terça-feira, 22 de outubro de 2013

Postado por Estante de Livros às terça-feira, outubro 22, 2013
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Confissões
Eu me sentia tão feliz por estar de volta em casa que poderia ter chorado. Kishan levou nossa bagagem para dentro e rapidamente desapareceu. O Sr. Kadam também pediu licença para consultar alguns de seus contatos. Sozinha, resolvi tomar um banho quente e demorado e pôr as roupas para lavar.
De pijama e chinelo, fui até a lavanderia e coloquei um monte de peças na máquina. Não sabia o que fazer com as roupas de fada. Decidi pendurá-las na varanda durante a noite, só para ver se havia alguma fada no mundo real. Então percorri a casa tentando descobrir o que os outros estavam fazendo.
Encontrei o Sr. Kadam na biblioteca, ao telefone. Eu ouvia apenas metade da conversa. Ele olhou para mim e puxou uma cadeira para que eu me sentasse ao lado dele.
 Sim. Claro. Entre em contato comigo o mais rápido possível. Correto. Mande tantos quantos forem necessários. Manteremos contato.
Ele desligou o telefone e se virou para mim. Brincando com meu cabelo molhado, perguntei:
 Quem era?
 Um homem que trabalha para mim e que tem muitos talentos extraordinários. Um dos quais é se infiltrar em grandes organizações.
 O que ele vai fazer para a gente?
 Vai começar a investigar quem trabalha no escritório na cobertura do edifício mais alto de Mumbai.
 O senhor não está pretendendo ir até lá pessoalmente, está? Lokesh iria capturá-lo também!
 Não. Lokesh mostrou mais sobre si mesmo do que descobriu sobre nós. Você notou o terno dele?
 Para mim parecia um terno qualquer.
 Não é. Seus ternos são feitos sob medida na Índia. Apenas dois estabelecimentos em todo o país se especializaram em ternos caros como aquele. Mandei meus homens descobrirem um endereço.
Sacudi a cabeça e sorri.
 Sr. Kadam, alguém já lhe disse que o senhor é extremamente observador?
Ele sorriu.
 Talvez uma ou duas vezes.
 Bem, fico muito feliz por ter o senhor do nosso lado. Estou impressionada! Eu nem sequer pensei em olhar as roupas dele. E quanto ao criado?
 Tenho algumas suspeitas sobre seu lugar de origem. Com base nas contas, no cabelo e na tatuagem, devo poder delimitá-lo amanhã. Por que a senhorita não faz um lanche e vai para a cama?
 Tirei um bom cochilo no carro, mas um lanche vai cair bem. O senhor me acompanha?
 Creio que sim.
Levantei-me rapidamente.
 Ah, quase esqueci! Trouxe uma coisa para o senhor!
Encontrei minha mochila no pé da escada e peguei dois copos e dois pra- tinhos na cozinha. Coloquei um prato e um copo diante do Sr. Kadam e abri a mochila.
 Não sei se a massa ainda está comestível, mas o néctar deve estar.
Ele se inclinou para a frente, curioso.
Abri os deliciosos pacotes dos silvanos e coloquei várias iguarias delicadas em seu prato. Infelizmente o pequeno pacote de biscoitos finos polvilhados de açúcar havia se transformado em migalhas. Mas os outros itens ainda pareciam frescos e deliciosos, como em Shangri-lá.
O Sr. Kadam avaliou os minúsculos petiscos de vários ângulos, admirando o trabalho artístico. Então provou cuidadosamente uma galette de cogumelo e uma diminuta tortinha de framboesa enquanto eu explicava que os silvanos eram vegetarianos e que adoravam coisas açucaradas. Tirei a rolha de uma cabaça alta e despejei o néctar doce e
dourado em sua xícara. Kishan entrou e puxou uma cadeira perto de mim.
 Ei! Por que não fui convidado para o chá dos silvanos? - brincou ele.
Deslizei meu prato para Kishan e fui buscar outro copo. Rimos e desfrutamos de um momento de tranqüilidade enquanto saboreávamos rolinhos de abóbora com manteiga de nozes e minitortas de maçã, de queijo e de cebola.
Bebemos até a última gota de néctar e ficamos encantados ao ver que o Fruto Dourado era capaz de produzir mais.
A única coisa que poderia ter tornado esse momento melhor teria sido partilhá-lo com Ren. Prometi a mim mesma que descreveria por escrito cada iguaria deliciosa que tínhamos comido em Shangri-lá para que pudesse saboreá-las novamente com Ren usando o Fruto Dourado, depois que ele fosse resgatado.
Ficamos acordados até tarde naquela noite. Kishan se transformou em tigre e dormiu aos meus pés enquanto o Sr. Kadam e eu líamos livros sobre as tribos rurais da Índia. Por volta das três da manhã, virei uma página no quinto livro que pegara e encontrei a foto de uma mulher com uma tatuagem na testa.
 Sr. Kadam, dê uma olhada nisto.
Ele se sentou na poltrona de couro ao meu lado. Passei-lhe o livro para que ele pudesse estudar a mulher.
 Sim. Este é um dos grupos em que pensei. São os baigas.
 O que o senhor sabe sobre eles? Onde vivem?
 São uma tribo indígena quase sempre nômade, que evita associações fora de suas comunidades. Eles caçam e coletam alimentos, preferindo não cultivar o solo. Acreditam que trabalhar a terra prejudica a Mãe Natureza. Que eu saiba existem dois grupos deles: um em Madhya Pradesh, na região central da índia, e outro em Jharkhand, que fica no leste do país. Creio que tenho um livro que oferece mais detalhes sobre sua cultura.
Ele examinou várias prateleiras até encontrar o volume certo. Então se sentou ao meu lado e abriu o livro.
 É sobre os adivasis. Deve haver mais informações sobre os baigas aqui.
Inclinei-me para coçar a orelha de Kishan.
 O que são os adivasis?
 Trata-se de um termo que classifica todas as tribos nativas em conjunto, mas não as diferencia entre si. Várias culturas se enquadram no termo adivasis. Aqui temos os irulas, oraons, santals e - ele passou mais uma página - os baigas.
Ele encontrou o capítulo que estava procurando e correu o dedo pela página enquanto lia partes importantes numa taquigrafia verbal.
 Praticam agricultura de corte e queima. Famosos pelas tatuagens. Dependem da selva para o sustento. Empregam remédios antigos e mágicos. Artesanato de bambu. Ah! Aqui está exatamente o que procuramos, Srta. Kelsey. Os homens baigas usam o cabelo comprido e o prendem num coque. O homem segurando Ren se encaixa nessa descrição. Mas o que complica tudo é o fato de que é quase impossível um baiga deixar sua tribo para servir alguém como Lokesh.
 Mesmo que ele pagasse bem?
 Isso não teria importância. O estilo de vida deles é centrado na tribo. Não haveria nenhuma razão para que ele deixasse seu povo. Não está dentro de suas normas culturais. São um povo simples e franco. E improvável que um dos baigas tenha se juntado aos exércitos de Lokesh. Ainda assim, merece uma investigação. Vou começar meu estudo das tribos baigas amanhã. Agora é hora de dormir, Srta. Kelsey. Eu insisto. Está muito tarde e nós dois precisamos ter a mente descansada.
Assenti e devolvi os livros que tirara das estantes de sua biblioteca. Ele apertou meu ombro.
 Não se aflija. Tudo vai dar certo no final. Eu sinto isso. Já fizemos um grande progresso. Kahlil Gibran disse: "Quanto mais fundo o sofrimento cava em seu ser, mais alegria você pode conter." Sei que passou por muitas grandes dores, mas também tenho a impressão de que sua vida guardará muitas alegrias, Srta. Kelsey.
Sorri.
 Obrigada. - Eu o abracei e sussurrei de encontro à sua camisa: - Não sei o que faria sem o senhor. Durma um pouco também.
Dissemos boa-noite e o Sr. Kadam desapareceu em seu quarto enquanto eu subia a escada. Kishan me seguiu até meu quarto e parou diante da porta de vidro que dava para a varanda, esperando que eu o deixasse sair. Quando deslizei a porta, abrindo-a, ajoelhei-me ao lado dele e acariciei-lhe as costas.
 Obrigada por me fazer companhia.
Ele pulou no banco de balanço e imediatamente adormeceu. Subi na cama e abracei com força meu tigre branco de pelúcia, esperando preencher o vazio dentro do meu peito com pensamentos sobre Ren.
Acordei por volta das 11 horas. O Sr. Kadam estava ao telefone e desligou assim que me sentei diante dele.
 Acho que a sorte nos sorriu, Srta. Kelsey. Em minha investigação dos baigas, não encontrei nada de extraordinário a respeito da tribo localizada em Madhya Pradesh. A tribo do leste da índia, porém, parece estar desaparecida.
 Como assim, desaparecida?
 Em geral há pequenos vilarejos perto das tribos baigas que têm contato com elas de tempos em tempos. Esses encontros com freqüência se devem a controvérsias a respeito de desmatamento ou várias outras disputas. A tal tribo parece ter se transferido recentemente e não foi encontrada. Eles são nômades e se deslocam, mas esse é o período mais extenso que ficaram sem contactar os habitantes locais.
 Que estranho...
 Os baigas agora têm seus limites demarcados por lei e não podem se deslocar tão livremente quanto no passado. Vou fazer mais pesquisas hoje. Também tenho alguns contatos que podem fotografar a área por satélite e encontrar a tribo em sua localização atual. Se o caso merecer mais atenção, informarei você e Kishan. Vocês dois passaram por uma provação e tanto nas últimas semanas, portanto quero que descansem hoje. Não há nada que possam fazer até eu conseguir mais informações.
Vão nadar, assistir a um filme ou saiam para comer. Vocês dois merecem um descanso.
 O senhor tem certeza de que não há nada que eu possa fazer? Não consigo relaxar de verdade sabendo que Ren está sofrendo.
 Ficar se preocupando com ele não vai fazê-lo sofrer menos. Ele também iria querer que descansasse. Vamos encontrá-lo logo. Não se esqueça de que conduzi soldados à batalha muitas vezes e, se aprendi uma coisa, foi que todas as tropas endurecidas pela guerra precisam de descanso e lazer, inclusive a senhorita. Reservar um tempo para relaxar é muito importante ao bem-estar mental de todos os soldados. Portanto, fora daqui. Não quero ver nenhum de vocês dois antes do anoitecer.
Sorri para ele e bati continência.
 Sim, senhor general. Transmitirei suas instruções a Kishan.
Ele também bateu continência.
 Cuide disso.
Eu ri e saí à procura de Kishan.
Encontrei-o no dojo praticando artes marciais e me sentei no último degrau da escada para assistir por alguns minutos. Ele executou uma série complexa de saltos e rodopios aéreos que teria sido impossível se ele não tivesse a força de um tigre. Ele a concluiu aterrissando a meio metro de mim e me encarando com um sorriso brincalhão.
Eu ri.
 Sabe, se você e Ren fossem para as Olimpíadas poderiam ganhar várias medalhas de ouro. Em ginástica olímpica, atletismo, lutas, no que quisessem. Ambos receberiam milhões de dólares em patrocínio.
 Não preciso de milhões de dólares.
 Haveria um monte de garotas bonitas bajulando você.
Ele me dirigiu um sorriso maroto.
 Só preciso de uma garota bonita me bajulando e ela não está interessada. Então, o que está fazendo aqui embaixo? Quer se exercitar?
 Não. Queria saber se você quer ir nadar um pouco. O Sr. Kadam nos mandou relaxar hoje.
Ele pegou uma toalha e secou o rosto e a cabeça.
 Nadar, é? Talvez sirva para me esfriar um pouco. - Ele olhou por trás da toalha. - A não ser que você esteja planejando usar biquíni.
Ri com desdém.
 Nem pensar. Não sou de usar biquíni.
Ele fingiu um suspiro profundo e teatral.
 Que pena. Muito bem, encontro você na piscina.
Subi ao quarto e coloquei meu maiô vermelho, vesti o roupão e saí para a varanda.
Kishan havia vestido uma bermuda de surfista e estava prendendo a rede de vôlei na piscina. Eu tinha acabado de jogar o roupão numa espreguiçadeira e experimentava a água com o pé quando senti uma coisa fria nas costas.
 Ai! O que você está fazendo?
 Fique parada. Você precisa de filtro solar. Sua pele é tão branca que vai ficar com queimaduras.
Ele cobriu eficientemente minhas costas e meu pescoço com o protetor e começava a espalhá-lo nos meus braços quando o detive.
 Posso terminar o serviço, obrigada - eu disse, estendendo a mão para o frasco.
Joguei um pouco da loção na mão e espalhei nos braços e nas pernas. Tinha cheiro de coco.
Kishan sorriu, olhou para minhas pernas e piscou:
 Leve o tempo que quiser.
Quando ele voltou, depois de ir pegar a bola e algumas toalhas no armário da piscina, eu tinha acabado.
 Que tal uma partida de vôlei? - perguntou.
 Você vai acabar comigo.
 Eu fico na parte funda. Isso vai me deixar mais lento.
 Acho que podemos tentar.
Ele deu um passo em minha direção.
 Espere um segundo.
 O que foi?
Ele sorriu, travesso.
 Você esqueceu um lugar.
 Onde?
 Bem aqui.
Ele aplicou uma gota gigante de filtro solar no meu nariz e gargalhou.
 Seu bobo!
Levei a mão ao nariz para tentar espalhar o protetor.
 Eu faço isso por você - disse ele.
Deixei as mãos caírem ao lado do corpo enquanto seus dedos espalhavam com delicadeza a loção no meu nariz e nas bochechas. O toque a princípio era inocente, mas então sua disposição mudou. Ele diminuiu a distância entre nós. Seus olhos dourados estudavam meu rosto. Respirei fundo e corri.
Dei alguns passos e mergulhei como uma bala de canhão na parte funda da piscina, molhando Kishan e tudo que estava por perto.
Ele riu e mergulhou atrás de mim. Gritei e nadei debaixo d'água, passando para o outro lado da rede. Quando tirei a cabeça da água, não o vi. Uma mão agarrou meu tornozelo e me puxou para baixo. Depois de eu voltar à superfície novamente, tossindo e tirando o cabelo dos olhos, Kishan saltou ao meu lado, jogou o cabelo para trás com um movimento da cabeça e riu enquanto eu tentava empurrá-lo.
Ele não se moveu, naturalmente, então atirei água nele, dando início a uma guerra. Logo tornou-se dolorosamente óbvio que eu estava perdendo. Seus braços não pareciam se cansar e, vendo que onda atrás de onda afogava minhas patéticas tentativas, pedi um tempo.
Ele parou o bombardeio, feliz, e, usando os braços, tomou impulso e saiu da piscina para ir pegar a bola. Começamos a jogar e fiquei encantada ao ver que finalmente havia encontrado um jogo em que eu parecia ter uma vantagem.
Depois de eu dar uma cortada na bola pela terceira vez, ganhando mais um ponto, Kishan perguntou:
 Onde aprendeu a jogar? Você é muito boa!
 Eu nunca tinha jogado na água, mas jogava razoavelmente bem na quadra do colégio. Quase entrei para a equipe da escola, só que isso foi
no ano em que meus pais morreram. No ano seguinte eu não estava tão interessada assim em jogar, mas ainda é meu esporte favorito. Eu também era boa no basquete, porém não tinha altura suficiente para ser competitiva. Vocês praticavam esporte?
 Na verdade não tínhamos tempo para os esportes. Tínhamos competições de arco e flecha, lutas e alguns jogos como ludo, mas nenhum esporte em equipe.
 Ainda assim você pode ver que estou ganhando por muito pouco, embora você esteja na parte funda e nunca tenha jogado.
Kishan agarrou a bola no ar e caiu na água. Quando emergiu, estava bem à minha frente, do outro lado da rede. Ele a ergueu e passou nadando debaixo dela. Meus pés mal tocavam o fundo da piscina, deixando apenas meu rosto fora da água. Nossas cabeças estavam praticamente niveladas. Ele ainda estava a um metro de distância e estreitei os olhos, perguntando-me o que ele pretendia fazer. Ele me observou por um momento e me dirigiu um sorriso travesso. Preparei-me para outra guerra de água erguendo meus braços.
Num instante Kishan estava ao meu lado. Ele deslizou os braços em torno de minha cintura, puxou-me para ele, sorriu com malícia e disse:
 O que posso fazer? Sou muito competitivo.
E então me beijou.
Fiquei paralisada. Nossos lábios estavam molhados. O gosto de cloro era forte e a princípio ele não se mexeu, então daria na mesma se eu estivesse beijando o azulejo frio na lateral da piscina. Em seguida, porém, ele apertou minha cintura, deslizou as mãos, acariciando-me as costas nuas, e inclinou a cabeça.
De repente, o que não passava de um toque molhado e clorado se transformou num beijo muito real de um homem que absolutamente não era Ren. Os lábios de Kishan se aqueceram e se moveram sobre os meus de uma forma prazerosa. Prazerosa o bastante para que eu me esquecesse de que não queria beijá-lo e me visse correspondendo. Minhas mãos pararam de empurrá-lo e eu agarrei seus braços fortes. Sua pele era lisa e quente.
Ele respondeu com entusiasmo, passando um braço pela minha cintura para me esmagar de encontro ao seu peito, enquanto a outra mão subia pelas minhas costas nuas para segurar a parte posterior da minha cabeça. Pelo mais breve dos momentos, deixei-me aproveitar seu abraço. Mas então me lembrei de tudo e, em vez de me deixar feliz, como devem fazer os beijos, esse me deixou triste.
Interrompi o beijo e me afastei um pouco. Kishan manteve o braço em minha cintura e pôs um dedo sob meu queixo, erguendo meu rosto a fim de que eu o olhasse. Então estudou minha expressão em silêncio. Meus olhos se encheram de lágrimas. Uma rolou pelo rosto e caiu em sua mão.
Ele esboçou um sorriso.
 Não foi exatamente a reação que eu esperava.
Relutante, ele me soltou e eu saí nadando, indo me sentar num degrau da piscina.
 Nunca afirmei ser uma especialista em beijos, se é a isso que se refere.
 Não estou falando do beijo.
 Está falando do que, então?
Ele não disse nada.
Abri os dedos da mão e a coloquei sobre a superfície da água, deixando que ela fizesse cócegas em minha palma. Sem olhar para ele, perguntei baixinho:
 Alguma vez eu lhe dei razão para esperar mais?
Ele suspirou e jogou o cabelo para trás, infeliz.
 Não, mas...
 Mas o quê?
Levantei a cabeça. Grande erro.
Kishan parecia vulnerável. Meio desesperado e esperançoso ao mesmo tempo. Querendo acreditar, porém sem ousar fazê-lo. Dava a impressão de estar zangado, frustrado e insatisfeito. Seus olhos dourados estavam cheios de desespero e anseios, no entanto também brilhavam com determinação.
 Mas... não consigo deixar de pensar que talvez Ren tenha sido levado por uma razão. Que talvez seu destino sempre tenha sido ficar comigo.
 A única razão de Ren ter sido levado foi haver se sacrificado para salvar nossas vidas - repliquei mordaz. - E assim que você o retribui?
Vi o ferrão de minhas palavras feri-lo. Era fácil culpar Kishan, mas eu estava mais perturbada com minha reação a ele. Eu me sentia incrivelmente culpada por ter deixado aquele beijo acontecer. Minha acusação era tanto contra ele quanto contra mim. O fato de eu ter gostado do beijo fazia com que eu me sentisse ainda pior.
Ele nadou até a lateral da piscina e apoiou as costas na parede.
 Você acha que eu não me importo? Acha que eu não sinto nada por meu irmão? Pois eu sinto. Apesar de tudo o que aconteceu, preferia que eu tivesse sido levado. Você teria Ren. Ren teria você. E eu receberia o que mereço.
 Kishan!
 Estou falando sério. Você acha que se passa um dia sequer sem que eu me odeie pelo que fiz? Pelo que sinto?
Estremeci.
 Você acha que eu queria me apaixonar por você? Eu me mantive longe de você! Dei a ele a chance de ficar com você! Mas tem outra parte de mim que pergunta: e se? E se não fosse para você ficar com Ren? E se você fosse a resposta às minhas preces, e não às dele!
Ele me observava do outro lado da piscina. Mesmo dessa distância, eu podia ver que ele estava sofrendo.
 Kishan, eu...
 E antes que diga qualquer coisa, quero avisar que não desejo sua compaixão. E melhor você não dizer nada do que tentar me dizer que não gostou ou que só sente amizade por mim.
 Não era isso que eu ia dizer.
 Ótimo. Então você admite que gostou? Que existe química entre nós? Que você se sente atraída por mim?
 Você precisa que eu admita isso?
Ele cruzou os braços na frente do peito.
 Sim. Acho que preciso.
Ergui os braços no ar.
 Está bem! Admito. Eu gostei. Temos química. Sim, eu me sinto atraída por você. Foi bom. Na verdade, foi tão bom que me fez esquecer completamente de Ren por cerca de cinco segundos. Está feliz agora?
 Estou.
 Mas eu não.
 Estou vendo. - Ele me avaliou do outro lado da piscina. - Então tudo o que tive foram cinco segundos?
 Para ser honesta, provavelmente está mais para 30.
Ele bufou. Os braços ainda estavam cruzados diante do peito, mas agora ele exibia um sorrisinho de homem muito satisfeito consigo mesmo.
Suspirei, infeliz.
 Kishan, eu...
Ele me interrompeu:
 Você se lembra de quando escapamos da casa das sereias em Shangri-lá?
 Lembro.
 E de que você disse que conseguiu escapar porque pensou em Ren?
Assenti.
 Bem, eu consegui escapar porque pensei em você. Você ocupou meus pensamentos e o feitiço das sereias desapareceu. Não acha que isso significa alguma coisa? Não poderia significar que talvez nós estejamos destinados a ficar juntos? A verdade, Kells, é que venho pensando em você há muito tempo. Desde que nos conhecemos não consigo tirá-la da cabeça.
Uma lágrima rolou pelo meu rosto e eu disse baixinho:
 Sinto muito por tudo que aconteceu. Sinto muito por tudo que você passou. E sinto ainda mais por qualquer sofrimento que eu esteja lhe causando. Não sei o que dizer, Kishan. Você é um cara maravilhoso. Maravilhoso demais. Se a situação fosse outra, eu provavelmente ainda estaria ali beijando você.
Quando pus a cabeça entre as mãos, ele mergulhou e nadou até onde eu estava. Eu o ouvi ficar de pé e olhei para o seu rosto. A água escorria por seu tórax de bronze. Ele era mesmo um homem lindo. Qualquer garota teria sorte de ter um cara como ele.
Ele estendeu a mão.
 Então venha aqui e me beije.
Sacudi a cabeça.
 Eu não... Eu não posso. - Suspirei, com tristeza. - Olhe, tudo o que sei é que eu amo Ren. E ficar com você, por mais tentador que seja, não é algo que eu possa fazer. Não posso dar as costas para ele. Por favor, não me peça isso.
Saí da piscina e enrolei uma toalha em volta do corpo. Ouvi um ruído na água e senti sua proximidade enquanto ele também se enxugava.
Kishan me virou para ele, me forçando a olhá-lo nos olhos.
 Você precisa saber que isso não é uma competição com ele. Não há segundas intenções. Não é uma simples atração. - Ele deslizou os polegares no meu rosto e o segurou com ambas as mãos. - Eu amo você, Kelsey.
Ele deu mais um passo à frente.
Coloquei a mão em seu peito quente e disse:
 Se você me ama mesmo, não me beije de novo.
Eu me mantive firme e esperei sua resposta. Não foi fácil. Eu tinha vontade de sair correndo, de me refugiar no quarto, mas precisávamos resolver isso entre nós.
Ele ficou ali, parado, respirando profundamente. Baixou os olhos e eu pude ver lampejos de emoção cruzando seu rosto. Então ele voltou a olhar para mim, aquiesceu e disse:
 Não vou prometer que nunca mais a beijarei, mas prometo não beijá-la a menos que tenha certeza de que não há mais nada entre você e Ren.
Eu estava prestes a protestar, mas ele prosseguiu, tocando meu rosto de leve:
 Não sou o tipo de homem que reprime os sentimentos, Kells. Não fico sentado no quarto me consumindo de tristeza, escrevendo poemas de amor.
Não sou um sonhador. Sou um lutador. Sou um homem de ação e vou precisar de todo o meu autocontrole para não lutar por isso. Quando é preciso fazer alguma coisa, eu faço. Quando sinto alguma coisa, eu tomo uma atitude. Não vejo nenhum motivo para que Ren mereça ter a garota dos seus sonhos e eu não. Não me parece justo isso acontecer comigo duas vezes.
Pus a mão em seu braço.
 Você tem razão. Não é justo. Não é justo que você tenha tido que ficar comigo noite e dia nas últimas semanas. Não é justo pedir que deixe de lado seus sentimentos. Não é justo pedir que seja meu amigo. Mas o fato é que preciso de você. Preciso de sua ajuda. Preciso de seu apoio. E, principalmente, preciso de sua amizade. Eu não teria sobrevivido um só dia em Shangri-lá sem você. Tampouco creio que eu possa resgatar Ren sem você. Não é justo lhe pedir isto, mas estou pedindo. Por favor, preciso que você me esqueça.
Ele olhou para a casa, refletindo por um momento, e em seguida se voltou para mim. Tocou meu cabelo molhado e, insatisfeito, disse:
 Está certo. Eu vou recuar, mas não estou fazendo isso por ele e certamente não por mim. Estou fazendo por você. Lembre-se disso.
Assenti silenciosamente e o vi caminhar, altivo, em direção à varanda. Meus joelhos fraquejaram e eu me deixei cair na espreguiçadeira.
Passei o resto do dia no meu quarto, estudando textos sobre os baigas. A toda hora tinha que reler parágrafos. Eu me sentia dividida, despedaçada. Estava confusa. Era como se alguém houvesse me pedido para escolher quem viveria: o pai ou a mãe. Qualquer escolha que eu fizesse me tornaria responsável pela morte do outro. Não era uma questão de escolher a felicidade; era uma questão de escolher o sofrimento. Quem eu faria sofrer?
Eu não queria que nenhum deles sofresse. Minha felicidade era irrelevante. Isso não era como romper com Li ou Jason. Ren precisava
de mim, ele me amava. Mas Kishan também. Não era uma escolha fácil, não havia qualquer solução que satisfizesse os dois. Empurrei os livros para o lado, peguei um dos poemas de Ren e um dicionário de híndi-inglês. Era um dos poemas que ele escrevera após a minha partida da índia. Levei muito tempo para traduzir, mas valeu a pena.
Estou vivo?
Posso respirar
Posso sentir
Posso saborear
Mas o ar não enche meus pulmões Todas as texturas são ásperas E os sabores, sem graça
Estou vivo?
Posso ver
Posso ouvir
Posso perceber
Mas o mundo é preto e branco
As vozes soam metálicas e fracas
O que percebo é confuso e fora de lugar
Quando você está comigo
O ar se precipita em meu ser
Me enche de luz
E felicidade
Sinto-me vivo!
O mundo é cheio de cores e sons
Os sabores seduzem meu paladar
Tudo é macio e fragrante
Percebo o calor de sua presença
Sei quem eu sou e o que quero
Eu quero você.
Ren
Uma lágrima gigante caiu com um ruído no papel. Eu rapidamente o tirei do alcance das lágrimas. Apesar das palavras sinceras de Kishan e da confusão que era meu relacionamento com ele, havia uma coisa que eu não podia negar: eu amava Ren. De todo o coração. A verdade era que, se Ren estivesse aqui, se ele estivesse comigo, isso não seria um problema.
Quando ele estava comigo, eu também sabia quem eu era e o que eu queria. Mesmo sem a conexão forte, eu podia sentir meu coração se expandindo com suas palavras. Podia imaginá-lo recitando-as, sentado à sua mesa, e escrevendo-as.
Se eu precisava de uma resposta, ela estava em meu coração. Quando eu pensava em Kishan, sentia confusão e afeto misturados a um bocado de culpa. Com Ren, eu me sentia aberta e iluminada, livre e desesperadamente feliz. Eu amava Kishan, mas estava apaixonada por Ren. A forma como isso acontecera era irrelevante. O fato era que tinha acontecido.
Como Kishan dissera, a essa altura eu havia ficado mais tempo com ele do que com Ren. Não era de surpreender que tivéssemos nos aproximado. Mas Ren tinha meu coração nas mãos, que batia apenas porque o próprio Ren cuidava dele.
Eu estava determinada a ser gentil com Kishan. Estava familiarizada com o sofrimento. O Sr. Kadam tinha razão ao dizer que Kishan também precisava de mim. Eu tinha que ser firme com ele e fazê-lo entender que ele era meu amigo. Que eu podia ser qualquer coisa que ele precisasse que eu fosse, exceto sua namorada.
Eu me sentia melhor. Ler o poema de Ren me reequilibrou. Eu também experimentava os sentimentos dos quais ele falava. Enfiei o poema em meu diário e desci para jantar com Kishan e o Sr. Kadam.
Kishan ergueu uma sobrancelha quando sorri para ele. Ele voltou para seu jantar e, ignorando-o, também peguei meu garfo.
 O peixe parece delicioso, Sr. Kadam. Obrigada.
Ele fez um gesto com a mão, dispensando o agradecimento, inclinou-se para frente e disse:
 Que bom que chegou, Srta. Kelsey. Tenho novidades.

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