Eu arrastei os meus dedos pela superfície do túnel e
encontrei regiões lisas, quase se pareciam com a faceta de uma
pedra lapidada. Pedacinhos soltos de pedras preciosas negras jaziam
no chão do túnel e estalactites irregulares pendiam do teto.
Estremeci enquanto passava por elas, recordando-me da caverna
subaquática do Kraken.
Contei a Ren e Kishan sobre minha visão de Lokesh e o pedaço
do amuleto da rainha que controlava a água. Com grandes detalhes,
expliquei o que acontecera e peguei Ren e Kishan se entreolhando,
obviamente preocupados que minha conexão com o Lokesh estivesse ficando mais forte. Não os culpava. Eu também estava preocupada.
Mudando de assunto, pedi à Echarpe para que fizesse novas roupas por baixo do que eu usava, porque um vestido dourado não combinava com a minha concepção de roupa-para-se-caminhar-por-um-túnel-assustador.
Depois de dez minutos caminhando, comecei a me sentir claustrofóbica e nervosa. Eu sabia que precisávamos atravessar o túnel sem dormir e que levaria pelo menos dois dias. Ren e Kishan me falaram sobre suas infâncias para passar o tempo e me impedir de hiperventilar.
Paramos para descansar com frequência porque minha nova pele se machucava facilmente e eu já não possuía calos protegendo os meus pés e calcanhares. No final do primeiro dia, eu estava com tantas bolhas que Ren enfaixou os meus pés, me fez um par de chinelos macios e ele e Kishan se revezaram para me carregar. Sentindo-me bem com o tratamento real, meus olhos começaram a se fechar.
Lutei contra o sono e tentei manter uma conversa animada com Kishan, mas durante a longa noite, aninhada nos seus braços, finalmente cochilei e rapidamente entendi a advertência da Fênix. Enquanto meus olhos fechados agitavam-se, algo sombrio absorveu minha consciência. Minha cabeça ficou pesada e eu pude sentir o fluxo em minhas veias desacelerar até parar.
Alarmada, tentei despertar, mas não consegui. Era como se eu estivesse com o Nascer do Sol e o ovo cor de topázio novamente, balançando-me à beira de um precipício e tivesse acabado de perder o meu pé.
Eu caí em outra visão de Lokesh. Minha mente parecia unida à sua e eu sabia que ele exigia informações sobre outro pedaço do amuleto de um pobre servo.
O homem, que fora agredido cruelmente, estendeu um punhado de papéis amassados e murmurou, “De acordo com os registros, dois grandes guerreiros, Chandragupta e Seleucus, freqüentemente se encontraram em batalha até 305 a.C., mas depois, misteriosamente, toda a guerra cessou e um tratado de paz foi assinado. Seleucus, que
serviu a Alexandre, o Grande, ofereceu sua filha para que o imperador a tomasse como noiva e o imperador deu a ele quinhentos elefantes de batalha em troca. Seleucus assumiu os territórios do Oriente Asiático depois que o imperador morreu.”
“Continue,” Lokesh disse ao homem assustado depois de chutá-lo violentamente. Senti o deleite de Lokesh com os maus tratos e recuei de horror.
O servo leu a carta para Lokesh. “Seleucus ofereceu terras que margeavam do Rio Indo a Chandragupta em troca de mercadorias e soldados. Chandragupta respondeu, ‘Considerarei a sua oferta se você concordar em nivelar a montanha que bloqueia a vista do meu palácio. Você tem o poder, afinal. ’”
“Pare!” Lokesh ordenou e pediu para ver as cartas.Quando o servo as entregou, Lokesh usou sua mágica e o vento girou ao seuredor. Raios azuis crepitavam em seus dedos e ele disparou contra o homem inocente, que caiu no chão. Marcas negras de raio riscavam o seu peito.
A visão mudou e eu estava mais uma vez com Lokesh em uma terra estranha. “Você foi difícil de encontrar, velho homem,” Lokesh sorriu para o avô idoso que ele encurralara em uma cabana. “Felizmente para mim, seu ancestral Seleucus tinha uma marca de nascença que foi passada para os seus filhos e netos.”
Lokesh riu ironicamente, “Você sabia que a mãe de Seleucus contou a ele que seu verdadeiro pai era o deus Apolo e que sua marca em forma de âncora era o símbolo de seu favorecimento?”
O homem assustado balançou sua cabeça.
“Seleucus pensava estar destinado a grandes coisas. Talvez ele estivesse, mas seguindo seu próprio caminho.” Curvando-se para o homem de idade, Lokesh continuou, “Cá entre nós, um grande homem se faz grande. Tristemente, sua chance de tornar-se grande já se passou há muito tempo. Talvez você gostasse de saber por quanto tempo estive procurando-o.”
Puxando uma faca de sua cintura, uma faca que eu reconheci, Lokesh a testou com seu polegar. “Quinhentos anos,” ele disse, “E é um longo tempo. Até mesmo para mim.”
O falso sorriso de Lokesh desapareceu. “Mas, certamente, irei puni-lo por cada ano que tive que esperar. Por acaso, os últimos dois
anos de pesquisa se mostraram mais interessantes. Achei Apama, a esposa de Seleucus, em sua cidade natal Persa, Susa. Então, longos meses e muitas mortes me trouxeram a você. Todos eles quiseram protegê-lo – o avô ancião deles alegou ser aquele com cento e doze anos de idade.” Lokesh inclinou-se para frente e estreitou seus olhos. “Mas cá entre nós, meu amigo, acredito que você é muito, muito mais velho.”
Os olhos do velho homem o traíram. Em um instante, ele usou o poder de seu amuleto para tremer o chão, mas ele era tão fraco quanto parecia. Lokesh congelou todo o corpo do velho homem instantaneamente e com seu terremoto ainda ribombando, o corpo do homem deslizou da cadeira e se partiu em vários pedaços dispersos.
Lokesh empurrou para o lado os restos do velho homem e puxou o amuleto de seu pescoço. Em seguida ele pegou o anel que havia rolado de sua mão estilhaçada. Havia uma jóia oval e lisa envolta por um grosso filete de ouro. Na superfície lisa da pedra havia uma aparência de mármore, que a fazia parecer ligeiramente com um mapa envelhecido. Lokesh poliu a pedra turquesa persa e a deslizou por cima da junta de seu polegar.
Franzindo a testa, Lokesh chutou para o lado o que restava do velho homem e murmurou, “Preciso aprender a controlar melhor o pedaço da água. Eles morrem muito rápido.”
Ele uniu o novo pedaço do amuleto aos outros e eu senti a onda de poder. O amuleto revigorou Lokesh e de alguma forma, eu soube que era o pedaço da terra. Observei enquanto ele testava a extensão e o alcance do poder. Com a parte pertencente ao velho homem, Lokesh foi capaz de trazer pedras preciosas à superfície, deslocar rochas e causar tremores. Junto dos outros pedaços do Amuleto de Damon, Lokesh poderia chamar predadores da terra e do mar para cumprirem as suas ordens.
Tubarões! Foi assim que ele os chamou. E também explica como ele foi capaz de usar ursos, lobos e leopardos da neve para distrair o Sr. Kadam durante a luta de espadas.
Satisfeito apenas momentaneamente com o seu novo poder, Lokesh direcionou sua atenção para a Índia e para os dois pedaços restantes do amuleto.
Meu corpo deu um solavanco e acordei num ímpeto para me encontrar deitada em um túnel, com a cabeça apoiada na mochila de Kishan. Minha conexão com o Lokesh de fato estava ficando mais forte. Estava se tornando mais difícil me manter longe e tremi de repulsa com o pensamento.
Kishan inclinou-se sobre mim e perguntou: “Outro sonho?” Assenti. Meu rosto doía e eu esfreguei minha pele formigando. As pontas dos meus dedos estavam cinza e dormentes. “O que houve?” Perguntei.
Com uma estranha expressão, Ren respondeu: “Você estava dormindo. Não conseguimos acordá-la. Desculpe-me, Kells.”
“Desculpar pelo quê?”
“Tive que dar tapas em você para fazê-la acordar.”
“Oh. Não se preocupe com isso,” Disse eu enquanto acariciava levemente o meu rosto dormente. “Quase não dói.”
“É o que me preocupa. Pode mover suas pernas?”
“Mas é claro que posso.”
Eu tentei, mas nada aconteceu. Agarrando o braço de Ren, dolorosamente me puxei para uma posição sentada e olhei para as minhas pernas. A pele estava cinza. Apalpei minha panturrilha e encontrei o músculo duro, quase como uma pedra.
“O que aconteceu comigo?” Sussurrei desesperadamente. Ren pegou a minha mão e massageou os meus dedos gentilmente. “Seu rosto também estava cinza, mas está começando a retornar à sua coloração normal. Nós só precisamos manter o seu sangue circulando.”
Meus dedos estavam começando a ficar rosa, mas suas pontas formigavam como se estivessem sendo espetadas por milhares de agulhas quentes. Choraminguei apesar da minha tentativa de resistir à dor e meus olhos ardiam com lágrimas. Kishan puxou minhas meias e começou a esfregar os meus pés. Não demorou muito até que eu sentisse espinhos em brasa dispararem pelos meus pés e pernas.
“Isso dói!” Exclamei.
Ren pressionou um beijo em minha testa e enxugou uma lágrima. “Precisamos fazer isso, Kells. Pode aguentar mais um pouco?”
Concordei e ele trabalhou em minha outra perna enquanto Kishan se focava em meus dedos dos pés. As pontas dos dedos de ambas as mãos ainda doíam, mas a dor aguda se fora. Depois de meia hora, Kishan anunciou que minhas pernas não estavam mais cinza e ofereceu seu braço para me ajudar a levantar. Fiquei em pé e mancava com fortes dores percorrendo minhas pernas.
Apoiando-me em Kishan, continuei a caminhar, grata pelas minhas dolorosas bolhas assegurarem-se de que eu permaneceria acordada. Ren pediu para que eu lhe contasse sobre o meu sonho e me manteve falando até que meus músculos gritaram em protesto pela constante caminhada.
Eu estava morta de cansaço. Meu novo corpo, em conjunto com adormecer em um ninho e quase queimar até a morte, havia me deixado exausta. Senti-me como se fosse um zumbi ambulante e tudo o que podia pensar era em voltar para a minha cama macia na casa de Ren. Cada passo que eu dava parecia sussurrar repetidamente, “Cama, cama, cama.” Era tarde da noite ou quem sabe de manhã cedo, quando Ren sugeriu que descansássemos um pouco e provássemos o fruto de fogo.
Kishan providenciou uma faca e o cortou em fatias alinhadas. O fruto era dividido em duas partes. Uma espessa casca envolvia uma macia polpa laranja-avermelhado. Como um kiwi, o frágil interior era cheio de sementes pretas. Kishan me entregou uma cuia e eu dei uma mordida na fruta suculenta.
O suco era meio azedo, mas revigorante. As sementes eram crocantes, porém comestíveis e tinham o gosto de nozes. O fruto possuía a textura fina e granulosa similar à de um figo, mas o sabor era uma explosão de melancia com laranja. Quando peguei outro pedaço, a parte de trás da minha língua queimou como seu eu tivesse comido algo ligeiramente picante.
Quando terminamos de comer a fruta e começamos a caminhar pela caverna, me senti revigorada, de repente me dando conta de que a dor havia ido embora. Eu inspecionei meus calcanhares e murmurei com espanto,"Estou melhor! O fruto de fogo curou os meus pés!”
Ren e Kishan também se sentiam revitalizados e decidi que eu precisava constantemente dar uma mordida no fruto de fogo
enquanto caminhávamos. Em vez de comer o fruto pegajoso que fazia sujeira, criei uma cabaça cheia com o suco do fruto de fogo e bebia sempre que meus pés começavam adoer. Chegamos a uma bifurcação do túnel e enquanto Ren pegava Fanindra e fazia pequenas explorações adiante, parei para descansar com Kishan. Ele encostou-se à parede do túnel e fechou os olhos.
Eu estava falando com Kishan enquanto vasculhava a mochila quando Ren retornou. Imediatamente correu até o seu irmão e o sacudiu. Eu me virei e engasguei. Nos poucos momentos em que estive virada de costas, Kishan havia adormecido. Seu rosto ficou cinza e seu corpo desabara do chão como se ele estivesse morto.
Nós gritamos e Ren até mesmo o esbofeteou duas vezes, mas Kishan não despertava. A cor cinza deslizou visivelmente das pontas de seus dedos para os seus antebraços e avançou do seu rosto para o seu pescoço. Eu estava preocupada que se seu coração fosse alcançado por isso, ele não fosse capaz de se recuperar. Enquanto Ren o sacudia para despertá-lo, eu o encharquei com água, mas o líquido que dava vida, que era seguro para nós, era nocivo para o reino do fogo. Ela lançou-se sobre as montanhas e destruiu várias pedras de grande porte como ácido.
Levantei minha cabaça com o suco do fruto de fogo até seus lábios e embora a maior parte tenha escorrido pelo seu pescoço, ele se mexeu um pouco. Dei mais a ele e logo ele foi capaz de engolir. A cor cinza começou a recuar e finalmente Kishan piscou e abriu seus olhos dourados.
Beijei os seus lábios ainda duros como pedras e adverti baixinho, “Nunca mais me assuste assim.”
Ele tentou falar, mais pressionei meu dedo em seus lábios.“Não fale ainda. Apenas beba.”
Depois de duas garrafas de suco do fruto de fogo, ele pareceu completamente recuperado e levantou-se, mas mesmo assim Ren colocou o braço de Kishan em torno do seu ombro e o ajudou a caminhar para sair de sua dormência. Estremeci quando Kishan grunhiu de dor, sentindo uma enorme empatia pela dor que ele sentia. Logo estávamos em nosso caminho novamente, seguindo pelo túnel que Ren e Fanindra haviam escolhido.
Kishan recuperara suas forças e quando o túnel tornou-se mais estreito, ele assumiu a liderança, seguidos por Ren e eu. Depois de me ajudar a saltar sobre uma grande rocha que bloqueava nosso caminho, Ren disse, “Quero lhe perguntar algo, mas se fizer você se sentir desconfortável, não precisa falar sobre isso.”
“Qual é a sua pergunta?”
“Quando você se sacrificou para a Fênix, nós lhe vimos queimar.”
“Sim,” Respondi suavemente.
“O que houve?”
“A Fênix me fez algumas perguntas que eu custei a responder e queimar foi o resultado. Havia algumas coisas que eu precisava aprender e admitir para mim mesma. Pôr do Sol disse que ouviu o chamado de meu coração assim que entrei na floresta. Ele queria me curar.”
“Seus métodos de cura deixam a desejar.”
“Talvez.” Nós caminhos em silêncio por um momento e eu acrescentei, “Embora a Fênix não tenha perguntado mais do que ela esperava para si mesma.”
“O que você quer dizer?”
“Quando o cometa riscou o céu, observei-a queimar. Pôr do sol deu sua vida para que uma nova Fênix, Nascer do Sol, pudesse nascer.”
Os olhos de Ren se fixaram em mim brevemente e então ele desviou o olhar. Gentilmente, perguntou, “O que ele perguntou a você, Kelsey?”
Deixei escapar um suspiro e caminhei em silêncio ao seu lado por alguns segundos. Ele não me pressionou enquanto eu estudava a melhor forma de compartilhar com ele.
Finalmente, respondi, “Meu coração esteve machucado por um longo tempo e eu me agarrei à dor. A Fênix me fez encarar isso. E agora que eu reconheço, estou tentando descobrir como dar os próximos passos. Quanto às perguntas que ele me fez...” Eu parei e alcancei suas mãos. “Quero manter para mim mesma por enquanto. Prometo que irei lhe contar algum dia. Mas não agora.”
Ren levou minha mão aos seus lábios e pressionou um beijo suave em meus dedos. “Então eu terei apenas que esperar pelo algum dia.”
Seis horas depois, o túnel se alargou e de repente minha cobra dourada voltou à vida. Fanindra roçou sua cabeça em minha bochecha e apertou meu braço com seus anéis, uma enervante sensação a qual eu ainda não havia me acostumado. Ela olhou para a escuridão à nossa frente e ondulou sua língua para dentro e pra fora várias vezes. Quando ela inclinou a cabeça para o chão, eu agachei-me e a coloquei na entrada do ousado caminho escuro.
Erguendo a cabeça, Fanindra abriu o capuz e balançou-se para frente e para trás enquanto estudava o terreno à sua frente. Então ela sibilou um pouco e moveu-se para uma direção diferente. Nós a seguimos por uma trilha acidentada que estava coberta por afiadas pedras pretas. Seu corpo dourado serpenteou por entre as rochas e perdemos velocidade, todos nós concordamos que era mais seguro seguir a cobra.
Logo senti uma mudança no ambiente. O túnel abriu-se em uma extensa caverna. Os ecos de nossas vozes ressoaram ao nosso redor. À medida que avançávamos mais, senti um vento frio passar por mim e depois desaparecer abruptamente. Arrepios se espalharam em meus braços e eu os esfreguei ansiosamente.
Como se a movimentação de ar frio já não fosse estranha o bastante no mundo do fogo, também fora acompanhada porvários ruídos perturbadores. A corrente de ar rodopiava pelos buracos nas rochas, criando um barulho suave ou vibração, ruído, e as rochas lentamente se constringiram com indistintossonsde arquejos. O vento continuou a acariciar a minha nova pelecom longos intervalos e eu invoquei a imagem de um gigante moribundo exalando seu último suspiro frio.
Fanindra parou abruptamente e levantou a cabeça, percebendo algo que nós não podíamos. Nem mesmo Ren ou Kishan podiam ouvir ou ver muito além da luz lançada pela cobra dourada. Todos nós pressentimos perigo. Ren respondeu soltando a espada do seu cinto. Enquanto ele segurava o cabo, ela alongou-se em seu total comprimento. Com uma torção do pulso, a espada separou-se em duas lâminas. Ele entregou uma a Kishan e em um acordo
silencioso, os dois irmãos se colocaram um pouco mais à frente de mim.
Após uma hora deste contínuo movimento, senti as energias serem drenadas do meu corpo novamente. Eu tinha acabado de tirar a tampa para tomar um gole de suco do fruto de fogo, quando Fanindra de repente se enroscou e ergueu a metade superior de seu corpo quase toda. Ela esticou as costelas abaixo de sua cabeça mais amplamente do que já fizera antes, o que mostrou a coloração diversificada de sua capa e a fez parecer três vezes maior do que ela era.
Ela expeliu uma série de sibilos em advertência, fosse para nós ou para tentar afugentar quem quer que esteja se confrontando com ela. Sua boca se abriu e fechou muitas vezes como se estivesse provando o vento. Sua língua bifurcada fazia cócegas no ar de novo e de novo, ondulando verticalmente como se fosse uma fita na brisa enquanto tentava sentir os seus arredores.
Um estampido à nossa esquerda, como o de uma pedra caindo, ecoou pela caverna, assustando-nos. Um momento depois, nós ouvimos o rápido som crescentede algo sendo arrastado pelasrochas. Continuou a se mover, tornando-se mais próximo e me lembrou o ruído de uma criança descuidada arrastando um brinquedo pesado ao descer as escadas. As batidas rítmicas caíram na sequência do lugar e eu senti como se algo ruim estivessetamborilando em minha espinha em um ritmo agitado. Minhas vértebras quicavam na sequência do barulho.
Kishan se retesou. “Vocês estão sentindo este cheiro?”
“Que cheiro?” Sussurrei.
Sombriamente, Ren assentiu. “O fedor da morte.”
Ren procurou e pegou minha mão atrás de si. Ele me aconchegou entre suas costas fortes e as de Kishan. Foi quando o cheiro me atingiu. Eu engasguei imediatamente e meus olhos começaram a lacrimejar. Um vapor fétido nos cercou e eu tive que cobrir minha boca e meu nariz com a mão. As narinas de Ren queimaram, mas foi o único sinal de desconforto de ambos os irmãos.
O cheiro era pior do que um velho depósito de lixo. Um animal morto seria um perfume agradável comparado a isso. Era
quase tangível. Eu poderia até provar o mau cheiro com a minha língua e sentia que ele impregnava-se na minha roupa e cabelo. Ele era um consumidor, queimante, violador, desagradável e sufocante mau cheiro que de alguma forma era tóxico e doentiamente doce ao mesmo tempo.
O ruído das batidas chegou mais perto e de repente parou. O ar espesso fez meus olhos arderem com o cheiro de vinagre gasoso. O corpo de Fanindra ondulou brevemente e, em seguida, ela bateu em alguma coisa na escuridão. Ela sibilou e investiu novamente. Olhei para a escuridão à sua frente e senti Kishan retesar.
Uma forma fantasmagórica cinzenta arrastou-se lentamente em nossa direção. Os cabelos do meu corpo se eriçaram quando percebi que era um cadáver. O corpo se movia com rigidez. A barriga foi grotescamente distendida e a boca se abriu frouxamente. Onde deveriam ter existido gengivas, agora havia uma branca mandíbula de um esqueleto. Estremeci quando vi que a pele ao redor da carne apodrecida do rosto estava inchada e enegrecida, como se machucada.
Cabelo pendia molemente do que restava do seu coro cabeludo, eu tremi e me aproximei para mais perto das costas de Kishan, quando a criatura arranhou sua própria testa e o coro cabeludo escorregou, expondo parte de seu crânio branco.
Ren falou primeiro. “O que é você? O que quer de nós?”
A criatura hesitou brevemente, mas começou a se mover em nossa direção de novo. Ela parecia fascinada por Fanindra. A cobra investiu contra a criatura diversas vezes, mas ela tanto não parecia ser afetada pelo veneno de suas mordidas como não parecia senti-las. Quando ela estendeu a mão para segurá-la, a cobra rapidamente deslizou para fora de seu alcance e moveu-se de volta para mim, enroscando-se em torno de minha perna. Eu peguei Fanindra e ela imediatamente enrolou-se em sua forma de bracelete brilhante. Colocando-a no meu braço, percebi que o cadáver ambulante endireitara o corpo e vinha em nossa direção. Fixando seus olhos remelentos em Fanindra e em mim.
Ren ergueu sua espada. “Pare! Se você continuar se aproximando, iremos machucá-lo.”
O cadáver ambulante nem olhou para ele. Ren brandiu sua espada e golpeou a criatura violentamente, fazendo um corte certeiro em seu braço direito. O membro apodrecido caiu no chão, mas o ser morto foi apenas um pouco atrasado com a perda de um anexo enquanto o seu braço deslizava para longe do corpo. Obviamente não lhe causava dor.
Kishan saltou para frente e deslizou sua espada através da barriga inchada do cadáver, fez um corte profundo na região do abdômen e um líquido jorrou dele. Fumaças cortantes e um líquido espesso se derramaram. O cheiro de putrefação e esgoto rodopiava no ar e quando ergui minha mão para explodi-lo com meu poder de raio, o cadáver segurou o meu pulso com a sua mão.
Com um forte puxão, escapei de seu aperto. Mas para o meu horror, sua pele se soltou e ficou presa em meu pulso. Gritei e sacudi meu braço, tentando expulsar a epiderme cinza tremulante. Calmamente, Ren pegou o meu braço e retirou a pele em forma de luva que havia escorregado diretamente dos ossos brancos e brilhantes da mão do cadáver.
Pra mim já era o suficiente. Com os olhos de Fanindra brilhando, virei-me e corri. Ouvi Kishan e Ren me seguindo logo atrás e rapidamente nos distanciamos de nossos perseguidores.
Enquanto nos movíamos pela caverna, encontramos corpos em diferentes estágios de decomposição. Uma mulher estava deitada sobre as rochas como se houvesse caído ao desmaiar. A pele úmida ainda estava presa aos seus ossos e seus miolos derretidosescorriam por suas orelhas e nariz. O cheiro enjoativo do sangue bolorento e da carne apodrecida nos acompanhou por um tempo após a deixarmos para trás. Encontramos esqueletos brancos com alguma espécie de planta crescendo ao redor dos ossos e um crânio que havia sido roído por algum tipo de roedor.
A maioria dos corpos não se movia o suficiente para que me eu me incomodasse muito, embora de vez em quando nos deparássemos com umc om células rompidas, pele descamando e cheirando à amônia. Quando os víamos, os contornávamos com certa distância. Mesmo assim, suas cabeças, quando possível, giravam para nos observar.
Depois de passarmos por um indivíduo com a aparência particularmente medonha, eu perguntei, “O que vocês acham que eles querem?”
Ren respondeu, “Pareciam interessados em Fanindra. Talvez eles desejem a luz que ela emite.”
Estremeci e me agarrei ao seu braço enquanto caminhávamos pela caverna.
Kishan ponderou, “A Phoenix disse que aqui era a Cova do Sono e da Morte.”
“Terei que agradecê-lo por sua tradução literal,” Eu comentei.
Contornamos outra mulher que vinha em nossa direção com uma expressão quase maternal no que sobrou de seu rosto. Depois de termos passado, ela baixou os braços e seu longo cabelo cobriu seu rosto fantasmagórico.
“Não estou mais com medo deles,” Ren disse.
“Por quê? Por que não?” Eu perguntei.
“Eu acho…Eu acho que eles poderiam ser nós.”
Kishan replicou, “O que você quer dizer?”
“Quando vocês dois dormiram, suas peles ficaram cinza. Se vocês nunca tivessem acordado, talvez um de vocês pudesse ter tido o mesmo destino deles. Eles não puderam fazer nada para impedir o que acontecia com eles. Sinto-me triste por eles estarem, de alguma forma, conscientes o bastante para vivenciarem a decadência de seus próprios corpos.”
Acrescentei suavemente, “Se eu ficasse presa na escuridão por anos, eu também iria querer um pouco de luz.”
“Talvez seja melhor para eles que fossem poupados de ver seus próprios destinos.” Kishan disse.
Movemos-nos pela caverna em silêncio. O sentimento uma vez assustador de estar cercada por zumbis em decomposição fora substituído por uma melancolia sombria e enquanto eu passava perto dos corpos cinzentos, sussurrei as palavras tranqüilizadoras de respeito que eu teria dito no cemitério em que meus pais foram enterrados, sabendo a todo instante que a diferença entre mim e eles estava simplesmente no pequeno gesto de fechar os meus olhos.
sábado, 2 de novembro de 2013
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