terça-feira, 22 de outubro de 2013

Postado por Estante de Livros às terça-feira, outubro 22, 2013
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A caminho de casa
Depois de atravessarmos o portão, voltei-me para observar a terra de Shangri-lá desaparecer num redemoinho de cores. A luz vermelha que pulsava no entalhe da mão desapareceu e o portão do espírito retomou sua aparência anterior - dois postes altos de madeira, com longos cordões de bandeiras de oração soprando na brisa.
Pisquei várias vezes e esfreguei os olhos levemente. Alguma coisa estava grudada nos meus cílios. Com cuidado, soltei uma película verde transparente, que se desprendeu de cada olho como um par de lentes de contato.
Kishan parecia estar preso na forma de tigre e provavelmente ficaria assim por algum tempo, como acontecera com Ren depois de Kishkindha. Ele piscou os olhos repetidamente para mim e pude ver a película verde se soltando de um olho.
- Fique parado. Tenho que tirar isso ou vai incomodá-lo por todo o caminho.
Tirei a película de um olho e em seguida do outro. Levei muito tempo, mas fiquei orgulhosa por ter conseguido. O Mestre do Oceano dissera que, ao deixarmos Shangri-lá, as escamas se soltariam de nossos olhos e poderíamos ver o mundo real outra vez. Eu não esperava que suas palavras fossem tão literais assim.
Ajustei a mochila nos ombros e comecei a íngreme descida até o acampamento do Sr. Kadam. O sol brilhava, porém ainda estava frio. Eu sentia uma energia abrasadora me impelindo adiante. Não queria parar para descansar, embora Kishan claramente quisesse que eu parasse. Encorajei-o a prosseguir e só paramos quando já estava escuro demais para enxergarmos ao nosso redor.
Desde que Hugin me ajudara a desemperrar meus pensamentos, minha mente havia se tornado límpida, clara. Eu elaborei um plano. Sabia como salvar Ren. A única coisa que eu não sabia era onde encontrá-lo. Esperava que o Sr. Kadam descobrisse algo sobre a cultura ou a localização do povo que tínhamos observado na visão.
Os traços físicos que eu percebera talvez não fossem suficientes, mas era tudo que tínhamos. Se alguém podia saber por onde começar a procurar, essa pessoa era o Sr. Kadam. Eu também esperava que o tempo houvesse parado, ou pelo menos desacelerado, enquanto estávamos em Shangri-lá. Tinha certeza de que Ren seria torturado durante cada momento que estivesse nas mãos de Lokesh. Era insuportável pensar que ele devia estar sentindo dor, ainda mais durante os muitos dias que tínhamos passado no mundo além do portão do espírito.
Naquela noite fiquei deitada acordada em nossa tenda por muito tempo, pensando em minha estratégia e analisando-a do maior número de ângulos que me era possível. Eu não permitiria que Lokesh levasse nenhuma outra pessoa. Não haveria nenhuma troca por Ren. Iríamos salvá-lo e todos nós voltaríamos para casa.
Na manhã seguinte Kishan acordou e assumiu a forma humana. Eu rapidamente providenciei-lhe trajes próprios para a neve e ele se vestiu na tenda enquanto eu arrumava o café da manhã. Ele logo se juntou a mim vestindo suas roupas novas: uma camiseta de malha cor de ferrugem que se ajustava ao seu corpo sob o agasalho impermeável preto, calça preta com elástico nos tornozelos, luvas, meias grossas de lã e botas para neve. Avaliei sua aparência e me dei os parabéns pelo bom trabalho.
Descobrimos que obter o Lenço dera a Kishan outras seis horas livre de seu eu tigre. Tínhamos agora cumprido metade de nossa missão. Os tigres podiam assumir a forma humana durante 12 horas por dia.
Embora eu estivesse com pressa, Kishan me lembrou de que levaríamos pelo menos dois dias inteiros para descer a montanha. Quando montamos acampamento na segunda noite, decidi que era hora de conversar com ele sobre meu plano de resgate e mostrar-lhe o que mais o Lenço podia fazer.
Depois de nos acomodarmos na tenda convenientemente feita pelo Lenço, abri o zíper do saco de dormir e o estendi no chão. Encorajei-o a se sentar diante de mim, antes de pegar o Lenço.
- É o seguinte: o Lenço pode fazer várias coisas. Ele pode se tornar ou criar qualquer coisa feita de tecido ou de fibras naturais. Ele não precisa reabsorver o que cria. Até pode fazer isso, mas também pode deixar o objeto para trás e, nesse caso, a criação perde a magia do tecido. O Lenço também pode ser modelado para recolher os ventos como na história da sacola do deus japonês Fujin. A terceira coisa para que ele pode ser usado é... para mudar a aparência.
 Mudar a aparência? Como?
 Você já viu um mágico tirar um coelho da cartola ou transformar um pássaro em uma pena?
 Alguns mágicos visitavam a corte de vez em quando. Um deles transformou um camundongo em um cachorro.
 Isso! É parecido. Trata-se de uma ilusão. Um truque feito com luz e espelhos.
 Como isso funciona?
 Lembra que a Divina Tecelã disse que havia poder na tecelagem? Ela não só cria as roupas da pessoa, como também pode fazê-lo se parecer com ela. O segredo é: é preciso ser específico e capturar em sua mente exatamente com quem você quer se parecer. Vou experimentar. Observe e me diga se funciona.
 Disfarce, por favor... Nilima - eu disse.
O Lenço cresceu, tornando-se um longo pedaço de tecido negro cintilante com cores espiralando rapidamente por toda a peça. Ele resplandecia, como se enfeitado com lantejoulas que vinham brevemente à superfície e depois desapareciam. A luz se refletia e se movia pela tenda como milhares de prismas disparando arco-íris em todas as direções.
Enrolei o tecido em torno do meu corpo, cobrindo-me toda, inclusive cabelo e rosto. Minha pele ficou quente e começou a formigar. As cores em turbilhão eram iridescentes e iluminavam o pequeno espaço no qual eu me sentava envolta no manto quente em que o Lenço havia se transformado. Era como assistir ao meu show de laser particular. Quando o brilho diminuiu, me desenrolei e olhei para Kishan.
 E então?
Ele estava boquiaberto, em choque.
 Kells?
 Sim.
 Você... você está até falando como Nilima. Está vestida como ela.
Olhei para baixo e descobri que estava usando um vestido de seda azul-
-claro que ia até os joelhos. Minhas pernas estavam nuas.
 Acabei de perceber. E estou congelando!
Kishan pôs seu casaco em mim. Então pegou minha mão e a examinou.
 Sua pele se parece com a dela. Suas unhas estão compridas e pintadas. Inacreditável!
Estremeci.
 Ok. Demonstração feita. Estou congelando de verdade. - Tornei a me enrolar no tecido e disse: - De volta a mim mesma, por favor. - As
cores começaram a espiralar novamente e, após um longo minuto, me desenrolei do tecido e voltei à minha aparência. - Agora experimente você, Kishan. Não temos espelho. Quero ver quanto isso é fiel.
 Certo. - Ele pegou o lenço das minhas mãos e disse: - Disfarce... Sr. Kadam.
Ele se enrolou todo no tecido. Quando o retirou um minuto depois, eu me vi sentada diante do Sr. Kadam. Ele estava exatamente como eu o vira da última vez. Estiquei o dedo e toquei em sua barba aparada.
 Uau! Você está igualzinho a ele! - Apalpei a bainha da calça. - Parece de verdade. E uma réplica perfeita!
Ele tocou o próprio rosto e passou a mão no cabelo bem rente.
 Espere um instante! Você está com o amuleto dele! Parece real?
Ele tocou o amuleto e apalpou a corrente.
 Parece real, mas não é.
 Como assim?
 Usei um amuleto a maior parte da minha vida e, quando o dei a você, podia sentir sua ausência. Este aqui não me parece real. Não parece ter poder. Também é mais leve e a superfície é ligeiramente diferente.
 Humm, interessante. Não sei se posso sentir o poder do meu.
Estendi a mão e toquei o amuleto no pescoço dele e então comparei com o meu.
 Acho que o que você está usando é feito de algum tipo de tecido.
 E mesmo? - Ele o esfregou entre os dedos. - Tem razão. A superfície é ligeiramente diferente. Você não consegue mesmo sentir o poder do amuleto?
 Não.
 Bem, se o usasse por tantos anos quanto eu, sentiria.
 Talvez seja algo que somente vocês, tigres, possam sentir, por estarem tão intimamente associados a ele.
 Talvez. Teremos que perguntar sobre isso ao Sr. Kadam.
Kishan voltou à sua aparência.
 Então, qual é exatamente o seu plano, Kells?
 Ainda não elaborei todos os detalhes, mas pensei que talvez pudéssemos personificar os guardas de Lokesh e entrar onde quer que estejam mantendo Ren.
 Você não pretende fazer uma troca, então? Um amuleto em troca de Ren?
 Não se pudermos evitar. Gostaria que este fosse o último recurso. O grande problema do plano é que não sei onde Ren está sendo mantido prisioneiro. Eu lhe contei que vi Ren em minha visão, mas também vi uma pessoa que tenho esperanças de que o Sr. Kadam possa identificar.
 Identificar como?
 O cabelo e as tatuagens dele eram singulares. Nunca vi nada parecido.
 É um tiro no escuro, Kells. Identificar de onde é o criado não significa necessariamente saber se é lá que Lokesh está mantendo Ren.
 Eu sei, mas é tudo que temos para prosseguir.
 Muito bem, então temos um como. Só precisamos de um onde.
 Exato.
No dia seguinte finalmente ultrapassamos o limite das neves e continuamos a descer em ritmo acelerado. Kishan havia dormido como tigre, então caminhou comigo como homem durante quase todo o dia, o que nos deu a oportunidade de conversar. Ele contou que se sentia sufocado sendo forçado a voltar à forma de tigre. Como Ren, agora que sentira o gosto de ser humano, ansiava por isso desesperadamente.
Tentei fazê-lo ver que 12 horas eram muito melhores que 6. Agora ele podia dormir como tigre e passar a maior parte de suas horas acordado como homem, mas ainda assim ele se queixava. Durante um intervalo na conversa, eu disse:
 Kishan?
Ele resmungou ao escorregar um pouco morro abaixo no cascalho solto.
- Diga.
 Quero que você me conte tudo o que sabe sobre Lokesh. Onde você o conheceu? Como ele é? Me fale sobre a família, a mulher, a história dele. Tudo.
 Está bem. Para começar, ele não veio de uma linhagem real.
 Como assim? Pensei que fosse rei.
 Ele era, mas não começou assim. Quando o conheci, era um conselheiro real. Ele havia ascendido rapidamente a um posto de autoridade. Quando o rei morreu de maneira inesperada, sem deixar descendentes, Lokesh assumiu a posição de rei.
 Provavelmente tem uma história muito interessante aí. Eu adoraria saber como aconteceu sua ascensão ao poder. Todos simplesmente o aceitaram como o novo rei? Houve algum protesto?
 Se houve, ele logo reprimiu quaisquer movimentos de insatisfação e se pôs a formar um poderoso exército. Seu reino havia sido sempre muito pacífico e nunca tínhamos enfrentado problemas com eles até Lokesh assumir o poder. Mesmo então ele era sempre muito cauteloso com minha família. Pequenos conflitos irrompiam entre nossos exércitos, dos quais ele sempre afirmava não ter conhecimento. Agora achamos que ele estava reunindo informações, pois os conflitos sempre aconteciam em áreas militares estratégicas. Ele os descartava como mal-entendidos sem importância e nos assegurava de que iria repreender os sobreviventes.
 Sobreviventes? Como assim?
 Os conflitos sempre resultavam na morte de soldados seus. Ele os usava como ferramentas descartáveis. Exigia-lhes lealdade e eles a davam... até mesmo sacrificando suas vidas.
 E ninguém da sua família jamais suspeitou de nada?
 Se alguém desconfiava dele, era o Sr. Kadam. Ele era o chefe dos militares na época e achava que havia mais coisas ali do que soldados confundindo suas ordens. Ninguém mais, porém, suspeitava de Lokesh. Ele era muito encantador quando nos visitava. Sempre assumia um comportamento humilde quando estava perto de meu pai, mas o tempo todo estava friamente planejando nossa derrocada.
 Quais são as fraquezas de Lokesh?
 Acho que ele conhece mais as minhas fraquezas do que eu as dele. Imagino que maltratasse Yesubai. Segundo o que nos contou, sua mulher havia morrido muito antes de o conhecermos. Yesubai nunca
falava da mãe e nunca me ocorreu perguntar. Até onde sei, não lhe resta nenhum parente, nenhuma descendência, a menos que tenha se casado de novo depois. Ele almeja o poder. Isso pode ser uma fraqueza.
 Ele almeja dinheiro? Poderíamos comprar a liberdade de Ren?
 Não. Ele usa dinheiro apenas como meio de obter mais poder. Não dá a mínima para jóias ou ouro. Ele pode até dizer o contrário, mas eu não acreditaria. Ele é um homem ambicioso, Kelsey.
 Sabemos alguma coisa sobre as outras partes do amuleto? Como, por exemplo, onde ele as conseguiu?
 A única coisa que sei sobre o amuleto é o que meus pais nos contaram. Eles disseram que as partes do amuleto eram usadas por cinco chefes militares e que foram transmitidas como herança ao longo dos séculos. A família de minha mãe tinha uma parte e a de meu pai tinha outra. Foi assim que Ren e eu ficamos cada um com uma parte. A que você usa era da mamãe e Kadam usa a do papai. Não tenho a menor idéia de como Lokesh adquiriu as outras três partes. Eu nunca ouvira falar de outras partes do amuleto até Lokesh mencioná-las. Ren e eu usávamos nossas partes sob a roupa como peças de herança de família cuidadosamente protegidas.
 Talvez Lokesh tenha encontrado uma lista das famílias a que elas foram confiadas... - ponderei.
 Talvez. Mas nunca ouvi falar de tal lista.
 Seus pais sabiam que os amuletos eram poderosos?
 Não. Não até sermos transformados em tigres.
 Vocês não tiveram um antepassado que viveu muito tempo, como o Sr. Kadam?
 Não. Nossa família era prolífica de ambos os lados. Havia sempre um rei jovem a quem passar o amuleto e era uma tradição nossa fazer isso quando o garoto completava 18 anos. Nossos antepassados tiveram vidas mais longas que o normal, mas a expectativa de vida então era bem mais curta que hoje.
 Infelizmente nenhuma dessas informações nos dá uma pista de alguma das fraquezas de Lokesh.
 Talvez dê, sim.
 Como? - perguntei.
 Ele ambiciona o poder acima de todas as coisas. Como está perseguindo as partes do amuleto a qualquer custo, então essa é sua fraqueza.
 O que você está querendo dizer?
 Acabamos de ver o Lenço criar uma réplica do amuleto quando assumi a forma do Sr. Kadam. Se ele pegar a réplica, achará que venceu.
 Mas não sabemos se a réplica pode ser tirada da pessoa ou não. Mesmo que possa, não sabemos quanto tempo dura.
Kishan deu de ombros e disse:
 Testaremos quando voltarmos.
 É uma boa idéia.
Tropecei numa pedra e Kishan me segurou. Ele me sustentou apenas por um instante a mais que o necessário, sorriu e tirou o cabelo do meu rosto.
 Estamos quase lá. Podemos continuar ou você precisa descansar? - perguntou com desvelo.
 Posso continuar.
Ele me soltou e tirou a mochila dos meus ombros.
 Kishan, eu queria agradecer por tudo o que você fez em Shangri-lá. Eu não teria conseguido sem você.
Ele jogou a mochila num ombro e parou, me observando por um minuto.
 Você não achou que eu a deixaria ir sozinha, achou?
 Não, mas me sinto grata por ter tido você comigo.
 Gratidão é tudo o que vou ganhar, não é?
 O que mais você esperava?
 Adoração, devoção, afeto, paixão ou simplesmente a confissão de que me acha irresistível.
 Desculpe, Don Juan. Vai ter que viver com minha eterna gratidão.
Ele suspirou teatralmente.
 Acho que esse é um começo tão bom quanto qualquer outro. Que tal então nos considerarmos quites? Nunca lhe agradeci por ter me convencido a voltar para casa. Eu... descobri muitas coisas de que gosto no fato de estar em casa.
Sorri para ele.
 Feito.
Ele passou o braço pelos meus ombros e continuamos a caminhar.
 Eu me pergunto se vamos encontrar aquele urso outra vez - refletiu Kishan.
 Se o encontrarmos, dessa vez devo conseguir mantê-lo à distância. Não pensei em usar meu poder naquele momento. Sou uma guerreira de meia-tigela.
 Você lutou muito bem contra os pássaros. - Ele sorriu. - Eu iria para a guerra com você a qualquer hora. Vou lhe contar sobre a ocasião em que deixei minha espada em casa.
Ele beijou minha testa e recordou tempos mais felizes.
Ao anoitecer pudemos ver ao longe uma pequena fogueira na base da montanha. Kishan me assegurou de que aquele era o acampamento do Sr. Kadam. Contou que podia sentir o cheiro dele na brisa. Ele segurou minha mão no último quilômetro, dizendo que podia ver melhor no escuro do que eu - mas eu suspeitava de que esse não fosse o único motivo. Quando chegamos mais perto, fui capaz de distinguir a sombra do Sr. Kadam no interior da barraca.
Aproximei-me e disse:
 Ô de casa! Tem vaga para um casal de estranhos errantes?
A sombra se moveu e o zíper da barraca deslizou.
 Srta. Kelsey? Kishan?
O Sr. Kadam saiu da barraca e me prendeu num forte abraço. Então ele se virou para dar um tapinha nas costas de Kishan.
 Vocês devem estar congelando! Entrem. Vou fazer um chá quente. Deixem-me pegar uma chaleira para pôr no fogo.
 Sr. Kadam, não precisa fazer isso. Temos o Fruto Dourado, lembra?
 Ah, sim. É verdade.
 E temos mais uma coisa também.
Tirei o Lenço cor de ametista do pescoço e isso o fez mudar para turquesa.
 Almofadas macias, por favor, e poderia tornar a barraca um pouco maior? - perguntei.
Os fios cor de turquesa imediatamente se deslocaram e se esticaram. Vários deles teceram grandes almofadas de várias cores e outro pedaço se separou e começou a dar laçadas na extremidade da barraca. Alguns momentos depois pudemos nos sentar confortavelmente em grandes almofadas numa tenda que havia dobrado de tamanho. O Sr. Kadam observava em silêncio, fascinado, os fios atarefados.
Tive certa dificuldade para tirar o casaco. Kishan me ajudou e fez um carinho no meu braço. Empurrei sua mão para longe, mas ele se limitou a sorrir e se reclinar nas almofadas.
 Ele funciona como o Fruto Dourado só que criando coisas tecidas? - perguntou o Sr. Kadam.
Lancei um olhar de advertência a Kishan e respondi:
 É por aí.
 "O povo da Índia será vestido" - murmurou o Sr. Kadam.
 É... acho que poderíamos mesmo vestir o povo da Índia com isso.
Engraçado que isso não tenha me ocorrido antes.
 Espere um pouco. A profecia não falava algo sobre "grandes disfarces" também?
O Sr. Kadam remexeu alguns papéis e encontrou uma cópia da profecia.
 Sim. Aqui diz: "Discos lançados e grandes disfarces podem deter aqueles que perseguem." É a isso que você está se referindo?
Eu ri.
 Sim, isso faz sentido então. Sabe, o Lenço Divino pode fazer umas outras coisinhas também, além de criar roupas e tecer coisas. Pode reunir os ventos, como a sacola do deus Fujin.
 Semelhante à sacola de ventos que Odisseu recebeu de Éolo? - replicou o Sr. Kadam. - A sacola de couro de Ulisses amarrada com um fio de prata?
 Sim, mas não é couro. No entanto, o fio de prata funcionaria.
 Talvez enviado por um dos deuses do vento? Vayu? Striborg? Njord? Pazuzu?
 Não se esqueça de Bóreas e Zéfiro.
 Vocês podem falar uma língua que eu entenda, por favor? - interrompeu Kishan.
O Sr. Kadam riu.
 Desculpe. Fiquei empolgado por um instante.
 Quer mostrar a ele agora, Kishan? - perguntei.
 Claro.
O Sr. Kadam se inclinou para a frente.
 Mostrar o quê, Srta. Kelsey?
 O senhor vai ver.
Kishan pegou o Lenço Divino, murmurou "Disfarce" e o girou em torno de seu corpo. O tecido se alongou e se tornou preto com cores em torvelinho.
 Quero ver se funciona sem que eu diga um nome em voz alta, como o Fruto Dourado - disse ele sob as dobras do tecido.
 Boa idéia - respondi.
Quando Kishan afastou o Lenço do rosto, eu não estava preparada para o que vi. Era Ren. Ele assumira a forma de Ren. E deve ter visto a aflição em meu rosto.
 Eu sinto muito. Não queria chocar o Sr. Kadam mostrando a ele o próprio rosto.
 Está tudo bem. Só desfaça isso depressa, por favor.
Foi o que ele fez e o Sr. Kadam ficou lá sentado, estupefato. Eu não conseguia falar. Ver Ren sentado ali - mesmo sabendo que, na verdade, era Kishan - foi extremamente difícil. Tive que reprimir todas as emoções que emergiram.
Kishan rapidamente tomou a palavra e explicou:
 Com o Lenço, podemos assumir a forma de outras pessoas. Kelsey se transformou em Nilima e eu em você. Precisamos testar seu alcance e
tentar diferentes formas para podermos entender as habilidades e as limitações de disfarce do Lenço.
 Simplesmente... incrível! - exclamou o Sr. Kadam. - Kishan, posso?
 Claro.
Ele jogou o Lenço para o Sr. Kadam. A cor do tecido mudou assim que seus dedos o tocaram, primeiro assumindo um tom mostarda-amarronzado e depois mudando para verde-oliva.
 Acho que ele gosta do senhor - brinquei.
 Ah... imaginem as possibilidades. Quantas pessoas o Fruto Dourado e este tecido glorioso poderiam ajudar? Tanta gente sofrendo com a escassez de alimentos e roupas para proteger do frio... e não apenas na índia. Esses são presentes verdadeiramente divinos.
Deixei-o examinar o Lenço enquanto eu pedia ao Fruto Dourado que nos preparasse chá de camomila com creme e açúcar. Kishan não gostava muito de chá, então ganhou um chocolate quente com canela e creme batido.
 Quanto tempo ficamos fora? - perguntei.
 Pouco mais de uma semana.
Rapidamente calculei em minha mente quantos dias ficamos na montanha.
 Ótimo. Nosso tempo em Shangri-lá não contou.
 Quanto tempo vocês dois ficaram em Shangri-lá, Srta. Kelsey?
 Não tenho certeza, mas acho que foram quase duas semanas. - Olhei para Kishan. - Confirma?
Ele assentiu em silêncio e bebericou seu chocolate.
 Sr. Kadam, quando podemos partir?
 Podemos ir ao amanhecer.
 Quero chegar em casa o mais rápido possível. Precisamos nos preparar para salvar Ren.
 Podemos atravessar a fronteira e entrar na índia pela província de Sikkim. Vai ser muito mais rápido do que passar pelo Himalaia de novo.
 Quanto tempo isso levará?
 Depende da rapidez com que passarmos pela fronteira. Se não houver problemas, talvez uns poucos dias.
 Ótimo. Temos muito para lhe contar.
O Sr. Kadam bebia seu chá e me olhava, pensativo.
 Você não tem dormido direito, Srta. Kelsey. Seus olhos estão cansados.
Ele fez contato visual com Kishan e então deixou a xícara de lado.
 Acho que devíamos deixá-la dormir. Temos um longo trajeto à frente e podemos conversar na estrada.
 Concordo - interpôs Kishan. - Esses últimos dias foram difíceis para você. Descanse um pouco, bilauta.
Terminei meu chá.
 Acho que sou minoria. Muito bem. Então vamos todos dormir e assim poderemos partir mais cedo amanhã.
Usei o Lenço para fazer outro saco de dormir e travesseiros para todos nós. Adormeci ao som tranqüilo de Kishan e o Sr. Kadam conversando baixinho em sua língua nativa.
No dia seguinte demos início à nossa viagem de volta. Passamos pela alfândega e então percorremos aproximadamente metade do caminho para casa antes de parar num hotel em Gaya. Nós três nos alternamos dirigindo e tirando um cochilo no banco de trás. Na vez de Kishan, o Sr. Kadam ficou de olho nele, ainda receoso por causa do acidente com o Jeep na Índia.
No caminho contamos ao Sr. Kadam tudo sobre nossa jornada. Comecei com o monte Everest e o urso. Kishan falou sobre ter me carregado ao transpor o portão do espírito e da caminhada pelo paraíso.
O Sr. Kadam ficou fascinado pelos silvanos e fez dezenas de perguntas. Enquanto eu dirigia, ele tomava notas. Queria realizar um registro detalhado de nossa jornada. Ouvia atentamente e escrevia página após página em sua refinada caligrafia. Fez muitas perguntas específicas sobre as provas das quatro casas e sobre os pássaros de ferro guardiões, assentindo com a cabeça, como se esperasse que isso ou aquilo ocorresse.
No hotel nos sentamos a uma mesa e lhe mostramos as fotos que Kishan havia tirado da Arca de Noé, da árvore do mundo, dos silvanos e das quatro casas. O registro visual nos ajudou a lembrar de mais detalhes e o Sr. Kadam pegou novamente o caderno e recomeçou a escrever.
Kishan me mostrou a câmera e perguntou:
 O que é isto?
Virei-a em diferentes ângulos e ri.
 É um dos olhos de Hugin. Está vendo? Ali está o ninho.
Kishan passou mais algumas imagens.
 Por que você não levou uma câmera para Kishkindha?
Dei de ombros, mas o Sr. Kadam explicou:
 Eu não queria sobrecarregá-la com um número excessivo de objetos pesados. Ela precisava de água e comida.
Kishan grunhiu e disse:
 Com certeza vou querer uma cópia desta aqui, apsaras rajkumari.
Ele me entregou a câmera. Era uma foto minha no vestido de tecido fino com "fivelas de fadas". Eu parecia uma princesa de pele reluzente e olhos brilhantes. Meu cabelo caía em ondas suaves pelas costas e dava para ver uma fada cor-de-rosa espiando por trás de um cacho do cabelo. O Sr. Kadam olhou sobre meu ombro.
 Está muito bonita, Srta. Kelsey.
Kishan riu.
 Você devia tê-la visto pessoalmente. Muito bonita não faz jus a ela.
O Sr. Kadam riu e foi pegar sua bolsa no carro.
Kishan apoiou o quadril na mesa. Juntou as mãos, ergueu um dos joelhos e me olhou com a expressão séria.
 Na verdade, eu diria que nunca vi nada mais bonito.
Arrastei os pés, nervosa.
 Bem, é sempre impressionante quando a pessoa se arruma. Um tratamento de beleza de fadas iria causar comoção nos salões.
Ele segurou delicadamente meu cotovelo e me virou para ele.
 Não foi um tratamento de beleza que a fez ficar linda. Você é sempre linda. A maquiagem somente realçou o que já estava lá. - Ele
ergueu meu queixo com um dedo e me olhou nos olhos. - Você é uma mulher maravilhosa, Kelsey.
Kishan pôs as mãos quentes em meus braços nus e os esfregou com carinho. Ele me puxou para mais perto. Seus olhos desceram para minha boca. Quando ele baixou os lábios até poucos centímetros dos meus, eu deliberadamente pressionei as mãos contra seu peito e adverti:
 Kishan.
 Gosto da maneira como você diz meu nome.
 Por favor, me solte.
Ele ergueu a cabeça, suspirou e disse baixinho:
 Ren... é um homem de sorte, muita sorte.
Com relutância, ele retirou as mãos dos meus braços e foi até a janela.
Eu me ocupei recolhendo artigos de toalete e um pijama. Kishan me observou em silêncio por um minuto e então anunciou:
 Acho que também preciso de um tratamento de beleza. Um banho quente está me chamando.
Ainda nervosa, eu disse:
 E, eu também. Um banho quente vai ser magnífico.
Ele ergueu uma sobrancelha.
 Quer ir primeiro?
 Não, pode ir.
Seus olhos faiscavam ao me fitar.
 Seria sensacional se você me dissesse que queria economizar agui.
 Kishan! - exclamei, indignada.
Ele piscou para mim.
 Não achei mesmo que quisesse. Mas não se pode culpar um homem por tentar.
A volta do Sr. Kadam me poupou de dar uma resposta a ele.
No segundo dia o Sr. Kadam e eu comparamos anotações sobre a visão de Lokesh. Ele também notara o criado tatuado ajudando Lokesh e achava que sua aparência era singular o bastante para que rastreássemos a origem do homem. O Sr. Kadam também havia planejado investigar discretamente o escritório de Lokesh em Mumbai.
O ar estava tão úmido e abafado do lado de fora que provavelmente poderíamos ter enchido nossas garrafas de água apenas pendurando-as na janela. Passamos por templos com cúpulas douradas e pessoas trabalhando nos campos, atravessamos rios caudalosos e estradas inundadas, mas eu só conseguia pensar em chegar até Ren. Na verdade, a única coisa que interrompia meus pensamentos em Ren era Kishan.
Alguma coisa havia mudado entre nós em Shangri-lá e eu não sabia exatamente o que fazer a esse respeito. Ter passado todas aquelas semanas com Kishan não ajudava. Ele estava indo além do flerte e começando a fazer investidas sérias. Eu havia esperado que ele perdesse o interesse.
De início acreditara que quanto mais ele me conhecesse, menos gostaria de mim. Mas aparentemente eu exercera o efeito oposto nele. Eu o amava, mas não da mesma maneira que ele se sentia em relação a mim. Eu aprendera a confiar nele. Ele havia se tornado um bom amigo, só que eu estava apaixonada por seu irmão. Se eu tivesse conhecido Kishan antes de Ren, as coisas talvez fossem diferentes. Mas não fora assim.
Os pensamentos ficavam me importunando enquanto seguíamos no carro. Fora apenas sorte eu ter conhecido Ren primeiro? Termos tido a oportunidade de nos apaixonar? E se Kishan houvesse ido atrás de mim nos Estados Unidos e não Ren? Será que eu teria feito uma escolha diferente?
A verdade era que eu não sabia. Kishan era um homem muito atraente, tanto por fora quanto por dentro. Havia algo nele, algo que faria qualquer garota querer abraçá-lo e mantê-lo assim para sempre. Ele era solitário. Estava procurando um lar, alguém que o amasse, assim como Ren. Precisava de alguém que o aceitasse e deixasse o tigre errante e perdido descansar. Eu podia facilmente me ver como essa pessoa. Podia me ver me apaixonando por ele e sendo feliz ao seu lado.
Mas aí pensava em Ren, que tinha as mesmas qualidades que eu amava em Kishan. Ren também precisava de alguém para amá-lo, para sossegar o tigre inquieto. Mas Ren e eu combinávamos de forma tão mais
natural... como se ele fosse feito especialmente para mim. Ele era tudo que eu poderia desejar embrulhado num pacote estonteante.
Ren e eu tínhamos muito em comum. Eu adorava a maneira como ele me dava apelidos carinhosos. E como cantava para mim e tocava violão. Adorava como ele ficava entusiasmado em ler Shakespeare e como gostava de assistir a filmes e torcer pelos mocinhos. E adorava o fato de ele não trapacear, mesmo que fosse para ganhar a garota que ele ama.
Se eu nunca tivesse conhecido Ren, se tivesse sido Kishan na jaula do circo, eu sentia que poderia ser feliz com ele também. Mas como Ren me amava e queria estar comigo, eu nunca poderia ser convencida a olhar Kishan com outros olhos. Ren preenchia meu mundo mesmo quando não estava presente.
Para Ren não havia nuances de cinza. Ele era o gato branco e Kishan, o negro, literalmente. O problema era que eu não via Kishan da mesma maneira que Ren o via. Kishan também era um herói. Ambos haviam sido feridos. Ambos haviam sofrido. E Kishan merecia um final feliz tanto quanto Ren.
Ao volante, Kishan olhava no retrovisor interno de tempos em tempos, me observando.
Eu mordia o lábio, pensativa, quando ele disse:
 Um tostão por seus pensamentos.
Corei e respondi:
 Só estava pensando em salvar Ren.
Então deliberadamente me virei no banco de trás e cochilei.
Quando o carro finalmente parou na entrada da garagem, Kishan me acordou com gentileza:
 Chegamos em casa, bilauta.

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