terça-feira, 22 de outubro de 2013

Postado por Estante de Livros às terça-feira, outubro 22, 2013
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O Lenço da Divina Tecelã
Depois de recuperar nossos tesouros no ninho, segui até uma corda simples que pendia do teto de madeira. Quando a puxei, um ruído chocalhante veio de cima da casa da árvore e um painel se abriu. Uma escada então desceu até tocar o chão.
- A próxima etapa será a mais difícil - expliquei a Kishan. - Esta escada leva aos galhos externos, que precisamos subir até alcançar o topo, onde encontraremos o ninho de um pássaro gigante. É lá que está o Lenço, assim como os pássaros de ferro.
- Pássaros de ferro?
- Sim, e teremos que lutar contra eles para pegar o Lenço. Espere um segundo. - Corri rapidamente os olhos pela pesquisa do Sr. Kadam e encontrei o que estava procurando. - Aqui. É contra isto que vamos lutar.
A imagem da mitológica ave estinfaliana era assustadora o bastante sem a descrição que ele havia incluído.
- "Terríveis aves carnívoras, com bicos de ferro, garras de bronze e excrementos tóxicos" - leu Kishan. - "Em geral vivem em grandes colônias."
- Não são uns amores?
- Fique perto de mim, Kells. Não sabemos se você pode cicatrizar aqui.
- Aliás, não sabemos se você também cicatriza aqui. - Sorri para ele. - Mas vou tentar não deixá-lo sozinho por muito tempo.
- Engraçadinha. Você primeiro.
Subimos a escada e nos vimos num agrupamento de galhos tão compactos que me faziam lembrar um daqueles brinquedos trepa-trepa que se veem em parques infantis. Era fácil escalar - desde que eu não pensasse na queda. Kishan insistiu em que eu fosse primeiro para que ele pudesse me pegar se eu escorregasse, o que só aconteceu uma vez. Meu pé deslizou numa parte molhada da madeira e Kishan o apoiou,
com tênis e tudo, na palma de sua mão, alçando-me para cima outra vez.
Após um bom tempo subindo, descansamos num galho com as costas apoiadas no tronco, Kishan mais abaixo, eu mais acima. Ele me jogou um cantil de limonada sem açúcar, que aceitei, agradecida. Enquanto o esvaziava em grandes goles, percebi que o galho em que me encontrava sentada estava um tanto danificado.
- Kishan, dê uma olhada nisso.
Uma pasta espessa e viscosa verde-amarelada espalhava-se na ponta do meu galho e aparentemente havia corroído metade dele.
- Acho que estamos olhando para os excrementos tóxicos - observei, com amargura.
Kishan franziu o nariz.
- E isso é velho, talvez de umas duas semanas atrás. O cheiro é horrível. É ácido e amargo. - Ele piscou e esfregou os olhos. - Está queimando minhas narinas.
- Acho que vamos precisar ficar atentos a bombas tóxicas, hein?
Agora que ele conhecia o cheiro das aves, podíamos farejá-las até o ninho. Levamos mais uma hora subindo, porém finalmente chegamos a um ninho gigantesco, descansando num entroncamento de três galhos.
- Uau, é imenso! Você acha que tem algum pássaro por perto?
- Não ouço nada, mas o cheiro está por toda parte.
- Ah, que sorte a minha ter um nariz de tigre por perto. Não estou sentindo nada.
- Agradeça por isso também. Acho que nunca conseguirei esquecer este cheiro.
- É justo que você tenha que lutar contra aves de cheiro desagradável. Lembre-se de que Ren enfrentou os kappa e os macacos imortais.
Kishan resmungou e prosseguiu na direção do ninho gigante. Excrementos antigos descoravam a superfície dos galhos da árvore, enfraquecendo-os. Se pisássemos muito perto da substância, a superfície do galho se esfarelava num pó branco e às vezes quebrava por completo.
Fomos nos aproximando lentamente, confiando na audição de Kishan para nos advertir da chegada das aves. O ninho tinha o tamanho de uma grande piscina e era feito de galhos de árvore mortos da espessura do meu braço entretecidos como uma cesta gigante. Escalamos até o topo e saltamos para dentro do ninho.
Cinco imensos ovos descansavam no centro. Cada um teria sido suficiente para encher uma banheira de hidromassagem. Cor de bronze e reluzentes, refletiam a luz do sol em nossos olhos. Kishan bateu levemente num deles e ouvimos um eco metálico e oco.
Circulei aquele ovo e arquejei. Eles descansavam sobre o material diáfano mais lindo que eu já vira: O Lenço da Divina Tecelã! O tecido parecia vivo. As cores se deslocavam e espiralavam em padrões geométricos na superfície do lenço. Um caleidoscópio de azul-claro se transformou em cor-de-rosa e amarelo, que então passaram a um verde suave e dourado, e em seguida a ondas preto-azuladas como um corvo. Era hipnótico.
Kishan esquadrinhou o céu e me assegurou de que a barra estava limpa. Então ele se agachou a meu lado para examinar o Lenço.
- Vamos ter que rolar os ovos um por um, Kells. Eles são pesados.
- Tudo bem. Vamos começar por este.
Seguramos um ovo reluzente e o rolamos cuidadosamente para a lateral do ninho. Então voltamos para o segundo. Encontramos uma pena perto dele. Penas de aves normais eram leves, ocas e flexíveis. Esta era mais longa que o meu braço, pesada e metálica. Kishan mal conseguia movê-la e a borda era afiada como uma serra circular.
- Ai, isso não é bom.
Kishan concordou.
- É melhor nos apressarmos.
Estávamos rolando o terceiro ovo quando ouvimos um grito estridente.
Ao longe, uma ave vinha voando em direção ao ninho. Ela não parecia nada feliz. Protegi os olhos com a mão para ter uma visão melhor. A princípio parecia pequena, mas minha opinião sobre seu tamanho mudou à medida que ela se aproximava velozmente. Asas poderosas
sustentavam a criatura no ar enquanto ela atravessava as correntes termais.
O sol atingiu o corpo metálico da ave gigante, que refletiu a luz, me cegando. Agora estava muito mais perto e parecia ter dobrado de tamanho. Ela emitiu um lamento desagradável. Um grito mais baixo ecoou em resposta quando outra ave se juntou à primeira.
A árvore se sacudiu quando alguma coisa pousou num galho próximo. Um pássaro gritou para nós e começou a se dirigir ao ninho. Como sempre, Kishan postou-se à minha frente. Recuamos rapidamente, mantendo o tronco às nossas costas.
Uma ave voou acima de nós. Era mais um monstro que uma ave. Dei uma boa olhada nela quando mergulhou. Sua cabeça estava inclinada, de modo que pudesse manter o olhar cravado em nós. Estimei que sua envergadura de asa fosse de mais de 10 metros, ou cerca da metade do comprimento do avião do Sr. Kadam. Empunhei o arco, preparei uma flecha e estremeci quando seu grito agudo e estridente vibrou através de meus membros. Minha mão estava trêmula ao disparar a flecha. Errei o alvo.
O corpo da criatura parecia o de uma águia gigante. Fileiras de penas de metal densas e sobrepostas cobriam o torso da ave e se tornavam maiores ao longo das asas compridas e amplas. As penas tinham o tamanho aproximado de uma prancha de surfe. As pontas das asas eram afiladas e bem separadas. O pássaro de ferro batia as asas e abria as penas da cauda para ajudar a frear e se lançar novamente para o céu.
Ele se movia como uma ave de rapina. Patas musculosas e fortes, com garras afiadas, estiraram-se para nos agarrar em sua segunda passagem. Kishan me empurrou de cara no ninho e o pássaro não conseguiu nos pegar, mas apenas por poucos centímetros. Sua cabeça parecia um pouco com a de uma gaivota com um bico robusto, comprido e adunco, mas havia um gancho extra na mandíbula superior do bico, afiado de ambos os lados, como uma espada de dois gumes.
Um dos pássaros se aproximou e tentou nos bicar. Então ouvi um ruído metálico quando as duas extremidades afiadas de seu bico se uniram ruidosamente, como uma gigantesca tesoura.
Outro chegou perto demais e o atingi com um raio. A descarga atingiu o peito da ave e refletiu, chamuscando o ninho a poucos centímetros de onde Kishan estava.
- Cuidado, Kells!
Isso não estava indo nada bem.
- Meus raios apenas batem e voltam!
- Deixe-me tentar!
Ele lançou o chakram, arremessando-o pelo ar num amplo arco além da ave.
- Kishan! Como você pode errar algo tão grande?
- Fique olhando!
Quando o chakram completou o arco e começou a retornar para Kishan, atingiu o pássaro, atravessando uma asa metálica e produzindo um som horrível, como o de uma broca numa chapa de metal. O pássaro gritou e despencou centenas de metros até o chão, arrancando galhos e ramos no caminho. A árvore se sacudiu violentamente quando ele caiu.
Três outros pássaros rondavam o ninho agora e tentavam nos capturar com garras ou bicos que se assemelhavam a facas. Encaixei outra flecha no arco e mirei o pássaro mais próximo. A flecha o atingiu bem no peito, mas tudo o que conseguiu foi deixá-lo irado.
Kishan mergulhou entre os ovos quando um pássaro tentou pegá-lo com uma garra.
- Mire o pescoço ou os olhos, Kelsey!
Disparei outra flecha, atingindo o pescoço. A terceira acertou o olho. O pássaro se afastou e então despencou, rodopiando como um avião descontrolado antes de se despedaçar no chão. Agora eles estavam furiosos de verdade.
Mais pássaros chegaram. Pareciam inteligentes e astuciosos. Um atacou Kishan, acuando-o na extremidade do ninho. Enquanto ele estava ali, ocupado, um segundo pássaro se aproximou e o apanhou com as garras.
- Kishan!
Ergui a mão e mirei em seu olho. Dessa vez, o raio funcionou. A ave de ferro gritou e soltou Kishan, que caiu com um baque surdo no ninho. Fiz o mesmo com o outro pássaro, que se afastou, chamando, enlouquecido, o restante do bando.
Corri até Kishan.
- Você está bem?
Sua camisa estava rasgada e ensangüentada. As garras da ave haviam dilacerado ambos os lados de seu tórax e o sangue jorrava livremente.
Ele arquejou.
- Parece que tenho facas quentes sobre a pele, mas já está cicatrizando. Não deixe que se aproximem de você.
A pele em torno dos cortes estava empolada e muito vermelha.
- Parece que as garras são cobertas por ácido - eu disse, solidária.
Ele arfou quando toquei de leve em sua pele.
- Vou ficar bem. - Ele se imobilizou. - Ouça. Elas estão se comunicando. Estão voltando. Prepare-se para lutar.
Kishan se levantou para distraí-las enquanto eu me posicionava atrás dos dois ovos restantes.
- Pensando bem, eu preferiria os macacos - gritou Kishan.
Estremeci.
- Vou lhe dizer uma coisa: vamos alugar os filmes King Kong e Os pássaros. Depois você decide.
Ele gritou enquanto corria do ataque de um pássaro.
- Você está marcando um encontro comigo? Porque, se estiver, isso certamente vai ser um incentivo a mais para sair disso vivo.
- Se isso funcionar, está marcado.
- Estou dentro.
Ele atravessou correndo o ninho, saltou pela borda, virou em pleno ar e pousou num galho que se projetava. Dali lançou o chakram, que se
elevou no céu. O sol refletiu no disco dourado quando girou em torno da árvore e passou no meio das 10 aves ou mais que circundavam o topo.
Elas se dispersaram em todas as direções e tornaram a se agrupar. Eu quase podia vê-las calculando a manobra seguinte. De repente, elas mergulharam em nossa direção. Gritando, o bando atacou. Uma vez eu vira um grupo de gaivotas exibir um comportamento violento de perseguição em bando. Todas bicavam e acossavam um homem com um sanduíche na praia até ele sair correndo, berrando. Elas eram determinadas e agressivas, mas essas aves eram bem piores!
Elas arrancaram galhos das árvores para nos atacar. Mais da metade delas mergulhou na direção de Kishan, que agilmente saltava de galho em galho até estar de volta a meu lado, atrás dos ovos. As asas batendo freneticamente em torno do ninho faziam o vento soprar em todas as direções. Eu tinha a sensação de estar presa num redemoinho.
Kishan atirou o chakram repetidamente, arrancando a perna de uma ave e cortando a barriga de outra antes de a arma retornar à sua mão. Livrei-me de duas atravessando-lhe os olhos com flechas e ceguei mais duas com meus raios.
- Você pode mantê-las longe de mim por um minuto, Kells? - gritou Kishan.
- Acho que sim! Por quê?
- Vou mover os dois últimos ovos!
- Depressa!
Experimentei preparar uma flecha, infundi-la com a energia de um raio e disparar. Ela atingiu uma ave no olho, fazendo explodir sua cabeça. O torso carbonizado, fumegando, aterrissou com um estrondo, metade no ninho e metade pendendo da borda. O ninho rachou e se inclinou precariamente antes de tornar a se assentar. O impacto me atirou no ar, como se eu estivesse num trampolim, e o impulso me lançou sobre a beirada. Desesperada, estendi as mãos e me agarrei à borda enquanto caía.
Galhos ásperos arranharam minha pele à medida que eu lutava para reduzir a velocidade da queda. Finalmente parei, atirei o braço acima da lateral, mas escorreguei. O sangue escorria pelo meu braço. Trincando os dentes de dor, enfiei os dedos e os pés entre os galhos em busca de apoio. Quebrei várias unhas e arranhei pernas e braços, mas valeu a pena. Não despenquei para uma morte horrível. Pelo menos, não daquela vez.
Kishan havia se firmado melhor. Ele se equilibrou rapidamente e correu para mim.
- Agüente firme, Kells!
Ele se deitou de bruços e estendeu a mão. Agarrou as minhas mãos e me puxou até eu cair em cima dele.
- Você está bem? - perguntou.
- Estou.
- Ótimo.
Ele sorriu e me envolveu nos braços, quando viu alguma coisa no alto. Então pôs uma das mãos atrás da minha cabeça e outra em minha cintura e rolou diversas vezes até batermos de encontro ao fundo do ninho, o seu corpo esparramado sobre o meu.
- Cuidado! - gritei.
Dois dos pássaros se curvavam sobre nós, tentando nos partir ao meio com seus bicos metálicos. Agarrei um galho quebrado ali perto e o enfiei no olho de um deles segundos antes de o animal estripar Kishan. Então atingi o outro com um raio.
- Obrigado.
Sorri, orgulhosa da minha façanha.
- Sempre às ordens.
O ninho se deslocou. O peso da ave morta pendurada na borda era grande demais. A ave estava caindo e levando o ninho com ela. Kishan agarrou galhos de ambos os lados da minha cabeça.
- Segure-se! - gritou ele.
Passei os braços em torno de seu pescoço e me agarrei a ele enquanto o ninho tombava vários metros no ar e rachava ao meio. Metade do
ninho tombou com a ave morta e a outra metade - aquela em que estávamos - equilibrou-se precariamente em dois galhos quase partidos. Meu estômago se revirou quando o ninho e tudo à sua volta, inclusive os galhos que nos seguravam, de repente despencaram mais um metro e aterrissaram com um estrondo de tremer os ossos. Três dos ovos caíram do ninho e se espatifaram nos galhos abaixo. Caímos no que restava do ninho e rolamos até parar.
- Onde está o Lenço? - gritei.
- Ali!
O Lenço havia voado do ninho e pendia frouxo num galho quebrado vários metros abaixo. Ele esvoaçava na brisa e provavelmente voaria de novo a qualquer momento.
- Kells, depressa! Agarre minha mão. Vou descer você para que possa alcançar o Lenço.
- Tem certeza?
- Tenho! Ande logo!
Ele segurou meu braço e me baixou. Eu não podia acreditar que Kishan tinha toda essa força, mas ele enroscou o outro braço num galho e sustentou o peso de nossos dois corpos com um só braço. Ainda não era suficiente.
- Vou ter que descer mais! Pode segurar minha perna?
- Posso. Mas preciso subir.
Ele grunhiu e me puxou para cima, jogando-me para o alto como se eu fosse uma mochila, e me pegou pela cintura quando eu começava a cair. Arquejei e agarrei seu pescoço outra vez.
- O que eu faço?
- Primeiro... - Ele inclinou a cabeça e me beijou com força. - Agora passe a perna esquerda pela minha cintura.
Eu o olhei, furiosa.
- Apenas faça o que estou dizendo!
Balancei para a frente e para trás, então consegui enganchar a perna esquerda em sua cintura. Em seguida, ele soltou minha cintura e agarrou minha perna. Era apavorante, mas eu acreditava que ele era
forte o bastante para sustentar nós dois com apenas um braço. Comparado a isso, ficar de pé nos ombros de Ren em Kishkindha tinha sido brincadeira de criança.
Fiz uma careta, perguntando-me que insanidades me aguardavam nas próximas duas tarefas. Mentalmente implorei aos galhos que seguravam o ninho para que nos agüentassem um pouco mais, apenas o suficiente para que eu agarrasse o Lenço. No fundo, eu esperava ouvi-los partir a qualquer segundo, lançando-nos num mergulho para a morte.
Soltei o pescoço de Kishan e lentamente fiquei de cabeça para baixo, segurando o cós de sua calça, depois sua perna e, por fim, seu pé. Enquanto ele me abaixava eu resmungava:
- Por que eles não escolheram uma garota do Cirque du Soleil para essas tarefas? Ficar pendurada de cabeça para baixo de um galho quebrado a centenas de metros do chão é pedir demais de uma garota iniciante em wushu!
- Kells?
- O quê?
- Cale a boca e pegue o Lenço.
- Estou tentando!
Estiquei-me mais e ouvi Kishan gemer.
- Só mais uns centímetros.
Sua mão deslizou deliberadamente da minha panturrilha para o tornozelo, fazendo-me oscilar no abismo verde.
Apavorada, gritei o nome de Kishan e fechei os olhos por um segundo, engoli em seco e balancei o corpo de volta na direção do Lenço. O vento o arrancou do galho. Ele rodopiou no ar e passou por mim. Agarrei-lhe a ponta no último segundo - pendurada de cabeça para baixo, o sangue latejando em minha cabeça, as pontas dos dedos agarrando desesperadamente o Lenço, com Kishan mal sustentando nós dois - e tive uma visão.
O dossel verde oscilando vertiginosamente diante dos meus olhos esmaeceu até se tornar branco e eu ouvi uma voz.
- Kelsey. Srta. Kelsey! Está me ouvindo?
- Sr. Kadam? Sim, eu estou ouvindo!
Vi o vago contorno de uma barraca atrás dele.
- Estou vendo sua barraca!
- E eu posso ver a senhorita e Kishan.
- O quê?
Olhei para trás e vi a imagem borrada de Kishan agarrando a perna de meu corpo pendurado de cabeça para baixo no ar. O Lenço pendia precariamente, enganchado num de meus dedos. Eu o ouvi gritando, como se estivesse a uma grande distância.
- Kelsey! Agüente firme!
A vaga silhueta de outra pessoa vinha surgindo.
- Não diga nada - instruiu o Sr. Kadam. - Não o deixe incitá-la a falar. Apenas preste atenção a cada detalhe... qualquer coisa pode nos ajudar a encontrar Ren.
- Está bem.
O medalhão do Sr. Kadam brilhava, vermelho. Olhei para o meu e vi que também reluzia no mesmo tom. Quando tornei a erguer os olhos, a imagem da outra pessoa se materializou.
Lokesh. Ele vestia um terno. O cabelo escuro estava alisado para trás e percebi que usava vários anéis. Seu medalhão também cintilava, vermelho, e era muito maior que os nossos.
Seus olhos ardilosos cintilaram quando ele sorriu.
- Ah! Eu vinha me perguntando quando tornaria a vê-la. - Ele falava educadamente, como se estivéssemos nos reencontrando num chá da tarde. - Você me custou muito em tempo e recursos, minha querida.
Eu o observava em silêncio e me encolhi enquanto ele me avaliava de forma perturbadora.
Lokesh então falou baixinho, ameaçador:
- Não temos tempo para as sutilezas do jogo, como eu gostaria, então serei direto. Quero o medalhão que você está usando. Você o trará para mim. Se fizer isso, vou deixar seu tigre viver. Se não... - Ele tirou uma faca do bolso e testou seu gume num polegar. - ...vou encontrá-la,
cortar sua garganta... - Ele me olhou diretamente nos olhos e concluiu a ameaça: - ...e arrancá-lo de seu pescoço sangrento.
- Deixe a jovem fora disso - interveio o Sr. Kadam. - Eu irei ao seu encontro e lhe darei o que quer. Em troca, você liberta o tigre.
Lokesh voltou-se para o Sr. Kadam e abriu um sorriso desagradável.
- Eu não o reconheço, meu amigo. Estou interessado em saber como você adquiriu o amuleto. Se quiser negociar, pode entrar em contato com meu escritório em Mumbai.
- E que escritório seria esse, meu amigo?
- Encontre o prédio mais alto de Mumbai. Meu escritório fica na cobertura.
O Sr. Kadam assentiu e Lokesh continuou a dar instruções. Enquanto eles
falavam, estudei o cenário enevoado que havia surgido por trás de Lokesh. Memorizei o máximo de detalhes que pude. Um homem falava com ele, mas Lokesh não lhe dava atenção.
O criado atrás de Lokesh tinha cabelos negros penteados para a frente, formando um coque no topo, logo acima da linha onde começa o cabelo. Ao longo de sua testa, via-se uma linha de tatuagens que se pareciam com as palavras em sânscrito da profecia. De peito nu, o homem usava colares de contas, feitos à mão, de várias voltas. Suas orelhas eram furadas em diversos lugares, com argolas douradas. Ele puxava outro homem e o indicava com gestos.
O segundo homem encontrava-se mais atrás com a cabeça pendendo para baixo. G cabelo preto emaranhado e imundo cobria seu rosto. Sangrando e machucado, ele lutava para se soltar das mãos do sujeito que o segurava. O criado gritou e puxou o homem para a frente, até que ele cambaleou e caiu de joelhos. Em seguida, ele o esbofeteou e puxou seus ombros para trás. Quando o homem ferido ergueu o rosto, o cabelo caiu para um lado e eu me vi fitando penetrantes olhos azul-cobalto.
Tomada pela emoção, dei um passo à frente e gritei:
- Ren!
Ele não me ouviu. Sua cabeça pendeu até o peito e eu comecei a chorar.
Alguém, no entanto, me ouviu - Lokesh. Ele estreitou os olhos e girou bruscamente para ver o que eu estava olhando. Tentou falar com seus criados, mas eles não o ouviam. Ele se voltou para mim e, pela primeira vez, estudou as imagens tênues por trás do meu ombro. Tudo já estava desaparecendo. Eu não sabia dizer se Lokesh havia reconhecido Kishan ou não. Fiquei imóvel, torcendo para que visse apenas a mim.
Lokesh de fato concentrou sua atenção em mim. Ele indicou Ren com um gesto e, com falsa simpatia, estalou a língua.
- Deve ser terrivelmente doloroso para você vê-lo assim. Sabe, cá entre nós, ele grita por você quando eu o torturo. Infelizmente para o tigre, ele vem sendo muito pouco cooperativo quanto ao seu paradeiro. - Ele deu uma risadinha. - Não me diz nem seu primeiro nome, embora eu já o saiba. É Kelsey, não é?
Lokesh observou minha expressão atentamente, esperando que eu deixasse escapar uma pista.
- Isso está se tornando uma espécie de ponto de impasse entre nós - continuou ele em sua ironia cortante. - Os lábios do príncipe são tão bem cerrados que ele não confirma nem sequer o seu nome. Devo dizer que já esperava por isso. Ele sempre foi muito teimoso. Mais lágrimas? Que triste. Ele não vai poder resistir para sempre, você sabe. A dor por si só já deveria tê-lo matado a essa altura.
Eu somente escutava, atenta a tudo.
- Por sorte, seu corpo parece bastante resistente. - Ele me observou pelo canto do olho enquanto limpava uma sujeira microscópica sob as unhas. - Tenho que admitir que gosto bastante de torturá-lo. É o melhor de ambos os mundos vê-lo sofrer tanto como homem quanto como animal. A extensão dos requintes a que posso chegar não tem precedentes. Ele sara tão rapidamente que até mesmo eu me vejo incapaz de testar seus limites. No entanto, eu lhe asseguro que estou me empenhando ao máximo.
Mordi minha mão trêmula para abafar um soluço e olhei para o Sr. Kadam. Ele sacudiu a cabeça discretamente, me indicando que ficasse quieta.
Lokesh sorriu com sarcasmo.
- Talvez, se você apenas confirmasse seu nome, eu pudesse dar a ele uma breve... trégua. Um simples gesto de confirmação seria suficiente. É Kelsey Hayes, não é?
A advertência do Sr. Kadam atravessou meus pensamentos. Foi necessária toda a minha determinação, porém mantive os olhos focados em Ren. As lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas eu não me mexi, nem mesmo olhei para Lokesh.
Ele ficou irado.
- Certamente, se você gostasse dele, iria poupá-lo de um pouco de dor, aliviar sua agonia. Não iria? Talvez eu estivesse errado em relação a seus sentimentos. Estou certo de que não errei em relação aos dele. Ele não fala absolutamente nada de você, mas, nos sonhos, chama por sua amada. Será que não é por você que ele suplica?
Sua voz começou a desaparecer.
- Ah, muito bem. Os dois irmãos nem sempre foram felizes no amor, não é mesmo? Talvez seja hora de livrá-lo de seu sofrimento. Tenho a impressão de que eu estaria lhe fazendo um favor.
Não pude evitar. Gritei:
-Não!
Ele ergueu as sobrancelhas e tornou a falar, mas suas palavras soaram baixo demais para que eu as ouvisse. Quando nós três já não podíamos ouvir o que o outro falava, o Sr. Kadam voltou-se para mim. Lokesh gesticulava, mas eu o ignorei, concentrando minha atenção no Sr. Kadam, cuja imagem foi se tornando branca. Enxuguei as lágrimas quando ele sorriu, solidário, e então piscou para mim um segundo antes de desaparecer.
De repente o branco se tornou verde. O sangue latejava em minha cabeça.
Kishan gritava para mim:
- Kelsey! Kelsey! Volte!
Felizmente, eu ainda segurava o Lenço.
- Peguei! - gritei. - Me puxe, Kishan!
- Kelsey! Cuidado!
Um pássaro gritou acima de nós. Virei-me, vi a abertura negra da garganta metálica e tive uma visão de perto e em primeira mão de seu bico-tesoura de dois gumes, verde e coberto de azinhavre. Disparei um raio para dentro da abertura e a ave se afastou grasnando, com fumaça saindo do bico.
Com um potente grunhido, Kishan me puxou para cima. Agarrei sua cintura e me segurei com toda força. Ele me soltou, acreditando que eu teria força muscular suficiente para me segurar nele. Envolvi seu corpo com os braços, agarrando meus pulsos para trancar meus braços em sua cintura, e apertei o Lenço nas mãos. Ele se lançou sobre a borda do ninho partido e me ajudou a subir. Seus braços tremiam de fadiga.
Kishan sentou-se e inspecionou meus membros.
- Kells, você está bem? O que aconteceu com você?
- Outra visão. - Ofeguei. - Falo sobre isso mais tarde.
Nós nos abaixamos quando um pássaro gritou ali perto. Peguei nossa mochila e guardei o arco e a aljava, que por magia havia se reabastecido com flechas douradas, e também o Lenço e o chakram.
- Muito bem. E agora? - perguntou ele.
- Agora nós damos o fora daqui. Venha.
Descemos até alcançar distância suficiente para que as aves não mais nos vissem. Ainda podíamos ouvi-las rondando a árvore e gritando umas para as outras, mas quanto mais descíamos, menos audíveis se tornavam os ruídos. Logo não mais as escutaríamos.
- Kells, pare. Precisamos descansar um pouco.
- Tudo bem.
O Fruto Dourado criou algo rápido para comermos e bebermos e Kishan insistiu em me examinar em busca de ferimentos. Ele parecia bem. Seus machucados já haviam cicatrizado, mas eu tinha alguns cortes feios nos braços e nas pernas. Eu também estava sarando, porém várias unhas minhas estavam quebradas e ensangüentadas e debaixo de uma delas havia uma farpa comprida que Kishan tirou com cuidado.
- Isso vai doer. Farpas e espinhos são os maiores inimigos dos tigres.
- Sério?
- Nós nos esfregamos nos troncos das árvores e os arranhamos para marcar território e às vezes comemos porcos-espinhos. Um tigre inteligente os ataca de frente, mas às vezes eles conseguem se virar. Já tive espinhos de porco-espinho em minhas patas e eles doem e inflamam. E se quebram quando ando. Um tigre não consegue arrancá-los, então eu tinha que esperar até poder me transformar em homem para puxá-los.
- Ah! Eu me perguntava por que Ren estava sempre se esfregando nas árvores na selva. Mas os espinhos não acabam saindo sozinhos?
- Não. Na verdade, eles se curvam, formando um círculo, e ficam na pele.
Tampouco se dissolvem. Isso pode acontecer com as farpas, mas não com os espinhos. Eles podem permanecer no corpo do tigre a vida toda. É o que faz alguns deles se tornarem predadores do homem. Incapacitados, eles não podem mais caçar presas rápidas. Eu já até encontrei alguns tigres que haviam morrido de fome por terem sido feridos por porcos-espinhos.
- Bem, então o sensato seria não mais comer porcos-espinhos.
Kishan sorriu.
- Mas são deliciosos.
- Argh. - Arquejei. - Ai!
- Está quase saindo. Pronto. Saiu.
- Obrigada.
Ele limpou meus piores arranhões com lenços umedecidos com álcool e então cobriu o que podia com ataduras.
- Acho que aqui você vai cicatrizar mais rápido que o normal, mas não tão rápido quanto eu. E melhor descansarmos.
- Descansaremos quando chegarmos lá embaixo.
Ele suspirou e esfregou a testa.
- Kells, levamos dias para chegar aqui em cima. Vai levar dias para descermos tudo.
- Não, não vai. Tenho um atalho. Quando os corvos clarearam minha mente, vi o que o Lenço pode fazer. Só precisamos ir até um galho.
Eu podia ver que Kishan estava temeroso, mas ainda assim me seguiu. Caminhamos até a extremidade de um galho comprido.
- E agora? - perguntou.
- Observe.
Segurei o Lenço na palma das mãos e disse:
- Um paraquedas para dois, por favor.
O Lenço se retorceu, retesou-se e foi se esticando, depois se dobrou várias vezes. Dos quatro cantos, soltaram-se fios que se prolongaram e foram se trançando, formando cintos e cordames. Por fim, o Lenço parou de se mover. Havia se transformado numa grande mochila com dois arneses.
Kishan olhava para ela, incrédulo.
- O que você fez, Kelsey?
- Você vai ver. Ponha-a nas costas.
- Você disse paraquedas. Acha que vamos sair daqui saltando de para-quedas?
- Acho.
- Não sei, não.
- Ah, vamos lá. Tigres não têm medo de altura, têm?
- A questão aqui não é a altura. A questão é estar numa árvore extremamente alta e lançar nossos corpos no nada sustentados por um tecido estranho que agora você afirma que é um para-quedas.
- É. E vai funcionar.
- Kelsey.
- Tenha fé, como disse o Mestre do Oceano. O Lenço faz outras coisas legais também. Eu conto a você na descida. Kishan, confie em mim.
- Eu confio em você. Só não confio nesse tecido.
- Bem, eu vou saltar. Você vem comigo ou não?
- Alguém já lhe disse que você é teimosa? Era teimosa assim com Ren?
- Ren teve que lidar com teimosia e sarcasmo, portanto considere-se um cara de sorte.
- Sim, mas pelo menos ele ganhava uns beijos por seus esforços.
- Você também ganhou alguns beijos.
- Não voluntários.
- E verdade. Você os roubou.
- Beijos roubados são melhores que nada.
Arqueei a sobrancelha.
- Você está começando uma discussão comigo só para amarelar?
- Não. Não estou amarelando. Muito bem. Se você insiste nisso, por favor, me explique como funciona.
- É fácil. Nós nos prendemos com as correias, saltamos o mais longe possível da árvore e puxamos a corda. Pelo menos eu espero que seja assim que funcione - murmurei baixinho.
- Kelsey.
- Não se preocupe. E a maneira como devemos descer. Eu sei que vamos conseguir.
- Certo.
Ele se prendeu ao arnês enquanto eu punha nossa mochila na frente do peito. Então me aproximei de Kishan.
- Hum... você é alto demais para mim. Talvez eu possa ficar num galho mais acima.
Olhei ao redor procurando alguma coisa em que subir, mas Kishan envolveu minha cintura com as mãos e me levantou. Ele me aconchegou perto de seu peito enquanto eu me prendia na outra parte do arnês do Lenço.
- Obrigada. Muito bem. Então o que você precisa fazer é me carregar, correr e saltar do galho. Consegue fazer isso?
- Com certeza - respondeu secamente. - Pronta?
- Sim.
Ele me apertou junto ao corpo.
- Um... dois... três!
Kishan correu cinco passos e se lançou no vazio.

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