25
O resgate de Ren
Minha boca ficou seca enquanto eu engolia o peixe. Tossi e Kishan deslizou um copo com água na minha direção. Bebi o líquido frio, limpei a garganta e perguntei com nervosismo:
Que novidades?
Encontramos a tribo dos baigas e tem alguma coisa errada ali. A tribo está localizada numa área da selva distante de outras aldeias. Mais distante do que eles jamais estiveram nos últimos 100 anos. Mais distante, na verdade, do que a lei permite que eles cheguem. Mas o mais estranho é que as imagens de satélite mostram que existe tecnologia perto deles.
Que tipo de tecnologia? - indagou Kishan.
Há alguns veículos grandes estacionados perto da aldeia e os baigas não usam carros. Uma estrutura de tamanho considerável foi construída próximo ao vilarejo também. É muito maior do que qualquer coisa que os baigas tenham tradicionalmente construído. Acredito que se trate de um complexo militar.
Ele empurrou o prato para o lado.
Relatórios mostram que também há guardas armados vigiando a floresta. É como se estivessem defendendo a tribo de um ataque.
Mas quem atacaria os baigas vindo da floresta? - perguntei.
Pois é. Quem? - replicou o Sr. Kadam. - Não há conflitos acontecendo entre os baigas e qualquer outro grupo. Eles não têm guerreiros e não possuem nada de valor aos olhos do mundo exterior. Não existe qualquer razão para que temam um ataque. A menos que esperem que ele venha na forma de... - ele olhou para Kishan - ...um tigre.
Kishan grunhiu.
Parece que você de fato encontrou alguma coisa.
Mas por que os baigas? - perguntei. - Por que não manter Ren na cidade ou num complexo militar convencional?
O Sr. Kadam pegou alguns papéis.
Acho que sei por quê. Telefonei para um amigo que é professor de história antiga na Universidade de Bangalore. Já tivemos grandes debates sobre os reinos da antiga índia. Ele sempre fica fascinado pelos meus... insights. Estudou os baigas a fundo e partilhou alguns fatos interessantes comigo. Primeiro, eles têm muito medo de espíritos do mal e de feiticeiros. Creem que todos os eventos negativos, como doenças, uma colheita perdida, uma morte, sejam causados por espíritos malignos.
Ainda não entendia aonde o Sr. Kadam queria chegar, mas não o interrompi.
Eles acreditam em magia e reverenciam seu gunia, ou curandeiro, acima de todas as coisas. Se Lokesh tiver demonstrado algum tipo de magia, é provável que façam qualquer coisa que ele pedir. Eles se consideram guardiões ou zeladores das florestas. É muito possível que Lokesh os tenha persuadido a se mudar, convencendo-os de que a floresta estava em perigo, e que tenha colocado os guardas ali para protegê-la. Outra coisa que ele mencionou e que achei muito interessante é que há rumores de que o gunia dos baigas seja capaz de controlar tigres.
O quê? - arquejei. - Como pode ser?
Não tenho muita certeza, mas de alguma forma eles são capazes de proteger suas aldeias contra ataques de tigres. Talvez Lokesh tenha encontrado a verdade no mito.
O senhor acha que eles estão usando algum tipo de magia para manter Ren lá?
Não sei, mas certamente parece que vale a pena investigar, ou melhor, nos infiltrar.
Então o que estamos esperando? Vamos lá!
Preciso de algum tempo para elaborar um plano, Srta. Kelsey. Nosso objetivo é tirar todos de lá vivos. Falando nisso, creio que devo informar a vocês que meus informantes desapareceram. Os homens que mandei investigar o escritório na cobertura do edifício mais alto de Mumbai sumiram. Eles não entraram em contato comigo e temo o pior.
O senhor acha que estão mortos?
Eles não são do tipo que se deixa apanhar vivo - replicou ele, sombriamente. - Não vou permitir que outros homens morram por esta causa. A partir de agora estamos por nossa própria conta. - Ele olhou para Kishan. - Estamos novamente em guerra com Lokesh.
Kishan cerrou o punho.
Desta vez não vamos fugir com o rabo entre as pernas.
Certamente.
Pigarreando, eu disse:
Isso é ótimo para vocês dois, mas eu não sou uma guerreira. Como podemos vencer, sendo só nos três contra todos os homens dele?
Kishan pôs a mão sobre a minha.
Você é uma guerreira tão boa quanto qualquer um com quem eu tenha lutado, Kells. Mais corajosa até do que muitos que conheci. Em outras situações em que estávamos em número muito menor o Sr. Kadam já elaborou estratégias que decidiram a batalha com facilidade.
Se há uma coisa que aprendi em meus muitos anos de vida, Srta. Kelsey, é que o planejamento cuidadoso pode quase sempre criar um resultado positivo.
E não se esqueça - interveio Kishan - de que temos muitas armas à nossa disposição.
Assim como Lokesh.
O Sr. Kadam, dando tapinhas em minha mão, disse:
Nós temos mais.
Ele pegou uma foto de satélite e uma caneta vermelha e começou a circular itens de interesse. Então me entregou um pedaço de papel e uma caneta.
Vamos começar?
Primeiro, registramos numa coluna nossos recursos, sugerindo todas as maneiras como cada um deles podia ser empregado. Algumas das idéias eram tolas e outras tinham valor. Anotei tudo o que nos ocorreu, sem saber o que poderia vir a ser conveniente.
O Sr. Kadam fez uma estrela no mapa, onde pensava que Ren poderia ser encontrado. Ele achava que os planos mais simples eram os mais fáceis de seguir e nosso plano era bem direto: iríamos nos infiltrar, encontrar Ren e sair. Mesmo assim, o Sr. Kadam fez questão de analisar o plano a partir de várias perspectivas.
Ele se preparou para todas as eventualidades. Fez dezenas de perguntas começando com "E se": E se Kishan não puder entrar no complexo por ser um tigre? E se houver armadilhas para tigres na selva? E se houver mais soldados do que pensamos? E se não pudermos entrar pela selva? E se Ren não estiver lá?
Ele elaborou um plano separado para superar cada um desses obstáculos e ainda assim chegar a um resultado bem-sucedido. Em seguida combinou os problemas e ajudou Kishan e eu a ensaiar em nossos papéis. Tínhamos que lembrar como nossos papéis mudariam dependendo dos contratempos que surgissem.
O Sr. Kadam também organizou treinamentos práticos. Tivemos que testar os limites do Fruto Dourado e do Lenço Divino, assim como vários movimentos complicados usando nossas armas. Ele nos fez treinar a maior parte do dia no combate corpo a corpo e praticar várias
técnicas simultaneamente. Quando nos liberou no primeiro dia, eu estava exausta. Cada músculo doía, meu cérebro estava cansado e eu me encontrava coberta de xarope de bordo e felpa de algodão - um teste combinado do Fruto com o Lenço que deu errado.
Depois de dizer boa-noite, subi esgotada a escada, tirei Fanindra do braço e a coloquei em cima do travesseiro. O Sr. Kadam tinha um plano para ela, mas ela não se movera quando ele o explicou.
Não sabíamos se ela faria alguma coisa, mas eu iria levá-la de qualquer forma. Fanindra salvara minha vida vezes suficientes para merecer, pelo menos, estar presente na ação. Observei suas espirais douradas se moverem e se retorcerem até ela se acomodar numa posição circular, com a cabeça apoiada no topo da espiral. Seus olhos cor de esmeralda brilharam por um momento e então ficaram escuros.
Alguma coisa tremulou do lado de fora da janela. Minhas roupas de fada! Parecia que não havia mesmo fadas por ali. As roupas ainda pareciam íntegras, mas agora precisavam ser lavadas na máquina. Joguei-as no cesto de roupa suja antes de entrar no chuveiro para um banho quente. À medida que meus músculos doloridos foram relaxando, deixei meus pensamentos se demorarem em coisas triviais, como ponderar se deveria lavar as roupas de fada em água fria ou quente. O chuveiro me relaxou até eu quase adormecer ali, de pé.
O Sr. Kadam nos treinou por quase uma semana antes de achar que estávamos prontos para procurar a aldeia baiga.
Nós três nos encontrávamos ao pé de uma grande árvore na selva escura. Passamos o Lenço Divino de mão em mão e assumimos a aparência que tinha sido atribuída a cada um.
Pouco antes de o Sr. Kadam se transformar, ele sussurrou:
- Vocês sabem o que fazer. Boa sorte.
Enrolei o Lenço Divino em seu pescoço, dei um nó e sussurrei:
- Não se deixe apanhar numa armadilha.
Silenciosamente, ele adentrou a selva.
Kishan me abraçou e também partiu. Seus passos eram silenciosos. Logo me vi na selva escura completamente sozinha. Preparei o arco e deslizei Fanindra pelo braço enquanto esperava o sinal.
Um rugido alto ecoou pela selva seguido pelos gritos de vários homens. Era o sinal que eu estava esperando. Segui entre as árvores na direção do acampamento a pouco menos de meio quilômetro dali. Quando me
aproximei, peguei o Fruto Dourado e murmurei instruções. Minha tarefa era tomar as duas torres de vigilância nos limites do acampamento e os holofotes.
As luzes primeiro. Esquadrinhei a área e reconheci os vários prédios. Tínhamos estudado as imagens de satélite até todos nós termos o layout memorizado. As cabanas dos baigas eram organizadas num semi-círculo mais perto dos limites da selva, Ficavam atrás dos bunkers militares e de um agrupamento de jipes resistentes a minas. Ou seja: seriam extremamente difíceis de tomar.
As cabanas eram de palha e grandes o bastante para uma ou possivelmente duas famílias morarem nela. Eu não queria atingi-las. Elas se transformariam facilmente numa bola de fogo.
O centro de comando tinha quatro compartimentos, cada um deles do comprimento aproximado de um semirreboque, porém duas vezes mais alto. Eles eram agrupados em pares e feitos de algum tipo de liga metálica. Pareciam resistentes. Duas torres de vigilância erguiam-se, uma de cada lado do acampamento. Três guardas vigiavam a área do topo de cada torre, enquanto dois homens montavam guarda abaixo. Próximo à torre sul, vi um poste alto com uma grande antena parabólica na extremidade. Contei quatro holofotes, sem incluir os dois refletores presos às torres de vigia.
Eu deveria encontrar o gerador, mas não o vi. Talvez esteja escondido numa das cabanas baigas. Decidi que teria que eliminar as luzes uma por uma. Ergui a mão e apontei. O calor inundou meu braço até minha mão brilhar, vermelha, no escuro. A energia disparou numa longa explosão branca. Primeiro um e em seguida os outros três holofotes espocaram e explodiram quando meu raio os atingiu.
Alguém entrou num dos veículos e acendeu as luzes. O jipe roncou e engasgou. A gasolina provavelmente havia sido absorvida pelo pão de ló que, com a ajuda do Fruto, eu usara para encher os tanques. O sistema elétrico, porém, ainda funcionava e faróis potentes varriam as árvores à minha procura. Voltei meu raio em sua potência máxima para o
veículo, porque sabia que seria difícil destruí-lo, enviando um impulso de energia ultradenso através da palma da minha mão.
Meu raio atingiu o carro com uma explosão ensurdecedora que lançou o veículo 10 metros no ar. Ele explodiu, tornando-se uma bola de fogo, e despencou em cima de outro, aterrissando com um ruído agudo de metal retorcido. Disparei contra outro; dessa vez o veículo rolou, virando três vezes e indo parar de lado de encontro a uma árvore imensa. Depois disso, levei apenas alguns segundos para extinguir os outros refletores.
Em seguida eu precisava desabilitar as duas torres. Eram construções simples, se comparadas aos outros edifícios. Quatro suportes de madeira, um nível mais alto que o posto de comando, eram encimados por uma estrutura semelhante a uma caixa e equipados com três homens e um refletor. A única maneira de subir era através de uma escada de madeira simples, provavelmente criada pelos baigas.
A essa altura soldados haviam localizado minha posição. Lanternas se agitavam em minha direção, tentando me identificar. Disparei algumas flechas douradas e ouvi um grunhido e um baque quando um corpo bateu no chão. Eu precisava sair dali. Ouvi um silvo quando dardos atravessaram os arbustos nos quais eu estava escondida. Eles devem ter instruções para nos pegar vivos.
Corri na escuridão. Os olhos de Fanindra brilhavam suavemente, proporcionando luz apenas suficiente para que eu alcançasse minha próxima posição. Agachada atrás de um arbusto, evoquei meu poder de raio outra vez e destruí a torre mais próxima. Ela explodiu como uma bomba gigante de fogo que iluminou a área. Assustadas, as pessoas corriam em todas as direções.
Segui para a outra torre, correndo abertamente em meio à multidão. Escondi-me entre dois edifícios quando um grupo de soldados passou correndo e eliminei alguns por trás. O Sr. Kadam gritava para as pessoas, convocando-as e pedindo sua ajuda na batalha. Sua atitude teatral me fez sorrir. Plantei a gada no ponto em que ele a encontraria e prossegui.
De volta ao trabalho. Esquivei-me pela sombra de um edifício e avaliei a outra torre. Eu precisava destruir a antena parabólica também. Encaixei uma flecha, então a infundi com o poder do raio e a disparei. Ela bateu com um ruído na parabólica e chiou, estalando com eletricidade antes de explodir. A essa altura os soldados na segunda torre haviam deduzido que eu era seu alvo. Saltei para trás de algumas caixas quando eles voltaram suas armas para mim. Ouvi o ruído de vários dardos atingindo a área onde eu estivera segundos antes.
Meu coração batia forte de medo. Se eles me acertassem com um dardo seria o meu fim. Eu não poderia ajudar Kishan nem encontrar Ren. Ouvindo gritos de homens à minha procura, reuni coragem e encaixei outra flecha. A flecha dourada cintilou ao luar e tremeluziu quando a infundi com o poder do raio. Dessa vez eu estava perto demais do meu alvo e, quando a explosão da torre sacudiu o complexo, o deslocamento de ar me lançou para cima. Ao cair, minha cabeça bateu contra o edifício. Pedaços pesados de madeira da torre destruída choveram e vários dos fragmentos em chamas me atingiram quando fiquei de pé. Com cuidado, toquei a parte posterior do meu crânio. Estava sangrando.
Um soldado saltou sobre mim. Rolamos pelo chão. Eu o soquei na altura do estômago e me pus de pé num salto. Quando ele começou a se levantar também, saltei em suas costas, como Ren me ensinara, e tentei cortar sua passagem de ar. Ele lutou para se livrar de mim apenas brevemente antes de se virar e me esmagar contra uma pedra. Bati a cabeça com força e senti um fio molhado de sangue escorrer da têmpora para o rosto.
Fiquei imóvel contra a pedra, arfando, exausta, tonta e sangrando. O soldado se levantou, sorriu e estendeu as mãos para me estrangular. Ergui a mão, estreitei os olhos para o seu rosto enegrecido de fuligem e disparei um raio que o atingiu no peito. Ele voou alguns metros para trás, bateu no centro de comando e deslizou para o chão numa posição sentada, com a cabeça pendendo pesadamente sobre o peito.
Agora eu precisava encontrar Ren. Corri vacilante entre algumas cabanas e, quando outro soldado veio atrás de mim, mergulhei para o
lado, caí e rolei. No instante em que ele disparou um tranqüilizante, ergui-me apoiada num joelho e o tirei da jogada com um choque rápido. A porta do edifício principal estava guardada por dois soldados em alerta de batalha. Quando me aproximei, eles falaram várias palavras numa língua diferente. Assenti e um deles usou sua chave para me deixar entrar. Livrei-me facilmente dessa vez. Eu era um rosto familiar e eles não tinham me visto em ação.
Passei por eles e entrei em silêncio. A porta se fechou atrás de mim e se trancou automaticamente. Ignorei o problema, calculando que abriria caminho com um raio mais tarde. Minha cabeça latejava na têmpora, mas, fora isso, eu dera sorte. Tinha vários arranhões e cortes feios nos braços e nas pernas, uma pancada séria na cabeça e devia estar com machucados no corpo todo, porém nada que ameaçasse minha vida. Esperava que o Sr. Kadam e Kishan estivessem se saindo tão bem quanto eu.
O interior do centro de comando estava escuro. Eu me encontrava numa área de armazenamento cheia de caixas e suprimentos. Passei furtivamente pela outra seção e encontrei as barracas para os soldados. Estranho foi quando dobrei uma esquina e encontrei a pessoa que eu estava personificando. A expressão perplexa logo mudou quando ataquei. Uma breve explosão de luz iluminou a sala e a criatura caiu no chão.
Apesar de o edifício ser pouco mobiliado, eu tropeçava em caixas no escuro enquanto verificava sala após sala. Finalmente os olhos verdes de Fanindra brilharam de modo que eu pudesse ver o ambiente com mais clareza. A área foi iluminada com a luz de sua visão noturna especial e eu pude distinguir praticamente tudo. Ouvi Lokesh e Kishan em outra sala. A situação ali estava se tornando mais tensa. O tempo se esgotava. Segundo nossos treinamentos, a essa altura eu já deveria ter encontrado Ren.
Se eu houvesse desativado o gerador, poderia ter poupado tempo; mas, em vez disso, tive que destruir as luzes uma por uma e lutar contra mais soldados do que esperara. O plano teria que ser modificado. Eu
precisava chegar a Kishan primeiro. Felizmente o Sr. Kadam havia nos preparado para essa eventualidade. Com relutância, abandonei minha procura por Ren e fui em busca de Kishan.
Segui para os fundos do centro de comando e escalei várias caixas até me encontrar empoleirada no alto. Era uma sala grande, parecendo um armazém. Prateleiras de metal guardavam armas e suprimentos de todos os tipos. Uma pilha de corpos de soldados indicava que Kishan tivera sucesso em tirar de atividade os guardas de Lokesh. Agora, porém, Lokesh o havia encurralado em seu escritório particular.
Era luxuoso para os padrões militares. Um tapete espesso cobria o chão. Uma mesa imponente encontrava-se a um canto e numa das paredes vários monitores de TV exibiam flashes de cenas do caos que acontecia do lado de fora do complexo. Em outra parede viam-se muitos equipamentos e dispositivos eletrônicos. Parecia o interior de um submarino. A parede era coberta com interruptores e monitores. Várias luzes vermelhas piscavam em silêncio e imaginei que fossem alarmes de algum tipo.
Três lâmpadas penduradas zumbiam acima, tremeluzindo de vez em quando, como se o complexo estivesse perdendo sua força. Uma caixa de vidro perto da mesa continha várias armas reluzentes, representando cada era de batalha. Kishan estava desempenhando bem seu papel. Encaixei uma flecha e esperei que ele recuasse um pouco para que eu tivesse uma boa chance de tiro. Arrogante e excessivamente confiante, Lokesh prosseguia, tentando intimidar Kishan a fazer o que ele queria.
Lokesh não estava usando farda como seus soldados. Vestia um terno preto e uma camisa de seda azul. Parecia mais jovem que o Sr. Kadam, mas seus cabelos estavam ficando grisalhos nas têmporas e estavam penteados para trás, lustrosos, num estilo de chefão da máfia moderno. Notei outra vez que ele usava anéis em cada dedo e que os girava casualmente enquanto falava. Um comentário odioso chamou minha atenção.
- Posso dilacerar você com uma simples palavra, mas gosto de ver as pessoas sofrerem. E ter você aqui é um presente especial que venho
esperando por muito, muito tempo. Não posso imaginar o que estava tentando fazer. Você não tem a menor chance de vencer. Mas devo dizer que estou impressionado com a maneira como enfrentou meus guardas especiais. Eles eram altamente treinados.
Kishan sorriu maliciosamente enquanto rodavam em círculos.
- Não o bastante.
- É. - Lokesh riu. - Talvez eu pudesse convencer você a trabalhar para mim. Você tem muitos talentos e eu sou um homem que recompensa bem aqueles que me servem. Naturalmente, também devo avisar que aplico punições mortais àqueles que me desafiam.
- Não estou procurando emprego neste momento e alguma coisa me diz que o nível de satisfação entre seus empregados é muito baixo.
Kishan correu para cima de Lokesh, girou no ar e lhe acertou um chute bem no meio da cara.
Lokesh cuspiu sangue. Ele sorriu quando uma linha carmesim escorreu de sua boca. Limpando-a com um dedo, ele o esfregou no lábio inferior, lambeu e deu uma gargalhada. Parecia gostar da dor. Estremeci de repulsa.
- Isso tudo está muito divertido - continuou ele -, mas já chega dessa brincadeira. Você tem um amuleto e eu tenho o poder dos outros três. Me dê o seu e depois pode pegar o tigre e ir embora. Não que eu vá deixar vocês irem longe, porém vou lhes dar uma chance assim mesmo. Isso vai tornar a caçada muito mais divertida.
- Acho que vou embora com o tigre e o amuleto. E, aproveitando, acho que vou matá-lo e pegar o seu também.
Lokesh deu uma risada ensandecida.
- Você vai me dar o que eu quero. Na verdade, logo vai se arrepender de ter desdenhado de minha oferta generosa. Em questão de instantes você vai me oferecer tudo o que eu quiser só para cessar a dor.
- Se você quer tanto assim o amuleto, então por que não vem aqui pegá- -lo? Vamos ver se luta tão bem quanto faz ameaças. Ou será que agora deixa a luta para outras pessoas... seu velho?
O sorriso desapareceu da boca de Lokesh e ele ergueu as mãos. A eletricidade faiscava entre seus dedos.
Kishan saltou de novo na direção de Lokesh, no entanto foi detido por uma barreira invisível. Lokesh começou a murmurar encantamentos, abriu as mãos e levantou os braços. Objetos soltos na sala se ergueram no ar e começaram a rodopiar num redemoinho, movendo-se cada vez mais rápido. Lokesh lentamente juntou as mãos e o redemoinho se aproximou de Kishan. Os objetos giravam em torno dele e começaram a atingi-lo. Uma tesoura abriu um talho em sua testa, mas ele começou a cicatrizar imediatamente.
Lokesh viu a ferida se fechar e fitou o amuleto com cobiça.
- Me dê o amuleto! É meu destino unir todas as partes!
Kishan começou a agarrar os itens maiores e esmagá-los entre a palma das mãos.
- Por que você não tenta tirá-lo do meu cadáver? - gritou ele.
Lokesh riu, um som terrível de puro deleite.
- Como quiser.
Ele bateu as mãos e as esfregou uma na outra. O chão começou a tremer. As caixas onde eu me encontrava oscilaram precariamente. Kishan havia caído no chão e estava sendo bombardeado por uma tempestade de objetos, como grampeadores, tesouras e canetas, assim como itens maiores, como gavetas de arquivo soltas, livros e monitores de computador.
Eu tremia de pavor. Aquele homem me aterrorizava mais do que qualquer coisa que eu já houvesse enfrentado. Eu preferia correr de uma horda de kappa a olhar nos olhos dele. O mal escoava dele em ondas, enegrecia tudo ao seu redor. Sua escuridão me sufocava. Embora ele ainda não tivesse consciência da minha presença, eu tinha a sensação de que dedos negros e nevoentos abriam caminho em minha direção, me procurando para me estrangular e arrancar a vida do meu corpo.
Ergui minha mão trêmula e disparei um raio. Eu o errei por uns 30 centímetros e ele estava tão concentrado em Kishan que nem viu o
traço de luz passar atrás dele. Mas percebeu o impacto em seu mostruário de armas e provavelmente deduziu que era uma conseqüência do terremoto que ele havia causado. O vidro explodiu. Os cacos passaram a fazer parte do redemoinho e começaram a cortar Kishan. Logo juntou-se a eles um bombardeio letal de armas. Lokesh ria de prazer enquanto via Kishan ser rasgado por cacos de vidro e em seguida se curar. Um pedaço grande entrou em seu braço e ele o arrancou. O sangue jorrou e se juntou ao redemoinho.
Eu estava morta de medo. Minhas mãos tremiam. Eu posso fazer isso! Tenho que firmar a mão! Kishan precisa de mim! Ergui a flecha e mirei no coração de Lokesh.
Enquanto isso, ouvia as pessoas gritando lá fora. Deduzi que eram os aldeões e que as coisas estavam correndo de acordo com o planejado. Se não, Kishan e eu logo estaríamos numa situação ainda mais crítica. Ouvi uma pancada fortíssima e sorri aliviada. Eu sabia que era o Sr. Kadam. Nada, além da gada, poderia provocar um ruído como aquele. O edifício se sacudiu em suas fundações. O tempo era um fator decisivo. Se eles estavam atacando o edifício, isso significava que todos os soldados haviam sido cercados e dominados. O Sr. Kadam era de fato eficiente. Ou isso ou Lokesh havia abusado desse pobre povo o suficiente e eles já se encontravam à beira da rebelião.
Disparei minha flecha direto no coração de Lokesh, mas ele se virou no último segundo, quando finalmente ouviu a pancada da gada, e a flecha cravou-se fundo em seu ombro. O redemoinho que cercava Kishan de repente parou e todos os itens despencaram no chão numa chuva traiçoeira. Um pesado cofre de metal caiu no pé de Kishan; ele grunhiu e empurrou o volumoso objeto. Eu tinha certeza de que seu pé estava quebrado.
Lokesh se virou com fúria e me encontrou. A eletricidade disparava de seus dedos e sua respiração congelou o ar, enviando uma rajada gelada em minha direção. Fiquei paralisada e senti o sangue se tornar denso, congelando em meu corpo. Arfei, mais aterrorizada do que jamais estivera em toda a minha vida.
- Você!
Seu grito me deu arrepios. Cuspindo ameaças no que ele presumia que fosse a minha língua, arrancou a flecha ensangüentada e começou a cantar de forma monótona. A flecha de repente veio voando em minha direção. Num movimento inconsciente de auto-preservação, meu fogo interno me aqueceu o suficiente para que eu pudesse me mexer. Minhas mãos se ergueram para cobrir o rosto, mas a flecha parou em pleno ar, a centímetros do meu nariz. Estendi a mão e ela caiu devagar em minha palma. Frustrado, Lokesh bateu as mãos e esfregou-as malevolamente para fazer oscilar a caixa sobre a qual eu me encontrava. Desabei no chão, batendo em várias quinas afiadas no caminho. Gemi e tirei as caixas de cima de mim. Meu tornozelo estava torcido e preso debaixo de uma caixa e meu ombro estava seriamente machucado.
Kishan pegou o chakram, que estivera escondido sob a camisa, e o atirou na direção das luzes no teto. A sala mergulhou na escuridão quando ouvi o zumbido metálico da arma atravessando o ar. Ele lançou o chakram mais algumas vezes, mas não conseguia atingir Lokesh com ela pois ventos súbitos açoitavam o ar, fazendo o disco mudar de direção. Arrastei-me com dificuldade até um novo esconderijo. Kishan pegou o chakram e saltou sobre Lokesh. Os dois caíram no chão numa luta vigorosa.
Lokesh gritou, chamando seus soldados; sua voz era alta e parecia ser carregada pelo vento para o acampamento lá fora. Eu podia ouvi-la amplificada, como se ele estivesse falando num microfone, mas os seus soldados estavam todos presos agora. Ninguém veio em seu socorro. Os dois rolaram em minha direção. Lokesh murmurou algumas palavras até que um colchão de ar surgiu como uma bolha entre os dois, lançando Kishan para trás e permitindo que Lokesh pudesse se pôr de pé novamente.
Levantei-me e ergui a mão. Meu braço inteiro tremia enquanto eu tentava reunir coragem. O fogo não vinha. Eu me sentia fria por dentro, como se o fogo dentro de mim houvesse sido abafado. Lokesh virou a cabeça instantaneamente quando viu meu gesto. Ele riu diante de meu
esforço patético e recomeçou a murmurar. Fiquei rígida. Não conseguia me mover. Uma lágrima rolou pelo meu rosto e se congelou.
Kishan aproveitou a distração de Lokesh e agarrou-lhe o braço, girando-o para trás das costas. Num instante tinha o chakram pressionado na garganta de Lokesh. A lâmina reluzente entrou na carne macia, liberando fios de sangue que fluíram pela arma e pingaram na camisa de seda azul de Lokesh.
Lokesh grunhiu e murmurou baixinho:
- Você quer que ele morra? Posso matá-lo num instante. Posso congelar o sangue dele para que o coração pare de bater.
Kishan olhou para mim e se deteve. Ele poderia ter decapitado Lokesh com um leve movimento do pulso, mas parou e eu vi as emoções cruzarem seu rosto. Ele se conteve por minha causa. Lokesh deu uma risada áspera, respirando pesadamente em seu esforço. Um baque profundo sacudiu as paredes enquanto o Sr. Kadam e os aldeões continuavam a bater no edifício, tentando derrubá-lo.
Lokesh tornou a ameaçar:
- Se não me soltar, eu vou matá-lo. Decida agora!
O brilho da ira ardia em seus olhos, um fogo latente que não podia ser extinto.
Kishan o soltou. Gemi por dentro, pois não podia me mover. Tínhamos quase vencido. Agora estávamos à mercê de um monstro.
Lokesh logo tornou a murmurar e Kishan se viu preso no mesmo controle imobilizante que eu. Lokesh se ajeitou e cerimoniosamente espanou o pó das lapelas do paletó. Pressionou um lenço branco limpo na garganta, que sangrava. Então riu, aproximou-se de Kishan e deu-lhe tapinhas carinhosos no rosto.
- Aí está. É sempre melhor cooperar, não é? Está vendo quanto é inútil você me enfrentar? Talvez eu tenha subestimado você um pouco. Certamente você acaba de me proporcionar a melhor luta que tive em séculos. Vou aguardar ansioso o desafio de dobrar seu espírito.
Ele tirou uma faca muito antiga e de aspecto maligno do bolso interno do paletó e a agitou quase amorosamente diante do rosto de Kishan. Aproximou-se e correu-lhe o lado cego pela bochecha.
- Esta lâmina é a mesma que usei há muitos anos em seu príncipe. Está vendo como a mantive em excelentes condições durante todos esses anos? Você poderia me chamar de velho tolo e sentimental. Eu esperava secretamente vir a usá-la outra vez e terminar o que comecei muitos anos atrás. Não é bem apropriado que eu a use em você também? Talvez tenha sido poupada exatamente para esse propósito.
Ele fez uma pausa breve antes de continuar:
- Bem, por onde devo começar? Uma bela cicatriz deixaria seu rosto um pouco menos atraente, não é? Naturalmente, terei que tirar o amuleto primeiro. Eu vi como ele consegue curar. Esperei tanto tempo por essa parte. Você não faz idéia de quanto ansiei por sentir o poder que ela possui. E triste saber que você não estará por aqui para apreciar o que fará por mim.
Ele ficou brevemente amuado.
- É uma pena que eu não tenha tempo para uma cirurgiazinha experimental. Eu adoraria lhe dar umas lições de disciplina. A única coisa que iria me proporcionar mais prazer que correr minha faca na sua pele seria desfigurar você diante do seu príncipe. Ainda assim, ele irá apreciar a minha obra.
Eu estava com medo. Se já não estivesse congelada, teria ficado paralisada de pavor. Não importava quanto eu estivesse preparada. Lutar contra alguém verdadeiramente maligno não era uma coisa fácil. As aves, os macacos e os kappa estavam todos apenas cumprindo sua missão. Eles protegiam os presentes mágicos e eu aceitava isso. Mas encarar Lokesh e vê-lo brandir aquela faca contra a garganta de Kishan era terrível demais.
Eu me desliguei quando ele começou a falar em desmembrar Kishan pedaço a pedaço. Era nauseante. Se eu pudesse, teria vomitado. Eu simplesmente não podia conceber alguém tão cruel. Queria ter podido cobrir meus ouvidos. Meu pobre Ren fora torturado por esse demônio
psicopata durante meses. Meu coração se encolheu com esse pensamento.
Lokesh tinha a persona traiçoeira do Imperador Palpatine misturada à crueldade sádica de Hannibal Lecter. Ele desejava o poder a qualquer preço, como Lorde Voldemort, e exibia a brutalidade de Ming, o Impiedoso, que, como ele, havia matado a própria filha. Meu corpo tremia. Eu não podia vê- -lo machucar Kishan. Não suportaria isso.
Ele agarrou o queixo de Kishan e estava prestes a cortar-lhe o rosto quando percebi que, mesmo que eu não pudesse me mover, o Fruto Dourado ainda faria seu trabalho. Pedi a primeira coisa que me passou pela cabeça: balas duras. E balas duras eu recebi. Uma tempestade delas. Quebraram monitores e uma das janelas. O estrondo que provocavam golpeava meus tímpanos enquanto caíam dentro do centro de comando. Pareciam milhares de bolas de gude despencavam num lago de vidro e tudo se estilhaçava e quebrava à nossa volta. Kishan e eu oscilamos e caímos, bombardeados por uma rajada do doce duro. Foi a mochila que me salvou de quebrar o pescoço. Tinha certeza de que Kishan havia se machucado outra vez. Felizmente ele sarava com rapidez. Eu me sentiria grata se ao menos um de nós saísse dessa vivo.
Em pouco tempo cada centímetro do chão estava coberto por uma camada de uns 30 centímetros das balas. Lokesh foi atingido com força suficiente para perder o equilíbrio e cair. Ele disparou vários palavrões em sua língua enquanto tentava se recuperar e descobrir de onde vinha aquela tempestade. Então deu-se conta de que a faca havia desaparecido e começou a vasculhar em meio às balas para encontrá-la. Kishan e eu, a essa altura, estávamos quase enterrados.
O edifício se sacudiu mais uma vez e uma parte da parede desmoronou perto de nós. Lokesh conseguiu se levantar com dificuldade depois de encontrar a faca. Ele agarrou o amuleto em torno do pescoço de Kishan e o puxou até a corrente se partir, deixando um vergão vermelho na pele.
Lokesh se debruçou sobre Kishan brevemente e tocou o rosto dele com a faca.
- Vamos nos encontrar de novo - ele sorria horrivelmente - em breve.
Lokesh deslizou a faca da bochecha de Kishan até a garganta, traçando uma trilha de sangue que deixaria uma horrível cicatriz, mas não mataria. Então, com um ruído doloroso, Lokesh se afastou, caminhando com dificuldade em meio às balas até um botão escondido na parede. Um painel se abriu e ele desapareceu.
Alguns aldeões acompanharam o Sr. Kadam até o escritório e correram para nos ajudar a levantar. O corte de Kishan já ia se fechando, mas sua camisa estava suja de sangue. O talho havia sido profundo. Ouvi o ronco de um motor e um ruído rascante quando um veículo arrancou de sob o edifício e saiu em disparada pela estrada de terra que partia da aldeia. Eu poderia ter usado o Fruto Dourado para parar o motor, mas optei por não fazê-lo.
Eu me sentia envergonhada, mas não queria enfrentá-lo outra vez. Eu queria que ele fugisse. Esperava não vê-lo nunca mais. Fiquei ali, imóvel, me repreendendo por ser tão covarde. Eu era fraca. Se pudesse me mover, teria ido choramingar no canto da sala, me escondendo. Lokesh era poderoso demais. Não conseguiríamos vencer.
O melhor que poderíamos desejar seria evitá-lo. Eu sabia que Kishan e o Sr. Kadam ficariam decepcionados comigo. Grande guerreira! Pássaros de ferro gigantes? Sem problema. Kappa? Eu tinha Fanindra e Ren. Macacos? Algumas mordidas e machucados não me matariam. Mas Lokesh? Eu me acovardei e fugi diante do inimigo. Queria poder entender por que estava reagindo dessa forma. Ele era um monstro. Só mais um para enfrentar. Mas esse monstro tinha um rosto humano. De alguma forma, isso parecia pior.
Após algum tempo, o feitiço que Lokesh havia usado em Kishan e em mim desapareceu. Tentamos acordar nossos membros dormentes, esfregando-os. Quando Kishan havia se recuperado suficientemente, abriu caminho através das balas duras para me ajudar. O Sr. Kadam dava instruções aos aldeões enquanto Kishan me apoiava, por causa de meu tornozelo torcido, e me ajudava a procurar Ren. Fanindra decidiu despertar e ajudar na busca. Ela se moveu e cresceu.
Baixei o braço para que ela escorregasse para o chão e a cobra abriu caminho entre caixas de armas e sacolas de suprimentos. De repente se deteve e experimentou o ar com a língua, perto de uma área que parecia um beco sem saída. Suavemente, ela deslizou sob algumas caixas e Kishan as inspecionou mais de perto. Descobriu que eram uma arrumação falsa e tirou-as do caminho. Atrás, havia uma porta trancada. Tivemos tempo apenas de ver a cauda dourada de Fanindra desaparecendo por baixo. Kishan tentou forçá-la.
Acabei empregando meu poder do raio para explodir a fechadura, depois de vários segundos desenvolvendo a capacidade de usá-lo novamente. Pensar em Ren ainda sofrendo foi o que finalmente me fez vencer meu congelamento interno.
A porta se abriu e as narinas de Kishan se dilataram. Lá dentro o cheiro doce e abafado de sangue e suor humano permeava tudo. Eu sabia onde estava. Já estivera ali. Era a câmara onde Lokesh havia torturado Ren. Instrumentos terríveis pendiam das paredes e encontravam-se dispostos sobre mesas cirúrgicas reluzentes. Fiquei paralisada de horror ao olhar todas aquelas coisas e imaginar a dor que Lokesh havia imposto ao homem que eu amava.
Instrumentos cirúrgicos modernos espalhavam-se sobre bandejas, ao passo que itens mais antigos empilhavam-se nos cantos e pendiam de ganchos. Não pude me conter. Estendi a mão e toquei as extremidades gastas de um chicote. Em seguida esfreguei o cabo de um grande malho e comecei a tremer ao imaginá-lo quebrando os ossos de Ren. Várias facas, de diferentes comprimentos e larguras, pendiam enfileiradas.
Vi madeira, parafusos, pregos, alicates, picadores de gelo, tiras de couro, uma focinheira de ferro, uma furadeira moderna, colares com pregos, um torno que poderia ser usado para esmagar qualquer membro que fosse ali colocado e até mesmo um maçarico. Eu tocava os itens brevemente ao passar e chorava com amargura. De alguma forma, tocá-los era a única coisa que eu podia fazer para tentar compreender como essa experiência devia ter sido para ele.
Kishan pegou meu braço com delicadeza.
- Não olhe para isso, Kelsey. Olhe apenas para mim ou mantenha os olhos voltados para o chão. Você não precisa fazer isso. Seria melhor esperar lá fora.
- Não. Tenho que estar aqui, por ele. Preciso fazer isso.
- Então fique ao meu lado.
A jaula de Ren ficava no canto mais distante e eu mal pude distinguir uma forma subjugada lá dentro e uma cobra reluzente enrascada perto dela. Depois de recolher Fanindra e lhe agradecer, recuei e explodi o cadeado. Então me aproximei e abri a porta.
- Ren? - chamei suavemente.
Ele não respondeu.
- Ren? Você está... acordado?
A forma se moveu ligeiramente e um rosto pálido e abatido se voltou para mim. Seus olhos azuis se estreitaram. Ele olhou para Kishan. Seus olhos se arregalaram e ele se aproximou da abertura. Kishan o chamou com um gesto e ofereceu a mão para ajudar.
Cauteloso, ele estendeu a mão trêmula para agarrar a grade na extremidade da jaula. Seus dedos haviam sido quebrados recentemente e estavam ensangüentados. Meus olhos se encheram de lágrimas e minha visão se turvou enquanto eu recuava para lhe dar passagem. Kishan deu um passo à frente para ajudá-lo. Quando Ren enfim se levantou, eu arquejei. Ele fora espancado não tinha muito tempo. Eu já esperava por isso. Seus ferimentos estavam cicatrizando.
O que me chocou foi o fato de ele estar tão esquelético. Lokesh estava matando Ren de fome. Provavelmente também estava desidratado. Seu corpo forte estava magro, muito mais do que eu imaginaria que ele poderia ficar. Os olhos azuis brilhantes estavam circundados por depressões escuras. As maçãs do rosto estavam salientes e o cabelo escuro e sedoso pendia pegajoso e sem vida. Ele deu um passo em minha direção.
- Ren? - eu disse e lhe estendi a mão.
Ele estreitou os olhos, cerrou o punho e o brandiu com uma explosão de energia que eu não esperava que ele ainda tivesse. Senti uma dor aguda no maxilar e depois mais nada, enquanto meu corpo tombava no chão.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
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