Andamos por várias horas em silêncio sem parar. O
gelado vento de Dezembro batia em meu cabelo, e eu me aproximei
mais de Ren, que de alguma forma conseguiu tirar sua jaqueta de
couro e me entregá-la sem diminuir. Eu a vesti agradecida e abracei
Ren apertado em agradecimento.
Não tinha ideia de onde estávamos apesar de suspeitar que,
baseado nas placas da estrada, nós não estávamos na Índia.
Quando os rapazes finalmente estacionaram, era de manha cedo,
talvez uma ou duas horas antes do sol nascer. Cansada, desci da
motocicleta. Ren e Kishan esconderam suas motos em um arbusto,
e finalmente, nós pudemos ter uma reunião apropriada.
“Pensei que nunca mais fosse te ver.” Kishan disse ternamente
me abraçando e passando as mãos pelas minhas costas. “Você está
bem? Lokesh te machucou?”
Balancei minha cabeça. “Só um pouco. Ele me machucou um pouco e me beijou algumas vezes, mas na maior parte do tempo me deixou sozinha. Nunca vi sua câmara de tortura.”
O abraço de Kishan era bom. Seguro. Pela primeira vez em um longo tempo, eu baixei completamente minha guarda. Eu estava com meus tigres novamente. Estava de volta onde pertencia.
“Bom.” Kishan resmungou me segurando como se nunca fosse me deixar ir.
Quando ele finalmente me deixou ir, Ren se aproximou de mim com uma expressão indiscernível em seus olhos. Ele não disse nada, mas eu poderia jurar que ele estava lendo minha mente. Hesitante, ele tocou minha bochecha e lágrimas brotaram de meus olhos. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele me puxou para seus braços. Envolvendo-me em um seguro céu, sentindo a conexão inexplicável entre nós e o calor de seu forte corpo, eu finalmente relaxei, e toda a turbulência emocional jorrou profusamente.
Vendo o estado que estava, Kishan baixou o olhar e se ocupou com a criação de uma barraca enquanto eu chorava baixinho nos braços de Ren. Meu corpo tremeu com torturantes soluços. Me agarrei a camiseta de Ren, juntando-a em meu punho enquanto ele murmurava suavemente e acariciava meu cabelo. Em algum momento eu percebi que não estava suportando mais meu próprio peso. Ele me pegou e me carregou para a tenda.
Ren me embalava contra seu peito, e Kishan fez um chá quente. Eu sacudi minha cabeça, muito sobrecarregada para beber, mas Ren insistiu. Quando terminei, ele sussurrou algumas palavras para Kishan, que imediatamente se transformou em um tigre negro e se esticou pelas almofadas. Eu descansei ao seu lado, acariciando o pelo de meu tigre negro, sabendo que a maldição ainda requeria que eles tivessem seis horas como tigres por dia.
“Tente dormir, priyatama.” Ren disse, colocando sua palma da mão levemente em minha bochecha. Então, ele se transformou na familiar forma de tigre branco e deitou do meu outro lado.
Por um tempo, o único ruído era o fungar e o ronronar reconfortante de Ren. Exausta, eu finalmente adormeci segurando um punhado do pelo macio de Ren.
Dormi por um longo tempo, acordando apenas parcialmente com os movimentos dos irmãos enquanto eles tentavam não me incomodar. Eles conversaram suavemente em híndi, as palavras amáveis e musicais me ajudaram a relaxar e voltar a dormir.
Quando eu finalmente acordei, o sol estava alto no céu. Apesar de estar frio a noite, havia ficado quente por cerca de cinquenta graus, o que em Oregon é como o inicio do verão. Sentei-me fazendo careta e tirando de meu rosto o cabelo em formato capacete.
Kishan adentrou a tenda e sorriu. “Pensei que ouvi você se levantar.”
“Temos tempo para um banho de esponja antes de irmos?”
“Se você me incluir nessa situação, farei termos tempo.”
Suspirei me espreguicei e dei um meio sorriso. “Perdi sua provocação. Ei, onde estamos afinal?”
“Uzbequistão.”
“Isso não ajuda...”
“Ásia central. Estamos cerca de mil e seiscentos a distância de casa.”
“Uau, isso é um longo caminho para percorrermos com as motocicletas.” Disse e fiz uma pausa antes de continuar, “Kishan? Você acha que ele... está morto?”
“Não sei. Lokesh viveu por um longo tempo.”
“Espero que ele esteja morto.”
Kishan me estudou pensativo. “Também espero Kelsey.”
Peguei sua mão. Embora meu coração ainda se agite por Ren, eu havia feito minha escolha: Kishan. Travesseiros redondos, travesseiros quadrados, ambos continuam sendo travesseiros. Me lembrei, pensando com carinho em Phet.
“Kishan, obrigado por vir por mim.”
Seus olhos dourados brilharam. “A qualquer hora, bela.”
Kishan deixou eu me limpar e eu pedi a Echarpe para criar uma cortina de chuveiro improvisado e ao Colar de Perolas para criar um chuveiro em uma seção de pedras lisas não muito longe da barraca. Coloquei minha mão na água e fiquei surpresa ao sentir como se fosse uma quente chuva tropical. Limpei a maquiagem e o perfume de meu corpo e imaginei que estava lavando uma espessa camada de peles falsas, descamando a garota que havia sido noiva de Lokesh.
Revigorada e me sentindo como eu novamente, era hora de ir para casa. Quando Kishan me pediu para ir com ele, lancei uma olhada para Ren, que não encontrou meu olhar. Mordi meu lábio e joguei minha perna por cima da moto de Kishan.
Querendo ficar o mais longe o possível de Lokesh o quanto antes, nós mantivemos um ritmo esgotante. Tinha a sensação que os irmãos só paravam por mim e para reabastecer.
No posto de gasolina, Kishan encheu as motos enquanto Ren e eu pegávamos um pente e protetor solar. Comecei a trabalhar os emaranhados de meu cabelo, Ren insistia em esfregar protetor sobre os meus braços, nariz e bochecha.
“Como você está?” Ele perguntou baixo.
“Irei sobreviver.”
“Disso eu não tenho duvida.” Terminando em um braço, ele passou para o outro. “Lokesh estava fazendo você se casar com ele?”
“Na verdade, foi minha ideia. Eu queria... afastá-lo o máximo possível.”
Ren endureceu e seus dedos apertaram meu braço por um momento. Ele olhou em meus olhos e perguntou cuidadosamente, “Ele... te machucou?”
Coloquei minha mão sobre a dele. “Não. Não do jeito que você está pensando.”
Ren concordou e segurou meu rosto com a palma da mão. “Se precisar conversar, eu estou aqui.”
“Eu sei. E Ren? Me perdoe pelo beijo. Não queria te machucar.”
“Eu sei porque você o fez. Doeu mais saber que você era uma prisioneira e não ser capaz de te salvar.” “Obrigado por me salvar.”
“Não importa onde você vá, eu sempre irei por você iadala. Não há necessidade de me agradecer.”
“Mesmo assim, obrigado.”
Ren beijou minha testa. “Já te falei ultimamente que você é uma mulher muito teimosa?”
“Não recentemente.” Repliquei brincando, curtindo nossas brincadeiras familiares e sentindo um quente formigamento por todo meu corpo.
“Vamos para casa. Mal posso esperar para ver o Sr.Kadam. Eu tenho muitas coisas para contar para ele.”
Ren estendeu a mão para mim e me puxou para perto, repentinamente sério. “Kells, nós... não fomos capazes de encontrá-lo. Quando os piratas de Lokesh nos emboscaram, ele entrou na frente de um arpão direcionado a Nilima, e ambos desapareceram. Não conseguimos localizá-lo no GPS. Os sinais de ambos sumiram. Víamos o seu sinal, mas não os deles.”
“O quê? Não pode ser. Vamos então. Precisamos achá-los.” Minha mente foi preenchida com uma nova preocupação por Sr.Kadam e Nilima. Nada estaria certo até que estivéssemos todos juntos novamente.
Ren estendeu a mão. “Você vai viajar comigo?”
Sua questão permaneceu no ar. Olhei para Kishan que havia acabado de encher os pneus com ar e me dado um aceno alegre.
Kishan é meu namorado. Eu deveria ir com ele. Pensei.
“Por favor.” Ren acrescentou calmamente. “Preciso sentir você próxima de mim.”
Baixei meus olhos e peguei sua mão. Minha determinação se desintegrou. “Tudo bem.” Eu disse subindo atrás dele e passando meus braços ao redor de sua cintura.
Ren fez seu caminho até Kishan e anunciou: “Estamos juntos nessa.”
Eu rapidamente acrescentei, “Isso é, se tudo bem por você Kishan.”
Kishan deu de ombros de bom humor e avisou. “Ren dirige como um avô, mas está tudo bem por mim.”
Para agradecê-lo, o beijei levemente.
Kishan sorriu e disse. “Talvez seja melhor. Dessa maneira, se eu for atrás como um vovô, eu posso admirar a vista.”
Ren grunhiu e disse algo brusco em híndi, mas Kishan apenas sorriu e o ignorou.
Naquela noite Kishan sondou um lugar para montar o acampamento e voltou animado. O segui por uma colina rochosa até um círculo de pedras ao redor de uma área de argila escavada compactada.
“Encha-o com água.” Kishan sugeriu. “Voilá! Sua própria jacuzzi.”
Eu ri e passei a mão em meu Colar em minha garganta. A bacia rapidamente foi preenchida com água mineral de banho borbulhante, Kishan o atingiu com poder de fogo. O gelado ar subia com o vapor.
“Aproveite seu banho Kells. Ah, e se você precisar de água aquecida novamente, eu ficaria mais do que feliz em ajudar.”
Depois de meu mergulho, era a vez de Ren e Kishan. Kishan rasgou sua camisa. “O primeiro a chegar viaja o dia todo com Kelsey.”
Ren decolou como um tiro com Kishan gritando logo atrás dele. Com apenas somente mais um dia de viagem para cumprir, estávamos retornando a nossa rotinas normais, pelo menos, tão normais quanto poderíamos ser sob as circunstâncias. Ambos os irmãos eram cuidadosos comigo, me tratando delicadamente como um vaso precioso chinês.
Mais tarde naquele anoitecer, quando Kishan sorriu e se inclinou para me beijar, foi quente e breve. Algo brilhou em seus olhos quando ele se afastou.
Peguei sua mão. “O que é isso?” Incentivei suavemente.
“Se eu fizer algo que te lembre de Lokesh ou te machucar de qualquer forma, você me dirá?”
“O fato de você estar ao menos preocupado já é um sinal de que você nunca poderia ser como ele. Não tenha medo de tocar em mim. Não irei quebrar.”
Kishan concordou, pressionou um beijo em meus dedos, levantou o amuleto de seu peito. “Você foi esperta em mandar Fanindra até mim com isto, mas você deveria usar agora.”
Ele se atrapalhou com a corrente e prendeu o amuleto em meu pescoço. Esfreguei a pedra lisa com meus dedos.
“É assim que você criou as bolas de luz? Com o amuleto?”
“Sim. Esta peça do amuleto é uma bela arma.”
“Estava me perguntando como você fazia isso. Isso nunca aconteceu comigo.”
“Você provavelmente conseguiria se tentasse. O amuleto parece capaz de criar qualquer tipo de chama.”
Considerei como havia visto Lokesh usar suas peças do amuleto e subitamente levantei e peguei a mão de Kishan.
“Aonde vamos?”
“Quero explodir alguma coisa.”
Kishan riu. “Você é definitivamente a garota certa para mim. Vamos.”
Quando encontramos uma grande rocha, eu infundi tanta energia em explodi-la que a rocha se desintegrou. Olhei para minha mão incrédula. Não tinha ideia de que havia me tornado tão dependente de meu poder e saber que o amuleto era a fonte foi um alívio. Eu podia colocar e tirar o poder quando quisesse.
Kishan e eu praticamos exercícios pela próxima meia hora. Ele me ensinou como criar explosões de luz para explodir diretamente em frente aos olhos de alguém para temporariamente o cegá-lo, como estalar meus dedos para começar um fogo, e depois de encontrar alguns animais atropelados, como usar o raio para queimar a pele. Não foi meu exercício favorito, mas eu sabia que Lokesh ainda estava vivo e viria atrás de mim, ou se eu tivesse que enfrentar outro monstro para cumprir a quarta profecia de Durga, eu seria capaz de usar essa técnica.
Quando retornamos a tenda, Ren estava mal humorado e gritou com Kishan por caminhar comigo e não avisá-lo. “Nós precisamos vigiá-la constantemente. Não temos ideia se Lokesh ainda está vivo e não quero correr nenhum risco de perdê-la novamente.” Ren disse severamente e então se virou e partiu.
Depois que ele desabafou, Kishan suspirou e pegou minha mão. “Ele está certo. Temos que permanecer vigilantes sobre onde você está.”
Me aproximei e coloquei minha cabeça em seu ombro. “Me certificarei que um de vocês sempre esteja por perto.”
Ele colocou seu braço ao redor de mim. “Ele não deveria ficar tão bravo de qualquer maneira. Ele ganhou a aposta. Ele viajará com você o dia todo amanhã.”
Eu provoquei. “O que aconteceu em fazer tudo que é preciso para ganhar?”
Kishan resmungou. “Aparentemente ele seguiu meu conselho. Ele me empurrou em direção a uma pedra. Isso quebrou meu nariz.”
“O quê?” Eu engasguei. Ele começou a rir. “Eu não acho nenhuma graça nisso.” Eu disse.
“Eu sim. Ren nunca trapaceou em nada em sua vida. Ele deve estar muito desesperado.”
“Hm.”
Naquela noite, eu sonhei com Sr. Kadam. Ele estava de pé em frente a uma tela de cinema estudando várias cenas de batalhas que lampejavam tão rápido que eu não conseguia deixá-las de fora. Quando toquei seu braço ele se virou e sorriu. Havia algo diferente em seus olhos. Ele parecia muito mais velho e um pouco triste.
“O que foi?” Perguntei. “Há algo de errado?”
Ele deu tapinhas em meu ombro. “Não é nada Srta. Kelsey. Estou apenas um pouco cansado.”
“Onde você está? Não conseguimos te achar.”
“Estou mais próximo do que vocês pensam. Tente relaxar a mente e voltar a dormir.”
“Mas eu estou dormindo. Isso é um sonho.”
Sr. Kadam fez uma pausa. “Mas é claro que é. Somente feche os olhos e foque em sua respiração. Isso levará toda a força para enfrentar o que vem pela frente, mas, por agora, descanse.”
Quando sua voz começou a desvanecer, senti a escuridão me engolir suavemente. Queria acenar, mas não consegui. Quando sua presença sumiu de minha mente, eu senti um leve toque, um gesto de conforto e compreensão.
Ren e Kishan estavam emocionados com o meu sonho na manhã seguinte. Eles acreditavam que era uma visão e que o amuleto havia nos reconectado com o Sr. Kadam de alguma forma (ainda acho que ele tem poderzinho).
Quando finalmente entramos na umidade dos seixos de nossa mansão indiana na selva, senti lágrimas encherem meus olhos. Quando entramos na casa, respirei no calor e senti o espírito da família de Rajaram me envolver.
Com Kishan e Ren me flanqueando, cruzei o portal e anunciei.
sábado, 2 de novembro de 2013
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