terça-feira, 22 de outubro de 2013

Postado por Estante de Livros às terça-feira, outubro 22, 2013
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Saída
O vento gritava à nossa volta enquanto mergulhávamos em queda livre pelo céu, girando como a casa de Dorothy no centro do tornado. Kishan conseguiu nos estabilizar numa posição de bruços. Ele segurou meus pulsos e abriu nossos braços em um arco. Menos de um segundo após nos estabilizarmos, ouvimos um grito acima de nós. Um pássaro de ferro estava em nosso encalço.
Kishan ergueu meu braço esquerdo no ar e demos uma violenta guinada para a direita, ganhando velocidade. O pássaro nos seguiu. Kishan ergueu nossos braços direitos e oscilamos para a esquerda. O pássaro agora estava em cima de nós.
- Segure-se, Kells! - gritou Kishan.
Ele puxou nossos braços de volta e inclinou nossa cabeça para baixo. Disparamos adiante como uma bala. O pássaro dobrou as asas e mergulhou conosco.
- Vou nos virar! Tente atingi-lo com um raio! Pronta?
Assenti e Kishan nos fez girar no ar. Agora estávamos de costas para o chão e eu tinha uma excelente visão da barriga do pássaro. Rapidamente, disparei uma sucessão de raios e consegui irritá-lo o suficiente para nos livrar dele. Errei o olho, mas acertei o bico. O pássaro não gostou nada disso, bateu asas e se afastou, gritando, furioso.
- Segure-se!
Kishan tornou a nos virar e nos estabilizou mais uma vez. Ele puxou o cordão de abertura e ouvi o tecido deslizando ao ser liberado no vento. Com um estalido, quando ele se abriu o paraquedas do Lenço se abriu e se inflou. Kishan apertou os braços em minha cintura e desacelerou nossa descida. Então me soltou para agarrar os batoques e controlar as linhas direcionais.
- Tente mirar no estreito entre as duas montanhas! - berrei.
O grito horrível que ouvimos indicava que os pássaros haviam nos encontrado. Três deles começaram a nos rondar, procurando nos prender com as garras e os bicos. Tentei usar meu poder do raio, mas era muito difícil atingi-los nos olhos dessa distância. Em vez disso, abri a mochila e peguei o arco.
Kishan adernou para a esquerda e eu disparei uma flecha. Ela passou zumbindo acima da cabeça de um dos pássaros. A segunda flecha acertou-lhe o pescoço e, imbuída com o poder do raio, eletrocutou o pássaro, que despencou, ferido. Um outro nos atingiu com sua asa afiada, fazendo-nos rodopiar, mas consegui irritá-lo o suficiente para que se afastasse, voando em outra direção.
O terceiro pássaro foi esperto. Ele circundou minha linha de visão a fim de permanecer atrás de nós o máximo possível. Quando atacou, abriu um grande buraco no tecido com as garras. O paraquedas danificado nos lançou em outra queda livre. Kishan tentou nos guiar, mas o vento sacudia violentamente o velame rasgado.
De repente o paraquedas começou a se consertar sozinho. Os fios se entrelaçavam de um lado a outro no tecido até parecer que o Lenço jamais havia sido danificado. Quando ele se inflou novamente, Kishan puxou o batoque para nos conduzir na direção correta.
O pássaro furioso reapareceu e conseguiu se esquivar de minhas flechas. Seus gritos estridentes foram respondidos por outros.
- Temos que pousar!
- Estamos quase lá, Kells!
Pelo menos uma dezena de aves vinha a toda velocidade em nossa direção. Teríamos sorte se sobrevivêssemos tempo o bastante para alcançar o solo. O bando circulava, gritando, batendo as asas e estalando os bicos.
Estávamos quase lá. Se pudéssemos agüentar mais alguns segundos... Um pássaro veio direto para cima de nós. Ele era rápido e não o vimos até o último momento. A criatura abriu o bico para nos partir em dois. Eu podia quase ouvir o ruído dos meus ossos sendo triturados, imaginando a ave de metal me cortando ao meio.
Disparei várias outras flechas, mas errei todas. O vento de repente nos virou e eu nada podia fazer na nova posição. Kishan manobrou o paraquedas, conduzindo o velame numa perigosa descida e numa curva fechada. Fechei os olhos e senti um solavanco quando nossos pés tocaram a terra sólida.
Kishan deu alguns passos, correndo, e então me empurrou de cara na grama. Ele se deitou em cima de mim enquanto freneticamente nos livrava do cordame.
- Mantenha a cabeça abaixada, Kells!
O pássaro estava bem em cima de nós. Ele deu uma bicada no paraquedas e puxou, partindo-o ao meio. Encolhi-me ao ouvir o ruído medonho do tecido especial sendo rasgado. Frustrado, o pássaro largou o para-quedas e nos circundou, preparando-se para outro ataque. Kishan se libertou, pegou o chakram na mochila e o lançou, enquanto eu me agachava e recolhia as dobras do paraquedas.
- Por favor, se reconstitua.
Nada aconteceu. Kishan tornou a atirar o chakram.
- Uma ajudinha aqui, Kells!
Lancei algumas flechas e, com o canto do olho, vi o tecido se mover. Ele começou a se reconstituir, lentamente a princípio e, em seguida, cada vez mais rápido. Então encolheu, voltando ao tamanho original.
- Distraia-os mais um pouco, Kishan. Eu sei o que fazer!
Peguei o tecido e disse:
- Recolha os ventos.
Os desenhos foram substituídos, as cores mudaram e o Lenço cresceu. Retorcendo-se sobre si mesmo, ele se inflou e se esticou, criando uma grande sacola que se abriu na brisa. Uma forte rajada de vento atingiu meu rosto e fluiu para o interior da sacola. Quando ele perdeu intensidade, outro vento me fustigou o corpo por trás e começou também a encher a sacola. Logo, ventos vindos de todas as direções estavam me castigando. Eu me sentia golpeada por todos os lados e mal conseguia segurar a sacola cheia de ventos poderosos.
Por fim, as rajadas cessaram, de modo que eu não sentia nem mesmo a mais leve brisa, mas a sacola se agitava com violência. Kishan estava cercado por 10 pássaros e mal conseguia mantê-los à distância com o chakram.
- Kishan! Fique atrás de mim!
Ele levou o braço para trás e, com um poderoso impulso, soltou o chakram. Enquanto a arma girava no ar, ele correu para mim, agarrou a sacola do outro lado e pegou o chakram segundos antes de ele me decapitar.
Ergui uma sobrancelha enquanto ele sorria.
- Muito bem. Pronto? - gritei. - Um, dois, três!
Abrimos a sacola e liberamos todos os ventos de Shangri-lá na direção dos pássaros. Três deles foram lançados contra a montanha enquanto os outros dispararam na direção da árvore do mundo, tentando desesperadamente escapar do tumulto.
Quando os ventos cessaram, a sacola vazia pendeu flácida entre nós. Kishan me olhava, sem acreditar.
- Kelsey. Como você... - disse ele, antes de sua voz falhar.
- Lenço, por favor.
A sacola se moveu e se contorceu, tornou-se azul-clara e dourada, e então encolheu, transformando-se novamente em Lenço. Eu o enrolei no pescoço e joguei a ponta sobre o ombro.
- A resposta é: não sei. Quando Hugin e Munin clarearam nossa mente, eu me recordei de histórias e mitos que já ouvira antes. Lembrei-me de coisas que a Divina Tecelã nos contou e também de especulações do Sr. Kadam. Ele tinha me contado a história de um deus japonês chamado Fujin, que controlava os ventos e os carregava numa sacola. Eu também sabia que esse tecido era especial, como o Fruto Proibido.
- Hum.
- Talvez tudo estivesse em minha mente todo o tempo ou talvez Hugin tenha soprado essas coisas em meus pensamentos. Não tenho certeza. Sei que o Lenço pode fazer mais alguma coisa, algo que vai nos ajudar a
salvar Ren, mas temos que sair daqui antes que os pássaros retornem. Aí então eu mostro a você.
- Tudo bem, mas primeiro tem uma coisa que eu preciso fazer.
- O que é?
- Isto.
Ele me puxou de encontro ao seu corpo e me beijou. De verdade. Sua boca se movia sobre a minha com paixão. O beijo foi rápido, turbulento e voraz. Ele me apertava, uma das mãos apoiando minha cabeça enquanto a outra me segurava com firmeza pela cintura. Ele me beijou ferozmente, com uma impulsividade a que eu não podia pôr fim, do mesmo jeito que não é possível deter uma avalanche.
Se você é apanhado numa avalanche, tem duas escolhas: ficar parado e tentar bloqueá-la ou se entregar, rolar com ela e torcer para chegar vivo lá embaixo. Assim, rolei com o beijo de Kishan. Por fim, ele levantou a cabeça, me rodopiou e deu um jubiloso grito de vitória que ecoou nos morros ao redor.
Quando finalmente me colocou no chão, precisei recuperar o fôlego. Ar- quejando, perguntei:
- Qual foi o motivo disso?
- Só estou feliz por estar vivo!
- Certo. Mas da próxima vez guarde seus lábios para si mesmo.
Ele suspirou.
- Não fique aborrecida, Kells.
- Eu não estou aborrecida. Eu... eu não sei o que pensar sobre isso. Aconteceu tudo rápido demais para que eu sequer reagisse.
Um sorriso maroto iluminou seu rosto.
- Prometo ir mais devagar da próxima vez.
- Que próxima vez?
Ele franziu ligeiramente a testa.
- Não precisa fazer uma tempestade por causa disso. É só uma reação natural ao fato de ter escapado por pouco da morte. E como quando os soldados voltam da guerra e agarram uma garota para beijar assim que desembarcam.
- É, talvez, mas a diferença é que esta garota estava no barco com você - repliquei, com ironia. - Fique à vontade para agarrar qualquer garota que quiser quando voltarmos à terra, marinheiro, mas esta aqui não quer saber de agarramento.
Ele cruzou os braços diante do peito.
- É mesmo? Suas mãos estavam bem ativas, se quer saber.
- Se minhas mãos estavam em você - devolvi, indignada -, era para empurrá-lo!
- Se é isso que você precisa dizer a si mesma para ter a consciência limpa no fim do dia, tudo bem. Você só não quer admitir que gostou.
- Humm, deixe-me ver. Tem razão, Casanova. Eu gostei, sim. Quando acabou?
Ele sacudiu a cabeça.
- Você é teimosa. Não é de admirar que Ren tenha tido tantos problemas.
- Como você ainda se atreve a mencionar seu irmão?
- Quando vai encarar os fatos, Kells? Você gosta de mim.
- Não estou gostando tanto assim de você agora! Será que podemos voltar para o portão do espírito e esquecer essa conversa?
- Sim. Mas vamos retomar o assunto mais tarde.
- Quem sabe no dia que Shangri-lá congelar.
Ele apanhou a mochila e sorriu.
- Posso esperar até lá. Você primeiro, bilauta.
- Ladrão de beijos - murmurei.
Ele sorriu com malícia e ergueu uma sobrancelha. Andamos durante várias horas. Kishan tentava conversar comigo, mas eu, teimosamente, me recusava a notar sua existência.
O problema com o que aconteceu entre nós era... que ele não estava errado. A essa altura, eu havia passado mais tempo com ele do que com Ren e vínhamos vivendo sob o mesmo teto havia meses. Tínhamos atravessado Shangri-lá, passando dias e noites juntos nas últimas semanas.
Um contato diário assim cria um nível de proximidade, uma... intimidade entre duas pessoas. Kishan estava apenas mais disposto do que eu a reconhecer esse fato. Não era de surpreender que ele, que já admitira sentir algo por mim, estivesse começando a se sentir confortável em expressar esses sentimentos. A questão era que isso não me aborrecia tanto quanto deveria. Beijar Kishan não era como beijar Artie ou Jason, nem mesmo Li.
Quando beijei Li, eu me senti no controle. Tampouco era como beijar Ren. Ren era como uma incrível cachoeira na selva - espumando e reluzindo à luz do sol. Ele era um paraíso exótico à espera de ser descoberto. Kishan era diferente. Kishan era um rio tempestuoso e turbulento - rápido, imprevisível e não navegável mesmo para o mais hábil dos aventureiros. Os irmãos eram ambos maravilhosos, fascinantes e poderosos, mas beijar Kishan era perigoso.
Perigoso não como com os homens-sereia; com esses simplesmente parecia haver alguma coisa errada. Se eu fosse honesta comigo mesma, não acharia ruim beijar Kishan. Na verdade, era bom, como uma versão mais selvagem e ardente de Ren. Com Kishan, era como se eu houvesse literalmente pegado um tigre pelo rabo e ele estivesse pronto a me atacar e me arrastar. Não era uma idéia de todo desagradável e essa era a parte que me perturbava.
É claro, estou separada há muito tempo do meu namorado, eu tentava racionalizar meus sentimentos. Kishan é a segunda melhor opção e eu só estou com saudade do meu tigre. Tenho certeza de que é só isso. Deixei que esses pensamentos me confortassem enquanto caminhávamos.
Como Ren, Kishan tinha um talento para usar seu charme para se livrar dos problemas mais difíceis. Em pouco tempo ele me fez esquecer completamente que estava chateada com ele.
Quando o fim da tarde se transformou em crepúsculo, decidimos montar acampamento para passar a noite. Eu estava exausta.
- Você fica com o saco de dormir, Kells.
- Não precisa. Veja isto.
Tirei o Lenço do pescoço e disse:
- Uma tenda grande, um saco de dormir, dois travesseiros macios e uma muda de roupa para cada um de nós, por favor.
O Lenço se deslocou e se moveu; os fios começaram a tecer. Eles se trançaram, criando cordas grossas, que disparavam em várias direções e se enrascavam em galhos fortes de árvores próximas. Depois que as cordas estavam amarradas com firmeza, o Lenço criou um teto, paredes e um piso para a tenda. Ela era suspensa por duas linhas entrelaçadas na árvore acima. Em vez de fechadas por um zíper, as abas da abertura eram amarradas com um cordão.
Enfiei a cabeça lá dentro.
- Venha, Kishan.
Ele me seguiu e entrou na espaçosa tenda. Ficamos observando enquanto os fios coloridos continuavam a tecer um espesso saco de dormir e dois travesseiros macios. Quando terminou, eu tinha um saco de dormir verde e dois travesseiros brancos. Uma muda de roupa para cada um descansava sobre eles. Kishan estendeu o antigo saco de dormir ao meu lado enquanto eu afofava um dos travesseiros.
- Como ele escolhe a cor? - perguntou.
- Acho que depende do humor do Lenço ou talvez do que você pede. A tenda, o saco de dormir e os travesseiros, todos parecem ter o aspecto que deveriam ter. O Lenço muda de cor por conta própria. Percebi isso enquanto caminhava.
Kishan saiu para trocar de roupa na selva enquanto eu vestia peças limpas e pendurava minhas roupas de fada num galho do lado de fora. Quando ele voltou, eu estava bem aconchegada em meu saco de dormir e tinha virado de lado para evitar conversas.
Ele entrou em seu saco de dormir e pude sentir seus olhos dourados fixos em minhas costas por vários e tensos minutos.
Por fim, ele grunhiu e disse:
- Bem... boa noite, Kells.
- Boa noite, Kishan.
Eu estava exausta e caí no sono imediatamente, deslizando direto para um novo sonho.
Sonhei com Ren e Lokesh, a mesmíssima cena de minha última visão. Ren estava sentado no canto ao fundo de uma jaula num quarto escuro. Seu cabelo estava imundo e emaranhado e eu quase não percebi que era ele até que abrisse os olhos e me fitasse. Eu reconheceria aqueles olhos azuis em qualquer lugar.
Seus olhos tinham um brilho constante no escuro, como safiras reluzentes. Aproximei-me dele furtivamente, guiada por eles, fitando-os como um marinheiro desesperado olha o farol numa noite escura de tempestade.
Quando alcancei a gaiola, Ren piscou, como se me visse pela primeira vez. Sua voz soava áspera, como a de um homem com sede.
- Kells?
Fechei os dedos em torno das grades, desejando ser forte o bastante para quebrá-las.
- Sim, sou eu.
- Não consigo vê-la.
Por um momento de pavor, temi que Lokesh o houvesse cegado. Ajoelhei-me diante da j aula.
- Assim está melhor?
- Está.
Ren se arrastou pelo chão, aproximando-se mais, e envolveu minhas mãos com as dele. As nuvens se abriram e o luar tremeluziu através de uma minúscula janela, lançando seu brilho suave no rosto dele.
Arquejei, chocada, e as lágrimas encheram meus olhos.
- Ah, Ren! O que foi que ele fez com você?
O rosto de Ren estava inchado e roxo. Sangue escorria pelos cantos da boca e um corte profundo ia de sua testa até a bochecha. Estendi um dedo e toquei sua têmpora delicadamente.
- Ele não conseguiu tirar a informação que queria de você e resolveu descontar a raiva em mim.
- Eu... eu... sinto... tanto.
Minhas lágrimas molharam sua mão.
- Priyatama, não chore.
Ele pressionou a mão no meu rosto. Virei e beijei-lhe a palma.
- Não posso suportar vê-lo assim. Estamos vindo buscar você. Por favor, por favor, agüente um pouco mais.
Ele baixou os olhos, como se sentisse vergonha.
- Não sei se consigo.
- Não diga isso! Nunca diga isso! Eu estou indo. Sei o que fazer. Sei como resgatá-lo. Você precisa permanecer vivo. Não importa como! Ren, me prometa!
Ele suspirou dolorosamente.
- Ele está perto demais, Kells. Cada segundo que Lokesh me tem aqui significa que você está em perigo. Você se tornou uma obsessão para ele. A todo momento ele tenta extrair informações suas de minha mente. Ele não vai parar. Não vai desistir. Ele... ele vai me subjugar. Logo. Se fosse apenas a tortura física, acho que eu poderia agüentar, mas ele está usando magia negra. Está me enganando. Causando alucinações. E eu estou tão... cansado.
- Então conte a ele. - Minha voz tremeu. - Conte a ele o que ele quer saber e talvez ele o deixe em paz.
- Nunca contarei a ele, prema.
Eu solucei.
- Ren. Eu não posso perder você.
- Eu estou sempre com você. Meus pensamentos estão em você. - Ele pegou um cacho do meu cabelo e o levou aos lábios. Então inspirou profundamente. - O tempo todo.
- Não desista! Não quando estamos tão perto!
Seus olhos se desviaram.
- Tem uma opção que eu poderia considerar.
- Qual é? Que opção?
- Durga - ele fez uma pausa - ofereceu proteção, mas seu preço é alto demais. Não vale a pena.
- Sua vida vale qualquer coisa! Aceite! Não pense duas vezes. Você pode confiar em Durga. Faça o que ela pede! Qualquer que seja o preço, não importa, desde que você sobreviva.
- Mas, Kelsey...
- Shh. - Pressionei a ponta do dedo delicadamente sobre seus lábios inchados. - Faça o que for preciso para sobreviver, está bem?
Ele deixou escapar um suspiro entrecortado e me olhou com olhos brilhantes e desesperados.
- Você precisa ir. Ele pode voltar a qualquer momento.
- Não quero deixar você.
- E não quero que você vá. Mas é preciso.
Resignada, virei-me para partir.
- Espere, Kelsey. Antes de ir... você me dá um beijo?
Enfiei as mãos entre as grades e toquei levemente seu rosto.
- Não quero lhe causar mais dor.
- Não tem importância. Por favor. Me beije antes de ir.
Ele se ajoelhou à minha frente, arquejando ao pôr o peso no joelho, e então passou as mãos trêmulas pelas grades e me puxou para mais perto. Suas mãos deslizaram e tomaram o meu rosto entre elas e nossos lábios se encontraram entre as grades de sua jaula. Seu beijo foi quente, suave e breve demais. Senti o gosto das minhas lágrimas. Quando se afastou, ele me dirigiu um sorriso doce e torto entre os lábios partidos. Encolheu-se de dor ao recolher as mãos. Foi então que percebi que vários dedos seus estavam quebrados.
Recomecei a chorar. Ren enxugou uma lágrima do meu rosto com o polegar e recitou um poema de Richard Lovelace.
Quando o Amor com asas livres
Paira dentro de meus portões,
E minha divina Altea vem
Para sussurrar junto às grades;
Quando me vejo enroscado em seu cabelo
E agrilhoado ao seu olho,
As aves que brincam no ar
Não conhecem tamanha liberdade.
Muros de pedra não constituem prisão,
Tampouco barras de ferro uma jaula;
Mentes puras e quietas tomam isso
Como a habitação do eremita;
Se tenho liberdade em meu amor
E em minha alma sou livre,
Só os anjos, que planam acima,
Desfrutam da mesma liberdade.
Ele encostou a testa na grade.
- A única coisa que eu não poderia suportar é se ele machucasse você. Isso eu não vou permitir. Não vou deixar que ele a encontre, Kelsey. Aconteça o que acontecer.
- O que você quer dizer?
Ele sorriu.
- Nada, minha querida. Não se preocupe. - Ele recuou para apoiar o corpo alquebrado na parede da jaula. - É hora de ir, iadala.
Levantei-me para ir, mas parei à porta quando ele chamou:
- Kelsey?
Virei-me.
- Não importa o que aconteça, por favor lembre-se de que a amo, hridaya patni. Prometa que irá se lembrar.
- Eu vou me lembrar. Prometo. Mujhe tumse pyarhai, Ren.
- Agora vá.
Ele sorriu debilmente e então seus olhos mudaram. O azul se esvaiu e eles se tornaram cinzentos, baços e sem vida. Talvez fosse um truque da luz, mas chegava a quase parecer que Ren havia morrido. Dei um passo hesitante para trás.
-Ren?
Sua voz suave replicou:
- Por favor, vá, Kelsey. Vai ficar tudo bem.
-Ren?
- Adeus, meu amor.
- Ren!
Alguma coisa estava acontecendo e não era nada bom. Senti algo se partir. Arquejei em busca de ar. Alguma coisa estava muito errada. A conexão que eu sentia entre nós era quase tangível, como uma corrente de metal. Quanto mais próximos ficávamos, mais forte era a conexão. Ela me estabilizava, me conectava a ele como um fio de telefone, mas algo havia danificado o cabo.
Senti a ruptura e pontas afiadas e serrilhadas perfuravam e rasgavam violentamente meu coração, como facas quentes atravessando a manteiga. Gritei e me debati. Pela primeira vez desde que pusera os olhos no meu tigre branco, eu estava sozinha.
Kishan me sacudiu, me arrancando da névoa do sonho.
- Kelsey! Kelsey! Acorde!
Abri os olhos e comecei a chorar lágrimas novas, que se derramavam no meu rosto e seguiam as trilhas deixadas pelo sonho. Abracei Kishan e solucei. Ele me colocou no colo, me apertando, e me acariciou as costas enquanto eu chorava inconsolavelmente por seu irmão.
Devo ter dormido em algum momento, pois acordei enrolada em meu saco de dormir com os braços de Kishan ao meu redor. Minha mão fechada pressionava meu rosto e meus olhos estavam fechados de tão inchados.
- Kelsey? - sussurrou Kishan.
- Estou acordada - murmurei.
- Você está bem?
Minha mão seguiu involuntariamente para o buraco oco e dolorido que eu sentia no peito. Uma lágrima escorreu do canto do meu olho. Enterrei a cabeça no travesseiro e comecei a respirar fundo para me acalmar.
- Não - eu disse sem forças. - Ele... se foi. Alguma coisa aconteceu. Acho... acho que Ren pode estar morto.
- O que aconteceu? Por que acha isso?
Expliquei o sonho a ele e tentei descrever minha conexão rompida com Ren.
- Kelsey, é possível que tudo isso seja apenas um sonho, um sonho muito perturbador, mas nada mais que um sonho. Não é raro ter sonhos violentos quando se passa por uma experiência traumática, como a luta que tivemos com os pássaros.
- Talvez. Mas eu não sonhei com os pássaros.
- Mesmo assim, não podemos ter certeza. Lembre-se de que Durga disse que o protegeria.
- Eu me lembro. Mas foi tão real.
- Não tem como ter certeza.
- Talvez tenha.
- O que você está pensando?
- Acho que devíamos fazer outra visita aos silvanos. Talvez possamos dormir no Bosque dos Sonhos e eu consiga enxergar o futuro. De repente eu vejo se podemos salvá-lo ou não.
- Acha que isso vai funcionar?
- Os silvanos disseram que, se eles têm um problema grave para resolver, vão até lá em busca de respostas. Por favor, Kishan. Vamos tentar.
Kishan enxugou uma lágrima do meu rosto com o polegar.
- Está bem, Kells. Vamos procurar Fauno.
- Kishan, mais uma coisa. O que significa hridaya patni?
- Onde você ouviu isso? - perguntou com delicadeza.
- No sonho. Ren me disse isso antes de nos separarmos.
Kishan se levantou e saiu da tenda. Eu o segui e o encontrei fitando a distância. Seu braço estava apoiado num galho de árvore. Sem se virar, ele disse:
- É a forma carinhosa como nosso pai chamava nossa mãe. Significa... "esposa do meu coração".
Foi um longo dia de caminhada para chegar à aldeia dos silvanos. Eles não cabiam em si de alegria por nos ver e quiseram dar uma festa. Eu não tinha vontade de celebrar. Quando perguntei se podíamos dormir
no Bosque dos Sonhos novamente, Fauno me assegurou de que tudo o que possuíam estava à minha disposição. As ninfas das árvores me serviram um jantar leve e me deixaram sozinha num de seus chalés até o cair da noite. Kishan percebeu que eu queria ficar sozinha e comeu com os silvanos.
Quando a noite caiu, ele voltou com um visitante.
- Quero que você veja quem está aqui, Kells.
Ele segurava a mão de um garotinho de cabelos prateados dando os primeiros passos.
- Quem é este?
- Você pode dizer seu nome à moça bonita?
- Talque - disse o menino.
- Seu nome é Talque? - perguntei.
O rosto meigo do menininho sorria para mim.
- Na verdade, o nome dele é Tarak.
- Tarak? - arquejei. - É impossível! Ele parece já ter quase 2 anos!
Kishan deu de ombros.
- Ao que parece, os silvanos amadurecem rapidamente.
- Incrível! Tarak, venha aqui e me deixe ver você.
Estendi os braços e Kishan o encorajou a ir em frente. Tarak deu alguns passinhos desajeitados em minha direção antes de cair no meu colo.
- Você agora é um menino tão grande! E tão bonito também! Quer brincar? Veja isto.
Peguei o Lenço em meu pescoço e ficamos olhando o caleidoscópio de cores cambiantes. Quando o menininho o tocou, a impressão de uma minúscula mão rosa apareceu no tecido antes de desaparecer num turbilhão de amarelo.
- Bichinhos de pelúcia, por favor.
O tecido deslocou-se, dividiu-se e se transformou em bichinhos de pelúcia de todo tipo. Kishan se sentou ao meu lado e brincamos com Tarak e a coleção de bichos de pelúcia. A dor aguda em meu coração diminuiu enquanto eu ria com a pequena criança silvana.
Quando Kishan apanhou o tigre de pelúcia e ensinou a Tarak a forma correta de grunhir, ele ergueu os olhos para mim. Nossos olhares se encontraram e ele piscou. Agarrei sua mão, apertei-a e lhe disse movendo os lábios sem emitir som: "Obrigada."
Kishan beijou meus dedos, sorriu e disse:
- Tia Kelsey precisa dormir um pouco. É hora de levar você de volta para sua família, rapazinho.
Ele pegou Tarak no colo, colocou-o nos ombros e disse baixinho:
- Volto já.
Reuni todos os bichinhos e disse ao lenço que não precisávamos mais deles. Fios começaram a girar no ar e se entreteceram, voltando à forma anterior. No momento em que acabavam, Kishan retornou.
Ele se agachou, segurou-me pelo queixo e ergueu meu rosto para exa- miná-lo.
- Kelsey, você está exausta. Os silvanos prepararam um banho para você. Tome um banho de imersão antes de dormir. Encontro você no Bosque, está bem?
Assenti e deixei as três mulheres silvanas me levarem até a área de banho. Dessa vez elas estavam quietas, deixando-me com meus pensamentos enquanto delicadamente ensaboavam meu cabelo e esfregavam uma loção perfumada em minha pele. Elas me vestiram com um roupão de seda antes que uma fada de asas cor de laranja me guiasse até o Bosque dos Sonhos. Kishan já estava lá e havia tomado a liberdade de criar uma rede com o Lenço Divino.
- Não está interessado em dividir a suíte de lua de mel novamente, pelo que estou vendo - brinquei.
Ele estava de costas para mim enquanto testava um nó da rede.
- Só pensei que seria melhor... - Ele deu meia-volta e me lançou um olhar poderoso, ardente. Seus olhos dourados se dilataram e ele se apressou em se ocupar com os nós de novo. Limpando a garganta, disse: - Decididamente, é melhor você dormir sozinha desta vez, Kells. Ficarei confortável aqui.
Estremeci e tentei fingir que o olhar de Kishan não havia me afetado.
- Como quiser.
Kishan se acomodou na rede, deitado de costas, com as mãos atrás da cabeça. Ele me observava ajeitando os lençóis.
- Você está muito... linda - eu o ouvi dizer baixinho.
Voltei-me para ele, ergui um braço e deslizei a mão pelo roupão de seda azul com mangas compridas. Eu sabia que meu cabelo pendia em ondas flexíveis e que minha pele pálida brilhava depois da vigorosa esfregação e das loções borbulhantes das silvanas. Talvez eu estivesse bonita, sim, mas me sentia oca por dentro. Eu estava esgotada até o âmago.
- Obrigada - disse mecanicamente enquanto subia na cama.
Fiquei acordada olhando as estrelas durante muito tempo. Pude sentir os olhos de Kishan em mim quando enfiava a mão sob o rosto e finalmente mergulhava no sono.
Não sonhei com nada. Não com Ren, nem comigo mesma, tampouco com Kishan ou com o Sr. Kadam... Sonhei com o vazio. Uma grande escuridão preenchia a minha mente, um vácuo. Um espaço sem formas, sem profundidade, sem abundância e sem nenhuma felicidade. Acordei antes de Kishan. Sem Ren, minha vida não tinha nenhum significado. Era oca e inútil. Era isso que o Bosque dos Sonhos estava tentando me dizer. Eu havia perdido coisas de mais.
Quando meus pais morreram, foi como se duas árvores imponentes houvessem sido derrubadas. Ren tinha entrado em minha vida e preenchido a paisagem vazia do meu coração, fazendo-o cicatrizar. A terra seca fora substituída por grama macia, árvores de sândalo maravilhosas, trepadeiras de jasmim e rosas. Bem no centro de tudo havia uma fonte de água cercada por lírios-tigres, um lindo lugar onde eu podia me sentar e sentir afeto, amor e paz. Agora a fonte estava estilhaçada, os lírios arrancados, as árvores derrubadas e simplesmente não restava solo para cultivar mais nada. Eu estava estéril, desolada - um deserto incapaz de sustentar a vida.
Uma brisa suave balançava meu cabelo e soprava alguns fios no meu rosto. Eu não me dei ao trabalho de puxá-los para o lado. Não ouvi
Kishan se levantar. Só senti a ponta de seus dedos roçar em meu rosto quando ele ergueu os fios e os prendeu atrás da orelha.
- Kelsey?
Não respondi. Meus olhos fitavam o céu do amanhecer que ia se iluminando.
- Kells?
Ele deslizou as mãos sob o meu corpo e me levantou. Então se sentou na cama e me aninhou junto ao seu peito.
- Kelsey, por favor, diga alguma coisa. Fale comigo. Não suporto vê-la desse jeito.
Ele me embalou por um tempo. Eu podia ouvi-lo e lhe responder em minha mente, mas me sentia desconectada do ambiente, do meu corpo.
Senti uma gota de chuva no meu rosto e o susto me acordou, me trouxe à superfície. Ergui a mão e enxuguei a gota.
- Está chovendo? Não pensei que chovesse aqui.
Ele não respondeu. Outra gota caiu em minha testa.
- Kishan?
Olhei para ele e percebi que não eram gotas de chuva, mas lágrimas.
Seus olhos dourados estavam cheios de lágrimas.
Perplexa, levei a mão ao seu rosto.
- Kishan? Por que você está chorando?
Ele sorriu debilmente.
- Pensei que a tivesse perdido, Kells.
-Ah.
- O que você viu que a levou para tão longe de mim? Você viu Ren?
- Não. Não vi nada. Meus sonhos estavam cheios de uma escuridão fria. Acho que isso significa que ele está morto.
- Não. Eu não acredito nisso, Kells. Eu vi Ren em meus sonhos.
A vitalidade retornou aos meus membros.
- Você o viu? Tem certeza?
- Sim. Estávamos num barco, discutindo.
- Poderia ser um sonho do passado?
- Não. Estávamos num iate moderno. No nosso iate.
Sentei-me mais ereta.
- Você tem certeza de que o sonho se passava no futuro?
- Tenho.
Eu o abracei e beijei-lhe as bochechas e a testa, alternando os beijos com "Obrigada! Obrigada! Obrigada!".
- Espere, Kells. A questão é que, no sonho, estávamos discutindo sobre...
Eu ri, agarrei sua camisa e o sacudi levemente, enlouquecida e tonta de
alívio. Ele estava vivo!
- Não quero nem saber sobre o que estavam discutindo. Vocês dois sem-pre discutem.
- Mas acho que devia contar a você...
Saltei de seu colo e comecei a me mexer rapidamente, recolhendo nossas coisas.
- Conte mais tarde. Agora não temos tempo. Vamos embora. O que estamos esperando? Um tigre precisa ser resgatado. Venha!
Eu corria de um lado para outro com uma energia insana. Uma determinação desesperada e febril tomava conta da minha mente. Cada minuto que nos demorássemos significava mais dor para aquele que eu amava. O sonho com Ren havia sido real. Eu não teria elaborado palavras novas em híndi por minha própria conta, principalmente um termo carinhoso que seu pai usava
com sua mãe. Eu estivera com ele de alguma forma. Eu o havia tocado, beijado. Alguma coisa havia partido nossa conexão, mas ele ainda estava vivo! Poderia ser salvo. Na verdade, ele seria salvo! Kishan tinha visto o futuro!
Os silvanos prepararam um café da manhã suntuoso, mas nós pegamos alguns itens para a viagem, dissemos adeus, apressados, e seguimos de volta para o portão do espírito. Levamos dois dias de caminhada rápida para chegar ao portão, seguindo as instruções dadas pelos silvanos. Kishan falou muito pouco durante a viagem e eu estava profundamente mergulhada em pensamentos sobre como encontrar Ren para tentar descobrir por quê.
Depois de chegar ao portão, pedi ao Lenço Divino que criasse novos trajes de inverno para nós e, após trocarmos de roupa, evoquei meu poder de raio e coloquei a mão na depressão entalhada na lateral do portão. Minha pele brilhou, tornando-se translúcida e rosada enquanto o portão tremeluzia e se abria. Olhamos um para o outro e de repente eu me senti triste - como se estivéssemos nos despedindo. Kishan tirou a luva e pousou a palma quente em meu rosto, estudando-o, sério. Eu sorri e o abracei.
Eu tivera a intenção de ser breve, mas ele me envolveu com os braços e me deu um abraço apertado. Desvencilhei-me, desajeitada, tornei a colocar a luva e transpus o portão, passando para um dia ensolarado no monte Everest. Minhas botas de inverno esmagaram ruidosamente a neve branca e cintilante no momento em que Kishan passava pelo portão e se transformava no tigre negro.

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