaro.
- Com licença.
Passei rapidamente entre eles, caminhei até o outro lado da sala e me sentei no que parecia um pufe gigante coberto por uma pele macia. Os homens me imitaram, sentando-se um de cada lado.
Um deles cutucou meu ombro.
- Você está muito tensa. Deite-se e relaxe. Esse assento se amolda ao seu corpo.
Eles não aceitariam não como resposta. O de cabelos escuros me empurrou para trás delicada mas insistentemente.
- Sim, é confortável. Obrigada. Onde está Kishan?
- Quem é Kishan?
- O homem com quem cheguei.
- Não percebi que havia um homem.
- Seria impossível perceber qualquer coisa depois que você entrou - disse o outro homem.
- Isso mesmo. Concordo. Você é linda demais - afirmou o irmão.
Um deles começou a acariciar meu braço enquanto o outro massageava meus ombros.
Eles indicaram uma mesa à nossa frente repleta de guloseimas.
- Quer experimentar uma fruta cristalizada? É deliciosa.
- Não. Obrigada. Ainda não estou com fome.
O homem que massageava meus ombros começou a beijar minha nuca.
- Você tem uma pele muito delicada.
Tentei me sentar, mas ele me pressionou de volta no pufe.
- Relaxe. Estamos aqui para satisfazer você.
O outro me entregou uma taça alta com um líquido vermelho e borbulhante.
- Que tal um suco de amora espumante?
Então ele pegou minha outra mão e começou a beijar meus dedos. Uma penumbra toldou minha visão. Fechei os olhos por um momento e meus sentidos se concentraram nos lábios beijando meu pescoço e nas mãos quentes que massageavam meus ombros. O prazer enredou-se pelo meu pescoço e eu, ávida, queria mais. Um dos homens beijou minha boca. Aquilo não parecia certo. Alguma coisa estava errada.
- Não - murmurei fracamente e tentei afastá-los.
Mas eles não me davam trégua. Alguma coisa arranhava o fundo da minha mente. Algo a que eu tentava me agarrar. Algo que me ajudaria a me concentrar. A massagem nos ombros estava tão boa... Ele passou para o pescoço, movendo o polegar em pequenos círculos. Foi quando aquilo de que eu estava tentando me lembrar emergiu em minha consciência.
Ren. Ele havia massageado meu pescoço daquela maneira. Visualizei seu rosto. A princípio, ele me apareceu fora de foco, mas comecei a listar mentalmente tudo aquilo que eu amava nele e a imagem se tornou mais nítida. Pensei em seu cabelo, nos olhos, em como ele segurava minha mão o tempo todo. Pensei nele com a cabeça deitada sobre meu colo enquanto eu lia para ele, em seu ciúme, sua paixão por panquecas de manteiga de amendoim e no fato de ele ter escolhido sorvete de pêssego com creme porque fazia com que se lembrasse de mim. Em minha mente, eu o ouvi dizer: "Mein tumse mohabbat karta hoon, iadala."
- Mujhe tumse pyarhai, Ren - sussurrei.
Alguma coisa estalou em minha cabeça e eu me sentei abruptamente. Os homens fizeram beicinho enquanto tentavam me puxar de volta. Então começaram a cantar em voz suave. Minha visão foi começando a perder o foco outra vez, então cantarolei a canção que Ren escreveu para mim e recitei um de seus poemas. Levantei-me. Os homens agora insistiam que eu comesse alguma coisa ou bebesse um suco. Recusei. Eles me levaram até uma cama macia. Eu me mantive firme enquanto eles me puxavam, imploravam e me bajulavam. Elogiaram meus
cabelos, meus olhos e meu lindo vestido e choraram, dizendo que eu fora sua única visitante em milênios e que só queriam passar algum tempo em minha companhia.
Recusando outra vez, insisti que precisávamos retomar nossa jornada. Eles teimaram, pegaram minha mão e me puxaram na direção da cama. Afastei-me deles e agarrei meu arco. Rapidamente, ajustei a corda e encaixei uma flecha, então a apontei para o peito masculino mais próximo, amea- çando-os. Os dois homens recuaram e um deles ergueu a mão, num gesto de derrota. Eles se comunicaram silenciosamente e então sacudiram a cabeça, com tristeza.
- Poderíamos fazê-la feliz. Você esqueceria todos os seus problemas. Nós iríamos lhe dar amor.
Sacudi a cabeça.
- Eu amo outro.
- Você nos teria estimado com o tempo. Possuímos a habilidade de tirar todos os pensamentos e substituí-los apenas por sentimentos de paixão e prazer.
- Aposto que sim - repliquei, com sarcasmo.
- Somos solitários. Nossa última companheira morreu há vários séculos. Nós a amávamos.
- Sim, nós a amávamos muito - confirmou o outro. - Ela nunca soube o que era sofrimento nem por um só dia de sua vida conosco.
- Mas somos imortais e a vida dela passou rápido demais.
- Sim. Precisamos encontrar uma substituta.
- Sinto muito, garotos, mas eu não quero isso. Não tenho o menor interesse em ser sua - engoli em seco - escrava do amor. E, além disso, não desejo esquecer coisa alguma.
Eles me estudaram por um longo momento.
- Que seja então. Você está livre para ir.
- E quanto a Kishan?
- Ele deve fazer sua própria escolha.
Com isso, eles se transformaram numa fina coluna de fumaça, entraram num nó da parede da árvore e desapareceram. Voltei ao banheiro para
pegar minhas roupas de fada e fiquei encantada ao ver que elas haviam sido limpas e consertadas.
Apanhando a mochila, voltei à sala. Em vez do quarto sedutor, encontrei agora uma sala simples e vazia, com uma porta. Eu a abri, saí da casa e acabei de volta na escada circular que espiralava no interior do tronco da árvore do mundo. A porta se fechou atrás de mim. Estava sozinha.
Tornei a vestir a calça e a camisa que as fadas haviam tecido para nós e me perguntei quando ou se Kishan sairia dali. Seria muito melhor dormir naquela cama macia do que nos degraus duros de madeira. Mas, por outro lado, se eu tivesse ficado naquela cama, creio que não conseguiria dormir muito.
Agradeci mentalmente a Ren por me salvar das ninfas das árvores e dos homens-sereias ou o que quer que fossem. Completamente exausta, me enrasquei no saco de dormir e adormeci. No meio da noite, Kishan cutucou meu ombro.
-Ei.
Apoiei-me no cotovelo e bocejei.
- Kishan? Você ficou muito tempo lá.
- É. Não foi exatamente fácil me livrar daquelas mulheres.
- Sei o que quer dizer. Precisei ameaçar atirar naqueles caras para eles me deixarem em paz. Na verdade estou surpresa que tenha conseguido sair. Como foi que eliminou a influência delas sobre sua mente?
- Mais tarde eu falo sobre isso. Estou cansado, Kells.
- Está bem. Aqui, pegue minha colcha. Não vou sugerir que a gente divida o saco de dormir. Chega de homens por hoje.
- Entendo perfeitamente. Obrigado. Boa noite, Kells.
Depois de acordar, comer e arrumar nossas coisas, continuamos subindo os degraus da árvore do mundo. Uma luz brilhante cintilava adiante. Surgiu um buraco no tronco e passamos para o lado de fora. Era bom ver a luz do sol, mas os degraus agora não eram mais cercados. Agarrei-me ao tronco, recusando-me a olhar para baixo.
Kishan, por outro lado, estava fascinado pela altura em que nos encontrávamos. Ele não conseguia ver o chão, apesar de sua excepcional visão de tigre. Galhos gigantescos se estendiam da árvore. Eram tão grandes que poderíamos ter caminhado por um deles lado a lado sem perigo de cair. Kishan corria ao longo de alguns deles, de tempos em tempos, para explorar. Eu me mantive o mais próximo possível do tronco.
Depois de várias horas em nosso ritmo lento, parei diante de um buraco escuro que levava de volta ao interior do tronco. Esperei Kishan voltar de sua última exploração para entrarmos juntos ali. Essa parte do tronco era mais escura e úmida. A água gotejava lá dentro, caindo de algum ponto no alto. As paredes mudaram de lisas para lascadas e descascadas. Nossas vozes produziam eco. Parecia haver uma grande fenda na árvore, como se ela tivesse sido escavada.
- É como se essa parte da árvore estivesse morta - eu disse -, como se tivesse sido danificada.
- Verdade. A madeira sob nossos pés está apodrecendo. Mantenha-se o mais perto possível da parede do tronco.
Mais alguns minutos se passaram e os degraus cessaram sob um buraco negro grande o suficiente para que passássemos por ele rastejando.
- Não tem mais nenhum lugar para ir. Devemos entrar?
- Vai ser bem apertado.
- Então me deixe ir primeiro, dar uma olhada - eu me ofereci. - Se estiver bloqueado à frente, não tem necessidade de você passar por aqui. Eu volto e tentamos encontrar outro caminho para o topo.
Ele concordou e trocou a lanterna pela mochila. Kishan me levantou e eu me enfiei no buraco, engatinhando até a passagem começar a se estreitar e se tornar mais alta. Naquele ponto, a única maneira de prosseguir era ficar de pé e andar de lado, espremida. Em seguida, a passagem tornou-se mais baixa e mais uma vez me pus de joelhos.
A passagem parecia de rocha. Uma grande pedra bloqueava a metade superior da passagem. Eu me deitei de bruços, me espremi por baixo dela e descobri que a passagem se abria numa grande caverna. Parecia
que eu havia percorrido uns 30 metros, mas provavelmente não chegava nem a 10. Imaginei que Kishan passaria ali por muito pouco.
- Tente vir - gritei.
Enquanto esperava por ele, percebi que o piso parecia esponjoso. Provavelmente madeira apodrecendo. As paredes eram cobertas por algo que parecia uma crosta de mostarda escura. Ouvi uma ave batendo as asas lá em cima e um grito suave. Ah, deve haver um ninho ali. Os sons ricocheteavam dentro da árvore, tornando-se progressivamente mais altos e mais violentos.
- Kishan? Depressa!
Ergui a lanterna, apavorada. Não conseguia ver nada, mas o ar certamente estava se movendo. Parecia que bandos de aves estavam batendo uns contra os outros na escuridão. Alguma coisa roçou em meu braço e voou de repente. Se era uma ave, era das grandes.
- Kishan!
- Estou quase aí.
Eu podia ouvi-lo deslizando de barriga. Estava quase me alcançando.
Alguma coisa bateu as asas, vindo em minha direção. Talvez sejam mariposas gigantes. Desliguei a lanterna para deter as criaturas voadoras e ouvi Kishan se aproximar.
Primeiro a mochila e depois sua cabeça emergiram. Acima de mim, algo grande me assustou, batendo as asas freneticamente. Garras pontudas, semelhantes a ganchos, envolveram meus ombros e os seguraram. Eu gritei. Elas apertaram e, com um violento bater de asas e um grito alto e agudo, fui erguida no ar.
Kishan rastejou rapidamente para fora do buraco e agarrou minha perna, mas a criatura era forte e me arrancou de suas mãos. Eu o ouvi gritar:
- Kelsey!
Gritei de volta e minha voz ecoou nas paredes. Eu estava bem no alto, mas ainda podia distingui-lo vagamente lá embaixo. A criatura logo foi cercada por outras de sua espécie e eu me vi envolvida numa massa tremulante e ruidosa de corpos quentes. Às vezes, sentia pelo roçar
minha pele, outras vezes uma membrana coriácea e, de quando em quando, garras afiadas.
A criatura desacelerou, pairou e então me soltou. Antes que eu pudesse gritar, aterrissei de costas com um ruído surdo. Apontei a lanterna, que de alguma forma eu conseguira manter na mão durante o súbito vôo. Temendo ver onde estava, mas determinada a descobrir, apertei o botão e olhei.
A princípio, não consegui saber para onde estava olhando. Tudo que eu podia ver eram massas de corpos marrons e pretos. Em seguida, percebi que eram morcegos. Morcegos gigantes. Eu estava de pé numa saliência com uma queda de dezenas de metros. Rapidamente recuei e me colei à parede.
Kishan gritou meu nome e tentou ir na minha direção.
- Eu estou bem! - gritei. - Eles não me machucaram! Estou aqui em cima, numa saliência!
- Segure-se, Kells! Eu estou indo!
Os morcegos pendiam de cabeça para baixo, observando o progresso de Kishan com olhos negros piscantes. A massa de corpos estava em constante movimento. Alguns andavam por cima dos companheiros até encontrar uma posição melhor para se pendurar. Outros batiam as asas antes de fechá-las coladas ao corpo. Alguns se balançavam para a frente e para trás. Outros dormiam.
Eram ruidosos. Tagarelavam com cliques e estalidos enquanto se penduravam e nos olhavam.
Kishan avançou por algum tempo, mas se viu sem saída e teve que recuar. Ele tentou várias vezes escalar até onde eu estava, mas era sempre frustrado. Depois da sexta tentativa, ele parou perto do buraco e gritou para mim:
- É impossível, Kells. Não consigo subir aí!
Eu tinha acabado de abrir a boca para responder, quando um morcego gigante falou.
- Iiiiiimpossíííível eleeee peeeensa - disse o animal, com estalidos, e bateu as asas. - Eééé possíííível, Tiiigreee.
- Você sabe que ele é um tigre? - perguntei ao morcego.
- Nóóóós o veeeeemos. Ouviiiimos. O espíííírito deleeeee está partiiiiido.
- O espírito dele está partido? O que quer dizer com isso?
- Queeeer diiiiizer que eleeee supoooorta o sofrimeeeento. Eleeee cuuuuura o própriiiiiiio remoooorso... eleeee resgaaata vocêêêê.
- Se ele curar o próprio remorso, ele vai me resgatar? Como ele pode fazer isso?
- Eleeeee éééé como nóóóós. Metaaaade hooooomem e metaaaade tiiiiiigre. Nóóóós sooooomos metaaaaade ave e metaaaade mamíííífero. As metaaaaaaades deeeevem se uniiiiir. Eleeeee preciiiiisa abraaaaaçar o tiiiiiiiigre.
- Como suas duas metades podem se unir?
- Eleeeee preciiiiisa aprendeeeeeeer.
Eu estava prestes a fazer outra pergunta quando vários morcegos saltaram no ar e voaram para diferentes lugares na caverna, que se assemelhava a um útero. Estalos rítmicos, que percebi serem seu sonar, atravessaram o ar e bateram nas paredes. Eu podia até sentir as vibrações em minha pele. Logo pequenas pedras embutidas nas paredes começaram a brilhar. Quanto mais tempo os morcegos mantinham o barulho, mais fortes se tornavam as luzes. Quando os morcegos pararam, a caverna estava bem iluminada.
- Aaaas luuuuzes vão seeee apaaaaagar quaaaando o teeeempo deeeele acaaaaabar. Eleeeee preciiiiisa ajuuuuudar vocêêêê antes diiiiiisso. Deeeeeve uuuusar suuuuua metaaaade hooooomem e suuuuuua metaaaade tiiiiiiigre. Diiiiiga iiiiisso a eleeeee.
- Certo. - Então berrei para Kishan lá embaixo: - Os morcegos dizem que você tem que usar suas duas metades para me alcançar antes que as luzes se apaguem novamente. Deve abraçar sua metade tigre.
Agora que as luzes estavam acesas, os perigos do caminho tornaram-se óbvios. Uma série de formações semelhantes a estalagmites, mas com a extremidade plana, erguia-se na caverna. Eram muito distantes entre si para que um humano saltasse, mas um tigre talvez conseguisse.
Kishan olhou para cima e atirou o chakram no ar. Enquanto a arma subia, Kishan se transformou no tigre negro e saltou. Ele era rápido. Prendi a respiração à medida que ele saltava velozmente de uma formação para a outra, sem nem mesmo parar para se equilibrar. Arquejei de pavor, sabendo que cada salto poderia significar sua morte. Quando chegou à última, exagerou ligeiramente e agarrou a madeira esponjosa com as garras, girando a cauda em busca de equilíbrio.
Ele mudou para a forma humana, pegou o chakram e o lançou novamente para o alto. O local em que se encontrava era minúsculo, mal dava para seus pés. Não havia nenhuma saliência para onde saltar dali. Nada era próximo o bastante, nem mesmo para um tigre. Ele olhou ao redor por um momento, calculando o próximo passo. De ponta-cabeça, os morcegos piscavam e o olhavam com olhos arregalados de seus poleiros. A iluminação começou a diminuir. Quanto mais escuro ficasse, mais perigosa seria sua subida.
Eu sabia que Kishan podia ver no escuro melhor que eu, mas ainda assim o caminho era muito traiçoeiro. Ele tomou uma decisão: agachou-se, transformou-se no tigre negro e saltou no ar. Mas não havia nenhum lugar onde pudesse aterrissar.
- Kishan! Não! - gritei.
Em pleno ar ele mudou para a forma humana e caiu. Inclinei-me de braços para olhar por sobre a borda de minha pequena plataforma e voltei a respirar quando o vi pendurado num longo ramo. Ele vinha subindo lentamente por ele, colocando uma mão acima da outra, mas ainda estava muito distante. Então pegou o chakram, segurou a perigosa arma nos dentes e oscilou para a frente e para trás até conseguir agarrar um pedaço protuberante de madeira na lateral da árvore. Subiu mais um pouco e descansou por um minuto num minúsculo afloramento. Depois de avaliar a situação, agarrou um novo ramo, saltou e se balançou para a frente novamente.
Kishan fez uma série de manobras acrobáticas. Vi o homem se metamorfosear em tigre e vice-versa pelo menos três vezes. A certa altura, ele atirou o chakram, que girou na caverna, partiu um ramo e
voltou voando para uma pata de tigre que de repente se transformou em mão humana e o pegou. Com o chakram na boca novamente, ele se balançou abaixo de mim, cruzando a caverna, e tomou impulso para o outro lado a fim de me alcançar. Agarrou o galho que cortara para completar a distância. Quando vinha em minha direção, vi que o galho não era comprido o bastante e percebi que ele aterrissaria a pelo menos três metros de mim.
Eu queria fechar os olhos, mas sentia que tinha que olhar enquanto Kishan arriscava a vida para me alcançar. Kishan se balançou para trás e tomou impulso novamente. Dessa vez, quando seus pés tocaram a parede, ele atirou o chakram mais uma vez. Então agarrou o ramo com os dentes, metamorfoseou-se rapidamente no tigre negro e tomou impulso com suas poderosas patas traseiras. Em seguida, transformou-se em homem, foi até onde o ramo podia levá-lo e então o soltou. Girando no ar, mudou para a forma de tigre. Seu corpo negro se esticou em direção à minha plataforma. Enquanto suas garras afundavam na madeira perto dos meus pés e ele pendia suspenso no ar, o chakram cravou-se na madeira a alguns centímetros da minha mão. As garras de tigre se transformaram em mãos.
- Kishan!
Agarrei as costas de sua camisa e puxei o mais forte que pude. Ele rolou para a saliência de madeira e ficou ali deitado, arquejando, durante vários minutos. A luz havia diminuído ainda mais.
- Estáááá veeeendo? Eleeeee conseguiiiiiiiiu.
Seus braços tremiam e eu sequei as lágrimas de meu rosto.
- Sim. Conseguiu - eu disse baixinho.
Quando Kishan se sentou, agarrei-o num forte abraço e beijei seu rosto. Ele me apertou por um momento antes de me soltar, relutante. Então tirou o cabelo que me cobria os olhos.
- Lamento não ter trazido a mochila - desculpou-se.
- Está tudo bem. Não havia como trazê-la com tudo o que tinha para fazer.
- Nóóóós vaaaaamos pegáááá-la.
- Que pena que eles não puderam trazer você também - murmurei, com sarcasmo.
- Tíííínhamos que tessssstáááá-lo. Eleeee se saiiiiiu muuuuuuito beeeeeeem.
Um dos morcegos desceu para buscar a mochila. Depois a largou em minhas mãos estendidas.
- Obrigada. - Toquei o braço de Kishan. - Você está bem?
- Estou. - Ele abriu um sorriso malicioso, apesar da exaustão. - Na verdade, posso ser convencido a fazer tudo de novo em troca de um beijo de verdade.
Soquei-lhe o braço de leve.
- Acho que um beijo no rosto foi suficiente, não concorda?
Ele grunhiu, sem expressar sua opinião.
- E agora? Como saímos daqui?
- Nóóós vaaaamos leváááá-los - disse um dos morcegos.
Dois deles se soltaram do teto e despencaram vários metros antes de abrir bruscamente as asas. Então as bateram com força, ganhando altitude, e pairaram acima de nós. Em seguida, desceram devagar. Pés com garras prenderam meus ombros e apertaram.
- Manteeeeenhaaaaam-se imóóóóveis.
Ouvi a advertência e decidi que era um bom conselho a seguir.
Batendo as asas freneticamente, os morcegos levantaram voo, levando- -nos cada vez mais alto na árvore. Não era um passeio divertido, mas eu também reconhecia que isso nos pouparia várias horas de subida. Pensei que fôssemos subir direto, verticalmente, mas, em vez disso, os morcegos circulavam, ascendendo de forma lenta e constante.
Por fim, percebi que o ambiente estava ficando cada vez mais claro. Distingui uma abertura, uma fenda que permitia que manchas alaranjadas de luz do sol se movessem pelas paredes. Uma brisa fresca roçou minha pele e senti o cheiro de árvore viva e nova, em vez do odor podre e bolorento de fungos, amônia e plantas cítricas queimadas. Nossos companheiros alados saíram pela abertura e, batendo as asas ruidosamente, colocaram-nos com cuidado num galho. Os galhos ali
eram mais finos, mas ainda assim fortes o bastante para que nós dois caminhássemos neles.
Com um aviso final de "Fiiiiiquem aleeeertas", eles voaram de volta para a árvore e nos deixaram por nossa própria conta.
- Kells, jogue a mochila para mim. Quero tirar essas roupas pretas e calçar alguma coisa.
Atirei a mochila para ele e me virei para que ele pudesse trocar de roupa.
- É. Que pena que suas roupas de fada se foram. Desapareceram no éter do tigre. Era bom tê-las à mão. Felizmente o Sr. Kadam insistiu que trouxéssemos uns dois calçados para você, por precaução.
- Kells? As roupas de fada estão na bolsa.
- O quê? - Virei-me e deparei com Kishan despido da cintura para cima e desviei os olhos. - Como isso aconteceu?
- Não sei. Magia de fadas, eu acho. Agora vire para lá, a menos que queira me ver trocar de roupa.
Com o rosto vermelho, virei-me rapidamente. O sol estava se pondo e decidimos comer e descansar. Eu estava exausta, mas tinha medo de dormir num galho, ainda que ele tivesse o dobro da largura de um colchão kingsize.
Eu estava sentada, imóvel, no meio do galho.
- Tenho medo de cair.
- Você está cansada. Precisa dormir.
- Não vou conseguir.
- Vou segurá-la. Você não vai cair.
- E se você cair?
- Gatos não caem de árvores, a menos que queiram. Venha cá.
Kishan me envolveu com um braço e apoiou minha cabeça com o outro. Não pensei que fosse conseguir, mas dormi.
Na manhã seguinte, bocejei, esfreguei os olhos sonolentos e dei de cara com Kishan me observando. Ele tinha um braço em torno da minha cintura e minha cabeça descansava em seu outro braço.
- Você não dormiu?
- Cochilei.
- Há quanto tempo você está acordado?
- Uma hora mais ou menos.
- Por que não me acordou?
- Você precisava descansar.
- Ah. Bem, obrigada por não me deixar cair.
- Kells, quero dizer uma coisa.
- O quê? - Apoiei o rosto em meu punho. - O que é?
- Você... você é muito importante para mim.
- Você também é muito importante para mim.
- Não. Não é isso que quero dizer. Quero dizer... eu sinto... e tenho motivos para acreditar... que podemos vir a significar algo um para o outro.
- Você já significa algo para mim.
- Certo, mas não estou falando de amizade.
- Kishan...
- Não existe a menor possibilidade, nem uma chance remota, de que você possa um dia se permitir me amar? Você não sente absolutamente nada por mim?
- É claro que sinto. Mas...
- Mas nada. Se Ren não estivesse na jogada, você consideraria ficar comigo? Eu seria alguém de quem você poderia vir a gostar?
Coloquei a mão em seu rosto.
- Kishan, eu já gosto de você. Eu já o amo.
Ele sorriu e se aproximou um pouco mais. Em minha cabeça, os alarmes começaram a disparar, dei uma guinada para trás e tive a sensação de que estava caindo. Agarrei seu braço como se a minha vida dependesse disso.
Ele me segurou com firmeza e observou o meu rosto. Certamente percebeu meu olhar de pânico e reconheceu que não se devia ao fato de ter perdido o equilíbrio. Kishan reprimiu suas emoções, recostou-se e disse baixinho:
- Eu nunca a deixaria cair, Kells.
Eu não estava lidando muito bem com aquilo e o melhor que pude lhe dizer foi:
- Sei que não.
Ele me soltou e se levantou para providenciar nosso café da manhã.
Os degraus agora eram mais estreitos e contornavam a parte externa da árvore. O tronco também era muito menor. Levávamos apenas 30 minutos para circundá-lo. Após algumas horas apavorantes nos degraus que se estreitavam cada vez mais, deparamos com uma corda trançada que pendia do que parecia ser uma casa na árvore.
Eu queria continuar subindo a escada, mas Kishan quis escalar a corda. Ele concordou em subir pelos degraus por mais meia hora e, se não encontrássemos nada, voltaríamos para a corda. Foi uma discussão inútil no fim das contas porque, não mais do que cinco minutos depois, os degraus tornaram-se apenas protuberâncias nodosas na lateral do tronco da árvore, desaparecendo por completo em seguida.
Quando começávamos a descer até a corda, eu disse:
- Não creio que tenha força suficiente nos braços para subir toda essa altura.
- Não se preocupe com isso. Eu tenho força suficiente para nós dois.
- O que exatamente você tem em mente?
- Vai ver.
Quando chegamos à corda, Kishan pegou a mochila de mim e a pendurou em suas costas. Então fez sinal para que eu me aproximasse.
- O quê?
Ele apontou para o chão diante dele.
- O que você vai me obrigar a fazer?
- Você vai envolver meu pescoço com os braços e depois passá-los pelas alças superiores da mochila.
- Está bem, mas não tente nada engraçado. Eu sinto muitas cócegas.
Kishan levantou meus braços, que envolveram seu pescoço, e me içou do chão, deixando seu rosto muito perto do meu. Ele ergueu uma sobrancelha.
- Se eu tentasse alguma coisa, juro a você que não seria para arrancar uma risada.
Ri de nervosa, no entanto seu rosto estava compenetrado, sério.
- Beleza. Vamos nessa - murmurei.
Senti seus músculos tensos quando Kishan se preparou para saltar, mas ele olhou para baixo, para mim, e seu olhar parou em meus lábios. Ele baixou a cabeça e depositou um beijo quente e suave na lateral da minha boca.
- Kishan.
- Desculpe. Não pude resistir. Você está presa e pelo menos dessa vez não pode fugir de mim. Além disso, sua boca é tentadora. Você devia ficar feliz por eu ter me segurado tanto assim.
- Sei.
Com isso, ele saltou no ar. Deixei escapar um gritinho com seu movimento súbito. Devagar, ele começou a subir pela corda. Foi nos içando aos poucos, pisando em galhos quando podia, às vezes mantendo uma das mãos na corda e a outra num galho, para se equilibrar. O tempo todo Kishan tomava cuidado para não me machucar. Sem contar os solavancos, o fato de oscilar a centenas de metros de altura e de darmos saltos capazes de revirar o estômago, eu me sentia bastante confortável. Na verdade, estava um pouquinho confortável demais ficar apertada junto ao corpo dele.
Parece que homens do tipo Tarzan são o meu fraco.
Quando alcançamos a porta da casa na árvore, Kishan subiu um pouco mais na corda e ficou parado, imóvel, enquanto eu cuidadosamente me soltava dele e pulava para o piso de madeira. Então ele tomou impulso, balançou-se e aterrissou com um floreio. Dava para ver que estava se divertindo.
- Pare de se exibir, pelo amor de Deus. Você percebe a altura em que estamos e que você poderia despencar para uma morte horrível a qualquer momento? Está agindo como se esta fosse uma aventura superdivertida.
- Não faço a menor idéia da altura em que estamos - replicou. - E não dou a mínima. Mas, sim, estou me divertindo. Gosto de ser homem o tempo todo. E gosto de estar com você.
Ele envolveu minha cintura com as mãos e me puxou para perto de si.
- Ei - resmunguei, desembaraçando-me dele o mais rápido possível.
Eu não podia censurá-lo pela parte de ser humano e não sabia o que dizer pela parte de estar comigo, então não falei nada. Sentamo-nos no chão de madeira da casa da árvore e vasculhamos todas as anotações do Sr. Kadam. Lemos todas elas duas vezes e esperamos, mas ainda assim nada aconteceu na casa. Essa era supostamente a casa dos pássaros, mas eu não via nenhum. Talvez estivéssemos no lugar errado. Comecei a me sentir ansiosa.
- Olá? Tem alguém aqui? - minha voz ecoou.
O som de asas batendo e uma grasnada foram a minha resposta. No alto, no canto da casa da árvore, vimos um ninho encoberto. Dois corvos espiavam pela borda, vigiando-nos. Eles se comunicavam com um som seco, um ruído que vinha do fundo de suas gargantas.
Os pássaros deixaram seu poleiro e circularam a casa, fazendo acrobacias no ar. Deram saltos mortais e até voaram de cabeça para baixo. Cada volta deixava-os mais perto de nós. Kishan soltou seu chakram e o ergueu como uma faca.
Pus minha mão sobre a dele e sacudi a cabeça levemente.
- Vamos esperar e ver o que eles fazem. - Voltei-me para eles. - O que vocês querem de nós?
Os pássaros pousaram a alguns metros de onde nos encontrávamos. Um girou a cabeça e me olhou com um olho negro. Uma língua também negra surgiu do bico e provou o ar quando o pássaro se aproximou.
Ouvi uma voz áspera dizer:
- Querendinós?
- Você entende o que falo?
Os dois pássaros moveram a cabeça para cima e para baixo, parando de vez em quando para alisar as penas.
- O que estamos fazendo aqui? Quem são vocês?
Os pássaros, saltitando, aproximaram-se um pouco mais. Um deles disse "Hughhn", e eu podia jurar que o outro disse "Muunann".
- Vocês são Hugin e Munin? - perguntei, incrédula e maravilhada.
As cabeças se moveram para cima e para baixo novamente. Eles saltaram, chegando ainda mais perto.
- Vocês roubaram minha pulseira?
- E o amuleto? - acrescentou Kishan.
As cabeças fizeram que sim.
- Bem, queremos tudo de volta. Vocês podem ficar com os pães de mel. Já devem tê-los comido mesmo.
Os pássaros grasnaram, estalaram os bicos sonoramente e bateram as asas em nossa direção. Penas arrepiadas se inflaram, fazendo os pássaros parecerem bem maiores do que eram.
Cruzei os braços na frente do peito.
- Não vão devolvê-los, hein? Isso é o que veremos.
Os pássaros, hesitantes, dançaram, aproximando-se ainda mais, e um pulou para o meu joelho. Kishan ficou imediatamente preocupado.
Pus a mão em seu braço.
- Se eles são Hugin e Munin, sussurram pensamentos e lembranças nos ouvidos de Odin. Podem querer se empoleirar em nossos ombros e nos falar.
Aparentemente eu estava certa, pois no minuto em que inclinei a cabeça para um lado, um dos pássaros bateu as asas e se acomodou em meu ombro. Aproximou o bico de meu ouvido e esperei ouvi-lo falar. Em vez disso, senti uma curiosa sensação, de algo sendo puxado em mim. O pássaro bicou delicadamente alguma coisa em meu ouvido, mas eu não senti nenhuma dor.
- O que você está fazendo? - perguntei.
- Pensamentosemperrados.
- O quê?
- Pensamentosemperrados.
Senti outro puxão, um estalido e então Hugin se afastou, saltitando, com um fio diáfano, semelhante a uma teia, pendendo do bico.
Cobri a orelha com uma das mãos.
- O que você fez? Roubou parte do meu cérebro? Fiquei com alguma lesão cerebral?
- Pensamentos emperrados!
- O que isso significa?
O fio que pendia de seu bico se dissipou lentamente quando o pássaro estalou o bico. Fiquei ali sentada, observando, boquiaberta de pavor, e me perguntei o que havia sido feito comigo. Será que ele roubou uma lembrança? Vasculhei o cérebro tentando lembrar de todas as coisas importantes. Procurei algum buraco, algum vazio. Se o pássaro tinha mesmo roubado uma lembrança, eu não fazia a menor idéia de qual poderia ser.
Kishan tocou minha mão.
- Você está bem? Como está se sentindo?
- Estou bem. É só...
Minhas palavras morreram quando notei uma mudança em minha cabeça. Alguma coisa estava acontecendo. Algo se arrastava pela superfície da mente, como um rodo sobre vidro ensaboado. Eu podia sentir uma camada de confusão, desordem mental e sujeira, na falta de uma palavra melhor, descascando como pele morta depois de uma queimadura de sol. Era como se preocupações e medos aleatórios e pensamentos melancólicos estivessem antes entupindo os poros da minha consciência.
Por um momento pude ver tudo o que precisava fazer com perfeita clareza. Eu soube que estávamos quase alcançando nossa meta. Soube que haveria protetores ferrenhos guardando o Lenço. Soube o que era o Lenço e o que ele era capaz de fazer. Naquele momento, soube como iríamos usá-lo para salvar Ren.
Munin saltitava de um lado para outro diante de Kishan, esperando a sua vez.
- Está tudo bem, Kishan! Vá em frente. Deixe-o pousar em seu ombro. Não vai machucá-lo. Acredite em mim.
Ele me olhou, duvidando, mas assim mesmo inclinou a cabeça para um lado. Observei, fascinada, Munin bater as asas e pousar no ombro de Kishan. O pássaro manteve as asas abertas, batendo-as preguiçosamente enquanto cumpria sua tarefa no ouvido de Kishan.
- Munin está fazendo a mesma coisa com Kishan? - perguntei a Hugin.
O pássaro sacudiu a cabeça e mudou de um pé para o outro. Então começou a alisar as penas.
- Então qual é a diferença? O que ele vai fazer?
- Espere para ver.
- Espere para ver?
O pássaro assentiu.
Munin saltou para o chão e segurou um fio negro e fino do tamanho aproximado de uma minhoca. Então abriu o bico e o engoliu.
- Hum... isso parece diferente. Kishan? O que aconteceu? Você está bem?
- Estou bem. Ele... ele me mostrou - respondeu Kishan baixinho.
- Mostrou o quê?
- Ele me mostrou minhas lembranças. Em todos os detalhes. Eu vi tudo o que aconteceu. Vi tudo o que se passou comigo e com Yesubai novamente. Vi meus pais, Kadam, Ren... tudo. Mas com uma grande diferença.
Tomei sua mão na minha.
- Que diferença?
- Aquele fio negro que você viu... é difícil explicar, mas é como se o pássaro tivesse tirado um par de óculos de sol muito escuros dos meus olhos. Vi tudo como se passou de fato, como aconteceu de verdade. Não mais apenas na minha percepção. Era como se eu fosse um observador externo.
- A lembrança agora é diferente?
- Não é diferente... é mais clara. Pude ver que Yesubai era uma garota doce que gostava de mim, mas que foi, sim, encorajada a me procurar. Ela não me amava da mesma maneira que eu a amava. Tinha medo do pai. Ela o obedecia em tudo, no entanto também estava desesperada
para sair de casa. No fim, foi o pai quem a matou. Ele a empurrou violentamente... com força suficiente para quebrar-lhe o pescoço.
Eu ouvia atenta, chocada também.
- Como pude não perceber seu medo, sua ansiedade? - Ele esfregou o maxilar. - Ela os escondeu bem. Lokesh tirou vantagem de meus sentimentos por Yesubai. Eu devia ter visto quem ele era desde o início, mas estava cego, apaixonado. Como pude não enxergar isso antes?
- O amor às vezes leva a gente a fazer coisas malucas.
- E você? O que viu?
- Eu acho que tive o cérebro aspirado. Meus pensamentos estão mais claros, assim como as suas lembranças. Na verdade, agora sei como pegar o Lenço e o que vem em seguida. Mas vamos por partes.
Levantei-me de um salto e ergui o ninho enfiado no canto da casa da árvore. Os dois pássaros pularam, grasnando com irritação. Eles voaram até onde eu estava e bateram as asas no meu rosto.
- Sinto muito, mas a culpa é sua mesmo. Foram vocês que clarearam a minha mente. Além disso, estas coisas são nossas. Precisamos delas.
Peguei a câmera, a pulseira e o amuleto no ninho. Kishan me ajudou a colocar a pulseira e a corrente com o amuleto e enfiou a câmera na mochila. Os pássaros me olhavam, zangados.
- Talvez possamos lhes dar outras coisas para compensar sua perda - sugeri.
Kishan vasculhou a mochila e pegou um anzol, um bastão fosforescente e uma bússola e os colocou no ninho. Depois de eu devolver o ninho ao seu lugar, os pássaros voaram até lá para inspecionar seus novos tesouros.
- Obrigada aos dois! Vamos, Kishan. Venha comigo.


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